Ficarei Ao Seu Lado

5 Reviravoltas - parte II


Notas iniciais
Oie, desculpem pela demora em postar. A faculdade apertou de jeito e eu não estava conseguindo conciliar o tempo. Enfim, farei breves esclarecimentos antes de começar o capítulo: 1. Todos os nomes de personagens adicionados (e temporários) à história são tirados da saga Harry Potter, eu sou muito fã *-* 2. O porquê de ser "Sofia": primeiro, certa noite eu sonhei que tive uma filha - e eu nunca tive vontade de ser mãe -, a criança chamava Sofia e eu a amava mais que tudo na vida, então decide nomear a nossa baby aqui de Sofia; segundo, Sofia significa sabedoria, o que cabe bem para a nossa pequenina; 3. Lembram-se do tigre de pelúcia que citei no começo da história? Não tem a ver com o episódio 10 da quarta temporada, o fato de ser um tigre é pq este é o meu animal favorito e também pq eu tenho um tigre de pelúcia que é o meu xodó; 4. Eu baseei a Sofia em duas priminhas minhas - uma de dois anos e a outra de cinco (Sof tem quase 04), portanto, ela é um meio termo entre minhas duas princesas -, queria dar mais veracidade a ela e evitar que ficasse adulta demais para sua idade; Desculpem o falatório haha se joguem, amores :) E só mais uma coisa, "Eu me atrevi a betar uma fic da minha beta. É muita audácia" hahah obg pela ajuda, Janoca, te amo :3

Sofia disparou até a porta e se pôs para fora do loft, correndo pelos corredores até o elevador. Kate permaneceu estática por alguns segundos, sentindo uma dor imensurável em seu peito. Levantou-se apressada e aligeirou-se em busca da filha.

A criança correu pelo mesmo caminho que havia ido com a babá e, ao final do enorme corredor, ela pode visualizar as grandes portas metálicas se abrindo. Castle saiu distraído com ambas as mãos carregadas de sacolas, mas, assim que percebeu a movimentação – Sofia vindo apressada em sua direção e Kate um pouco mais atrás –, ele largou as compras ao chão e agarrou a garotinha, impedindo que ela entrasse no elevador ainda aberto.

Sofia agitou-se nos braços do escritor tentando se soltar e aumentando o choro. "Shh, Sofia... está tudo bem, fique calma", ele disse próximo ao ouvido da menina e ela interrompeu a tentativa de fuga ao ouvi-lo pronunciar seu nome. Ela voltou seus olhos para o rosto do homem a fim de ver quem a segurava.

– Rick! – Kate exclamou aliviada ao ver o marido segurando sua filha nos braços.

Sofia se agarrou ao pescoço de Castle assim que ouviu a voz da capitã, e se encolheu nos braços dele choramingando baixinho. Ele lançou um olhar questionador a Kate, que lhe deu uma simples, mas esclarecedora, resposta.

— Eu contei a ela.

— Oh. – ele exclamou, logo entendo a que ela se referia – É melhor entrarmos. – o escritor disse e Kate assentiu. Abaixou-se para pegar as sacolas que ainda estavam no chão e o seguiu para dentro de casa.

A menina permanecia agarrada a ele e recusava-se a levantar o rosto enterrado no vão de seu pescoço. A capitã havia largado as sacolas em cima da bancada e agora estava no centro da sala, mantendo uma distância segura da criança, não queria forçar mais do que já havia feito. Castle parecia sem rumo, a mulher à sua frente ainda tinha lágrimas escorrendo pelo rosto, tal qual a menina em seu colo que lhe ensopava a camisa. "Eu quero sair daqui", a voz baixa e chorosa ecoou pela sala como um pequeno resmungo.

— Sofia, me escuta só um pouco, deixe-me explicar o que aconteceu de verdade. – Kate pediu à filha. Na verdade, quase implorou.

Ela nunca fora de abaixar a guarda para ninguém, mas pela filha o faria. Beckett faria o que fosse preciso para recuperá-la.

— Sofia, escute sua mãe. – Castle intercedeu ao notar que ela não daria um retorno.

Tão logo o escritor terminou sua frase, ele desejou jamais tê-la dito, pois a resposta que obteve fez o pranto da esposa aumentar consideravelmente.

"Ela não é minha mãe!", a garotinha exclamou com firmeza e Kate abaixou a cabeça em sinal de derrota. Não iria conseguir nada da filha no momento. "Eu quero sair daqui", ela voltou a choramingar.

— Pode ir. – a capitã disse a Castle ao notar que ele a encarava, como se pedisse permissão para atender ao pedido da garotinha. – Eu ficarei bem. Ela precisa de um tempo. Nós duas precisamos.

— Tem certeza, Kate?

— Sim. Eu vou... ligar para Lanie.

Ele assentiu e, mesmo não querendo deixar a esposa sozinha nesse momento, partiu. Sabia que se ficassem as coisas poderiam se agravar. Antes de Castle fechar a porta atrás de si, Sofia levantou o rosto ensopado pelas lágrimas que ainda não haviam cessado e fixou seu olhar no da mãe, deixando que a mulher visse toda a dor e decepção que ela sentia.

A capitã se jogou ao sofá assim que se viu só no loft. O corpo todo tremia com seu choro. Culpava-se pela dor que sua filha, ainda tão pequena, sentia. Seu maior medo ao descobrir sobre a gravidez fora o de que sua menina viesse a passar pela mesma dor que ela com a ausência de sua mãe. O destino realmente adorava brincar com ela, há quase quatro anos levara sua criança e, agora, a devolveu cheia de ressentimento e mágoa por algo que ela sequer teve a chance de evitar.

Lanie. Dissera a Castle que ligaria para a amiga e, de fato, essa parecia sua melhor opção no momento. Não queria e nem podia ficar sozinha ali. Levantou-se do sofá e esfregou os olhos a fim de desembaçar a visão, e foi em busca de seu aparelho móvel.

#

A noite prometia. Ou pelo menos era isso o que a médica pensava. Afinal, não era para qualquer um comemorar quatro anos de relacionamento ao lado daquele que se julgava ser o amor de sua vida. Mesmo após tantas idas e vindas, tantos "te quero" e "não sei o que temos", o casal, enfim, resolveu oficializar seu compromisso, juntar as escovas, contar para quem quisesse ouvir que eles se pertenciam.

Esposito havia feito uma reserva no mesmo restaurante em que eles foram pela primeira vez como um casal, pretendiam reviver aquela que fora a primeira noite do restante de suas vidas.

O latino esperava impaciente pela noiva que, como de costume, estava atrasada. Mulheres e sua eterna mania de se perderem em frente a um espelho. A morena adentrou o local calmamente, trajava um vestido vermelho colado ao corpo, destacando cada uma de suas curvas, com um salto alto scarpin meia-pata que destacava suas pernas torneadas. Estonteante.

Hola, chica. – Espo a saudou com um enorme sorriso e os olhos vidrados nela, ou melhor, em seu decote.

— Eu estou aqui em cima, Javi.

Ela brincou e inclinou seu corpo para plantar um beijo nos lábios do detetive. Sentou-se e entrelaçou seus dedos aos dele, quem os visse ali saberia de cara o quão envolvidos e apaixonados estavam. O brilho no olhar de ambos não abria margem a qualquer dúvida.

Pouco tempo depois, o garçom lhes serviu o prato principal e eles engajaram em uma conversa animadora. Estavam tão envolvidos com o jantar que Lanie apenas se deu conta de que seu celular tocava após a terceira tentativa, executada por Beckett, de contatar a amiga.

Não foi necessário mais que um minuto de conversa para que a ME corresse para o loft deixando um Javier nada contente e solitário no restaurante. Como ele poderia competir com um chamado urgente da melhor amiga de sua noiva, que, por sinal, era sua chefe?! Sequer ousaria tentar.

Cerca de quinze minutos após, Lanie batia à porta da residência dos Castle. A capitã já havia cessado o choro, mas ainda era visível em seu rosto o estrago de minutos atrás.

* Rick e Sof *

A garotinha havia se acalmado, não derramava mais lágrimas, porém, tampouco, pronunciara uma única palavra até Castle estacionar o carro. Sofia olhou pela janela do banco do carona e viu um parque com algumas árvores e dois balanços ao longe, olhou para o homem intrigada e ele sorriu amigavelmente para ela, indicando que saíssem.

— O que estamos fazendo aqui, senhor Castle?

— Oh, por favor, pode chamar-me de Rick, Sofia. E eu te trouxe aqui, porque este é um lugar importante para mim e eu sempre me sinto bem quando venho para cá. Vamos?

Ele questionou após retirá-la da cadeirinha e estendeu sua mão para que a criança a pegasse. Ela anuiu e seguiu com Rick até os balanços. Ficaram em silêncio por alguns instantes, o escritor decidiu por dar à menina seu tempo, já tivera anos de convivência o suficiente com Beckett para saber como lidar com sua miniatura. Não forçaria nada, ela falaria quando, e se, se sentisse confortável.

— Então... por que este lugar é importante?

Ela questionou timidamente, o que fez Castle sorrir. Dar espaço nunca falhava.

— Eu vivi muitos momentos importantes aqui com... Kate.

— Ah.

— Sofia. – ele chamou e esperou que a criança o olhasse, precisava tirar essa impressão errada que ela tinha da própria mãe. – Eu sei que é tudo muito confuso e que você acha que sua mãe nunca te quis, mas as coisas não aconteceram como você pensa.

— Eu não quero falar sobre isso, eu não quero falar sobre ela.

— Ela te ama, pequena. Ela sempre amou você, desde o primeiro momento em que soube da sua existência. Eu vivi com ela esses momentos, e posso contar tudo a você se me deixar.

Sofia apenas abaixou a cabeça, fixando o olhar em seus pés pendurados devido à altura do balanço. Rick a olhou com compaixão. Sua esposa estava sofrendo e desesperada por uma brecha que fosse para poder recuperar a filha, mas, em contrapartida, aquela criança também sofria. Ela era nova demais para conseguir entender todo aquele turbilhão de coisas que lhe foram impostas de um dia para o outro. Antes de tentar aproximar as duas, ele precisava dar conforto a Sofia, e já tinha uma ideia de como começar.

— Tem alguém que quer muito conhecer você, e eu tenho certeza que você vai adorar conhecê-la. Quer ir comigo agora até a casa dela?

— De quem? – ela perguntou curiosa.

— Minha mãe.

A menina sorriu e concordou em irem. Martha Rogers definitivamente era a pessoa indicada para acalmar as coisas e, quem sabe, aconselhá-lo em suas próximas ações.

*Loft: Kate e Lanie*

Lanie nunca havia visto a amiga tão vulnerável como naquela noite. Toda a fortaleza que Kate Beckett demonstrara diariamente parecia ter se esvaído no momento em que Sofia a rejeitou. A médica acolheu a amiga em seus braços, levando-a em direção ao sofá para aconchegá-la em um regaço acolhedor. Kate repousou a cabeça em seu colo e se deixou desabar, não precisava se importar por mostrar suas fraquezas, afinal, era de Lanie que se travava, e ela sempre fora sua fortaleza nesses momentos.

— Chora, amiga. Chora tudo o que você tem aí dentro. – a morena dizia enquanto afagava as costas da mulher deitada no sofá.

— Eu só... eu não sei o que fazer, Lanie. Diga-me o que fazer.

— Ôh, amiga, você melhor do que ninguém sabe o que deve ser feito.

— O que você quer dizer? – Kate questionou levantando a cabeça do colo da ME e passando a palma da mão nos olhos ensopados de lágrimas.

— Ela é exatamente como você, e não só na aparência. Dê espaço a ela, amiga. É só isso que você precisa fazer.

"Sua menina apenas está assustada com essa confusão. Se para você, que já é uma mulher, está sendo difícil, imagine para ela. Sofia só tem três anos, Kate. Ela é uma criança espantada e carente de amor. Dê isso a ela, dê conforto e apoio, mas ao tempo dela. Você verá como logo estarão inseparáveis".

Beckett ficou pensativa, fitava as próprias mãos analisando o que Lanie lhe dissera.

A médica se dirigiu até a cozinha a fim de servi-las de uma taça de vinho, aquela conversa estava longe de ser finalizada e a tensão do assunto exigia uma boa bebida.

Ela sabia que era só questão de tempo para que aquelas duas se acertassem, tinha certeza de que assim que Sofia desse uma abertura para conhecer quem a mãe realmente era, iria se encantar por ela. Kate merecia isso após tantos anos de sofrimento, ambas mereciam.

Quando voltou para junto da amiga, Kate estendeu o celular mostrando o conteúdo da mensagem que acabara de receber do marido: "Estamos indo à casa da minha mãe, Sofia já está mais calma. Vamos levar um bom tempo por lá. Como está tudo por aí?". Definitivamente, a conversa entre elas iria se prolongar, apenas deixaria o loft quando Castle voltasse, não poderia deixar Beckett só nesse momento.

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Rick estava certo, a passagem na casa de sua mãe fizera muito bem à menina. Martha Rogers era mesmo envolvente. A espontaneidade da mulher fez com que Sofia se soltasse rapidamente e logo as duas estavam sentadas juntas tagarelando sem parar. Antes de chegar à casa da ruiva, Rick passou em um supermercado para comprar sorvete e algumas outras guloseimas que pudessem incrementar aquela delícia gelada. Kate o mataria se soubesse que havia entupido sua filha de doce a essa hora da noite, ele sorriu com o pensamento. Mal esperava a hora de os três poderem ter uma relação familiar verdadeira.

Sofia aconchegara-se no colo de Martha e se lambuzara de sorvete ouvindo as histórias da mulher. Castle não soube dizer em que momento isso começou, mas a menina se direcionava a ela como "vovó Martha". Para Sofia poderia não parecer algo grandioso, mas para eles era. E muito. Significava que ela estava aberta a aceitá-los como família, e logo tudo seria resolvido.

Gastaram mais uma hora no apartamento da atriz e, quando Castle percebeu que a garotinha começava a ficar sonolenta, anunciou que era hora de irem. Sofia se despediu da ruiva com uma enxurrada de beijos e a fez prometer que se veriam logo. Martha o fez de bom grado, encantara-se totalmente pela criança.

"Kiddo", a mulher o segurou pelo braço e disse em um tom baixo para que somente ele ouvisse. Sofia caminhava mais a frente, indo até o elevador. "Não apresse as coisas entre as duas, Sofia é uma menina esperta e enxergará por conta própria quem Katherine é de verdade. Deixe que ela perceba o pensamento equivocado que tem da mãe. Você, melhor que ninguém, sabe lidar com Katherine, essa criança é como ela. Vá com calma e diga à sua esposa para fazer o mesmo, vocês conseguirão a confiança da menina mais cedo do que imaginam".

Rick sorriu em agradecimento e se despediu da mãe. Apressou o passo para alcançar a menina que já entrava no elevador e enviou uma mensagem a Kate informando que estavam voltando para casa.

Pouco tempo depois, o escritor adentrava o loft com uma Sofia adormecida em seus braços. Kate os esperava na cozinha, estava arrumando a bagunça do jantar que não tiveram. Assim que ouviu a chave destravando a porta, largou as louças e foi de encontro aos dois. Sorriu com a cena. Era a primeira vez que via sua menina adormecida, e ela parecia um anjinho. A boca rosada formando um pequeno bico, a respiração pesada intercalando entre ressonar e soltar leves resmungos, e a mãozinha servindo de apoio para sua cabeça recostada no ombro de Rick.

— Oi, amor. – Castle falou cautelosamente para não acordar a criança.

— Oi. – ela respondeu no mesmo tom, selando seus lábios. – Como foi tudo?

— Muito bem. A senhora Rogers ganhou o coração dessa pequena aqui.

— Martha é mesmo incrível.

— E você, como está? – Sofia soltou um resmungo baixo que fez Castle calar-se imediatamente. – Acho melhor deixá-la no quarto para podermos conversar. – Completou em um sussurro quase inaudível.

— Posso? – Kate perguntou estendendo os braços para pegar a menina. O marido prontamente atendeu seu pedido. – Eu já encontro você.

Dito isto, ela seguiu com a filha em seu colo. Sofia aconchegou-se no peito da mãe e enterrou o rostinho no pescoço dela, soltando a respiração quente na pele de Kate, o que fez o coração da capitã palpitar aceleradamente. Nunca haviam ficado tão próximas antes, e a sensação de ter a filha em seus braços era inexplicável.

Entrou no quarto que pertencia à criança desde antes de seu nascimento, a única mudança feita fora a troca do berço por uma cama. Deitou a menina nesta e trocou as roupas que estava usando por um pijama. O tigre de pelúcia dado por Martha havia sido colocado próximo ao travesseiro, Sofia aconchegou-se entre as cobertas e, involuntariamente, puxou a pelúcia para seus braços, tornando a formar um pequeno bico nos lábios. "Eu sonhei tantas noites com esse momento, Sofia", Kate começou a falar em sussurro, enquanto afagava os lisos cabelos da garotinha. "Eu quis tantas vezes poder colocar você para dormir e me assegurar de que estava bem... só espero que você entenda logo que eu nunca quis que nos separássemos. Eu jamais abandonaria você, minha pequena". Beckett se abaixou para que seus lábios alcançassem a testa da menina e plantou um doce beijo ali.

"In a room full of art, I’d still stare at you. Eu te amo, Sofia", disse e, antes que pudesse se levantar para deixar o quarto, ouviu algo que fez seu mundo parar: mamãe. Sofia, ainda adormecida, sussurrara a palavra tão baixo que Kate pensou ter imaginado, mas, logo em seguida, a voz doce e sonolenta repetiu de maneira arrastada aquela palavra que a capitã desejara mais que qualquer coisa ouvir de sua filha. Uma lágrima solitária escorreu por sua face e ela sentiu seu coração inundar-se de amor.

Lanie tinha razão, afinal. Sofia estava apenas atemorizada com tudo aquilo. O tempo daria um jeito de organizar este pandemônio. Seguiu sorridente para o quarto, precisava contar a novidade ao marido.

Logo cedo, o celular da capitã começara a tocar insistentemente. Fora informada acerca da audiência que teria na próxima segunda e das diligências que precisaria tomar para tratar da guarda de Sofia.

Fez o desejum na companhia de Castle, após ele praticamente obrigá-la a fazê-lo. Não entendia essa mania que a esposa tinha de querer sair de casa sem se alimentar, velhos hábitos definitivamente eram difíceis de serem mudados.

Mesmo sendo um sábado, a capitã precisaria dar uma passada na delegacia, porém, antes de sair, foi ao quarto da filha certificar-se de que dormia bem e deixar um beijo de despedida. Poderia facilmente se acostumar a essa nova rotina.

#

— Eu não posso me ausentar por um dia que vocês dois já esquecem que tem obrigações a cumprir? – Kate disse ao se aproximar de Ryan e Espo e vê-los rindo de algo exposto no monitor do computador que, certamente, não era referente ao trabalho.

Trataram de fechar todas as janelas assim que ouviram a voz da mulher. A capitã estreitou os olhos em uma fina linha, daquela forma que amedrontaria quem quer que tivesse a ousadia de confrontá-la. Aqueles dois não tinham jeito mesmo.

— Pensei que não vinha hoje, capitã. – Ryan disse tentando amenizar a situação, porém apenas conseguiu piorá-la mais.

— Ah é?! – ela questionou retoricamente e cruzou os braços abaixo do peito – E então vocês decidiram que poderiam fazer tudo, menos trabalhar. Hum... interessante. Será que eu posso saber do que as duas mocinhas tanto riam?

Os rapazes trocaram um olhar remotamente assustado, sabiam que estavam encrencados, ainda mais depois que Beckett descobrisse que os relatórios ainda não haviam sido concluídos.

— Então – Espo começou, buscando uma saída para evitar a bronca –, antes de entrarmos nesse assunto, é... como foi com Sofia? Ela está bem?

— É, Beckett. Deu tudo certo na mudança?

A mulher riu, sabia que essas perguntas não tinham nada a ver com curiosidade, mas deixaria a bronca para mais tarde. Precisaria mesmo da ajuda dos dois para a papelada da audiência. Os três seguiram para a sala da capitã e ela contou sobre a mudança, a reação de Sofia e sobre a seção que teria na próxima semana.

Sofia acordou quase uma hora após a partida de Kate. Abriu os olhos lentamente e os correu pelo quarto, estava meio confusa, jamais havia estado naquele lugar antes. Viu vários brinquedos dispostos em duas prateleiras presas à parede, alguns cômodos cor-de-rosa e uma grande poltrona num tom bem escuro de azul ao canto do quarto. Lembrou-se da noite anterior e isso a fez ter uma remota ideia de onde poderia estar.

Levantou-se da cama e saiu em direção à cozinha, o cheiro de panquecas abrira o apetite da criança. Seguiu arrastando o tigre felpudo pelo rabo, aquela pelúcia tinha um leve aroma de cerejas que a fazia sentir-se em casa, era reconfortante.

— Bom dia, dorminhoca. – Castle exclamou ao ouvir os leves passos da menina se aproximando. – Dormiu bem? Sente aqui ao meu lado para tomarmos esse belo café da manhã que eu preparei especialmente para você.

— Bom dia.

— O que é isto em sua mão? – ele questionou ao ver o brinquedo que ela trouxera.

Sofia o levou até o rosto inalando seu doce aroma, o que fez o escritor lembrar-se imediatamente de Kate, ela sempre fazia isso ao sentar-se na poltrona do quarto da filha durante as noites em que acordava chorando pela sua falta.

— Tem um cheiro bom, sente. – ela disse levando o bichinho ao alcance de Castle, que rapidamente reconheceu o perfume da esposa.

— Realmente é uma delícia. Então... atacar?

Sofia riu da careta que Rick fez ao apontar para a comida disposta à sua frente e a "atacou", como ele propusera. Desjejuaram com direito a muitas gargalhadas e sujeira. A menina já se sentia à vontade na companhia de Castle e passou a se referir a ele como "tio".

Depois de arrumarem a algazarra que haviam feito há alguns minutos, os dois se deitaram em frente à enorme televisão e deram início a uma sessão de filmes infantis. Sofia tinha a cabeça apoiada no braço do sofá e as pernas jogadas por cima de Rick.

Ela encarou o homem e mordeu o lábio inferior, pensativa.

— Tio Rick. – chamou esperando que ele a olhasse – Você lembra o que me disse ontem à noite sobre a capitã Beckett?

— Sobre a sua mãe. – ele tentou corrigir – A que exatamente você se refere?

— De quando ela descobriu sobre mim e... – outra mordida no lábio – que você ia me contar se... se eu quisesse saber. – ela tentou falar com casualidade, procurando disfarçar o tom curioso em sua voz.

Definitivamente, ela era filha de Kate Beckett.

— Ah, e o que exatamente você gostaria de saber?

— Como foi quando... a capitã Beckett soube de mim?

— Eu te conto tudo se você me prometer que não irá chamá-la de "capitã Beckett".

— Tudo bem... – ela respirou pesadamente – Kate?!

Rick sorriu para a menina e se ajeitou melhor no sofá para contar o que quer que ela desejasse saber. Começando pelo dia em que descobriram que seria uma "Sofia", e não um "Cosmo". Porque, sim, ele iria conseguir convencer Kate a nomearem o bebê de Cosmo caso fosse um menino. Ou, pelo menos, era o que ele gostava de acreditar.

*Flashback: sexto mês de gestação – dia do ultrassom*

Finalmente a tão esperada data havia chegado. Kate já fora a duas outras consultas para descobrirem o sexo do bebê, mas ele – ou ela – insistia em virar de costas ou se esconder ou, até mesmo, colocar os pezinhos à frente do órgão genital. Esperava que dessa vez o filho – ou filha – cooperasse com ela.

A detetive sentia que era uma menina, mas Castle insistia em dizer que "o universo conspiraria a seu favor dessa vez" e lhes presentearia com um menino. O que quer que fosse, ela sabia que amaria com tudo o que tinha em seu coração.

Saíram juntos do loft logo pela manhã – fazia pouco mais de dois meses que o casal havia decidido ficar junto e assumir publicamente que tinha uma relação –, Kate não conseguia esconder a ansiedade de saber quem era o serzinho que carregava dentro de si. E o bebê estava especialmente agitado naquela manhã, parecia até já saber para onde iriam.

Quando chegaram ao consultório, a recepcionista pediu que esperassem um pouco, pois logo seriam atendidos. Rick foi em busca de um copo de água e deixou Kate sentada à sala de espera. Ela colocou as mãos em sua barriga, acariciando-a, e começou o seu monólogo diário. Adorava esses momentos de "conversa" que tinha com seu grãozinho (p.s.: o apelido fora "dado" por Rick no dia do primeiro ultrassom. Ele exclamara com emoção ao ver o pequeno borrão no monitor: é o grãozinho mais lindo que já vi em toda a minha vida! Beckett encantou-se pela forma espontânea com a qual o escritor falara, e o apelido acabou ficando), algumas vezes obtinha respostas em forma de pequenos chutes e ela sentia que toda a felicidade do mundo a invadia nesses momentos.

"Oi, grãozinho, olha a mamãe aqui de novo no consultório da doutora Strout. Será que hoje você poderia não se esconder?! A mamãe quer muito conhecer você e poder te chamar por um nome. Já imaginou que legal, meu grãozinho. Facilita hoje, ok. Eu tenho certeza que você irá amar o nome que o papai e eu iremos escolher quando descobrirmos se você é minha garotinha ou meu garotinho".

— Tentando outra vez convencer o bebê a nos deixar saber quem ele – "ou ela", Beckett adicionou – é? – Castle questionou ao se aproximar da namorada com uma garrafinha de água em mãos.

— Quem sabe dessa vez o grãzinho colabora.

— Tenho certeza que teremos nosso Cosmo.

— Oh, Castle. – ela disse revirando os olhos e lançando um sorriso divertido para o homem – Primeiro, eu sei que é uma menina e, segundo, em hipótese alguma eu permitirei que você nomeie nosso bebê de Cosmo, por Deus.

Porém, antes que os dois pudessem dar início àquela discussão de nomes novamente, a doutora Mirian Strout os chamou para entrarem em seu consultório.

Todo o procedimento já conhecido pelo casal foi realizado: perguntas acerca do mês que havia se passado, novidades sobre o bebê e a gestação, e também sobre eles. A médica havia se afeiçoado pelo casal e tinha um carinho especial por ambos.

Kate se deitou na maca e, pouco tempo depois, seu som favorito em todo o mundo preencheu a sala: as rápidas batidas do coração de seu bebê. Cada vez que o escutava, sentia seus olhos ficarem marejados, aquele ruído assemelhava-se ao das rápidas batidas de asas de um beija-flor ao voar. Rick entrelaçou seus dedos aos dela e deixou brotar aquele sorriso já conhecido por eles desde a primeira vez em que ouviram aquele sonido.

— Então, mamãe e papai, parece que nosso grãozinho decidiu colaborar com vocês hoje. Sua conversa deu certo dessa vez, Kate.

— Jura?! E então? – os dois perguntaram ao mesmo tempo, a sincronia de sempre se fazendo presente.

— Já temos as opções de nomes? – Mirian perguntou antes de lhes passar a informação que tanto desejavam saber.

— Sim. – o escritor respondeu – "Sofia" se for menina, e "Cosmo" se for menino.

— Nosso bebê não irá se chamar Cosmo, Castle. Esqueça essa ideia.

— Mas, Kate... – a médica riu dos dois e os interrompeu antes que Castle pudesse terminar sua fala e irritar a namorada.

— Não precisa se preocupar, Kate. Nosso grãozinho é a Sofia.

Os dois se olharam com os olhos marejados, Rick selou seus lábios aos dela diversas vezes. Ambos incapazes de conter a emoção do momento. Não importava que estivesse errado quanto ao sexo do bebê, o seu lindo grãozinho de seis meses era uma garotinha. Sua princesinha.

Kate tinha em seu rosto o sorriso mais iluminado que ele se lembrava de já tê-la visto esboçar. Iriam se lembrar daquele momento para o resto de suas vidas.

*Flashback off*

O sorriso que brotara no rosto da garotinha iluminava seus olhos com um brilho lindo. A mãe a quisera. Mesmo que em sua cabeça ela ainda estivesse relutante em aceitar Kate, seu coração entendera que a mãe a quisera.

Castle observava atentamente a reação de Sofia, ela se alegrara com a história. Já era um grande avanço.

— Eu não entendo. – ela falou, por fim – Se a Kate gostava de mim enquanto eu morava na barriga dela, por que depois que eu saí de lá ela não me quis mais? Ela não gostou de ter me visto?

— Ôh, claro que não, pequena. – Rick disse achando adorável a preocupação da garotinha. – Quando a sua mãe te viu, ela te amou ainda mais.

— Então por que eu não fiquei com ela?

— Este é um assunto um pouco delicado para eu te explicar agora, Sof, você ainda é muito pequena para entender tudo o que aconteceu.

— Eu não sou burra, tio Rick. – ela exclamou, fazendo uma cara de indignação, o que arrancou uma leve gargalhada de Castle.

— Eu sei que não, você é muito esperta. Mas, entenda, até para nós adultos essa história está um tanto confusa, imagine para você, ein?! Apenas... Sofia, sua mãe nunca abandonou você. Você saiu de perto de Kate contra a vontade dela. Apenas procure entender isso. Kate sempre quis você e, quando te levaram para longe dela, ela te procurou por todos os lados, incansavelmente.

— Ela não é tão brava como parece, certo? A Kate. Ela é... legal também.

— Ela é a mais legal de todas.

Beckett retornou ao loft ao entardecer. Castle e ela dedicaram o restante do dia de sábado, e todo o domingo, exclusivamente para Sofia. A menina ainda não havia dado abertura para a mãe, mas estava menos arisca em relação a ela. Já a respondia diretamente e até sentava-se ao lado dela quando iam ver televisão ou fazer alguma refeição.

Nas duas noites, a capitã a colocou para dormir e ela não recusou a companhia, porém restringia-se a apenas desejar um "boa noite, Kate" um pouco seco, sem beijos ou sorrisos calorosos. Apesar da convivência não muito afetuosa que tiveram nesses dias, Kate já se sentia mais confiante, sabia que era tudo questão de tempo. E, também, havia tomado conhecimento de que Castle fazia esporádicas intercessões em favor dela ao, acidentalmente, ouvir uma conversa entre o marido e a filha em que ele lhe contava algumas qualidades da capitã e citava por alto esparsos momentos em que ela sentira falta da filha e compartilhara com ele.

#

Beckett chegara ao fórum informado pelo oficial de justiça com quarenta minutos de antecedência, queria certificar-se de que tudo estava meticulosamente organizado para a primeira audiência de modificação de guarda. Queria evitar toda e qualquer remota possibilidade de falha quanto a esse julgamento.

Após quinze minutos de espera, a capitã viu Josh sair de uma sala acompanhado de seu advogado, o doutor Grogan Stump. O médico exibia um sorriso vitorioso, porém, assim que seus olhos encontraram a mulher, sua expressão endureceu. Ela o encarou obstinada, e a imagem que teve a seguir a deixou bastante enraivecida: o juiz Longbottom saindo da mesma sala em que Josh e seu advogado estavam. Aparentemente, os dois encontravam-se em uma reunião com o magistrado antes de ela chegar. Reunião esta que não era de seu conhecimento.

— Capitã Beckett. – Longbottom saudou – Que bom encontrá-la aqui, estava indo agora mesmo contatá-la. Tem um tempo? Gostaria de ter uma palavra com a senhora.

— Boa tarde, excelência. Claro que sim, de que se trata?

— Acabei de receber aqui em meu gabinete o doutor Stump. Grogan é advogado do senhor Davidson e veio trazer um pedido de liberdade provisória, que eu concedi. Sei que não é de praxe fornecer estas informações dessa forma à outra parte da demanda, mas, como este se trata de um caso excepcional, eu tomei a liberdade de fazê-lo.

— Provisória?! E o senhor concedeu? Com todo o respeito, excelência, mas eu não acho que seu julgamento foi o correto devido às circunstâncias.

— Desculpe-me, capitã, mas creio que tenho competência e discernimento o bastante para dar provimento ao pedido do senhor Davidson. Ademais, não me foram apresentados motivos plausíveis para a denegação.

Indignada com a situação, Kate deu às costas aos três e se direcionou para a sala em que ocorreria a seção para a qual havia sido designada. O advogado de Castle, Henry, já a aguardava na porta. Eles entraram juntos e, quinze minutos depois, a juíza da causa adentrava a sala.

Era a hora de saber se a justiça falharia mais uma vez.

Notas finais
p.s.: a legislação dos EUA é muito diferente da legisl. do Brasil, então, por uma questão de maior afinidade, todas as normas usadas aqui na fanfic serão do Direito brasileiro. Comentem, pfvr ;)