Field Dot Net

1 Capítulo 1: New World


Sete de agosto de 2002.

Era uma bela tarde de verão, igual a todas as demais. Havia crianças brincando nas ruas e pré-adolescentes vigiando seus irmãos menores. Normal. Nada além do comum. Mas sempre há uma exceção. Um garoto tinha decidido ficar em casa. Não que um dia ele tenha gostado de brincar nas ruas, e ele se encaixava mais na descrição dos pré-adolescentes entediados que após a escola ficava sem ter nada pra fazer e era forçado a vigiar o irmão menor no playground. A verdade é que ele sempre preferiu estar em casa. Todos nós sabemos que a sociedade exclui elementos assim, apesar de eles se excluírem por vontade própria.

Não existe a necessidade de dar um nome para esse garoto, uma vez que essa história não irá se passar num lugar onde as pessoas chamam umas as outras pelo seu nome de batismo.No momento, você pode não entender o que eu quero dizer com isso, mas paciência.\"O que é um nome? Se outro nome fosse dado a rosa, seria ela menos cheirosa?\".

O garoto estava triste, e digo triste para não dizer inconsolável. Apesar de seus breves 12 anos, tinha tido tempo suficiente para começar e manter um relacionamento sério com uma garota. Claro, aos 12 anos ainda não tinha amadurecido por completo, e a dor da separação nessa idade é no mínimo chocante. E esse é o motivo do protagonista estar em casa naquele dia. Solidão, em vários aspectos. Ele olhou pela janela e viu o sol. Ele sabia que o dia estava belo, embora naquele momento não fizesse a mínima diferença naquele momento.

\"Eu espero\" disse ele, \"espero que alguém esteja olhando para o mesmo sol\".A frase é simples, mas a questão não era se do outro lado do mundo alguém estaria olhando para o sol. Muitas pessoas ao redor do globo estariam fazendo a mesma coisa. Mas ele sabia (ou pelo menos desejava) que além do horizonte houvesse uma garota sentindo o mesmo vazio no peito que ele. A solidão aproxima as pessoas. E com certeza ele não queria que esse alguém fosse a mesma pessoa que terminou com ele dias atrás.

Saiu da janela e se sentou na cadeira. Ligou o computador e, enquanto o 486 iniciava, esqueceu suas idéias, pensamentos e sonhos sobre o acontecimento de dias atrás. O que passou, passou. Era inevitável. Um sujeito tão recluso como ele e uma garota esportista e tão cheia de vida como ela? Bem, ao menos alguém derrubou a teoria de que os opostos se atraem.

Ao conectar, o garoto lembrou de um site que um amigo seu tinha receitado. Parecia ser um chat com avatares, ou seja, com imagens dos usuários. Normalmente (e esse era o caso), um avatar é um boneco móvel com aparência humana. O amigo lhe contou que nesse programa, o Field.net , os locais eram chamados de \"fields\". Em inglês, isso quer dizer campo. Cada pessoa poderia criar seu próprio field, e se soubesse programá-lo, transformá-lo em um jogo, ou local de downloads, etc. Fields diferentes, regras diferentes.

O garoto tira de sua mochila um papel. Neste papel estavam escritos o apelido de seu amigo e o field onde ele normalmente se encontra. O garoto baixa o programa cliente do Field.net, e após 10 minutos, o inicia.

Para efetuar um cadastro, era necessário criar um apelido. Field.net não era um chat muito conhecido, mas já deveria ter muitos nicks indisponíveis. Ele pensou em se inspirar no nick de seu amigo. O nick era Vincent Vega. No caso, seu amigo era um viciado no filme Pulp Fiction, de Quentin Tarantino.

O protagonista tentou pensar: qual seria o meu personagem fictício favorito? Na verdade, essa pergunta foi rapidamente respondida quando seus dedos digitaram praticamente sozinhos o apelido Coelho Branco. Sim, Alice no País das Maravilhas veio rapidamente em sua memória. E com certeza, o personagem mais carismático é um coelho com um relógio enorme que sempre está atrasado, mas nunca se sabe o por quê.

A conta foi criada com sucesso, e o garoto se dirigiu ao field escrito no papel. Finalmente, ele havia chegado ao field onde seu amigo costumava ficar, o \"Portal\". Então, ele esperou. Esperou um longo tempo até lembrar que seu amigo deveria estar na aula de natação hoje. E então decidiu desconectar.

Foi aí que ele a viu. Parecia ser apenas um avatar feminino comum, mas ele sentiu uma diferença. Ele não sabia como e nem o por quê. Ele apenas sentia a diferença daquele avatar para os outros que viu enquanto em vão esperava seu amigo.

Ela se aproximou.

Ele também.

Parecia que pela falta de realidade, ele tinha perdido a inibição. Nada mais parecia importar.

E por incrível que pareça, eles se sentaram, ao mesmo tempo, no topo daquela colina digital. Diferentemente do que ele fazia quando estava próximo de garotas no mundo real, ele conversou. Ela também não demonstrou acanhamento algum.

Panacea. Também tinha 12 anos.

Na alquimia, segundo a explicação de Panacea, existe a lenda de um remédio que curaria todos os males.Isso se chama Panacea. E naquele momento, o Coelho Branco sabia que sua tristeza estava começando a ser curada.

Notas finais
Eu gostei muito de escrever isso. Não me bate nostalgia, nem da época em que vivi isso nem da época em que escrevi, entretanto. Eu simplesmente gosto da história. Talvez um dia eu faça um field.net REMIX com yaoi e tal.

-n