Filha Da Noite
8 Capítulo Oito
Notas iniciais
Mia arquejou, dobrando-se. Seu rosto contorceu-se em algo próximo à dor, uma expressão de total terror. Suas presas estavam apontando para baixo e para cima, mostrando-se apesar da tentativa desesperada de Mia para cobri-las com a mão. O celular caiu com um baque, e Mia não teve tempo de realmente importar-se com a avó esperando do outro lado da linha.
E, mesmo com os dentes cobertos, haviam as garras. Suas mãos fecharam-se com espasmos, mas os olhos não podiam ser escondidos. Melodie estava parada com os membros tensos, alguns passos para dentro do quarto, como se tivesse entrado sem fazer muito barulho, tentando alcançar... O quê? Uma arma? Um lugar no qual pudesse ouvir melhor?
Ela não teve tempo para formular uma objeção ou desculpa para o que a amiga estava vendo. Outra estranha surpresa surgiu antes que Mia pudesse sequer pensar.
Melodie abriu um sorriso.
Mia ergueu o rosto, estupefata. Suas mãos baixaram do rosto, revelando suas feições transmutadas pela metade. Tudo estava errado. Ela estava se transformando fora da lua cheia. Brigara com a avó, a pessoa que mais a ajudara esses anos. E a amiga a vira com presas e garras, mas estava sorrindo.
– Mas o que...? – Mia balbuciou, confusa.
Um riso doce, baixo, escapou dos lábios de Melodie.
– Eu sabia! Achei que nunca ia me dizer, Mia. Bom, você não me disse, mas...
– O quê?! – Mia gritou com a voz estridente. – Melodie, o que está me dizendo?
– Oh, Mia, achei que você já tivesse percebido... – Mel deu um passo largo na direção da garota, abrindo bem os olhos e sorrindo. Uma faísca iluminou seu rosto, e seus olhos passaram de cinza-escuro para um profundo tom de prata. Olhos tão incrivelmente brilhantes. Olhos não-humanos.
Olhos de lobo.
Então, um estalo piscou na mente de Mia. Imagens desses dias que haviam passado e Mia não dera a mínima antes. No primeiro dia, quando Melodie perguntara seu nome e ficara agitada quando descobrira quem ela era. Quando Mia entrara no quarto, após falar com William, e Mel escutara a conversa de longe. Seus olhos pareceram prateados naquela hora, mas Mia ignorara a sensação de que algo estava fora de seu lugar.
Também havia o estranho sentimento de proximidade entre as duas, apesar do curto tempo em que se conheciam. Mia sentia que Mel era como uma irmã.
De algum modo, talvez ela fosse. Afinal, lobos não sobrevivem sozinhos. Vivem em grupo.
– Você... é igual a mim? Você é um lobo?
– Sim, eu sou como você, Mia. Achei que ia notar antes. – ela riu. Apesar da sua risada doce e baixa, o som soou como um rosnado, passando entre seus dentes que agora também cresciam.
– C-Como? Mas... Por que você está aqui e... De que jeito...
Melodie pôs um dedo sobre os lábios da outra garota.
– Calma, assim vai acabar tendo um ataque.
O choque finalmente assentou-se sobre Mia.
No primeiro dia, ela estava esperando para ser chamada para receber a chave do quarto. James entregava as chaves aleatoriamente, mas escolhera para Mia. Escolhera para colocá-la junto a Mel.
– James também sabe, não é?
A pergunta pegou Melodie de surpresa, mas o choque passou rápido.
– Bom, eu queria explicar isso depois, mas... É isso mesmo. James também é como nós. Mas espere eu explicar...
– Quem mais, Mel? Tem mais alguém?
– Eu... Bem, Nicholas é um de nós. Talvez algum dos outros professores, mas eu não tenho certeza.
Mia separou os lábios, uma pequena mania que tinha quando não esperava por algo que a atingia de surpresa. Nicholas? Ela teve vontade de rir. Estava cercada de lobos o tempo todo, e não sabia. Sua mente estava embargada, feliz, mas ao mesmo tempo em alerta. Ela estava restrita a conhecer outros lobos, e, de repente, se via junto de vários. Isso seria... errado? Sua avó pedira por isso? Ela faria alguma idéia do que estava acontecendo ali?
Mia lembrou-se da ligação não-encerrada com a avó. Recolheu o celular do chão com cautela, levando-o ao ouvido. Só havia o zumbido indicando que o outro lado da linha desligara. A questão era: em que momento da conversa com Melodie?
– Melodie... Por que não me disse antes? Eu quase tive um ataque do coração quando você apareceu e eu... – Mia engasgou-se nas próprias palavras, e depois teve de passar as costas da mão no nariz que escorria por causa do choro. Seu peito tremeu, ansioso para tossir, soluçar e gritar pelo alívio estranho que corria por ela.
– Não se preocupe, Mia. Eu... queria achar o momento certo. Na realidade, nem cheguei a pensar quando seria ele. Mas... parece que está tudo entrando nos eixos. – a amiga passou a mão pelo seu ombro.
– Nos eixos... – Mia pensou alto. – Eu poderia ficar sozinha um instante, para falar com a minha avó?
Melodie sorriu, sempre simpática. Agora seu rosto havia voltado ao normal; não haviam presas e os olhos pareciam escuros novamente.
– Eu vou falar com Nicholas. Ele vai ficar tão animado! – após isso, ela fechou a porta atrás de si.
Mia soltou todo o ar de seus pulmões, fechando os olhos com força. Sua mão ainda apertava o colar com dedos congelados, e seus nós dos dedos estavam brancos. Ela não via nenhum motivo para não recolocar o cordão de volta no pescoço. Com cuidado, o metal frio tocou sua pele, o peso conhecido voltou a aparecer forçando levemente a pele macia de sua nuca. A pedra permanecia bem presa em sua moldura metálica, apesar de ter sido tantas vezes solta e recolocada em seu lugar, desde que a garota descobrira que aquilo era um vidrinho e não uma pedra sólida.
Ela também tinha uma pergunta para a avó, além de tantas outras. Era apenas curiosidade, apesar disso. Mia segurou o celular delicadamente, o peito tamborilando. De quem seria o sangue dentro do cristal em seu pescoço?
Ela levou o celular ao ouvido, tentando molhar os lábios para que conseguisse falar. Novamente, os bipes delicados da ligação apareceram em seu ouvido direito.
– Mia? – era a avó.
– Eu... Você ouviu alguma coisa que aconteceu aqui?
Houve um duro tempo de silêncio.
– Sim, querida. Como é que você está? Parece que...
Entretanto, Mia não agüentaria muito tempo explicando com se sentia. Talvez nem ela soubesse direito.
– Escute, eu passei dezesseis anos me perguntando coisas em silêncio, e agora que tenho a chance de saber as respostas, você vai ter que me dizer. – o outro lado da linha calou-se. – Primeiro: você sabia que Melodie e Nicholas eram lobos?
– Sim, eu sabia. – a resposta veio com um suspiro.
– Certo. – Mia respirou fundo também, nervosa. Não era exatamente assim que imaginara descobrir sobre essas coisas; também não imaginara qual seria sua reação. Seu corpo tremia, ela sentia-se a beira das lágrimas, sem saber um real motivo. – Eu não sei se... Alguém os mandou até mim?
Um longo tempo mudo.
– Vai ter que me escutar com atenção, Mia. Não pretendia contar isso por telefone, mas fui eu e... Eu e seu pai mandamos eles ficaram de olho em você.
Os joelhos de Mia cederam. A garota jogou-se na cama, soluçando. Seu pai? Ela queria perguntar, mas a avó continuou:
– Você não se adaptava em lugar nenhum, só criava problemas, e estava desrespeitando o Código... – ela se interrompeu. – E estava na hora de conhecer alguns lobos, também. Achamos melhor assim, mas sua mãe se opôs à idéia de início. Seria perigoso se você ficasse mais tempo correndo por aí do que sendo você, do que sendo humana. Decidimos que você acabaria se transformando para eles, alguma hora; e que assim eles diriam quem eram.
– Só não achou que seria tão rápido. – Mia fechou os olhos com força, mordendo a língua.
– Você teria tido mais tempo se estivesse usando o colar. A raiva não a teria transformado.
Isso, Mia pensou. E depois de tudo isso, ainda ganho uma repreensão. Que coisa típica.
– Mas... Mia, acho que já tem bastante coisa para processar. Quer que eu explique o resto amanhã, quando estiver mais calma?
Mia suspirou longamente. Se a avó tivesse que responder tudo que a garota queria saber, então ambas ficariam acordadas a noite toda. Ela abriu a boca devagar.
– Acho que sim, vovó. Mas... Me prometa que vai contar tudo, certo?
– Vou sim, querida. Durma bem.
Ela desligou. Talvez estivesse tentando fugir da tensão que se impusera na discussão mais cedo, e de tudo que acontecera até agora.
Mia tirou o aparelho do ouvido, e deixou-o escorregar até o chão.
– Como se fosse possível.
E, apesar disso, quando fechou os olhos, Mia descansou profundamente, em um sono sem sonhos. Mas ela não se importaria pela manhã. Nada podia estragar o fato de que seus amigos eram lobos, sua avó lhe explicaria tudo e ela dormia pela primeira vez em três noites.
Fale com o autor