Bernard vasculhava as pilhas de anotações e pergaminhos de sua mestra, suspirando de tempos em tempos, espirrando com a poeira acumulada após anos de uso. Sua expressão transitava entre empolgação, sempre que encontrava algo inesperado, e novamente de volta para melancolia, ao relembrar o motivo de estar organizando aquela enorme quantidade de registros, anotações e livros.

Sua mestra, Abigail, uma senhora bastante idosa, havia acabado de falecer. Bernard, um jovem de apenas 20 anos, se sentia abandonado e inconsolável por não ter passado mais tempo absorvendo os conhecimentos e aproveitando a companhia da idosa rigorosa. Charles, o velho Meowstic que a acompanhara durante toda a vida, permanecia calado e contemplativo num canto da sala. Era possível ver seus pêlos brancos brilharem pela réstia de luz de fim de tarde que entrava pela janela. Ele nunca fora particularmente comunicativo, mas não havia pronunciado nenhuma palavra desde a hora da morte, três dias atrás.

O jovem puxou um pergaminho do alto de uma estante, e um livro de capa grossa de couro despencou dela, atingindo dolorosamente seu ombro. Charles não piscou nem se moveu. Após um resmungo descontente, Bernard se abaixou para pegar o livro, que não possuía nenhum título na capa, como muitos outros volumes da biblioteca, e o abriu para avaliar o conteúdo. Deparou-se com a letra de sua mestra.

“Meu maior arrependimento não foi nunca poder realizar efetivamente meu amor por ele, pois pude vê-lo crescer e envelhecer ao lado de quem ele desejava, e mesmo observando-o de fora, sua felicidade me permitiu encontrar serenidade ao longo de minha vida. Não me arrependo também de não procurar outro amor, pois eu não precisava de mais ninguém, minhas outras companhias e amizades eram suficientes para eu não me sentir solitária, e eu estava feliz por poder permanecer ao seu lado como uma irmã. Ainda jovem eu entendi, e aceitei, que ele nunca me veria como uma mulher, mas como uma parte preciosa de sua família. Entretanto, me arrependo, repetidamente, de novo e de novo, após todos esses anos, após sua morte, e após a morte de sua pessoa amada, e de nossos amigos, de novo e de novo, por nunca ter conseguido expressar meus sentimentos em forma de palavras.”

Bernard ficou sem palavras ao ler aquele parágrafo extremamente emotivo, tão diferente da mestra que ele conhecia, escrito em sua pequena e elegante caligrafia.

— Mestre Charles, o que é isso? – Perguntou ele um pouco trêmulo. Obviamente, não esperava reação, só precisava enunciar as palavras que lhe vinham à mente.

Charles se moveu pela primeira vez em horas, ainda com um olhar vazio, até perceber o que o jovem segurava nas mãos. Um pequeno lampejo de emoção pareceu passar por seus enormes olhos azuis. A sua voz chegou à mente do menino.

— Ah, eu me lembro de quando ela escreveu isso. Fazem alguns anos, mas não tantos. Bem, nós dois já estávamos bem velhos.

Ele parecia muito abatido, mas um tanto nostálgico, ao olhar para as anotações. Bernard tinha em suas mãos um diário. O diário de Abigail, escrito no final de sua vida, sobre seus ressentimentos e alegrias.

“Sei que minha personalidade nunca foi agradável, mas não fui capaz de muda-la, nem mesmo queria. É certo que nunca tive problemas de comunicação, e minha articulação foi mais do que suficiente para me tornar uma habilidosa professora e pesquisadora. Mas apenas isso. Era muito fácil relatar as descobertas de uma pesquisa, mas me angustiei e me afligi mantendo em silêncio reprimido os sentimentos que não conseguiam ser formulados em palavras, tamanha minha incapacidade de me expressar de qualquer outro modo que não fosse racional. Ele certamente sabia o quanto eu o amava, mas eu nunca fui capaz de dizer. Eu gostaria de ter dito pelo menos uma vez. Mas tamanha era sua gentileza que, consciente de minha aflição, Chris compreendeu meu desejo de permanecer ao seu lado, e me aceitou de braços abertos, apaziguando meu remorso e minha solidão. E mesmo que eu nunca tenha dito, ele sabia de minha gratidão.”

— Mestre Charles... Quem era Chris?

— Certamente a pessoa mais importante na vida de minha pequena Abby, pelo que você pode ver por esse texto.

— Sim, mas quem era ele?

— Christophe de Artois. Você com certeza conhece sua fama.

— Eu... sim, não há dúvidas, mas ainda...

— Surpreso de sua velha mestra ter sentimentos tão humanos? – a voz ressoou sarcástica na mente de Bernard.

— ...Sim.

Ambos permaneceram em silêncio por alguns minutos.

— Eu vejo o que há em sua cabeça, meu jovem. Você transborda de curiosidade para saber a história por trás dessas palavras. Típico de uma criança que ainda desconhece as diversas faces de um sentimento como o amor.

— Sinto-me mal por tomar consciência de questões tão intimas de minha mestra sem a sua permissão.

— Bem, os mortos não falam, não é? Certamente ela não se importaria. Talvez ficasse feliz por alguém além de mim e daqueles dois moleques imprestáveis conhecer seus sentimentos. Assim uma parte dela permanece viva quando eu também deixar esse mundo.

— Isso foi bastante mórbido.

— E não é também a morte após uma vida preenchida por um amor não correspondido?

— ...

— Você quer que eu te conte ou não?

— ....Sim.

— Então deixe de lado esses pergaminhos velhos e vamos para fora. Ela sempre achou que seu maior legado eram suas pesquisas, e se esforçou até o fim da vida para garantir isso, mas de algum modo eu me sinto na obrigação de mostrar quem era a escritora por trás desses longos enfadonhos relatórios e da fama de professora carrancuda. Talvez assim eu também tenha alguma paz de espírito.