Fetiche
4 Alex Salvador parte 02
Notas iniciais
Primeira quarta feira do ano. Primeira noite de folga do ano. Entretanto, sabendo que sua namorada iria trabalhar hoje à noite e que se fosse pra casa ele teria que dar um relatório de todas a meninas namoráveis da escola para que seus pais fossem atrás da família e saber o ramo de seus trabalhos, ele resolveu assim que acordou que iria ficar na escola e ficar sem fazer nada.
Era a primeira semana, não era como se precisasse desestressar de alguma forma.
Se vestiu e foi até o refeitório tomar o café da manhã. Lá já tocava uma música sertaneja no rádio baixinho. O pessoal da cozinha gostava de trabalhar com música e ele não se importava mais com a música chiclete.
Pegou um prato, colocou algumas coisas para comer e se sentou ao lado do professor de literatura, Tatsuo. Um cara quase nos seus 40 anos que também ficava na escola durante a semana mesmo sendo casado. O boato é que o casamento dele estava indo pro ralo, mas ninguém sabia ao certo, já que ele geralmente era bem reservado e quieto sobre qualquer assunto pessoal.
—Bom dia, Alex – o japonês cumprimentou com um sorriso
—Bom dia, Tatsuo – Alex respondeu. Ele começou a beber seu café e o único barulho ali era o rádio – Posso te perguntar algo pessoal? – ele começou atraindo a atenção do outro que o olhou sério — O que significa seu nome?
—Tatsuo? Significa sábio. – ele respondeu com um sorriso — É estranho esse nome?
—Bem, com certeza é internacional... – o outro gargalhou
—Imagino que sim. Meu pai é japonês. E japoneses são extremamente ligados à tradição por isso ele resolveu que meu nome e o nome do meu filho seriam estritamente japoneses.
—Ele decidiu o nome do seu filho? – perguntou abismado
—Mais ou menos. – ele deu um sorriso afetado – Digamos que ele me infernizou para que eu colocasse o nome do Akira de, bem, Akira.
A conversa seguiu tranquila até dar a hora de irem dar aula. Ele tinha aula durante toda a manhã e à tarde livre. Sua última aula do dia foi com o 2C.
De todas as turmas que ele dava aula nessa escola, a que mais era trabalhosa era o 2C. Não por conta dos alunos serem burros ou bagunceiros. Não, a maioria das crianças ali era exatamente igual às outras do colégio. Crianças que ainda estavam aprendendo e crescendo, mesmo que significasse que eles iriam errar várias vezes. Mas no 2C havia uma garota que quebrava todos e qualquer padrões a escola: Lauren Coelho do Nascimento, ou apenas, Lauren.
Ela vinha da família Nascimento, uma família de novos ricos que ninguém sabia ao certo o que faziam, mas sabia que ficaram ricos o suficiente para colocarem as crianças na escola. O estranho é que ambos os filhos entraram com bolsa e ambos eram os primeiros lugares de suas respectivas séries. Não havia nenhuma nota abaixo de 9 em seu currículo desde que entraram na escola. Em física, por exemplo, Lauren nunca tirava nada abaixo de 10.
A aparência dela era comum. Morena de sol, cabelo preto encaracolados, volumosos e despenteados. Se começasse a se cuidar, ela seria bonita e acabaria entrando no padrão das outras crianças ali.
Ela aparentemente nunca se importara com sua aparência, porque ela com certeza era alguém que sempre seria a melhor no que se propõe, independente do que fosse.
Sim, porque desde o ano passado ela era a melhor da série, no festival esportivo ela também ganhou medalha de ouro em qualquer coisa que se propôs a participar. Quando foi colocada como organizadora da festa junina, ela também deu conta do serviço, sabendo delegar quando necessário e quando precisava pôr a mão na massa.
E o mais importante de tudo: ela nunca tomou uma advertência sequer. Nem dos alunos nem dos professores, nem de ninguém. Sempre seguia as regras e fazia o certo.
Até aí tudo bem, isso a fazia ser motivo de orgulho entre os colegas e professores. Afinal, quem não sabia quem era Lauren, a certinha?
Só que ela sempre estava sozinha. Seu quarto era dividido com as duas meninas mais extrovertidas e populares que tinha no segundo ano, mas mesmo assim, ela se mantinha distante e sozinha de todos.
Era como se ela quisesse ficar sozinha de propósito. E isso preocupava a todos os docentes. Ele se lembrava muito bem de quantas e quantas conversas tiveram sobre como e com quem juntar a menina solitária durante as aulas.
Nunca deu certo. Ela nunca deixava ninguém se aproximar: afastando as pessoas com um sorriso, usando o tablet, livro ou qualquer outra coisa em suas mãos como escudo e desculpa para dizer que não tinha tempo para nada.
Na aula de hoje, ele passou o conteúdo programático do ano e também alguns exercícios de revisão. Tinha diversos desafios entre os exercícios, mas mesmo assim, ela fora a primeira a entregar a folha e voltara a sua carteira para ficar olhando seu tablet. Às vezes dava um sorrisinho, outras fazia careta de desagrado, mas fazia tudo isso olhando a tela. Fora da tela, ele nunca tinha visto ela com outro cara a não ser o sorriso ou uma cara indiferente a tudo e todos.
A menina era complicada.
Não que isso o interessasse de verdade, ela era apenas a sua aluna. Ela só tinha um pouco de pena dela. E como dizia a famosa frase: você não pode ajudar quem não quer ser ajudado. Ele estava de mãos atadas.
Quarta à tarde. Ele gostava de quartas à tarde porque por ter algumas horas livre, ele sempre ficava na biblioteca sozinho programando suas próximas aulas. Hoje não foi exceção.
Ele gostava do barulho da molecada, gostava da algazarra que faziam, gostava de passar tempo com sua família e seus amigos, gostava disso tudo. Mas se tinha algo que ele gostava mais do que isso: era do silêncio de ficar sozinho e de não ser incomodado por nada. Ele gostava da sensação de paz que a solidão trazia. E para ele, que sempre fora cercado de gente puxando-o para todos os lados e lhe dizendo o que devia ou não fazer, isso era realmente bom.
Quando terminou parte de seu trabalho viu que já eram 6 horas e que deveria ir ao refeitório jantar. Arrumou suas coisas rapidamente e seguiu ao refeitório dos professores vendo a algazarra feita pelos alunos em seu refeitório.
A primeira vista não viu nada de diferente. Mas quando olhou a comida dos alunos e viu que eles tinham o seu prato favorito: nuggets de frango. Não pôde deixar de abrir um sorriso. Claro que eles tinham mais algumas outras coisas chiques, mas Alex só queria os nuggets. Talvez depois ele viesse ali roubar alguns.
Continuou caminhando até a área dos professores e, pelas paredes de vidro, viu que lá dentro estava o desagradável professor de educação física, Flávio. Outro professor solteiro que tinha na escola.
Flávio era alguns anos mais velho que ele, musculoso, mas nada exagerado. Seu rosto quadrado com uma barba por fazer fazia todas as meninas da escola babarem por ele. Podia até ser bonitinho, mas era um pé no saco.
Alex odiava Flávio por alguns motivos. Primeiro que o cara era maluco e se auto-proclamou inimigo de Alex logo nos primeiros dias de trabalho ano passado. Depois, ele simplesmente arranjava problemas para Alex apenas por motivos sádicos. Mas todos esses problemas ele podia aguentar.
O que ele não aguentava era que o filho da mãe descobrira que ele gostava de nuggets e começou a pegar todos, absolutamente todos os nuggets quando tinha. Mesmo que isso incluísse jogar eles fora depois.
Ele jogava nuggets fora! Alex jamais poderia perdoar alguém assim!
A questão inteira era que a história do nuggets foi a gota d'água. Aquela sardinha que afunda o barco. Porque os nuggets pra qualquer outra pessoa era apenas um prato, mas para Alex, aquela crocância e a maciez da carne de frango juntamente com o queijo derretido podiam ser descritos como um pedaço de céu no seu estômago. Como um orgasmo que podia ter na frente dos outros.
Era por isso que odiava Flávio.
E vendo que ele novamente tinha pego todos os nuggets, ele odiou ainda mais o outro. De qualquer forma, ele fez seu prato de janta e sentou o mais longe que conseguiu do outro.
Era sua noite de folga, então ele não tinha algo específico para fazer. Também já tinha adiantado as coisas do trabalho. Podia até chamar algum colega para ir beber uma em algum lugar, mas lembrou-se do ano passado e de todas as desculpas que os outros davam para não sair na quarta com ele.
No fim das contas, quarta feira era apenas o pior dia para se ter folga.
Quando terminou de comer, resolveu que iria roubar alguns nuggets dos alunos e achar um lugar bacana para apreciar aquelas belezinhas longe de Flávio. É, tinha que ser um lugar que Flávio não descobriria para não vir encher a paciência dele com regras da escola ou qualquer coisa assim.
Já era quase 8 horas quando passou pelo refeitório dos alunos. O clima estava perfeito para dar uma de gatuno com os nuggets.
“Chupa, Flávio!” pensou contente. “Agora é só arranjar um lugar pra colocar os nuggets. Vai ser estranho se eu sair com a mão cheia deles daqui.”.
Andou por todo o lugar e sem mais ideias, acabou indo até umas alunas e pediu uma folha de caderno para elas. As três sorriram e gentilmente lhe entregaram uma folha cada, mesmo que ele dissesse que apenas uma folha estava bom, elas fizeram questão.
Ele fez um cone com as folhas e colocou alguns nuggets lá dentro. Saiu do refeitório com um sorriso de vitória com o cone de nuggets na mão. Era realmente seu dia de sorte.
Quando saiu do prédio do refeitório, viu Lauren passando furtivamente por ele com uma mochila nas costas. Se ele estivesse trabalhando, ele ligaria para isso já que parecia que ela fugiria da escola, mas como era seu dia de folga, pouco se importou. Era bom que ela tivesse alguma experiência de adolescente comum errando de vez em quando.
Comeu um nugget pensando em onde comeria os outros. Um lugar bacana escondido do Flávio... Lugar bacana tem um monte, mas hoje é a ronda do Flávio então... Escondido do Flávio... Levou uns cinco minutos e alguns nuggets para se decidir.
Foi até o zelador, pediu as chaves para o jardim do terraço e foi andando calmamente até lá. Era um lugar bacana e Flávio não ia encher a paciência dele lá em cima. Perfeito.
Era um pouco complicado chegar ao jardim do terraço, primeiro tinha que andar por toda a escola, já que ele ficava no alto do último prédio, depois tinha que subir os cinco andares de escada, passar por um portão de ferro, subir mais um andar e passar por outro portão... Outro? Mas o zelador só tinha uma chave.
Ele olhou para o outro portão de ferro. Ele era praticamente duas meias barras de ferro brancas de pé ligadas por vários arames brancos um pouco mais grossos que o comum. Não combinava em nada com o restante da decoração do colégio, mesmo assim parecia um trabalho bem feito.
Tinha tantos arames paralelos ali que não dava pra ver direito o que estava atrás daquele portão estranho. Ele tentou puxar, tentou empurrar mas o portão não saia do lugar, sequer fez barulho.
“Mas que merda é essa?”, pensou irritado. Quem tinha colocado aquele portão ali e porquê?
Frustrado, pensou em reclamar com o zelador e se virou para ir embora, mas assim que deu o primeiro passo, escutou um barulho do outro lado do portão. Voltou-se novamente e com os dedos forçou uma abertura entre os arames. Dava pra ver pouco, mas ainda assim conseguiu ver quem estava do outro lado e o que estava acontecendo.
Aquela ali era realmente a Lauren? A Lauren certinha?
Não conseguiu parar de olhar até que os olhos do outro lado se encontraram com os seus, em pânico virou-se para ir embora e saiu correndo.
O que ele faria com aquela informação?
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