Fernanda acordou com o toque insistente do celular. Era Ana. Ela esquecera completamente dela nessa confusão toda. E agora? Falar a verdade? Não. A Ana era impulsiva demais para ficar calada. Ao atender, Fernanda viu o quanto seria complicado manter segredo. Ela já começou falando que havia ligado para Caio assim que soubera do que aconteceu. Aparentemente os dois discutiram. Isso era uma coisa que Fernanda jamais imaginou. Eles eram amigos desde crianças. Imaginar os dois brigando doía o coração.

– Ana... Eu...

– Não Nanda... Você, mais que ninguém, sabe o quanto eu amo o Caio e que sempre fiquei ao lado dele, mas ELE ESTÁ ERRADO. Como ele pode desconfiar que você... Será que ele não lembra o que você passou por ele não?

– Ana, parece que tudo foi feito de uma maneira que não deixasse dúvidas na cabeça dele. Você sabe o quanto ele é ciumento...

– Foda-se o ciúmes dele. Ele precisa aprender a confiar em você, caramba. – Fernanda suspirou pensando que seria complicado manter essa mentira por mais tempo. – Desculpe. Não deveria estar falando assim com você. Minha raiva é com ele.

– Tu-Tudo bem.

– Como a Cristina está lidando com tudo isso?

– Ela está passando férias na fazenda com o Júlio. Lembra? Apresentei a você.

– Sim, lembro sim. Que bom, ao menos dá tempo de tentar reverter essa situação toda, antes de ela voltar. Bom, tenho que resolver umas coisas. Quando eu estiver mais folgada, passo aí pra gente conversar melhor. Fica bem.

– Fico sim, pode deixar.

Antes de levantar, Fernanda ainda recebeu mais duas ligações. Uma delas era do Tião. Ele não foi rude, mas também não foi assim tão amigável. Fernanda teve a impressão de que ele estava ligando apenas para saber se os boatos eram verdade ou não.

Ela estava cansada de mentir pra todo mundo. Sabia que Tião daria com a língua nos dentes assim que colocasse a primeira garrafa de cerveja no corpo, então deixou que ele falasse o que bem quisesse. Mas não pode pensar que, caso tudo aquilo fosse verdade, no quanto ela estaria sozinha de uma hora pra outra. Aquilo fez com que seu corpo todo tremesse de medo. Respirou fundo e falou a Tião que precisava desligar para que não falasse o que não devia. Sob protestos Tião desligou, mas não sem antes jurar que se tudo aquilo realmente fosse verdade, Fernanda iria perder tudo que tinha, mas prometeu, assim mesmo, analisar os e-mails. De alguma forma ele ainda esperava que tudo aquilo não passasse de uma mentira para separar os dois e deixar Caio vulnerável.

As palavras de Tião bateram na cabeça de Fernanda como um furacão. E se... Se Aguiar estivesse querendo se vingar do Caio e não dela? Mas... Não tinha como... Quer dizer, quem fez mais mal a Pedro foi a própria Fernanda terminando o relacionamento. Não... Aquilo era loucura da cabeça dela. Suspirou, levantou, tomou o banho matinal e foi até a cozinha.

Inês já havia saído há algum tempo. Fernanda precisaria agradecer a ela de maneira mais digna. O que Inês estava fazendo quase ninguém mais faria. Fernanda estava terminando de preparar seu café quando a portaria anunciou que Rui estava subindo.

Fernanda não estava preparada para vê-lo cara a cara. E se ele notasse que tudo era apenas uma mentira? Uma armadilha? Mas antes mesmo dela pensar no que falar, a campainha toca. Mal Fernanda teve tempo de pensar em como iria recebê-lo.

– Nanda? Tá tudo bem? – Ele a abraçou forte. Seria mais difícil do que Fernanda pensou.

– Estou sim Rui. – Ela falou com lágrimas nos olhos.

– Olha... Não... Droga. Eu sei que é tudo um enorme engano. DROGA. Deve ser coisa daquele Aguiar. – Rui falou irritado.

– Do... Do Aguiar? Rui... – Fernanda na verdade estava lagrimando por não poder falar nada e estava angustiada com isso. Mas ao ver o quão perto Rui estava de descobrir a verdade, ficou preocupada.

– Claro. Você é toda apaixonadinha e ingênua e não notou a forma como aquele cara olhava pra você. Por várias vezes, eu o peguei te analisando, com um olhar distante, como se tramasse alguma coisa. Eu falei pro Caio pra ele se livrar do cara, mas...

– Você sabe de alguma coisa? – Fernanda havia esquecido o quanto Rui era observador e inteligente. Agora mesmo que eles não podiam dar um passo errado.

– Não, mas eu comecei uma investigação própria pra saber de onde esses e-mails estão chegando.

– Ainda estão chegando?

– Pararam depois da briga de vocês, dias atrás. – Rui não sabia, mas aquela informação deu uma sensação de triunfo na amiga. – Mas isso não vai me fazer parar não. Vou continuar investigando e quando souber de alguma coisa, eu te aviso. Vai dar tudo certo. Voce vai ver. E aquele turrão do Caio vai precisar de um mar de diamantes pra te pedir desculpas.

– Obrigada... Mas ele pedindo desculpas já estará de bom tamanho. – Fernanda falou depois de uma boa gargalhada.

– Vai, descansa. Eu vou pro escritório. Juro que vou tentar falar com ele mais uma vez. Amo aquele filho da puta, mas oh homem turrão.

Rui se despediu de Fernanda e saiu. No mesmo instante, Fernanda ligou para Paulo. Depois da conversa com Caio se decidiu aceitar a proposta. Realmente era uma proposta muito boa.

– Universidade Joana D’Arc, Juliana, bom dia.

– Han... Bom dia Juliana. O Sr. Paulo está? Me chamo Fernanda Costa e ele...

– Ah sim, professora Fernanda, ele estava esperando sua ligação apenas para a semana que vem, mas vou avisar que é a Sra. – Fernanda ficou pensando que ele já deveria saber que ela aceitaria a proposta.

– Fernanda Costa. Estava esperando sua ligação apenas para a semana que vem, mas que bom que ligou. Então isso é um sinal de resposta positiva?

– É. É um sim.

– Mas isso... Isso é maravilhoso. Tenho certeza que a professora... Posso chamá-la assim?

– Pode sim.

– Tenho certeza que você não vai se arrepender. Vou começar agora mesmo a preparar os documentos. Em um mês, mais ou menos, tudo estará pronto para a senhora assinar o contrato.

Fernanda desligou animada e logo ligou no número privado e irrastreável para Caio para contar a boa nova e para matar um pouco a saudade.

– Alô? Amor? Aconteceu alguma coisa?

– Não, não aconteceu nada... Quer dizer... Liguei para o pessoal da UJD.

– E?

– Professora Fernanda ao seu dispor.

– Ei amor, isso sim é uma ótima notícia. Quando você começa?

– Então, falei com o Sr. Paulo e ele me avisou que primeiro iria preparar todos os documentos e que demoraria mais ou menos um mês. Acho que até lá essa confusão toda já tenha acabado.

– Espero. Então, o que me conta de novo?

– Amor... A Ana me ligou...

– É... Eu não tive uma conversa muito agradável com ela. Droga. – Fernanda notou o quanto Caio estava frustrado.

– O Rui também passou aqui.

– O Rui? O que ele queria?

– Ver como eu estava. Han... Amor... Ele vai chegar ai e vai te confrontar novamente. Tenta... Parecer... Sei lá, triste.

– Estando dormindo sozinho por duas noites? Não vai ser difícil. Me diz porque a gente aceitou fazer essa loucura novamente?

– Caio...

– Eu sei... Eu sei. Mas é que... Desde que tudo isso começou, tenho sentido uma sensação muito ruim em relação a você. Droga, se alguma te acontecer; se eu perder você...

– Você não vai me perder. Vamos confiar no plano e mais importante, vamos confiar um no outro, certo?

– Tudo bem. E aí? O que vai fazer agora?

– Vou sair pra comprar umas coisas que estão faltando. Hoje à noite quando você vier, quero preparar aquela carne de forno que você tanto gosta. Não posso ficar gastando as coisas da Inês, não?

– É verdade. Só toma cuidado. Tá com os localizadores, não?

– Sim, estou. Com o da bolsa, do cordão e o brinco.

– Ótimo, se alguma coisa acontecer, já sabe. Liga que logo estarei com você, onde quer que você esteja. Eu te amo. Tenho que desligar. Rui está chegando.

Assim que Fernanda desligou, Caio voltou a sentir a sensação de que alguma coisa de errado iria acontecer. Isso o fez ficar preocupado. Levantou-se e ficou olhando da porta da varanda de sua sala. Foi o tempo exato de Rui chegar à sua sala. Ele sabia que a conversa seria muito complicada. Suspirou.

– E aí? – Rui falou baixo e com cuidado.

– Bom dia Rui. – Caio falou se virando e voltando a sentar em sua cadeira.

– Nossa cara... Você está péssimo.

– Sério? Não tinha notado isso... – Ele estava tentando ser o mais sarcástico possível

– Caio... Cara... É visível que você não está bem. Conversa com ela... Vai lá... Na Inês.

– Pra quê? Pra ela me falar mais mentiras?

– Não. Ela não está mentindo pra você, você não enxerga isso?

– A única coisa que eu enxergo é uma mentira deslavada dela. – Caio falou sem menos convicção propositalmente. – Sabe o que mais me dói? É o amor que eu ainda sinto por ela.

– Então cara... Liga pra ela. — Caio não pode deixar de se sentir grato por ter um amigo tão fiel quanto Rui.

– Eu não sei...

– Vai lá... Sei que você sente a maior falta dela.

Enquanto Caio tinha essa conversa com Rui, Fernanda, do outro lado da cidade, saiu para caminhar. Ela poderia ter pego sua bicicleta, seria ótimo também, mas ela sentia falta de caminhar.

Estava com uma trança lateral, seu cabelo estava grande novamente e agora dava pra ela fazer uma trança legal. Calça de moletom e uma camiseta simples. Roupas de caminhada. Ela estava distraída. Conversar com Caio sempre a deixava assim. E isso a impediu de prestar atenção ao seu redor.

Henrique estava fazendo vigia há dois dias na frente do condomínio para saber os horários dela. Por azar aquela era a primeira vez que ele via Fernanda fora do condomínio e não poderia perder mais tempo. Assim que a avistou tratou de ligar para os outros carros que estavam por perto.

No escritório, Caio pega o telefone e começa a discar o número de Fernanda. O que todos conhecem. O que estava rastreado por Aguiar. Rui ficou ao lado do amigo dando forças para que ele não desistisse.

Fernanda estava olhando a vitrine de uma sapataria que tinha perto do mercadinho. Ao mesmo tempo, três carros: um perto, um vermelho e uma SVU branca param no sinal. Fernanda não deu muita importância para o fato. Estava preocupada em procurar o celular dentro da bolsa que insistentemente tocava. Ela sabia que era Caio pelo toque.

Assim que ela achou o celular, saíram da SVU três homens grandes e altos indo na direção dela rápido. Ela assim que levantou a cabeça atendendo ao celular os avistou.

– Alô? EI, O QUE É ISSO? SOCORROOOO.

Caio, do outro lado, sabia que aquilo não fazia parte do combinado. Escutando os gritos da mulher ficou sem reação.

– ME LARGA... SOCORRO... CAIO SOCORRO...

– Fernanda? FERNANDA – Ele começou a gritar o nome da mulher desesperado.

– O que foi cara?

– A Fernanda, cara. Aconteceu alguma coisa com ela. – Ele falou correndo para o carro com Rui atrás dele.

– Como assim?

– Assim que ela atendeu... Começou a gritar para que a soltassem.

– Como assim? Quem?

– Eu não sei Rui. – Caio acelerava o máximo que podia seu carro para o apartamento da Inês.

Fernanda foi levada para dentro da SVU branca que saiu o mais rápido possível do condomínio. Trataram logo de usar um sonífero nela para que ela parasse de gritar. Portanto, ela não pode ligar o sinalizador. A sua bolsa estava jogada no chão perto da calçada de onde ela foi levada.

Caio chegou no local. Parou no acostamento e saiu correndo procurando alguma coisa. Ao mesmo tempo ligou do seu celular para Thiago e Matheus avisando o que havia acontecido. Em vinte minutos eles estavam estacionando atrás do carro de Caio.

Rui e Caio estavam andando por lados opostos. O quarteirão era grande. Caio foi da saída do condomínio, caminhando para ver se encontrava alguma coisa. Rui vinha no sentido contrário. Antes de tudo, Caio ficou conversando muito tempo com o vigia que era seu antigo conhecido. Ele não havia visto nada de estranho até escutar os gritos de Fernanda. Tentou correr para ajudá-la, mas assim que se levantou sentiu uma dor aguda na sua nuca e desmaiou na mesma hora.

Caio agradeceu, disse para o homem ir a um hospital e saiu andando no caminho que Fernanda pegou. Passou pelas mesmas lojas que ela vira enquanto caminhava. Ao longe avistou Rui, Thiago e Matheus. Caio cumprimentou de maneira cordial Thiago deixando Rui confuso. Mas isso ficaria pra depois, pois ao olhar para um canto da rua, Rui avistou algo que ele conhecia muito bem – A bolsa da Fernanda.

– CAIO... Olha ali.

– A bolsa dela. – Ele saiu correndo pegando a bolsa do meio-fio. – Droga Thiago... O localizador tá aqui dentro.

– Vê se o celular privado tá por ai?

– Não. Será que ela deixou no apartamento?

– Duvido. Falei pra ela ficar com o celular o tempo todo.

– Alguém pode me dizer o que está acontecendo aqui? – Rui estava irritado.

– Rui... Foi tudo uma invenção da Fernanda cara. – Thiago falou olhando direto um aparelho.

– Oi? Era... Era tudo UMA MENTIRA? Caio? Que porra é essa?

– Rui, cara, eu não queria mentir pra ninguém, mas a ideia maluca da Fernanda só funcionaria se ninguém soubesse. Ou pelo menos quase ninguém. Era preciso, necessário que as pessoas, principalmente o Aguiar, soubessem e acreditassem que nós estávamos separados entendeu?

– Sim, mas... Por que?

– Rui, o Aguiar é irmão do Pedro. – Thiago falou baixo olhando pra ele.

– Como é? Aguiar é irmão do Pedro? Então...

– Então foi ele quem levou a Fernanda.

– Mas que porra que essa família tem com a Fernanda?

– Não Rui. Na verdade, Aguiar não liga muito pra Fernanda. Olha, ele é dono de uma rede de tráfico de mulheres com sede Amsterdã. Nós vemos monitorando ele desde o início do ano, quando o Marcelo começou as investigações. Ele chamou a Fernanda para ajudar e foi ela que descobriu tudo, entende? Estamos desconfiados que foi ele quem matou o Marcelo. Tem mais ou menos um, dois meses que a Fernanda teve essa ideia maluca, entende?

– De... De ser... Cobaia pra um monstro? CAIO, como você deixou a Fernanda, SUA MULHER, fazer isso?

– E você acha que eu consegui fazer com que ela mudasse de ideia? – Caio falou irritado para Rui.

– Mas... Mas e agora?

– Ela está com um rastreador no corpo, na verdade dois. Estamos esperando que ela mande notícias através dele. E também, estamos torcendo para que o celular que demos pra ela, esteja com ela. Mas...

– Mas...

– Ela está demorando pra mandar o sinal. A essa altura já era pra ela ter dado sinal de vida.

– Se alguma coisa acontecer com ela... – Caio estava com as mãos no pescoço de Thiago. A voz dele estava grossa e baixa.

– Caio? – Falaram tanto Rui quanto Matheus. Eles estavam puxando as mãos de Caio do pescoço de Thiago que já estava arfando.

– Ela... Ela...

Fernanda foi acordando lentamente. À medida que acordava sentia uma forte dor de cabeça e parecia que estava muito tonta, mas na verdade ela estava dentro de um barco. Estava em uma cabine muito luxuosa e confortável, deitada numa cama enorme. Ela se lembrou na mesma hora de sua lancha, e foi quando lembrou de tudo que aconteceu.

Procurou o celular privado e viu que estava sem sinal. Mas lembrou do localizador. Ligou tanto o do cordão quanto o em forma de brinco. Ficou deitada ainda por um bom tempo para ver se a dor de cabeça passava. Levantou e tomou muita água antes de escutar passos descendo uma escada e abrindo a porta.

Ela se afastou sentando na cama esperando ver Henrique na sua frente, mas quem entrou foi Aguiar. Passou bons cinco minutos olhando pra ela sem falar nada. Ela encolhida em cima da cama.

– Você não sabe o prazer que eu sinto ao lhe ver desprotegida dessa forma.

– Onde... Onde estamos?

– Em alto mar.

– Pra onde estamos indo? – Fernanda estava tonta demais para pensar no perigo que estava passando.

– Para a sua nova vida. – Aguiar falou saindo da cabine e deixando Fernanda sozinha. Ela ainda tentou abrir a porta, mas devido ao sonífero e ao balanço do mar, se sentiu mal e acabou desmaiando.

Onde estavam, Caio e Thiago escutaram o barulho do sinalizador. Ambos olharam para a direção do aparelho.

– Preparado?

– Vamos trazer a minha mulher de volta.