Field Dot Net

5 Capítulo 5: Art of Life


Notas iniciais
A formatação daqui me odeia.

“This is the way the world ends” — T. S. Eliot


Mesmo que o relógio girar ao contrário, os pecados de ontem não podem ser apagados. As palavras na letra de Cage, da banda Dir em grey, agora faziam sentido para o Coelho Branco. Ele se abateu com o fim, mas era apenas um reflexo de suas próprias decisões. O princípio da ação-reação. A lei de Lavoisier. Tudo fazia sentido.
“Tudo foi minha culpa, e eu não tenho nada que me prenda agora”, pensou o Coelho Branco. “Já está na hora de por em prática tudo o que planejei nos últimos quatro anos”.
Em Porto Alegre, Marcos Hegel, analista de sistemas está em um momento de ócio no trabalho. Decide entrar no seu MMORPG favorito, Field.net . Ao logar, encontra-se num lugar diferente de onde tinha parado de jogar. É um lugar estranho, uma floresta negra e sombria. Ele tenta sair dali por meio de Hacking, mas um estranho o avisa: seus esforços são inúteis.
Marcos já tinha percebido isso. Havia algo de errado. Ele sempre teve o controle da situação no Field.net . O que aconteceu? O que tinha mudado?

– Você não lembra de mim?
– Não me lembro desse avatar. O que você quer?
– Confesso que fiquei chocado. Você estraga tudo e esquece?

Memórias. “Quem bate esquece, quem apanha não”. Naquele momento,
Haggeron lembrou de tudo. Como pode esquecer? O mundo que visitava dia após dia era fruto de algo feito a quatro anos atrás.

– Coelho Branco... Faz tempo, garoto.
– Você não imagina o quanto esperei por esse dia. Demorei por que precisava resolver um assunto antes. Ainda assim, pretendo fazer uma pequena “retribuição”...
– “Retribuição”, huh? Você realmente acha que chega aos meus pés? Eu não te escolhi para atacar o servidor por nenhum motivo especial. Foi por que eu precisava de um fantoche. Você não é especial, criança.
– Não vim até aqui falar isso. Vim falar de negócios.
– Negócios?
– Sim. Eu sei das atividades ilegais que você tem feito, como enviar uma porção do dinheiro da sua empresa para uma conta na Suíça. Estou correto?
– O que você quer? Vai me extorquir em troca de silêncio?
– Não. Eu só queria uma confissão pra adicionar no B.O. dos policiais que estão chegando aí em mais ou menos 45 segundos. Estou vendo eles pela câmera do elevador do prédio da sua empresa. Enviei os registros do que você tem feito nesses anos todos pro seu chefe e ele deu parte depois de checar os dados. Acho que dessa vez, o vitorioso sou eu.

– Por quê fez tudo isso? É por causa daquela garota?
– Você não entenderia meus motivos. Mas vai ter um bom tempo pra refletir sobre eles enquanto fica preso. Aliás, não existem meios de fuga. Eu chequei a planta do prédio.
– Eu sei.
– Toc-toc.

Poucas explicações, muita ação. Os policiais chegaram e pediram que o Sr. Hegel os acompanhasse, enquanto na tela apareciam as palavras.

Vini, vidi, vici

O Coelho Branco havia triunfado. Uma vingança semelhante ao clássico “O Conde de Monte Cristo”. No entanto, ele sabia que tinha perdido algo. Panacea. Ele sabia que a amava. Ele só não sabia o que ela sentia.
A acusação de Haggeron o fez pensar. Teria ele realmente arruinado a vida de outra pessoa pelo amor que sentia por Panacea? Ou, pior ainda, teria ele arruinado o seu relacionamento com Panacea por não ter dado a ela o benefício da dúvida?
A culpa era sua, e era um pouco tarde pra voltar atrás. Em todos os casos. Em um deles, o alvo merecia. Mas e quanto ao outro caso? Realmente, os pecados de ontem não podem ser apagados?
Refletindo sobre tudo isso, o Coelho Branco chegou a sua conclusão: são as regras imutáveis que impedem os humanos de serem felizes. Enquanto pensava nessa filosofia, ele percebeu que poucas das regras ao seu redor eram imutáveis. Lutar contra as outras é a “arte da vida”, que permite que as pessoas sonhem e concretizem esses sonhos.
Ele resolveu comprar uma passagem de avião para Pernambuco e tentar. Arriscar. Não importava se ele a visse em outros braços, ou se mesmo sem o envolvimento de terceiros, ele ouvisse um “não”. O Coelho Branco precisava contar o que sentia para a única pessoa para quem aquele sentimento poderia importar um pouco.
Ao chegar na cidade, ele ligou para Panacea. Ela se demonstrou surpresa, mas aceitou se encontrar com ele. Quando se viram, numa lanchonete, estranharam um pouco. Com o tempo, começaram a se soltar, e tomados pelo impulso da antiga paixão, se beijaram.
Ele disse que a amava. Ela finalmente estava pronta e respondeu de modo recíproco. De mãos dadas, planejaram o futuro, felizes com o presente. Toda a tristeza de antes tinha sumido. Parecia que estavam juntos a muito tempo. O elo que os unia estava muito além da rede.
De repente, tudo parou. Um tiro ressoa. O sangue de Panacea voa em direção ao rosto do Coelho Branco. Segurando uma arma Desert Eagle, Marcos Hegel, também conhecido como Haggeron, mirava na direção deles, dizendo:

– Uma vingança nunca será completa enquanto o inimigo estiver vivo, garoto.

Ele não parecia acreditar. Não podia ser real. Como era possível chegar tão alto somente para que a queda fosse maior? Inúmeros pensamentos iam e viam na mente perturbada do Coelho Branco. Nada mais fazia sentido.

Diem. Noctum.
Começo. Fim.
OVERDRIVE.

E após isso, um momento de calma incontrolável. Um rapaz acorda em um quarto branco. Memórias vagas de algo que pode não ser real. Perguntas ressoam na sua cabeça. “Era tudo real? Isso é real? O que é isso?”.

DEUS EX MACHINA.


Fim.

Notas finais
.........Notas do Autor.........
a.k.a. Ryuno's talkshow.

1. Todos os capítulos têm nomes de músicas. Essas músicas serviram de inspiração para o capítulo, e eu tive que ouvi-las várias vezes até terminar de escrever cada capítulo. Elas são: New World, do Do As Infinity; Kiss, do See-Saw; Run, do Novasonic; Living in a lie, do Guano Apes e Art of Life, do X-Japan.
2. A primeira citação (subtítulo) é um trecho de Desire, do Do As Infinity.
3. Parte da história é real (uma parte muito pequena dela).
4. O Field.net foi inspirado em um servidor de IRC, a BrasNET.
5. Nouvelle Vague são filmes franceses onde as heroínas são muito desligadas.
6. H2k na verdade é o nome de um programa pra IRC antigo.
7. Os NetSplits eram mais freqüentes no IRC que no conto. Eram menos dramáticos também.
8. De fato, Panacea (esse não era o nick dela na época) tinha trocado de e-mail e ia me avisar, mas eu fui banido antes que ela tivesse a chance.
9. Vale citar que eu não fui banido pelo mesmo motivo do conto.
10. Zephir é meu nick atual, mas como Coelho Branco soa melhor...[Nota sobre a nota: Zephir não é mais meu nick atual. Eu não acho que eu tenha um nick de verdade agora, eu realmente não sei se nome artístico deveria contar como nick]
11. O trecho de Cage (Dir em grey) que foi apresentado é a parte mais sã da musica (entenda isso como quiser). Se você duvida, leia a tradução.
12. Sim, a cena da prisão de Haggeron (Toc-Toc) foi uma citação a Matrix.
13. Vini vidi vici = Vim, vi e venci. Júlio César.
14. You just lost the game.
15. “O elo que os unia estava muito além da rede.” Sempre achei que essa frase ficaria melhor em inglês.
16. A arma de Haggeron era uma Desert Eagle porque a pistola Calibre 38 já foi usada em muitos contos e virou um clichê.
17. Overdrive é um estado insano, furioso e descontrolado.
18. O quarto branco é uma citação a 304 Goujitsu, Hakushi no Sakura (outra do Dir em grey).
19. DEUS EX MACHINA é um efeito literário que funciona como se (por exemplo) a pessoa acordasse e descobrisse que tudo foi um pesadelo.

Eu gostei de escrever isso, gosto da idéia de re-publicar isso, gosto da idéia de trabalhar nisso de novo, num futuro próximo. Espero que tenham gostado, e que não me odeiem por ter matado Panacea. Detesto finais felizes, essa é a verdade. Não acredito neles. Bem, vou pintar as unhas, tenham uma boa noite.