Notas iniciais
Desculpem a demora.Espero que gostem.

Voltei pra dentro de casa ainda meio abalada e fui para o banheiro me olhar.Limpei o resto de maquiagem que ainda tinha e fui novamente para a cozinha:

_Você está bem?

Era minha mãe,passando a mão no meu cabelo e me olhando com afeto. Como eu queria que fosse assim todos os dias!Olhei em volta e vi as meninas almoçando,meu pai sentando no sofá com meu irmão,e minha irmã colocando a sua comida. Apesar de ter uma nuvem de tristeza pairando no ar,desejei ali,olhando pra todos, que a minha família fosse mais unida.

_Sim,estou bem – disse abrindo um sorriso.

Sai de perto dela antes que começasse a chorar e fui colocar a minha comida,bem pouca por que eu não estava realmente com fome. Enquanto comia,fiquei pensando em quanto eu deveria ser forte para ver a minha prima. De repente meu sentimento mudou e eu comecei a pensar no quanto ela deveria está tentando ser forte,por passar por tudo isso. Segurei meu choro e continuei comendo.

Quando todos acabaram subimos pro quarto e damos um toque final na maquiagem.Em menos de 10 minutos já estávamos todas no carro do meu pai,a caminho da casa da minha prima. As meninas contavam coisas sem sentidos para me fazer rir,e algumas vezes eu até ria mesmo,mas depois eu lembrava da minha prima e começava a me sentir culpada. Então parte da “viagem” até a casa dela,foi animada e todos nós rimos,inclusive meu pai,mas quando estávamos nos aproximando do nosso destino final,o carro foi ficando silencioso e parecia que ninguém estava disposto a quebrar o silêncio.Quando finalmente chegamos na casa da minha prima e enquanto meu pai estacionava o carro,fui perdendo a coragem e queria sair correndo dali.As meninas começaram a descer e meu pai desceu também,enquanto ligava pra minha Tia. Comecei a passar mal,minha respiração estava ficando ofegante,mas olhei para uma marca de duas mãos pequenas vermelhas,do lado da porta de entrada da casa e sorri. Eu me lembrava daquilo. Me lembrava que eu e a Paola,havíamos feito ali a nossa marca. Então comecei a ficar bem novamente e antes de descer meu celular vibrou.

“Você ainda continua linda e medrosa. Eu não sou um mostro. O que eu tenho,não vai passar pra você”

Levei um susto quando li o remetente. “Paola”

Olhei pra casa e vi alguém saindo rapidamente da janela.Sorri e sair do carro aliviada,por saber que ela continua a mesma brincalhona de sempre. Olhei pras meninas e elas sorriram. Ali era tudo tão familiar e a sensação que eu tinha era que teríamos um dia maravilhoso juntas. Quando olhei pra casa de novo,minha tia estava vindo,ela não estava aparentando ter apenas 30 anos,ela estava com uma expressão cansada que a deixava mais velha. Se não a conhecesse daria pra ela uns 47 anos. A doença não estava consumindo só a filha,mas também a mãe.

_Oii – Ela veio nos cumprimentar com um enorme sorriso amarelo no rosto – Como vocês estão?

_Bem – Ouvi as meninas disserem.

Depois se virou pra mim:

_Você está tão linda! – Ela me segurava pelo ombros – É uma pena que voltemos a nos ver nessas condições.

Eu não sabia o que falar então fiquei calada e abrir um sorriso meio sem graça e então ela me abraçou e parecia que não iria me soltar nunca. Depois ouvi meu pai chama lá:

_ Stela? Stela..

Então ela me soltou e se virou pro meu pai:

_Oh,desculpe a minha falta de educação. Vamos entrado,vamos.

_É,eu não posso.Tenho que ir trabalhar e mais tarde volto para buscar as meninas.

_Mas você não quer nem uma água,nem nada?

_Não precisa. Obrigada. – Ele se virou pra mim – Filha,fique bem e tenha um ótimo dia.

_Ta bom. – respondi secamente.

Ele então deu um tchau para as meninas e entrou no carro. É claro que eu achei aquela atitude muita grosseira. Como assim ele tinha dirigido até ali e não iria entrar? E não queria nem ver a Paola? Guardei meus pensamento,pois nada que eu falasse ali iria adiantar.

_Então vamos meninas? – Tia Stela disse,após meu pai ir embora.

Começamos a entrar na casa que tinha feito parte da minha infância. Era uma casa enorme que parecia aquelas de filme americanos. Alias a rua onde eles moravam ficava num condomínio que chamava USA,e tudo lembrava as ruas dos Estados Unidos. As casas não tinham muros e algumas tinham grades e todas tinham enormes jardins na frente e um grande quintal na parte de trás. A da minha tia era assim.Um grande jardim na frente e uma varanda. A medida que caminhávamos ali,para entrar na casa,mais lembranças me vinham a cabeça e uma saudade enorme me pegou com força. Eu queria voltar naquele tempo em que éramos crianças. Antes de entrar parei na porta e abaixei para ver de perto aquelas mãozinhas vermelhas. Coloquei a minha em cima e sorri ao perceber o quanto eu havia crescido,e como foi divertido aquele dia. Devo ter ficado ali muito tempo,por que minha tia apareceu na porta.

_Você não vem?

Olhei pra ela sem entender.

_Ah como eu me lembro desse dia!!! – Ela fez uma expressão pensativa e vi seus olhos encherem de lágrimas.

Me levantei:

_Foi um dia maravilhoso e hoje também será. Vamos?

Ela me olhou e me deu um sorriso cheio de afeto,assim como o que a minha mãe tinha me dado.E entramos. E a primeira coisa que eu vi foi uma mesa atrás do sofá,repleta de remédios. A sala tinha cheiro de hospital e as meninas estavam sentadas no sofá tomando alguma coisa. Me sentei e depois uma moça bonita,que provavelmente era a empregada me serviu água, o que eu pedi.

_Bom essa é a Janaina. Tivemos que contrata-lá para nos ajudar na casa,já que eu fico totalmente a disposição da Paola.

A moça sorriu e eu sorri de volta.

Fiquei observando a casa. Os moveis não tinham mudado muito e ainda havia marcas que lembravam que duas crianças arteiras e suas amigas passaram por ali. Mas aquela mesa cheia de remédio me intrigava.

_Ah,esses remédios – Minha tia disse,provavelmente por que percebeu que eu estava olhando – São todos da Paola. É que ela aceitou fazer testes para ver se algum tem alguma reação contra a doença.

Fiquei sem graça,por ela perceber meu olhar e não respondi nada.

_E o que ela exatamente tem? A Fernanda perguntou e eu achei grosseiro.

_Bom,os médicos ainda não descobriram exatamente o que é,mas há uma suspeita muito grande que seja leucemia.

_Entendo.

_E como ela está Tia?- Perguntei meio que com medo da resposta.

_Isso você tem que ver com seus próprios olhos.

_Ela está tão mal assim? A Cecí perguntou.

_Não. Ela não está tão mal fisicamente. Na verdade,quando vocês a verem nem vão acreditar que ela está doente.

_Não entendo.- Marina dessa vez.

Eu também não tinha entendido. Eu achava que ia ver uma prima de cama e que nem conseguia andar.

_Bom,é que a doença de Paola,não é na carne ou coisa do tipo. A doença de Paola é da Alma. É como se ela tivesse deixado de acreditar em si própria e estivesse esperando a sua morte. Então é como se ela gostasse disso tudo.

Aquilo não parecia ser a mesma Paola. Ela não era assim. Lembro que quando começamos a entrar na adolescência,eu era complexada e ela acreditava em si mesma. Por que isso tinha mudado? Realmente aquilo deveria ser mentira.

_Vocês não precisam acreditar em mim — Será que tia Stela ler pensamentos? – Ela estar no quarto. Subam lá e vejam com seus próprios olhos.

Olhei pra escada que subia para o segundo andar e me perdi no devaneio das lembranças. Me lembrei que eu e Paola costumávamos subir milhares de vezes aquela escada só para descer pelo corrimão. E que uma vez queríamos de toda forma imitar aquele filme o Diário da Princesa 2,em que a princesa dar uma festa do pijama e todas descem as escadas de colchão,e a rainha desce em pé,mostrando que entendia do assunto. Lembro que pegamos o colchão da Tia Stela e estávamos prontas pra descer,quando ela apareceu e nos impediu. Tivemos que arrumar toda a bagunça e ficamos com raiva dela por uns 10 minutos,até que ela veio ao quarto e nos ofereceu bolo de chocolate e tudo ficou bem.Como era bom aquela época! Eu não podia acreditar que a Paola tinha se tornado alguém que quisesse morrer,que tinha perdido a esperança na sua vida. Eu realmente teria que ver com os meus próprios olhos.Então me levantei:

_Vamos então meninas? Foi para isso que viemos não é?

As meninas se levantaram e seguimos para o segundo andar. A cada degrau que eu pisava ali,era uma lembrança nova que me carregava e me enchia de saudade novamente. Quando chegamos na porta do quarto dela,a segunda do corredor,ouvi que ela estava escutando um rock e aquilo já me preparava para o que eu iria ver. Uma Paola que havia deixado de ser meiga e se tornado alguém bem revoltado. Bati duas vezes na porta e esperei,mas nada aconteceu. A musica não abaixou,ninguém gritou nada lá de dentro e nem veio abrir a porta. Olhei pras meninas,que pareciam tão apreensivas quanto eu. Bati de novo,mais forte e nada. De novo e nada. Fiquei preocupada.

_Vamos entrar enh! – Gritei e ninguém respondeu.

Então girei a maçaneta e entrei. E foi uma baita surpresa.