Ficarei Ao Seu Lado
2 Relembre-me
Notas iniciais
O dia havia sido bastante agitado e cheio de emoções para o casal, Castle não conseguiu deixar de admirar o sorriso iluminado que Kate exibira pelo restante do dia. Como ele sentia falta desse sorriso. Não que sua esposa fosse uma pessoa triste e carrancuda o tempo inteiro, mas aquele sorriso ele já não via há anos.
Tiveram um jantar regado a gargalhadas e planos para um futuro próximo. Durante a tarde Martha e Alexis fizeram uma visita aos dois, que se estendeu até altas horas da noite, e compartilharam do mesmo entusiasmo ao receberem a notícia de que Sofia havia aparecido. Ambas se colocaram à disposição para ajudarem no que fosse preciso, e já trataram de planejar tudo o que fariam quando a pequena chegasse a casa. Kate sentia que seu coração iria ter um colapso a qualquer momento só por saber que esses sonhos que teve durante tanto tempo iriam, de fato, se concretizar e tornar-se mais que meros desejos.
Após a partida das duas, o casal arrumou a bagunça da cozinha e foi logo se deitar, ambos precisariam de disposição para as emoções que lhes aguardavam no próximo dia.
Castle mal havia encostado a cabeça no travesseiro e já adormecera. Kate, por outro lado, ficou rolando entre as cobertas até as duas e tanto da madrugada. Acabou perdendo a paciência e se levantou, indo para cômodo que costumava visitar quase todas as noites: o quarto da filha. Eles o haviam construído e decorado durante a gestação de Beckett, e decidiram que o preservariam intacto até o retorno de sua criança. Desde que recebera alta, a capitã o visitava todas as noites, mantendo sempre o mesmo ritual: acariciava a soleira da porta, sentava-se na poltrona posicionada ao lado do berço e segurava em mãos o primeiro presente – um pequeno tigre de pelúcia que Martha havia dado logo no primeiro mês de gestação – e o porta-retratos com a única foto que tinha de sua garotinha.
A foto fora tirada por Castle a pedido da esposa. Como Sofia precisava ficar na incubadora por ter nascido de parto prematuro, e Kate ainda não podia sair de seu quarto para ir até a menina, ela pediu que Rick tirasse uma foto para amenizar um pouco a saudade que sentia.
Um tempo depois de a esposa ter deixado a cama, ele acordou e se deparou com o vazio ao seu lado. Já sabendo onde ela poderia estar, levantou-se e foi ao seu encontro. O escritor a encontrou como em tantas outras noites, sentada e agarrada aos mesmos dois itens de sempre, exceto que naquela noite havia um sorriso nos lábios ao invés de lágrimas nos olhos. Sorriu com a cena e deu três batidas de leve na soleira da porta, para anunciar sua chegada, ela o olhou e esticou o braço convidando-o a se aproximar.
— Então quer dizer que está na hora do nosso ritual? – ele questionou puxando-a da poltrona para sentar-se e, logo em seguida, acomodá-la em seu colo. Como de costume.
— Você sabe que não precisa se levantar todas as noites para me buscar aqui, não é, amor? Poderia continuar dormindo.
— Já me acostumei com nossas conversas noturnas, fortalecem os laços do matrimônio.
Kate sorriu com o comentário e apoiou a cabeça no peito dele, aconchegando-se melhor em seus braços. Ficaram um tempo em silêncio, apenas sentindo um ao outro, até que ela quebrou o silêncio falando com um ar sonhador.
— Quem iria imaginar que estaríamos assim agora.
— Eu sempre soube que você se renderia a mim, Kate.
— Estou falando sério, Cas. – ela falou dando uma leve risada e um beijo rápido no pescoço dele. – Você se lembra de quando te contei sobre a gravidez?
— Às vezes prefiro nem pensar nisso, ainda não me perdoei pela forma com a qual tratei você naquela noite.
— Ei... – Kate exclamou, levantando a cabeça para olhá-lo nos olhos. – Não se martirize por isso, amor, já passou e você ficou comigo o tempo todo.
* flashback: 04 anos atrás – s03ep17, Countdown *
Depois de toda a loucura daquele dia, de quase morrer congelada em um freezer nos braços de seu parceiro, Beckett, enfim, pode descansar em casa. Josh havia prometido que a encontraria logo, só queria se certificar de que estava tudo bem com ela após aquele incidente de quase morte e logo estaria em seu apartamento.
Saber que ele havia desistido da viagem e voltado por ela tinha sido um alívio. Ela era totalmente consciente de que o sentimento que nutria pelo namorado não era nem de longe aquele amor que as garotinhas sonhavam em sua infância que um dia encontrariam, mas era o suficiente por enquanto. Era o mais seguro, por assim dizer.
Acomodou-se em seu sofá, uma coberta sobre o corpo, uma xícara de café fumegante em cima da mesinha de centro e um dos livros de Castle em mãos. Mesmo já sabendo cada frase de cor, ela gostava de repetir a leitura de seus livros, era seu passatempo favorito. Que Castle jamais suspeitasse disso, ele já tinha o ego inflado demais para que ela lhe desse ainda mais motivos para aumentá-lo.
Não demorou muito para que ouvisse batidas na porta e a voz de Josh anunciando sua chegada. Kate se levantou do sofá e foi atendê-lo. A porta mal havia sido aberta e Josh já entrara como um furacão, segurava um papel em mãos e tinha uma expressão nada contente em seu rosto. Ele a encarava fixamente e aquilo a estava deixando agoniada. Será que o tempo naquele freezer havia deixado alguma sequela grave? Não aguentando mais aquela tensão, ela quebrou o silêncio.
— O que aconteceu, Josh?
— Diga-me você, detetive. – ela o encarou sem entender e ele continuou – Imagina a minha surpresa ao perguntar pelos resultados de seus exames e receber esse papel aqui.
— O que é isso?
— Resultados de um exame que você fez há uma semana. Quando pretendia me contar? Se é que você pretendeu algum dia.
— De que diabos você está falando, Josh?
— Da sua gravidez! – ele gritou, jogando a folha ainda dobrada nela.
Kate o encarou atônita e começou a desdobrar lentamente o papel que ele havia arremessado. Ele não podia estar falando sério, não era possível. Ela leu cada letra à sua frente e começou a sentir-se fraca conforme as palavras iam sendo absorvidas. Grávida. Mas como? Ora que pergunta, ela sabia como, só não queria acreditar.
— Sei que nunca conversamos sobre esse assunto, Josh, mas eu jamais imaginei que você detestasse tanto a ideia de ser pai.
— Pai? Você só pode estar brincando comigo, não é? Acha mesmo que vou acreditar que eu sou o pai?
— O que? – ela questionou, não acreditando no que acabara de escutar – Quem só pode estar de brincadeira aqui é você. E de quem mais seria esse filho se não seu? – ela também alterou a voz, já sendo dominada pela raiva e indignação.
— Quem sabe da sua mascote que te segue para cima e para baixo. Sério, Kate?! Você estava assim tão carente que precisou daquele escritorzinho para te satisfazer?
Ele ia continuar as ofensas, mas ela o calou com uma forte bofetada em sua face. O ódio que sentia do homem parado no meio de sua sala era tão grande que sequer conseguiu evitar que as lágrimas escorressem por seu rosto. Sentia seu sangue fervendo e teve que se segurar para não avançar no pescoço dele.
A detetive o expulsou de seu apartamento aos berros dizendo que nunca mais queria olhar em sua cara. Josh saiu sem nem hesitar, igualmente dominado pela fúria. Ela se jogou no sofá chorando descontroladamente, amaldiçoando o homem que acabara de sair por sua porta. Não sabia distinguir se chorava de raiva dele ou de si mesma por ter deixado as coisas irem tão longe. Jamais imaginou que ele seria tão babaca a ponto de ter um comportamento como aquele, errara feio dessa vez na escolha de seu companheiro. Bem que Castle dizia: motorcycle boy. Ele havia agido mesmo como a um moleque, passara longe da atitude que um homem de verdade deveria ter. Castle. Desejava ligar para ele, mas sob que pretexto? Já estava demasiado tarde e ele deveria já estar dormindo, tiveram um dia bastante exaustivo.
Batidas na porta a despertaram de seus devaneios. Não fazia ideia de quanto tempo havia ficado jogada naquele sofá lamentando-se pela situação em que se encontrava. Não queria ver ninguém, não tinha disposição e muito menos naquela hora da noite. Mais batidas. Decidiu se levantar e checar pelo olho mágico quem insistia tanto. Uma onda de alívio a dominou quando ela viu seu parceiro parado do lado de fora de seu apartamento. Em situações normais, ela o expulsaria dali e ficaria irritada pela audácia dele de bater tão tarde em sua porta. Mas não naquela noite. Só o que ela queria era conforto, era alguém que a olhasse nos olhos e dissesse que tudo acabaria bem, que ela não estava sozinha nessa. Abriu rapidamente a porta, permitindo que ele entrasse.
— Eu não conseguia dormir, fiquei preocupado com você, Beckett. Sei que está tarde, mas eu te liguei algumas vezes e você não respondia, então... – ele já entrou tagarelando um monte de desculpas que ela não estava nem um pouco interessada em ouvir, porém parou quando ela fechou a porta e o encarou com o rosto avermelhado e manchado pelas lágrimas que a pouco derramara. – O que aconteceu?
— Oi para você também, Castle. Não aconteceu nada, estou bem.
— Kate, essa não foi uma pergunta casual que se faz no dia-a-dia e a pessoa já espera ouvir um "estou bem". Eu realmente quero saber o que aconteceu. Você pode estar tudo, menos bem.
— Ok. – ela disse suspirando pesadamente e indicando o sofá com a mão para que sentassem. Em seguida, explicou o motivo de seu estado deplorável em uma apertada síntese. – Josh veio aqui, nós discutimos e eu o expulsei.
— Oh. – Castle exclamou, pensativo. – E você ficou nesse estado por causa de uma discussão com seu namorado? Kate, essas coisas são normais em um relacionamento, sabe.
Ela apenas o encarou, sem pronunciar um som sequer e, ao perceber que ela não falaria nada, ele a olhou intrigado, tentando entender o que aquele silêncio poderia significar. Não havia sido uma simples discussão de casal, Kate Beckett não fazia o tipo que chorava e dramatizava uma briga com o namorado. Com certeza algo grave acontecera ali e ela estava titubeando em contar.
— Não foi só uma briga, não é. O que aconteceu, Kate? Eu não posso ajudá-la se não me disser. – ele segurou as duas mãos dela nas suas, tentando passar segurança para a mulher sentada à sua frente. Ela abaixou o rosto, ponderando se contava e qual a melhor forma. Optou pela mais fácil: simples e direta.
— Eu estou grávida, Rick.
— Você... gr-grávida? Mas como? O que?
— É Castle, grávida. Vou ter um bebê. Do Josh. Nós discutimos, porque ele não acreditou que fosse o pai. Ele me acusou de traição, e eu fiquei furiosa. Discutimos aos gritos, eu o expulsei de casa e não contive o choro, por isso você me encontrou nesse estado.
— Eu entendi, Beckett. Preciso ir embora, não posso ficar aqui mais.
— Castle, espera.
— Não, Kate, agora não. Preciso pensar sobre o que acabou de me dizer.
— Rick... – mas ele não permitiu que ela concluísse sua frase, interrompendo-a novamente.
— Você sabe o que eu sinto por você, você sempre soube. E saber disso agora... eu sei que vocês namoravam, mas um filho, Kate, um filho é demais pra mim.
Castle se apressou em sair daquele lugar, sentia-se sufocado a cada segundo mais que passava lá. Precisava respirar ar puro, esfriar a cabeça. Kate precisava de apoio, estava mais do que claro em seus olhos que ela estava desesperada, mas ele não conseguiria ser o parceiro dela dessa vez. Pelo menos não agora.
*flashback off *
Castle exibia uma feição triste com a lembrança daquele dia, ainda sentia raiva de si mesmo por tê-la abandonado no momento em que mais precisou. Kate percebeu que ele ficara em silêncio e tentou amenizar um pouco a situação, sabia que aquele assunto era pesado para ele.
— O que fez você voltar no dia seguinte?
— Martha Rogers. Eu andei um pouco e fui para casa, assim que cheguei, encontrei minha mãe na cozinha, ela percebeu que eu não estava bem e me chamou para uma de suas conversas. Expliquei toda a situação e, como sempre, ela me abriu os olhos para a burrada que eu havia feito.
— Martha é mesmo incrível. – ele sorriu minimamente com o comentário da esposa e tocou de leve seus lábios aos dela.
— Vamos dormir, Kate. Já está tarde.
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O estado de ansiedade que Kate se encontrava era tanto que Castle precisou obrigá-la a tomar ao menos um suco antes de saírem de casa. Ela insistia que eles não tinham tempo a perder e que precisavam chegar o mais rápido possível à delegacia. Após muito custo, ele conseguiu fazer com que ela se alimentasse, e seguiram para o trabalho.
Assim que as portas do elevador se abriram, ela fez sinal para Rayn e Esposito irem até sua sala. Os dois trocaram um olhar desconfiado, e logo trataram de se encaminhar até ela.
— Sim, Lanie, venha agora, por favor. Quando chegar eu explico tudo. – Kate falava com a amiga ao telefone quando os outros dois entraram. Castle estava sentado na cadeira de Beckett e ela mantinha-se em pé, apoiando a lateral de seu corpo na mesa.
— Aconteceu algo, chica? Lanie também fará parte da conversa? – Espo a questionou, fechando a porta atrás de si.
— Sim para as duas perguntas, Javi, mas não se preocupe, é algo que ficarão felizes em saber. Só vamos esperar Lanie chegar para contarmos a vocês.
— Não precisam esperar mais. – A médica entrou falando – Já estou aqui, amiga, e, pela sua voz ao telefone, eu presumo que essa novidade seja algo muito bom.
— Você não faz ideia, Lanie.
Rick comentou olhando para a esposa com um enorme sorriso no rosto. Ela retribuiu e questionou com os olhos se já poderiam contar, ele anuiu e ela olhou para os três amigos parados no centro de sua sala. "Nós encontramos Sofia", o casal anunciou em uníssono, esbanjando o maior sorriso que conseguiram dar.
— Sofia? Uau, mas como foi isso? – Ryan foi o primeiro a comentar, sendo seguido por Lanie e Espo soltando interjeições de surpresa e questionando o mesmo que o detetive.
— Sim. – Kate começou – Porém, a parte complicada vem agora. Eu a encontrei com Josh, ele esteve com ela esse tempo todo.
— O motorcycle boy? – os três exclamaram quase que juntos, igualmente surpresos. – O que você quer que façamos, Kate? Podemos mandar uma patrulha para a casa dele agora mesmo para vigiá-lo.
Espo comentou e, antes que Beckett pudesse respondê-lo, foi interrompida por batidas na porta. "Desculpe a interrupção, capitã Beckett", um oficial disse, batendo continência e pedindo permissão para falar, a qual, de pronto, foi concedida.
— A senhora pediu que fosse imediatamente comunicada caso alguma movimentação estranha acontecesse na casa do doutor Davidson. Agora a pouco recebi a informação de que ele saiu de casa com várias bagagens, levando também consigo uma criança e uma jovem mulher.
Ela sentiu as pernas fraquejarem com a notícia. Castle correu para o seu lado dando-lhe sustento. A capitã ordenou ao oficial que a patrulha seguisse Josh e, em seguida, o dispensou. O desgraçado pretendia desaparecer de novo com sua menina, mas dessa vez ela não iria permitir. Deu ordens para que Esposito e Ryan rastreassem o celular dele e lhe passassem o local exato para onde ele estava indo, pegou as chaves de seu carro e correu com Castle em seu encalço para o estacionamento.
Não perderia Sofia novamente por nada nesse mundo.
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