Fevereiro
1 único
Eu vou até a praia, me preparo baixando discos de 10 anos atrás, uma tentativa de me recordar do tempo que era mais jovem e que tinha disposição para descobrir.
Já me imagino deitada no colchão de casal ouvindo a voz sobreposta por outra voz de Sufjan Stevens, seu violão produzindo efeitos sonoros cristalinos, como o mar que me banharei.
Espero ver peixes e gaivotas, andar na areia dourada e repousar debaixo de uma castanheira.
Levarei livro para ler, beberei água de coco e comerei peixe, frito ou na moqueca.
Pela noite andarei na pracinha, verei a Igreja barroca no topo do morro e pessoas com roupas leves passando na sorveteria. Itu é o que sempre peço.
Quero estar feliz e tirar o peso dos meus ombros. Acredito que a viagem me fará bem.
Mas lembro que debaixo d’água não sinto peso e penso que talvez esse seja o lugar perfeito.
Me mantenho submersa e desejo não tomar banho de sol, desejo nunca mais vê-lo na verdade. Quero afundar mais, mais até não ver a superfície sendo tomada pelos filetes de luz dourada. Tenho certeza que meu corpo estará mais leve ali, como um balão que escapa das mãos de uma criança e sobe atravessando a atmosfera.
Eu quero chegar ao fundo, eu sei que já estou em um, mas aqui a água é mais quente e agradável. A escuridão me toma por completo.
Peixes, uma baleia, águas-vivas, passam através de mim. Eu estou perdendo o ar, exatamente onde a vida surgiu.
Não estou renascendo e nem virando peixe. Muito menos achando respostas para as minhas perguntas.
Estou apenas fugindo.
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