Durante as semanas que se seguiram, Caio e Fernanda estavam tentando ao máximo não pensar em nada que pudesse deixá-los expostos. Caio manteve o plano chegando todos os dias ao escritório com o pior humor que pudesse ter. Não era difícil. Era só pensar no que a sua mulher estava prestes a fazer.

Ele aproveitou e usou os e-mails que chegavam para deixar Aguiar o mais seguro possível. Todos os dias, ele fazia comentários para Rui, que até então não sabia de nada, do quanto a relação dele com Fernanda estava abalada por causa desses e-mails. Que estavam brigando demais por isso.

Rui começou a ficar preocupado com o casamento do amigo. Várias vezes entrou em contato com Fernanda, que mesmo com peso na consciência, mantinha o plano. Quando Caio falou e mostrou os e-mails pra ela, logo ele pensou em deletá-los, mas Fernanda achou que aqueles e-mails foram providenciais.

Por mais que eles se esforçassem, Aguiar não estava acreditando muito. Sempre perguntava como estava o casamento de forma divertida e falava que isso era briguinha de casal, que não era nada demais. Caio sentia que ele estava receoso em agir, justamente por saber que, por mais que ele afirme que seu casamento está em um momento ruim, eles nunca se separariam.

Aguiar se mantinha distante. Claro que estava gostando de ver que enfim seus e-mails estavam funcionando, mas Fernanda ainda estava constantemente protegida. E ele não se atreveria a encarar os seguranças altamente treinados. Ele precisava do momento perfeito.

Fernanda sabia que seria preciso mais que apenas rumores para fazer Aguiar agir. Sendo irmão de Pedro, ele jamais seria impulsivo. Não, ele esperaria o momento perfeito, assim como o irmão esperou quando a levou para a cabana. Por conta disso, passava noites e noites pensando em como fazer para chamar a atenção de Aguiar da maneira certa.

Sem sono, levantou e foi para a sala de treinamento que Caio preparou para ela. Vestiu uma roupa leve e começou um treinamento pesado para ver se ficava logo cansada. Pegou seu mp3 player e colocou a trilha sonora do filme Divergente, que estava no cinema e começou seu treino. Estava socando forte um saco de areia, quando tentou repassar as cenas de seu sequestro. Ainda guardava uma pequena cicatriz no ombro daquelas semanas. Relembrou daquele dia como se fosse o tempo presente.

Ela estava sozinha no escritório. Naquele dia havia combinado de encontrar Caio mais tarde, pois precisava terminar umas peças processuais. Foi um dia que todos estavam em audiência. Não se lembrava bem do dia da semana, mas sabia que foi um dia que estava sozinha no escritório. Eduardo, seu antigo segurança, nunca ficava dentro do prédio, ficava num café que havia em frente. Não foi difícil para Pedro chegar perto dela. Além do mais, Pedro sempre teve acesso fácil a quase todos os escritórios do prédio pelo fato de ser juiz e quase todos o conhecerem por lá.

Cansada parou segurando o saco de areia para não se machucar. Desligou o mp3 e descobriu o quanto estava suada e cansada. Pegou uma arma e foi para os fundos da propriedade treinar mais um pouco de tiro. Ainda não era uma exímia conhecedora de armas, mas sabia que a sua era uma Desert Eagle modificada para uma mulher poder usar. A facilidade de a pistola poder usar quase qualquer munição existente, foi o que levou Caio a gastar uma fortuna nela. Entrou na pequena sala, que uma vez foi uma pequena academia, fechou a porta e começou a treinar tiro. Nos fones de ouvidos, continuou com a trilha sonora. Ela lembra de ter lido os três livros em apenas uma semana e nunca havia chorado tanto numa história quanto naquela.

Novamente imagens daquelas semanas apareceram na memória de Fernanda. Mesmo depois de tanto tempo, algumas coisas ainda pareciam que havia sofrido ontem. Lembrou particularmente dos cachorros ao seu redor prontos para atacar a um só sinal. Ela nunca tivera tanto medo na vida. Aqueles dias foram os piores por imaginar que Caio estivesse morto. Lembrou de que, quando acordou viu o sangue de Caio na sua roupa. O desespero que sentiu foi sufocante.

À medida que as memórias voltavam, a raiva começou a aparecer com mais força. Isso a fazia atirar mais e mais. E cada vez mais no alvo. Poucas vezes ela errava agora. Ficou imaginando Pedro a tocando da forma como ele fez, e isso a irritava mais ainda. Estava terminando o primeiro conjunto de munição quando Caio apareceu ao seu lado. Parou de atirar e tirou os fones.

– Você melhorou bastante. – Ele falou ainda com sono.

– É fácil... É só pensar que aquele papel ali é o Pedro. – Ela falou com um pouco de irritação na voz.

– Nós nunca falamos daquelas semanas que você...

– Eu sei. – Ela falou travando a pistola e colocando em cima de uma mesa.

– Nanda... Acho que já tá na hora de a gente conversar sobre isso. – Caio falou sentando na cadeira.

– Acredite... Não há nada para conversarmos. – Ela falou sentando ao seu lado.

– Eu sei que você pensou que eu estava morto e...

– Caio... Você não imagina o que foram aquelas semanas naquela cabana. Eu não estava ligando muito para o que iria acontecer comigo. Na minha cabeça eu havia perdido você. – Caio notou os olhos da mulher úmidos.

– Eu sei que deveria...

– Deveria? Como? Voce estava no hospital, sedado, com o braço imobilizado devido ao tiro que levou daquele porco. Como você poderia sequer ter feito qualquer coisa? – Ela estava chorando e nem havia notado.

– Ei... Ei... Vem cá. – Ele falou abraçando forte Fernanda.

– Eu estava querendo morrer. – Ela falou abraçando-o apertado.

– Eu sei... Tudo isso não teria acontecido se eu não tivesse deixado você sozinha e... – Ele começou a falar quando de repente Fernanda olhou pra ele com os olhos arregalados.

– Amor... Você é um gênio. – Fernanda falou de repente sem deixar Caio terminar.

– Oi?

– Claro... Você não vê? Como foi que eu não tinha pensado nisso antes. – Fernanda falou correndo para pegar seu celular. Por mais tarde que fosse, Tiago estava acostumado a acordar no meio da noite.

– Nisso o quê? Posso saber no que você está pensando? – Caio falou olhando sem entender o que Fernanda estava fazendo.

– Alô? Sou eu Tiago. Não, está tudo bem sim. Escute, você pode vir aqui? É, agora. Acho que descobri uma maneira de fazer o plano funcionar. Sim, ele está aqui sim. Na verdade, foi ele quem me deu a ideia. Certo. – Fernanda desligou o celular.

– Agora você vai me falar o que está passando por essa cabeça maluca?

– Mais tarde, vamos, temos que arrumar umas coisas. Tiago está vindo aí.

Fernanda saiu da sala o mais rápido possível correndo para o escritório para pegar tudo que tinha sobre seu sequestro. O inquérito, que o delegado na época fez era um dos mais completos que ela já vira. Tiago, usando de sua influência conseguiu uma cópia para Fernanda. Ela jamais imaginou que aquelas páginas fossem ajudá-la novamente.

Caio olhava sua mulher com preocupação. Conhecia o olhar que Fernanda estava fazendo. Sinal de que teve uma ideia brilhante, mas também muito perigosa. Mas há semanas ele vinha observando a melhora dela em luta e tiro. Ele estava muito mais tranquilo por isso, mas ainda assim, velhos hábitos eram difíceis de mudar. Se preocupava com o que poderia acontecer com ela. Ele havia combinado com o plano de Tiago e Mateus, mas já havia deixado bem claro, que se alguma coisa acontecesse com Fernanda, ele não pensaria duas vezes em mandar os dois e quem mais quer que fosse para o inferno.

Olhando aquelas páginas, Caio estava vivendo aquelas semanas novamente. Aquele episódio seria difícil de apagar de sua memória. Ele estava morrendo de medo do que Fernanda estava pensando, mas vendo a ordem pela qual ela estava arrumando as informações começou a desconfiar do que seria. Não pode deixar de admirar sua mulher. Além de linda, era uma das mulheres mais inteligentes que ele já conhecera. Sentou-se ao seu lado no chão e ajudou-a na organização.

Passava das quatro e meia da manhã quando Tiago entrou na propriedade deles. Fernanda notou que ele não estava com sono nem aparentava cansaço. Abraçou afetuosamente seu amigo.

– Que bom que você veio. – Ela falou depois do abraço.

– Você sabe que, mesmo sabendo que essa é a única saída para que eu possa colocar esse cara atrás das grades, colocar você em perigo é a última coisa que eu quero, não sabe?

– Espero que você esteja certo de que, se acontecer alguma coisa com ela, eu não me responsabilizo pelos meus atos. – Caio apertou forte a mão de Tiago.

– Ei, nada de vocês dois se matarem ainda. Venham. Vamos aproveitar essa reunião e vou fazer um café da manhã fortificado. O que eu tenho pra dizer vai precisar de algo forte.

– Você sabe do que ela está falando? – Tiago perguntou para Caio baixo.

– Não, mas tenho certeza que nós dois não vamos gostar nada.

Caio e Tiago entraram na casa logo depois de Fernanda. Eles foram para a cozinha enquanto ela preparava um café. Tiago ainda se lembrava do quanto o café de Fernanda era forte e gostoso. As noites em claro que eles dois passavam estudando, fizera com que ela aprendesse a fazer um delicioso café.

Caio, por sua vez, fez seu delicioso omelete para que Tiago pudesse provar. Esquentou o pão no forno e preparou uns ovos mexidos que somente ele sabia fazer. Enquanto eles tomavam café, falaram sobre amenidades. Fernanda lembrou dos tempos de faculdade e contou alguns micos que pagou nas salas de aulas nos primeiros períodos. Caio rindo dizia que não podia acreditar que ela era a mesma mulher com quem havia se casado.

Tiago lembrou ainda das meninas que morriam de inveja de Fernanda. Sempre uma das melhores alunas da turma e uma das mais bonitas também. Lembrou uma vez de um professor que havia ficado apaixonado por ela, o que fez com que as meninas levassem o caso para a coordenação. Fernanda contou que ele nunca havia tentado nada explicito, mas que era claro o fato de ela ser a preferida dele. Caio, sempre escutando. Algumas vezes demonstrava ciúmes, mas na maioria das vezes começava a rir.

Ele também contou coisas do tempo de faculdade dele. Que havia um cara que sempre o chamava de playboy metido e que sempre o irritava de toda forma possível. Contou também que havia algumas meninas que davam em cima dele, mas que nunca se envolveu com ninguém de seu curso. Achava as meninas fúteis demais. Era início dos anos 2000 e elas estavam na onda dos Backstreet Boys e outras bandas de garotos querendo ser garotas. Fernanda avisou para ele tomar cuidado com o que falava dos caras, pois ela também era fanática por eles.

– Acredite cara, você não iria ter gostado de conhecê-la naquela época. Era irritante. Ela vivia falando que iria casar com sei lá quem deles. – Tiago falou ao ver a cara de nojo que Caio fez quando a mulher falou aquilo.

– Brian. Era o Brian. – Fernanda falou olhando feio para os dois homens à sua frente.

Depois do café, os três se encaminharam para o escritório. Ao entrarem, Tiago tomou um susto. Vários papeis espalhados pelo chão e em cima da mesa.

– Meu Deus, passou um furacão aqui?

– Passou sim. Um F5 por nome de Fernanda. – Caio falou rindo.

Fernanda apenas mostrou a língua pro marido e sentou-se no chão para organizar mais uma vez os papeis que queria que Tiago visse. Eram partes do inquérito. Pontos específicos. Pontos esses, que Tiago não poderia deixar passar.

– Fernanda, aqui é somente o relato de como ele te encontrou, e a forma como tudo aconteceu, é isso mesmo?

Fernanda apenas olhando pra ele. Sabia que Tiago estava analisando todas as informações possíveis da maneira mais racional que poderia fazer.

– Amor, você acha mesmo...

– Se ele for mesmo quem suspeitamos...

– Você está me falando que seu plano é simplesmente ficar de bobeira? Qual é Nanda... Você não pode estar falando sério.

– Obrigado. Nossa, alguém nessa sala pensa como eu. – Caio falou apertando a mão de Tiago aliviado.

– Vocês querem que isso termine ou não?

– Sim, Fernanda, mas daí deixar você de bobeira...

– Ah Ti, qual é... Não será pra valer... Eu não vou ESTAR de bobeira, e sim PARECER de bobeira. Mas para o que eu estou pensando, quanto menos pessoas souberem, melhor. A ideia das brigas está funcionando, mas nem tanto. Caio tem me falado que Aguiar deixou de se preocupar com o fato de ele chegar todo dia mau humorado no escritório. Nós vamos precisar agir se quisermos que aconteça alguma coisa.

– Vocês dois são loucos, mas vamos ver o que vai acontecer.

Os três ficaram até quase o meio dia do domingo tramando como aconteceria tudo. Para isso, Fernanda teria que fazer algumas coisas e usar seu poder de persuasão para poder parecer culpada. O problema era de como fazer para que Cristina não fosse afetada nesse processo todo. Agora Fernanda tinha uma prioridade maior que a própria vida.

Ligou para Júlio. Ele seria uma das pessoas que saberia do segredo. E antecipou as férias da filha na fazenda da família em pelo menos duas semanas.

Era hora de agir.