Fica... - Ernesto e Ema
1 Me queira e queira ficar...
Notas iniciais
Tocá-lo. Era uma sensação meio indescritível, mesmo em seu vasto vocabulário poliglota. Ernesto tinha o tórax despido, dava ali para ver, sem a intimidação de seus olhos — que no momento estavam fechados -, sua respiração pesada, e as sardas que salpicava em sua pele. As lágrimas dela cessaram naquele instante, naquele seu momento de concentração, onde o tempo parecia ter parado. Ela nunca havia notado aqueles pequenos sinaizinhos das outras vezes, e foi inevitável não tateá-los, seguindo os caminhos de suas sardas que mais pareciam espécies de constelações. O caminho do peito para os ombros eram onde elas mais apareciam. E era lindo.
Olhou seu rosto, o rosto adormecido, um tanto contorcido, parecia aflito. Ele sentia dor, ela sabia. A boca entre aberta, puxando lentamente o ar, com dificuldade. Aquilo a acertou em cheio no peito. As lágrimas voltaram. Aquele rosto sempre tão alegre, esbanjando felicidade em qualquer circunstancia e se orgulhando disso.
Era isso!
Ernesto era a combinação perfeita de orgulho e paixão. Paixão pela vida, orgulho por isso. As pontadas em seu coração estavam se tornando físicas.
Olhou a seu redor, a mala deposta e esquecida no canto do quarto perto da porta; pequeno quarto de cortiço que dividia com as amigas, e a sua frente o homem que... que... lhe ensinara tantas coisas, largado na cama, desacordado. E mais uma vez ele estava ali lhe ensinando algo. Alguma coisa sobre lealdade. Envolvera-se numa briga para defender Camilo, se machucaram feio, mas ele tinha continuado ao lado do amigo ferido até encontrar ajuda, só então desfaleceu.
O filete de sangue ainda lhe escapava pela boca. Ela limpou com os dedos, acariciando a curva de seus lábios. Eram tão doces e intensos. Sempre se lembrava. Intenso. Era uma boa palavra para descrevê-lo. Sempre fora intenso, nas suas palavras, nos seus toques, nos beijos, nos sonhos. Nos sentimentos. Sentimentos que o fazia nobre, que lhe revelava o melhor que tinha. Acariciou-lhe a face levemente, pensando. Por que estava então se afastando dele?
Se Elisabeta e Darcy tivessem chegado dez minutos depois, há esta hora ela estaria longe, completamente ignorante do que se passara a seus amigos. Indo para um futuro antigo. Voltando para um passado que já não lhe cabia mais. Se afastara dele para viver sua vida, mas parecia está se dando conta naquele momento que sua vida estava em sua frente.
Afastou da testa dele os cabelos negros molhados. Acarinhando as sobrancelhas grossas, lembrando-se da intensidade do negro dos olhos dele quando estavam abertos e a mirava com aquela... invasão a seus sentidos. Como fora se afastar tanto de seus ideais? De sua ideia de vida? A resposta era: Perdera-se. Perdera-se nos olhos dele. Perdera-se nos caminhos tortuosos que ele a levara a conhecer... Maldita hora que há um tempo lhe pediu para mostrar-lhe seu mundo! Aquele banho de cachoeira, tinha banhado sua alma de uma ideia que existia algo mais além de sua vida de dondoca! Existia uma dondoca que pudera ter o melhor pretendente possível, mas estava tomando sol na margem do rio com um italiano bronco, e simplesmente sentia-se feliz por aquilo. Simplesmente, perdera-se nele. No mundo dele. No labirinto que ele era e que aparentemente não existia saída.
Tanto que numa manhã, algum tempo atrás ela tinha gritado para os amigos de cima de seu cavalo:
"Eu vou com vocês!" — Como se quisesse dizer: " Eu vou para o seu mundo!". E, então o viu sorrir por ela ter aceitado seu convite, e estava ali ao lado dela, apoiando-a.
Ele era sempre inesperado e surpreendente. Orgulhoso, mas nunca, nunca desistira dela.
"Ema! Fica!" — Lembrou-se de sua voz pedinte, porém firme, quando ela tentou ir embora pela primeira vez. Ela ficara.
Fora convidada a pular de um precipício duas vezes naquele dia. E sabia porque só tinha aceitado a última oferta. Porque ele disse que ia junto, porque ele segurou a sua mão para pular. Nunca desistindo dela. Por mais que ela merecesse.
A alma dele era linda, e ele muitas vezes, mesmo que sem querer, a despia e Ema apreciava-o cada vez mais quando ele o fazia, pois ele ficava mais fácil de ler ... Era um brigão. Sorriu. Mas, um brigão com princípios — jamais confessaria isso a ele. — Ele não tinha medo. Não tinha medo de feri-la se o ferimento fosse a tornar mais firme e mais forte. Como os hematomas que ela agora via em seu abdome. Tocou levemente. Quando ele acordasse e se recuperasse, certamente ficaria mais forte, talvez se colocasse a aprender novos golpes para uma futura luta, para que não mais fosse derrotado. Ela revirou os olhos pensando na desculpa esfarrapada que ele daria pelo desmaio, talvez: "os outros caras ficaram piores!". Sorriu. Ele era tão descarado! Às vezes tão escancarado outras vezes tentava, arduamente, talvez pelo orgulho, esconder o que sentia. Mas, ela aprendera. Aprendeu a ler suas entrelinhas. E às vezes viajava pensando nelas.
Dai a pergunta veio de novo em sua mente: Por que estava então se afastando dele?
Lembrou-se de um poema, um poema que lera uma vez, num livro que não deveria ter lido em sua meninice pela biblioteca da fazenda, seu avô consideraria uma leitura inapropriada para ela. Porém ela lera, e o poeta — que ela não recordava o nome — descrevia uma paixão de verão como ardente e solar. Um homem e uma mulher que se encontraram, uma, duas, três vezes, e fugindo da rotina de seus mundos naquele verão se amaram intensamente. O final porém... bem, na época que lera encarou o ponto final com tal sentido, final. Porém se divagasse um pouco agora, veria varias possibilidades.
"Fica" ele poderia ter dito.
"Vou com você!" ela poderia ter dito.
E talvez nunca teria tido um ponto final.
E por que deveria ter um ponto final e as letras “F-I-M” bem desenhadas no centro da página? Por quê? Quem decretará essa ordem às histórias?
Ele se moveu, parecia está ficando inquieto! Ela aprumou-se melhor, ainda ajoelhada ao lado da cama. Estava ali há minutos. Horas? Talvez! A flanela esquecida na bacia com água manchada de sangue ao seu lado voltou a suas mãos. Mas, antes que ela pudesse tocá-lo novamente ele abriu os olhos. Sua face o descrevia. Ele sentiu dor, depois confusão, a reconheceu, alegrou-se, depois ficou confuso novamente. Ema percebeu que desenvolvera a capacidade de ler não apenas suas entrelinhas, ia a algo mais além. Ele tornou a fechar os olhos.
— Ernesto! — chamou baixinho. Viu o pomo de adão se mover, como se ele tivesse engolindo algo. – Ernesto?! — chamou novamente, largando a flanela e usando a mão para acariciar-lhe a testa.
— Não me acorde! — ele sussurrou.
— O que está sentindo? — ela preocupou-se. — Dor?
— Paz.
Ela não soube o que dizer. A temperatura em sua testa era normal, ele não parecia ter febre, não podia está delirando.
— Talvez precise acordar — ela disse, a voz mais doce que pode, pois também tinha rouquidão causada pelo choro. — Eu preciso saber onde sente mais dor.
Ele respirou fundo.
— Onde você não pode alcançar. Onde ninguém poderia alcançar! — Ele ficou em silencio por um tempo e quando voltou a falar o tom de voz mudou . — O que faz aqui, Ema? — parecia mais uma acusação que uma pergunta.
Pela primeira vez ela odiou ouvir seu nome na boca dele. Não estava soando doce, nem intenso como sempre. Estava soando... cansado.
— Talvez você pudesse me dizer. — ela respondeu, ainda em seu tom melancólico.
— Como poderia eu?
— Porque estou aqui por sua causa.
Ele finalmente abriu os olhos. A luz da vela que trepidava em cima da mesa de cabeceira deu aos olhos dele um brilho cobalto e afogador. Ele franziu a testa em confusão.
— O que houve?
Ela tentou ser racional ao responder aquela pergunta, porque simplesmente seu emocional estava uma bagunça gritando que houvera tudo em tão pouco tempo.
— Você e Camilo se envolveram em algo... Elisa e Darcy os trouxeram!
— E Camilo? — Ernesto parecia então situar-se.
— Está teimando no seu quarto para não ir para o hospital.
— Ele está muito ferido?
— Acho que se recuperará logo, assim como você.
— Eu estou bem! — ele tentou se levantar, mas aparentemente sentiu uma fisgada de dor!
— Não se force, por favor, você está todo quebrado.
Ele estalou a língua.
— Devia ter visto os outros caras! — ele disse voltando a se deitar, e ela tentou segurar o riso. — Você não estava de partida para o Vale? Para o seu passado futuro? Atrapalhei sua ida?
— Sempre!
— Não vou me desculpar por isso! — ele disse, a voz pesada.
— Sei que não.
— Mas também não vou mais pedir para ficar. — ele disse, e com força de vontade, levantou-se devagar e sentou-se na cama, fazendo caretas por causa das dores.
— Também sei disso. — ela continuou ajoelhada no chão, agora próxima às pernas dele.
— Então você pode ir...
Aquilo doeu nela, doeu tanto nela, só não doeu mais porque ela viu um feixe de dor passar pelos olhos e pela face dele. Estava amando descobrir que conseguia lê-lo. E por mais que ele não verbalizasse, por orgulho. Ele lhe pedia, com os olhos, com a face, com o corpo, com as entrelinhas. Ele pedia: Fica! E enquanto ela lia aquilo, enquanto ela descobria aquilo. Não se movera, o olhava, o decifrava. Mas, ele não a olhava de volta, estava cansado, os olhos baixos. Estava triste, sua dor ia além da física.
Talvez pela demora dela em se mover, ou levantar-se e ir embora, ele a olhou. A encarou. E ela continuava lá, literalmente ajoelhada aos seus pés. Rezando para que assim como ela, ele tivesse aprendido a lê-la.
— Vou ver Camilo! — disse ele e levantou-se da cama, sem mais olhá-la encaminhando-se até a porta.
— Fica! — ela pediu, quase num grito, desesperado. Ele parou instantaneamente com uma das mãos na maçaneta. Ema respirava pesadamente, a coragem emanando de seu coração, transbordando em seus poros. — Fica! — pediu novamente.
Ele virou-se. A olhava de cima. O maxilar travado, se segurando por alguma coisa. Os olhos dele brilhavam talvez lágrimas, talvez a sempre intensidade, mirando a figura ajoelhada no chão.
Ela levantou-se, e aproximou-se dele. Bem próximo. A diferença de altura às vezes lhe era um alento à respiração dele afagava quente sua testa a incentivando. Mirou em seus olhos, fundo, nunca ousara ir tão fundo antes.
— Você me quer? — perguntou com força, não teve resposta. – Você. ainda. me quer? – perguntou novamente pontuando suas palavras, e ele continuava inflexível, mirando-a nos olhos.
Minutos de silêncio, talvez.
— Eu a perdi. — disse por fim.
— Você sabe que não! Para de tentar esconder, Ernesto! – ela tinha o choro bem preso na garganta. — Pare de tentar esconder que você já descobriu... Você sabe que eu quero ficar, que eu quero você, e mais nada, e mais ninguém.
— Eu cansei de tomar decisões por você. — Ema descobriu que o brilho nos olhos dele era tanto lágrimas como intensidade. — Cansei de ter que criar e explicar-lhe os mais de mil motivos que você sempre terá para ficar, sendo que você sempre arrumará outro para ir embora, baronesinha. Assim sendo acho que não só a perdi, como também nunca lhe tive.
Ela percebeu que palavras não seria suficientes para rebater aquelas certezas tão equivocadas dele.
Então, ela simplesmente o beijou.
Força. Amor. Paixão. Desejo. Tudo num único e arrebatador beijo. Não se importou em machucar-lhe os lábios já feridos, ou o corpo cansado. Jogou-se em cima dele, o agarrou. O obrigando a toma-la em seus braços. O obrigando a reivindicá-la como sua. Ema sabia que ele faria. Sabia que ele faria porque ele sabia que o coração dela pertencia a ele. Mesmo que sua vocação não pertencesse, mesmo que seus preconceitos e suas razões não pertencessem, ela em si pertencia, o amor dela pertencia. E pela maneira com que ele a abraçava naquele momento percebeu e pôde envaidecer-se, pois ele não resistia a ela: também era dela o amor de Ernesto.
Precisou-se de ar, e enquanto os buscavam desesperadamente como afogados, encostaram as testas. As mãos dele segurando seu rosto, enquanto as dela bagunçavam seus cabelos. Na falta dos lábios os olhos se buscaram novamente.
— Sou sua! — ela disse, com toda convicção do mundo. — Por isso não me deixe ir. Por favor, não me deixe ir... E fique comigo!
Ernesto cegou-se de paixão diante daquelas palavras e afogou-se novamente na boca dela, sugando-a para si, doce, intensa, enlouquecedora. A pegou nos braços a sentindo sem nenhuma resistência. Completamente rendida. Quase não acreditou, sua baronesinha rendida. Quando acordara e sentira seu toque achara que estava sonhando, mas o contato com a pele macia dela era real demais. Ainda beijando-a deitou-a na cama. E percebeu: estava perdido, tão rendido quanto ela. Olhou-a novamente, face afogueada, lábios vermelhos e inchados, e os olhos sedentos.
— Sou sua, entenda! E não quero mais fugir disso! Me queira, e eu juro que fico para sempre!
Foi como fogos de artifícios explodindo em seu interior. Ele não quis pensar, não quis ser prudente, não quis ponderar. Só havia uma coisa que ele queria naquele momento, e ele a tinha nas mãos, rendida e entregue tanto quanto ele. Não existiria resistência, medo, receio. Só amor, paixão e certeza. E naquela noite a amou. A amou e fora amado como nunca antes na vida. Perdendo-se nela, em seu cheiro, em sua respiração, em sua pele, no contorno de seu corpo frágil e feminino. Perdendo-se, porém achando-se. Num novo caminho, desconhecido e sem volta, atravessando aquele portal que nos leva da paixão ao amor. Rasgando nela sua barreira de pudor, de menina. Revelando assim uma mulher, sua mulher. A que decidia ficar, a que decidira lutar. A que ele aprendeu a amar.
No dia seguinte, quando acordaram, encontraram-se novamente. Um homem e uma mulher. Juntos, que a partir de então só se perderiam um no outro e sempre se achariam. E não importa o que lhe viesse à vida, a convicção no olhar era clara: Nunca, por nada nesse mundo, se deixariam...
“Sem ponto final”
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