Ficarei Ao Seu Lado
12 Estadia na Cabana
Notas iniciais
As árvores pareciam vultos esverdeados e disformes enquanto o carro seguia a toda velocidade para fora da cidade. Josh ia olhando pela janela, os pensamentos longe dali, sequer ouvindo o que Igor dizia ao seu lado. Percebendo a alienação do amigo, o advogado pigarreou, chamando-lhe a atenção.
— Eu não vou ficar limpando as suas sujeiras para sempre, Davidson.
— Não estou pedindo que o faça. Essa foi a última vez.
— Vai querer que eu acredite que não está planejando algo mais? – Igor questionou retoricamente – Eu não entendo essa sua obsessão por aquela capitã metida a sabe tudo e seu marido que mais parece a mascote daquela delegacia.
— Sofia.
— Sofia... sua filha? Você quer mesmo que eu acredite que tudo isso se trata dela?
— Igor, você me devia essa. Lembra-se?
O advogado o encarou fixamente. Óbvio que se lembrava. Não foi preciso mais que uma frase de Josh naquela ligação de quase quatro anos atrás para se lembrar daquele dia. "Igor, você se lembra do favor que me devia? Preciso cobrá-lo agora", foi tudo o que o médico precisou dizer para que as memórias de sua quase morte voltassem imediatamente.
*flashback: anos atrás; graduação de Josh e Igor*
— Vamos, Davidson, vai ser divertido. – Igor falava, tentando convencer o colega de quarto a largar os livros para lhe fazer companhia na nova "jogada".
— Eu tenho que ler todos esses livros ainda, fica para a próxima.
— Ah qual é, Dav. Você passou a semana toda nessa mesa lendo e relendo, precisa de um ar. Relaxar, se divertir.
Josh riu com deboche, balançando a cabeça negativamente.
— O conceito que você e eu temos para diversão é bem diferente, Gaunt. Sabe – ele levantou olhar, direcionando-o para o amigo –, como acadêmico de direito e futuro advogado, você deveria rever alguns conceitos.
— Tudo bem, mamãe.
Igor falou zombeteiro e deu sua típica risada, saindo do quarto e dando-se por vencido. Mas não sem antes jurar que ainda iria conseguir "arrancar a bunda gorda" do colega daquela cadeira e levá-lo para uma noitada de diversão.
Duas horas após a saída de Igor do dormitório, Josh ainda estava com a cara enfiada nos livros, praticamente devorando-os. O celular vibrou ao seu lado e a tela acendeu num brilho forte, indicando a chegada de uma nova mensagem. Ao olhar o visor, a nota ali escrita o deixou totalmente em alerta: "Algo deu errado dessa vez. Ajude-me. No lugar de sempre. Igor".
O rapaz pegou as chaves de seu carro e saiu apressadamente em busca do amigo. Já havia avisado para ele inúmeras vezes que não era seguro se envolver com aquele tipo de gente. Mas Igor era teimoso e, principalmente, ambicioso. O tráfico de drogas trazia dinheiro fácil e ele julgava que sua função ali não fazia dele um traficante propriamente dito, afinal, como ele mesmo dizia, seu papel era só entregar a encomenda nas mãos certas.
Bom, parece que as "mãos certas" da vez não eram tão certas assim.
Por sorte, ao chegar ao local, encontrou o amigo ainda vivo, porém com uma arma apontada para sua cabeça. Josh aligeirou-se em sair do carro, levando consigo um gordo bolo de notas verdes. Já se acostumara com o fato de os pedidos de ajuda de Igor sempre envolverem muita grana.
Com muito custo, conseguiu convencer o homem a não estourar os miolos de Gaunt e aceitar o dinheiro como compensação pelo lucro perdido.
— O que você fez dessa vez? – Josh questionou ao amigo após saírem daquele local, sãos e salvos.
— Não se pode confiar muito nesses drogados para receber o pagamento nos dias certos. Aquele é o fornecedor.
O quase-médico apenas o encarou com os olhos semicerrados e acelerou ainda mais o carro, seguindo de volta para o campus.
— Te devo essa. – Igor disse ao adentrarem o dormitório.
— Eu vou cobrar. Aquele dinheiro era todas as minhas economias de quase um ano.
*flashback off*
— E você cobrou. – o advogado respondeu após um tempo, meio pensativo – Estamos quites agora.
— Exceto que não é tão simples assim, e você sabe.
— Como eu poderia não saber? Você me meteu até o pescoço nessa, Davidson, ao me envolver com aquela enfermeira e com sua babá.
— A ideia de falar com elas foi sua.
— A babá sabia demais, aquilo estava ficando muito perigoso. Alguém precisava detê-la. Você sabe disso.
Josh olhou de novo pela janela, sem dizer mais nenhuma palavra. Poucos minutos depois, adentravam a propriedade de Vitor Pettigrew.
Assim que avistou o primo, o médico abriu um meio-sorriso e acenou com a mão, recebendo uma aceno de volta. Já havia se comunicado com Vitor para avisar que ficaria com ele por um tempo.
— Espero que não precise mais de meus serviços. – Gaunt disse após os dois se despedirem.
— Ainda existe um processo contra mim.
— Não por muito tempo.
O advogado disse simplesmente e, em seguida, partiu dali.
Na delegacia, Beckett e a enfermeira ainda conversavam. A mulher falava detalhadamente sobre cada vez em que viu Josh na ala materna, tanto sozinho quanto acompanhado por Igor. E contou também, com riqueza de detalhes, sobre a visita que os dois fizeram a ela em sua casa.
— Eu agradeço sua ajuda, senhora Aristoria. Saiba que as informações que me passou servirão muito para esse caso.
— E se... – a enfermeira começou, mas logo se calou, abaixando a cabeça.
Kate a encarou por um tempo, esperando que continuasse, mas logo entendeu o que ela queria dizer. Sorriu afetuosa e colocou sua mão por cima das mãos da mulher sentada à sua frente.
Desde que Sofia voltou para sua vida, seu lado "doce", digamos assim, acabou por ficar muito mais presente em suas ações.
— Não se preocupe, manteremos você e sua filha em segurança até que Joshua Davidson e seu advogado sejam presos. Nada acontecerá a vocês.
— Obrigada, capitã.
A senhora Greengrass se retirou, sendo acompanhada pelos dois guardas que Beckett designara para vigiarem a casa dela. Por mais que desconfiasse que seu ex viesse a se tornar um assassino, preferia não brincar com a sorte. Afinal, sabia muito bem que Igor Gaunt, ainda que Josh tentasse impedi-lo, seria capaz de cumprir com sua promessa e ferir aquela pobre criança que era tão inocente – ou até mais – quanto sua mãe em toda aquela história.
O celular começou a tocar e ela sorriu ao ver o nome na tela: Castle.
— Oi, amor, eu ia te ligar agora mesmo. Como está Sofia?
— Oi.— ele respondeu com o típico sorriso bobo que brotava em sua face sempre que ouvia a voz da esposa – Da última vez que chequei, ela ainda estava dormindo. — ele comentou, indo em direção ao sofá onde a menina estava – Chamei minha mãe para nos fazer companhia. Assim, quando ela acordar e não te ver por aqui, terei dona Martha para me dar cobertura.
Kate riu da colocação dele. Sabia que o marido ainda estava emburrado por ter sido quase rejeitado pela filha ao colocá-la para dormir na noite passada. E ela achava isso adorável.
— Ora, ora. E não é que a princesa dessa casa acordou e já está agarrada em seu tigre? — ela o ouviu comentar com a voz doce, e já imaginou o sorriso meigo que provavelmente nascera no rostinho de sua filha.
— Oi, tio Rick.— Kate ouviu a filha responder com a voz ainda rouca de sono. Devia ter acordado há pouco tempo.
— Cas, passe para Sofia. Quero falar com ela um pouco.
— Tudo bem. Baixinha, a mamãe quer falar com você.
Ela o ouviu dizer e em menos de dois segundos a voz de sua pequena soava do outro lado da linha.
— Oi, Kate.
— Oi, princesa. Como você está se sentindo?
— Eu estou bem. Hmm... Kate... onde você está?
— Na delegacia, amor. – ela ouviu um muxoxo da filha e tratou logo de acalmá-la, não queria correr o risco de outra febre atacá-la – Mas eu prometo que logo estarei em casa.
— Jura? — a menina questionou animada, e a capitã ouviu um barulho que parecia de pequenos pulinhos.
Sorriu com a reação da menina.
— Eu juro, pequena. Agora passe para o papai que eu quero me despedir dele. Até mais tarde.
— Até mais tarde, Kate.— Sofia se despediu e, em seguida, entregou o celular para Castle. – Tio Rick, toma.
— Por um instante eu achei que precisaria dos serviços de Martha Rogers.— Castle falou, rindo, ao pegar o aparelho.
— Não precisará, Rick. Hoje não. Eu só preciso resolver algumas coisas por aqui e já chego a nossa casa.
— Tudo bem. Aconteceu algo mais, Kate? Você parece ainda mais preocupada do que quando saiu daqui.
— Longa história, amor. Quando eu chegar, te conto tudo.
Desligaram a chamada e Kate saiu em busca de Ryan e Esposito. Precisaria resolver o mais depressa possível essa história da fuga de Josh, antes que levasse uma bronca de sua superior. Que ela conhecia muito bem, já que se tratava de ninguém menos que Iron Gates, chefe do 1PP – One Police Plaza.
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Castle ouviu as risadas de Martha e Sofia preenchendo o loft e sorriu com aquilo. Amava ouvir sua pequenina dando gargalhadas. Definitivamente, havia feito uma boa escolha ao chamar a mãe para suprir a ausência de Kate. Era quase impossível alguém não ficar em clima de festa na presença de Martha Rogers.
Ao chegar no "local da diversão", viu Martha em pé interpretando algum personagem, que não conseguiu identificar de imediato, e Sofia, sentada no chão com as pernas cruzadas e a pelúcia no colo, olhando fixamente para a avó e dando gargalhadas seguidas de leves aplausos, encantada com a atriz à sua frente.
Era uma cena adorável.
Ele ficou parado apenas observando a interação das duas, Sofia, hora ou outra, fazia pedidos de algo que quisesse que a avó interpretasse, e esta o fazia com o maior gosto. Era a típica vovó coruja fazendo as vontades de sua neta.
— Richard, venha, junte-se a nós. – Martha chamou ao vê-lo parado de braços cruzados e admirando a cena.
Sofia olhou para trás, na direção dele, e logo tratou de ir ao seu encontro, puxando-o pela mão e o levando até a avó.
— Ôh não, não. Não quero atrapalhar o show. – ele disse, rindo – Enquanto você assiste a vovó, eu vou preparar algo para comermos. O que você quer, Sof?
— Hmm... – a criança fez uma carinha pensativa e logo abriu seu maior sorriso para o homem à sua frente – Cheeseburguer. – Exclamou animadamente.
— Não sei se Kate concordaria com tantos dias seguidos de comida não tão saudável, mas, bem, que mal tem, não é mesmo?
— Richard, não vá encher a menina com essas porcarias que você come e chama de alimento. – Martha o repreendeu.
— Não são porcarias, vovó. Cheeseburguer é muito bom.
— Viu? – Castle disse, rindo – Ouça a voz da sabedoria. – falou, apontando para Sofia.
— Ah, claro. E a "voz da sabedoria" tem quatro anos de idade. Ôh, por Deus. Se Katherine sonhar o que você anda dando todos os dias para a filha dela... – ela não completou a frase, apenas o olhou significativamente.
O escritor nada disse, só saiu em direção à cozinha ainda rindo. Sabia muito bem que estaria encrencado com Kate quando ela tomasse conhecimento de que ele desobedecera à regra de não dar "porcarias" – como ela sempre dizia – para a filha deles. Mas que mal tinha? Ele vivia comendo as mesmas coisas e permanecia extremamente bonitão e saudável. Modéstia à parte.
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— Capitã Beckett!
Kate conversava com Ryan e Esposito quando ouviu uma voz muito familiar chamar por seu nome de maneira formal e, ao mesmo tempo, saudosa. Virou-se com um sorriso em seu rosto, já sabendo de quem se tratava.
— Senhora. – ela cumprimentou sua antiga capitã com um aperto de mãos.
— Ôh, deixe de formalidades, Kate. Venha cá. – Gates disse descontraidamente, puxando a capitã para um abraço, que prontamente foi correspondido.
Era um alívio saber que, mesmo com o motivo daquela visita, Victoria Gates ainda não tinha incorporado o papel de Iron Gates.
— Detetives, como estão? – ela cumprimentou Ryan e Espo, com o mesmo entusiasmo, antes de se voltar para Kate.
— Você já deve imaginar o porquê de eu estar aqui.
— Esperava que fosse apenas uma visita amigável. – Kate comentou, tentando quebrar o clima tenso que se instalou repentinamente no local, e recebeu um sorriso gentil de sua superior. – Vamos até minha sala. – Disse por fim.
As duas seguiram, deixando os rapazes para trás. Antes de fechar a porta da sala, Beckett se virou para Esposito e pediu que avisasse a Lanie para não ir embora antes de falar com ela. Ele confirmou com a cabeça e ela sumiu de sua vista.
— Não é de praxe eu resolver esse tipo de assunto pessoalmente, mas, como se trata da minha antiga delegacia, que está sob o comando da minha melhor ex-detetive, eu achei por bem vim até aqui. O que, de fato, aconteceu por aqui, Kate?
— É uma história tão longa e confusa, senhora. Acho melhor te explicar do começo.
— Pois bem, tome o tempo que necessitar.
— Lembra-se da minha filha desaparecida? – Gates afirmou com a cabeça – Ela apareceu, e também o seu raptor. Foi Joshua Davidson, o pai biológico dela e o nosso prisioneiro fugitivo.
Kate explicou detalhadamente toda a história, desde quando encontrou Sofia com o pai até momento atual. Contou sobre a testemunha que havia ido até a delegacia naquele mesmo dia e sobre a suposta parceira de Josh com Igor Gaunt. E, também, das providências que já haviam sido tomadas, tanto com relação à fuga de Josh quanto com o processo criminal que estava correndo contra ele.
Gates também conhecia muito bem a fama de Igor Gaunt. Sempre ganancioso, desde a época da faculdade em que passava os colegas de estágio para trás. Nunca fora um nome bem falado, porém ainda tinha aqueles que o defendiam. Ter o sobrenome que tinha o havia ajudado a se livrar de várias enrascadas que já se metera na vida. Afinal, quem teria coragem de ir contra e apontar o dedo para acusar de corrupto o filho primogênito do chefe da Suprema Corte?!
Era preciso ter muita coragem para tomar uma atitude como essa. E Victoria Gates sabia que coragem era algo que não faltava em sua antiga detetive.
— Então você acha que esse advogado está envolvido na fuga. – Gates questionou, soando mais como uma afirmação.
Kate meneou a cabeça afirmativamente, soltando um suspiro pesaroso.
— Você sabe o protocolo que deve ser seguido por mim nesse tipo de situação, não sabe, Beckett?
— Sim, senhora.
— E você também sabe muito bem o meu posicionamento sobre policiais comandando seus próprios casos. – Gates completou de forma dura – Mas, conhecendo você como conheço, sei muito bem que nada do que eu disser te fará deixar esse trabalho unicamente nas mãos de seus detetives. – ela completou com um tom mais ameno – Portanto, tome todas as providências que julgar necessárias para o caso, Kate.
— Obrigada, senhora.
Beckett agradeceu, entendendo o significado por trás daquelas palavras ditas por sua superior. Trocaram mais algumas palavras e, em seguida, Gates partiu. Mas não sem antes prometer que voltaria para uma visita não formal e para ter a chance de conhecer Sofia.
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— Oi, Lanie. – Kate cumprimentou a amiga ao entrar no necrotério.
Lanie já estava pronta para ir embora, apenas aguardava a visita que havia sido informado pelo noivo que receberia.
— Achei que não viria mais. – comentou descontraidamente.
— Gates estava aqui.
– Ela veio por causa de Josh? – Lanie questionou ao ver a expressão preocupada na face de sua amiga.
— Sim. Ela queria saber pela minha boca o que aconteceu.
— E então?
— Ela não fará nada a respeito. Deixou que nós tomássemos conta de tudo, disse que eu poderia fazer o que julgasse necessário para achar aquele desgraçado.
– Parece que a Gates de Ferro amoleceu um pouco, não é? – a ME comentou, brincando – Mas e você, amiga, como está no meio dessa história toda?
— Eu nem sei direito o que pensar, Lanie. – Kate disse desanimada, dando um pequeno salto para se sentar na maca à sua frente.
Lanie a acompanhou, sentando-se ao seu lado e segurando suas mãos para confortá-la, indicando que estava pronta para ouvir seus lamentos. E Kate o fez.
— A enfermeira que estava responsável pela ala materna na época em que Sofia nasceu, veio até aqui hoje para retificar seu primeiro depoimento. Ela me contou tanta coisa. Disse que Josh ia sempre ver Sofia e que, às vezes, ele se encontrava com Igor Gaunt lá.
— Igor Gaunt? Eu não sabia que eles dois eram amigos.
— E muito menos eu. Astoria me contou que os via conversando e, algumas vezes, os diálogos ficavam acalorados demais. Disse, também, que não tinha a intenção de omitir informações quando fomos tomar seu depoimento, mas que foi ameaçada pelo novo advogado de Josh.
Lanie apenas a ouvia, soltando pequenas interjeições para cada coisa que Kate a contava.
"Eu estou com medo, Lanie. Josh fugiu e eu não faço ideia de para onde ele possa ter ido. Duvido muito que esteja na casa de Gaunt, mas, ainda assim, pedi aos rapazes para o vigiarem e se certificarem de que Josh não se refugiou por lá... e se ele fizer algo contra Sofia novamente, Lanie?! Eu não vou suportar perdê-la mais uma vez, você, melhor que ninguém, sabe disso".
Kate dizia sem pausas, lamuriando e despejando toda a insegurança que os acontecimentos recentes haviam lhe acometido. Tinha lágrimas nos olhos e o coração palpitava de aflição. Estava sofrendo uma pressão grande demais.
Lanie se dispôs a acalmá-la, dizendo palavras reconfortantes e mantendo-a presa entre seus braços, permitindo que ela molhasse sua roupa com seu pranto. Temia que a amiga tivesse um colapso a qualquer hora.
Kate Beckett era forte como uma rocha, mas ela também tinha os seus momentos. Como qualquer ser humano normal. E os assuntos "Sofia" ainda era delicado demais para ela. Reagia de forma igual ao assunto "Johanna Beckett". Ambos seriam sempre seu ponto fraco.
Após algum tempo na companhia da melhor amiga, Kate já estava mais calma e informou que precisaria voltar para casa. Prometera a Sofia que iria vê-la mais tarde e não queria descumprir com sua palavra.
Catou sua bolsa e sua jaqueta que jogara de qualquer jeito na poltrona que havia ali, enxaguou o rosto e seguiu para casa. Mas não sem antes receber recomendações da amiga de que precisava se acalmar e dividir com Castle suas inseguranças, antes que pirasse de vez.
Ao chegar ao loft, Kate encontrou o marido na sala. Ele havia acabado de desligar a chamada de vídeo com Alexis. Era um costume entre os dois, para tentarem amenizar um pouco da saudade que sentiam, falavam-se diariamente via FaceTime.
— Oi, estranho. – ela o cumprimentou, inclinando seu corpo para plantar um beijo casto em seus lábios. – Alexis? – Kate questionou, apontando para o celular.
— Sim. Ela pediu para eu te dar um beijo por ela, então...
Dizendo isso, Castle a puxou para seu colo e colou seus lábios aos dela, sugando-os com fervor. Era um beijo repleto de saudades e desejo.
— Uau. — ela disse ao se separarem, um pouco sem fôlego – Não acho que esse seja o beijo que ela me mandou, mas eu amei. – ela disse travessa, mordeu os lábios e tornou a avançar na boca do marido, deliciando-se ali.
Por um momento, os dois se esqueceram de que tinham uma criança em casa. Porém, quando o clima começou a esquentar demais, e Beckett sentiu o "amiguinho" do marido se fazendo presente, ela interrompeu o que faziam, ouvindo um gemido de frustração do homem que já estava deitado em cima de si.
— Mais tarde, tigrão. – ela falou, puxando os lábios dele com os dentes – Sofia pode nos ver, e eu não quero que nossa filha fique traumatizada por presenciar uma cena como essa. – ele riu em concordância e se sentou no sofá, ajudando-a a se endireitar também. – Prometo que te compenso mais tarde.
— Olha que eu vou cobrar isso, senhora Castle.
— Eu mal posso esperar por essa cobrança, senhor Castle.
Ambos sorriram com a pequena provocação e trocaram mais um beijo. Mais calmo, dessa vez, e com menos movimentos de mãos envolvidos.
— Sua mãe já se foi?
— Sim, ela disse que tinha um evento para ir hoje. Você conhece a senhora Rogers, sempre tem algum evento para ir.
— E Sofia?
— Está no banho. Já deve ter terminado.
— Vou falar com ela. Ela se alimentou? – Kate questionou ao se levantar do sofá.
— Sim, comeu como um búfalo.
— Que bela comparação.
Castle riu, dando de ombros, e a observou indo em direção ao quarto da filha.
Era incrível como, depois de tantos anos juntos, ele ainda se via maravilhado pelos movimentos que sua esposa fazia com o corpo enquanto caminhava. O rebolado nada vulgar e totalmente sensual de seu quadril, o singelo movimento de seus cabelos sedosos, a postura elegante com aqueles enormes saltos que ele ainda tentava entender como ela conseguia se equilibrar. Tudo exalava sensualidade em Kate Beckett-Castle. E Rick nunca se cansaria de dizer: era o homem mais sortudo do mundo por ter aquela mulher em sua vida.
— Oi, pequena. – Kate disse ao abrir a porta do quarto da filha.
— Kate! – a menina exclamou com entusiasmo e correu para os braços da mãe, se jogando nela e a agarrando com força.
—Você está bem, amor?
— Sim, Kate. Eu senti sua falta. – ela falou manhosa, ainda no colo da mãe, fazendo o coração da mulher pular freneticamente em seu peito ao ouvir aquilo.
Nunca iria se acostumar.
— Eu também senti sua falta. Sinto o tempo inteiro, meu grãozinho.
Kate falou, sentando-se com a filha na cama e mantendo-a sentada em suas coxas.
— Então, por que você sempre sai e fica horas fora de casa?
— Porque a mamãe precisa trabalhar, meu amor.
— Ah. – Sofia respondeu pensativa, e Kate já ficou aguardando a próxima pergunta. Já sabia que esse "ah" pensativo da filha sempre vinha seguido de uma pergunta esperta demais, ou alguma "solução" para o que a incomodava. – Mas você pode deixar o tio Kev e o tio Javi tomando conta das coisas para você. O papai disse que você manda neles.
— Quem?
— O pap... tio Rick. – ela se corrigiu rapidamente ao perceber a forma como havia se referido ao tio.
Kate notou que a filha ficou sem jeito e sorriu.
Então ela já pensava em Rick como pai... e até se referira a ele assim em voz alta. Castle iria morrer quando ela o contasse. Como queria que ele estivesse ali para ter ouvido aquilo. Tinha certeza de que ele não iria se aguentar de alegria. Assim como ela.
Sofia estava mesmo os aceitando como sua família, e isso era um alívio.
— Seu pai às vezes fala certas coisas só por brincadeira. – ela comentou, simplesmente, tentando mostrar à menina que Rick era mesmo o seu pai – Sof, você sabe como funciona o trabalho da mamãe? – ela agitou levemente a cabeça, em negação – Bem, você sabe que nos filmes tem as pessoas boazinhas e as malvadas, certo? – outro balançar de cabeça, agora positivo – Na vida fora da televisão também é assim, e a mamãe trabalha prendendo as pessoas malvadas da vida real.
— E se você se machucar, Kate?! E se uma pessoa malvada fizer mal a você como elas fazem com as princesas? – Sofia disse um pouco aflita, com um medo repentino se fazendo presente em seu olhar.
— Ôh, não precisa se preocupar, meu amor. Nada de mal irá me acontecer.
— Então, você é como os super-heróis dos filmes? Eles sempre ficam seguros.
Beckett riu com a comparação de sua filha e meneou a cabeça em afirmação, acariciando os cabelos da pequena e plantando um beijo demorado em seu rosto.
— Kate... se você prende as pessoas malvadas e, no dia que eu vim morar com você, você prendeu o meu papai, então, ele... ele é uma pessoa malvada?
Beckett notou a preocupação na voz da menina e tratou logo de afastar aquele sentimento.
— Josh não é uma pessoa malvada, amor. – ela disse, mesmo sem acreditar em si mesma.
Sabia que Josh era sim uma "pessoa malvada", mas não podia quebrar o coraçãozinho de sua filha falando aquelas coisas. Ela ainda era muito nova e não precisava tomar conhecimento das atrocidades que o pai havia cometido.
— Ele... ele apenas fez algumas coisas erradas e foi preciso que a mamãe o afastasse de você. Para que você ficasse bem, amor.
— Por isso a vovó estava com medo dele?
— Sua avó?
— Sim, eu ouvi a vovó conversando com o tio Rick sobre o meu papai e o tio Igor. – ao ver que a mãe permanecia em silêncio, Sofia se sentiu insegura. Talvez não devesse ter contado que ouvira a conversa dos adultos – Eu sei que foi errado, Kate, não fica brava comigo, por favor. Eu juro que não me escondi atrás da porta para ouvir a conversa deles. – ela falava rapidamente, já com o choro se formando.
— Ei. – Kate disse de forma doce, segurando o rosto de sua menina com as duas mãos para que ela a olhasse nos olhos – Eu não estou brava com você, meu amor. Você realmente não devia ouvir a conversa dos adultos, mas eu sei que não foi por mal. Tudo bem? Fica tranquila. Eu não vou brigar com você, Sof.
Sofia sorriu e beijou a bochecha da mãe, já mais calma.
— Você disse: tio Igor?
— É. Ele é amigo do meu papai. Mione não gostava nada dele.
— Sério? – a capitã perguntou como quem não quer nada, precisava saber mais dessa história – E por quê?
— Ah, eu não sei, mas a babá sempre ficava brava quando o tio Igor ia visitar o meu papai. Ela não o deixava falar comigo. A gente sempre ficava no quarto até que ele fosse embora.
— Entendi, princesa... bem, já está tarde, mocinha. Vamos dormir?
— Hoje é você quem vai me contar uma história, Kate?
— Sim, meu amor. Você quer uma história ou... – ela nem precisou finalizar a frase, Sofia a interrompeu pedindo por mais leitura das aventuras do seu tão amado Pequeno Príncipe. E assim ela o fez.
Algumas páginas depois, a menina já dormia pacificamente. Beckett ainda ficou lá por um tempo a admirando ressonar. Nunca iria se cansar disso.
Lembrou-se do que a filha havia lhe contado alguns minutos atrás. Hermione também conhecia Igor Gaunt e, não apenas isso, ela não gostava dele e não o queria próximo a Sofia. Mas por quê? Ela devia saber algo sobre Igor e só havia uma forma de Bekcett confirmar suas suspeitas. Precisaria convidar a antiga babá de sua filha para passar uma temporada na cidade.
Estava decidida a coletar todas as provas possíveis contra aqueles dois.
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