F.e.s.t.u.s.
2 Os Incidentes
Notas iniciais
Valdez não era o único que estava acordado fora de hora no acampamento. Apesar de as lâmpadas do chalé de Hécate estarem apagadas, o interior permanecia iluminado por magia com tons púrpura.
Os filhos da deusa estavam reunidos em uma espécie de reunião, eram quatro ao todo.
Eles tinham os traços dos rostos muito semelhantes, além de outros aspectos como o tom claro nas peles e os cabelos ruivos. Apesar disso, se diferenciavam com outras características, como corte de cabelos e outros detalhes. Uma garota, que deveria ter uns 16 anos, carregava expressão superior, estava de braços cruzados e não dava a mínima para o que sua irmã, que tentava convencê-la sobre algo, dizia. A primeira tinha piercings em torno da orelha esquerda, seu cabelo era bem curto na nuca, mas as mechas que emolduravam o rosto iam até seus ombros.
"Nós não podemos fazer isso, Izzie" a irmã da garota dos piercings falou "Isso não é certo, é trapaça".
A discussão parecia já durar muito tempo, e garota começava a se exaltar, mesmo que fosse sem querer. Deveria estar cansada de corrigir as encrencas da irmã.
"Frankie, se acalme" um garoto que tentava apaziguar as irmãs falou, abaixando o tom de voz a cada palavra. Ele era alto, provavelmente mais velho do que as duas, mas ao julgar pela sua postura, estava a um cargo abaixo de Frankie.
"Vai acabar acordando Jamie e todo o acampamento" Jamie era o quarto integrante do chalé, um garotinho de sete anos que cochilava em uma das beliches. Primeiramente havia tentado prestar atenção na discussão dos irmãos, mas desistiu e agora babava enquanto dormia com o traseiro para o alto, deixando seu pijama do Harry Potter a mostra.
"Acordar todo o acampamento? Você ouviu o que ela quer fazer?" apontou para a tal Izzie, que somente revirou os olhos. Frankie parecia o oposto da irmã não só pela aparência, seu cabelo, que solto deveria ser bem comprido, estava preso em um coque alto e arrumadinho e não tinha nenhuma espécie de metal no rosto, quase se podia ver a personalidade das duas entrando em conflito "Em hipótese alguma..."
"Você reclama demais irmãzinha" Izzie a interrompeu, revirando os olhos "Isso não é trapaça. É só a Captura a Bandeira, ninguém vai se ferir ou morrer" ela usou um tom sarcástico ao dizer 'morrer'.
"Não estou falando da Captura a Bandeira, isso é contra as regras de nossa mãe" Frankie começava a se preocupara seriamente com o que poderia acontecer se fizessem aquilo "Criar um guerreiro superpoderoso com magia só para vencer a Captura? Isso poderia gastar todas as nossas forças, Hécate proíbe qualquer tipo de magia que possa destruir o usuário. Eu ainda sou a conselheira desse chalé e digo que não vamos fazer isso!"
Pronunciou pausadamente a última parte. O garoto entre as duas levou a mão até o cabelo, raspado dos lados, o bagunçando enquanto coçava a nuca.
"Frankie tem razão, não podemos fazer isso" Os três se encararam durante um tempo, a situação parecia estar resolvida para os dois lados, mas cada um ao seu modo.
"Ótimo" Izzie se pronunciou virando-se costas para os irmão e então voltando a olha-los "Eu vou fazer a magia, não quero a ajuda de vocês"
"Isabelle, não ouse..." a irmã tentou voltar a discutir.
"Eu vou fazer" ela deu ênfase no 'vou' "Estou cansada de perder na Captura a Bandeira, e agora estamos contra os chalés de Atena e Ares de uma vez só. Não temos chance" cruzou os braços novamente e bufou "E você está exagerando. Pra uma pessoa sozinha pode ser uma magia difícil, mas somos quatro" ela olhou para Jamie de novo que roncava e se corrigiu "...três".
Frankie respirou fundo e disse entre os dentes, com muita dificuldade. Bem, não deixava de ser verdade e uma proposta um tanto boa, quer dizer, não terminar a Captura a Bandeira quebrada, ralada, esfolada e humilhada... de novo. No fundo, só queria se impor como irmã mais velha e conselheira do chalé. Izzie tinha ideias boas, perigosas obvio, mas boas, e Frankie nunca iria admitir isso em voz alta.
"Certo, vamos fazer" também já estava cansada de discutir, mas mantinha a pose ainda-não-acho-uma-boa-ideia-e-você-nunca-vai-me-convencer-ao-contrário "Mas se isso der errado, você me desobedeceu".
Henry também não discutiu mais, ele nunca tinha muita influência sobre as decisões daquelas duas, e Izzie sorriu vitoriosa.
"Nada vai dar errado, pode ter certeza" A garota se virou para a lareira no fundo do chalé, a magia que o mantinha iluminado se foi no momento em que ela se posicionou e começou a entoar versos em grego antigo, aos poucos sendo acompanhada pelos três irmãos.
Suas palavras repletas de magia preenchiam todo o ambiente e no segundo seguinte a lareira se acendeu com um estranho fogo roxo, não como o primeiro, mais ameaçador e poderoso. Tudo parecia ocorrer conforme o esperado e após alguns tempo Izzie havia terminado a magia. Ela estava calma e satisfeita, afinal, ocorrera tudo bem, mas ninguém sabia ao certo o que esperar. Um cara grandão e todo equipado aparecer na frente deles? Nunca haviam feito isso antes.
Eles se entreolharam e nada aconteceu por alguns instantes, mas enquanto começavam a pensar que nada iria acontecer, todo o chalé começou a chacoalhar. Todos os móveis e cada objeto trepidavam, era como um terremoto acontecendo somente no chalé 20.
"O que é isso?" Henry perguntou, ele apoiava Frankie enquanto tentava se manter de pé. Izzie se segurava em uma das beliches, começava a pensar sobre o que poderia ter causado, e que Frankie a estrangularia antes de mandá-la para Quíron. Porém nem teve tempo de se arrepender, o tremor passou tão de repente quanto havia começado. Soltaram o ar dos pulmões, aliviados.
"Viram" Izzie se pronunciou, sorrindo forçadamente e ainda receosa "Nada de mal" E assim que disse a última palavra, a lareira explodiu em uma nuvem de fumaça e um clarão púrpura tomou conta de todo o ambiente. O que fez até Jamie se remexer na cama, o garoto tinha um sono digno de Hipnos.
"Nada de mal?" Frankie gritou irritada enquanto tossia e tentava afastar a fumaça abanando as mãos em frente ao rosto. A fuligem cintilante encheu todo o chalé, tornando difícil de respirar por alguns segundos.
"Bem" Henry também tossia "Pelo menos foi só a lareira, nada aconteceu".
"Como assim nada aconteceu?" Izzie se levantou do chão, onde havia caído depois do estrondo, em meio a tentativas de respirar e tosses "Alguma coisa tem que ter acontecido!" Ela não sabia como explicar, mas sua sensação era de que havia algo fora do lugar, algo que eles fizeram.
Já havia esquecido sobre poder ser punida, eles haviam feito algo, e ela tinha certeza de que os irmãos também sentiam. Sua magia havia sido gasta, como se a bateria estivesse esvaziado um pouco.
"Nada aconteceu" Frankie insistiu se ajeitando "Talvez devêssemos agradecer por isso".
Ela e o irmão se juntaram ao pequeno Jamie para ver se o pequeno estava bem. Foram dormir depois que o último resquício de fumaça passou e as coisas já estavam mais ou menos organizadas, poderiam pensar em como tirar a poeira das roupas na manhã seguinte, provavelmente usariam magia, mas estavam exaustos no momento.
Izzie foi a última a dormir, antes deu uma última olhada para a lareira. As chamas púrpura refletindo em seus olhos e a sensação de algo fora do lugar pesava em seu peito.
"Mas aconteceu" sussurrou para si mesma, observando a lareira semi destruída.
E ela tinha razão.
–--Ω---
Leo ainda insistia em abrir aquela maldita esfera de metal. Mesmo já tendo torcido um serrote, quebrado três alicates e danificado a melhor chave de fenda do Buker, ele não parava, e não iria desistir até abrir aquilo. Já estava ficando pessoal.
"Ok, você não quis o jeito fácil" ele jogou mais uma ferramenta estragada para trás dos ombros, abaixou da testa seus óculos protetores "Então vai ser do jeito difícil".
Ele tirou de um dos dos seus armários por de baixo da mesa, algo que se assemelhava a uma serra elétrica do tamanho de seu antebraço, ao ligá-la, o barulho foi como o de um carro de corrida dando partida.
"Vamos lá, belezinha". Leo mirou em cima da dobradiça da esfera e continuou sua tarefa de abrí-la.
Pelo som, ele poderia estar serrando um cubo de aço maciço, ou qualquer outro material tão resistente quanto. Faíscas começaram a saltar por todos os lados, inclusive na direção do rosto de Leo, que mal notou. O barulho da ferramenta e as faíscas saltando cessaram quando Leo percebeu que nada iria acontecer a esfera.
O garoto retirou os óculos, respirando cansado. Ele era teimoso, não iria desistir tão fácil assim, precisa saber o que era aquilo e qual era sua função dentro de Festus, se qualquer peça ficasse fora do lugar, poderia fazer com que os sistemas do dragão não funcionassem corretamente. E isso não agradava Leo, precisava do seu dragão, ou cabeça dele, novinho em folha para que, em seguida, se transformasse na central de controle do navio, o Argo 2, que os levaria até a batalha contra Gaia.
Leo soltou um 'Argh!' involuntário e franziu a testa irritado. Ele apoiou a mão no queixo, pensativo. Tinha de haver algum jeito. Seja lá o que tivesse dentro dessa esfera, Hefestus quis manter completamente fora do alcance de qualquer um, deveria ter sido lacrado com magia. E algo lacrado com magia, deveria ser aberto com magia.
"Bingo!" ele teve uma ideia que considerou brilhante, e que, ao mesmo tempo, o fez se sentir um idiota por não ter tentado antes.
Leo abriu sua mão esquerda, não precisou se concentrar muito, havia feito isso várias vezes durante a missão. Já tinha pego o jeito. Seus dedos começaram a formigar e esquentar, aos poucos as chamas apareceram e fizeram o braço de Leo parecer uma tocha havaiana. Ele, então, concentrou todas as labaredas para somente o dedo indicador, o transformando em um maçarico de fogo mágico. Encarou a esfera.
"E quais são suas últimas palavras?" Leo parou com o dedo em chamas se aproximando, provavelmente esperando uma resposta da esfera, que, como o esperado, não respondeu "Foi o que eu pensei".
Ele aproximou o fogo em seu indicador da esfera até as labaredas tocaram o metal. Nada aconteceu por alguns segundos, então a esfera começou a ceder e afrouxar a dobradiça aos poucos.
"É assim que se faz no mundo do Leo, esfera!" ele comemorou sua vitória, mas sem afastar as chamas. A dobradiça estava quase completamente solta, em instantes a esfera estaria aberta e Leo finalmente saberia para que aquilo servia, seus olhos brilhavam de expectativa.
Justo no momento em que ele comemoraria sua vitória final, todo o Buker9 começou a tremer, Leo perdeu o equilíbrio sobre a cadeira, que por sinal tinha um dos pés remendados, e caiu no chão como um saco de batatas. Utensílios e ferramentas rolaram dos balcões e mesas direto para o chão, inclusive a esfera de metal, que caiu bem na testa Leo.
"Ai!" reclamou, ele viu a esfera sair rolando para debaixo de outra mesa "Não, não, não!"
Quando pensou que o tremor nunca pararia e que havia perdido a esfera, tudo voltou ao normal tão de repente quanto começara a tremer. Ele olhou em volta, deu de ombros e se levantou, recuperando-se do susto e passando a mão na testa, onde a esfera havia caído. Não precisou procurar muito para achá-la, na verdade, estava bem próxima, mas em baixo de uma mesa, entre vários entulhos.Para sua surpresa e felicidade, ela estava aberta, como um relógio de bolso, mas ele não conseguia ver o que estava lá dentro, o que ela guardava.
Leo se aproximou lentamente com uma sorriso vitorioso no rosto, estendeu a mão para pegá-la e, antes de tocar no objeto, notou que de dentro dele, um tom roxo começara a brilhar. Sua sobrancelha levantou involuntariamente, e, antes que conseguisse dizer mais do que um 'hãm?', uma explosão vinda da esfera encheu o Buker de fumaça e luzes roxas.
Leo saiu do local antes que sufocasse com a fumaça densa, e fechou rapidamente a porta por trás de si, apoiando as costas nela só para ter certeza de que havia fechado.
Seu cabelo estava um ninho de ratos, suas roupas sujas e rasgadas e todo o corpo coberto de graxa e fuligem púrpura.
"Ok, ok" tentava relaxar e acalmar a respiração "Hora do Leo tirar uma soneca". E saiu pela floresta em direção ao chalé de Hefesto, sem ter certeza do que havia acontecido com a misteriosa esfera dentro do Buker.
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