Fernanda E Caio - O Político.
9 Capítulo 09
Fernanda passou mais ou menos duas semanas internada. Inês, Gustavo e Tiago a visitavam com frequência durante aqueles dias e Caio mal saía de perto dela. Isso ocorria apenas quando ele tinha que buscar Cristina no colégio. Aquelas semanas ela dormiu com Inês. Ela ficava com o pai e a mãe no hospital a tarde toda enquanto Fernanda se recuperava.
– Mamãe, por que você está dodói?
– A mamãe comeu algo ruim, filha. Aí a mamãe ficou doente. Lembra que disse que não era para comer nada estranho fora de casa? Por isso.
– Papai, por que você ainda não levou a mamãe pra casa?
– É porque o tio doutor tem que falar que ela pode ir.
À noite era sempre a mesma história, Cristina querendo ficar para dormir com a mãe, mas o hospital proibia a permanência de crianças em seus ambientes depois do horário de visita.
Naquele dia, o médico entrou para mais uma vez olhar o estado de Fernanda. Ela havia melhorado bastante e os remédios logo fizeram efeito. Ela teria que tomá-los por mais dois meses, e seguir uma dieta com comidas leves e saudáveis, além de evitar ficar sem comer durante muitas horas seguidas.
– Quando vou poder ir para casa, doutor?
– Logo, eu lhe garanto. – Falou o médico saindo do quarto sorrindo para os dois.
– Sabia que você me deu o maior susto? Estava no escritório quando Inês ligou dizendo que você estava internada.
– Agora eu sei porque me sentia tão mal...
– Não foi somente eu quem tomou um susto. A Inês e até mesmo o Tiago ficaram preocu... – Caio observou que sua mulher estava de cabeça baixa suspirando baixo. – Amor?
– Ela... Ela estava logo ali, ao alcance de um toque de mãos. Estava sorrindo. Aquele sorriso que só ela sabia dar. – O que Fernanda estava falando não passava de um sussurro, mas Caio sabia exatamente do que se tratava. – Parecia tão real. – Fernanda olhou pra ele com lágrimas nos olhos.
– Fernanda... Eu... – Caio sabia que precisava consolar Fernanda. Claro que já a vira chorando, mas foi poucas vezes. Não estava acostumado com isso.
Ele não sabia como lidar com essa situação. Sabia que Fernanda sentia falta de Cristina. Alguma coisa no olhar da mulher mudara desde que ela soube que sua amiga havia morrido, e tentava ao máximo melhorar a saudade de Fernanda. Ele mesmo passou anos sentindo falta de Amanda sem saber o que fazer para diminuir essa falta na vida dele. Até Fernanda aparecer em sua vida.
Caio abraçou forte sua mulher sem falar nada. Sabia que nessas horas, nenhuma palavra de conforto ajudaria. Deitou-se ao lado de sua mulher e a deixou chorando o tempo que achou necessário. Ela adormeceu em seus braços.
Quando acordou reclamou ao médico que ainda sentia dor no estômago. O médico falou que essa dor era normal para quem teve esse tipo de bactéria, por isso ela não poderia ficar com o estômago vazio por muito tempo. Soube também que com os remédios que estava tomando logo esse incômodo passaria.
Naquele mesmo dia Fernanda recebeu alta. Caio a levou para casa imediatamente. Quando chegaram em casa, Fernanda foi direto para seu quarto tomar um banho e vestir roupas que não estivesse com cheiro de hospital. Maria, antes de ir embora, fez uma sopa de carne com legumes grossa para que ela pudesse jantar.
Inês levou Cristina para casa, que correu para se deitar com a mãe reclamando de saudade. Inês ainda ficou uma hora mais ou menos recebendo instruções de Caio sobre a dieta que Fernanda teria que seguir. Ele sabia que Fernanda sempre dava um jeito de burlar suas ordens, mas com Inês ajudando, seria praticamente impossível que isso acontecesse.
Fernanda não demorou muito a dormir depois que ficaram sozinhos. Cristina adormeceu abraçada a ela. Eles ainda ficaram conversando, mas logo Fernanda também caiu no sono. Caio demorou para dormir. Ficou observando sua família deitada na cama. Cristina era a cópia da mãe. Cor da pele, cabelos, formato do rosto. Mas a cor dos olhos e o gênio herdou dele. Ele sabia que Fernanda teria trabalho com ela quando ela crescesse mais, e sorria sempre que pensava nisso. Suspirou. Faria qualquer coisa para que sua família ficasse a salvo. Levantou-se, trocou de roupa e se deitou abraçando a mulher e a filha. Não demorou a cair no sono também.
Depois de uma semana em casa, estava na hora de Fernanda voltar ao trabalho. Caio protestou, mas Fernanda, desta vez bateu o pé falando que já estava melhor e que poderia enfrentar o dia de trabalho. Afinal, eram apenas quatro horas com duas turmas, o que de mal poderia acontecer? Mas teve que prometer que iria largar a turma de atualização jurídica, que ela ficaria apenas com as turmas de concursos. Somente depois da promessa foi que Caio a levou.
Ainda não queria pegar no carro. Os remédios a deixavam com sono e temia adormecer no volante. Então, os dias de Caio ficaram em deixar a filha no colégio e a mulher no trabalho para somente depois ir trabalhar. Ele não reclamou. Pelo contrário, estava adorando passar esse curto espaço de tempo com a mulher e a filha.
O ritmo de suas aulas diminuiu bastante. Fernanda ainda odiava usar os slides e evitava ao máximo. Passava mais exercícios e não ficava mais tanto tempo em pé. E sempre, sempre carregava uma fruta e uma garrafa de água para as aulas.
Uma semana depois de Fernanda ter voltado, Henrique se encontrava num mau humor horrível. Aguentara as aulas do professor substituto apenas por ter esperança de Fernanda voltar a dar as aulas, mas quando a viu chegando ao cursinho e esta não entrou em sala para sua aula, Henrique descobriu que ela não era mais a professora titular. Irritado, ficou durante horas a esperando do lado de fora do cursinho num dia que não teria aula.
– Aí está você. Achei que ainda estivesse no hospital. – Ele falou sorrindo forçado.
– Saí tem umas semanas. – Fernanda falou sem olhar diretamente para ele.
– Hum. Você então tem feito somente trabalhos administrativos, não?
– Na verdade tenho dado aulas. – Fernanda olhou de relance para Henrique pensando no motivo de ele ainda não ter ido embora.
– Aulas? Então por que a turma ainda tem tido aulas com aquele incompetente?
– Tenho certeza que Cláudio é um ótimo professor, Henrique. Eu mesma o indiquei para ficar no meu lugar. Ele será seu professor de agora em diante. Saí da atualização. Eram aulas demais acumuladas e eu não estou mais com disposição para encarar uma aula atrás da outra.
– Você... Saiu? Como assim você saiu? – O controle de Henrique começou a falhar e ele começou a falar mais alto. Algumas pessoas que estavam perto começaram a olhar para ele. – Você não pode simplesmente... SAIR.
– Tanto posso, que você agora está tendo aula com outro professor. – Fernanda estava nervosa. Ela odiava cenas. Não gostava quando Caio fazia isso, odiava mais ainda quando era uma pessoa que ela não gostava.
– Que se foda. – Henrique falou gritando impedindo-a de sair de perto. – Você NÃO pode deixar aquela turma assim, de repente.
Fernanda sentiu que a situação estava fugindo do controle. Todas as vezes que ela tentava se afastar dele, ele a impedia de alguma forma. Ela não estava completamente curada e aquela cena a estava começando a suar frio e ficar tonta. Começou a sentir o estômago doer. Será que agora todas as vezes que ficasse nervosa, seu estômago doeria? Ao tentar se afastar mais uma vez, Henrique a segurou pelos braços.
– Você NÃO vai fugir de mim dessa forma.
– Henrique... Do que você...?
Quanto mais ela tentava se soltar, mais forte ele a segurava. Debilitada da forma que ela estava, era difícil soltar as mãos dele, pois ele a segurava forte.
Caio estava chegando para buscá-la quando, do seu carro, viu a cena. Seu senso de raciocínio sumiu no momento em que percebeu quem era. Sem se preocupar muito com o que estava a sua frente, estacionou de qualquer forma no lugar mais próximo que encontrou de onde Fernanda estava. Saiu correndo do carro chegando perto de onde os dois estavam.
– Tire as suas mãos sujas da minha mulher. – Ele puxou com toda força que possuía Henrique de perto de Fernanda. – Quem você pensa que é para sequer chegar perto dela? Quanto mais tocá-la?
Caio jogou Henrique no chão correndo para perto de Fernanda abraçando-a. Notou o quanto sua mulher estava tremendo.
– Você está bem? – Ele perguntou baixo beijando a testa dela.
– Estou sim, apenas nervosa. – Ela falou abraçando-o forte.
– Ah, que lindo. – Henrique falou se levantando limpando suas roupas. – Então “loverboy”, me tira uma curiosidade: você fez com ela o que aquele outro cara fez? Como era mesmo o nome dele? Pedro, não era? – Henrique estava rindo ironicamente pra ele.
Quando Henrique falou o nome de Pedro, o velho Caio despertou. Ele respirou fundo com as imagens de Fernanda machucada nas mãos de Pedro, doente, quase morrendo numa cabana no meio do nada. Algo dentro dele gritou. Era como se o corpo dele não respondesse mais aos estímulos nervosos de seu cérebro. Quanto mais ele tentava apagar aquelas imagens, mais nítidas elas ficavam. Ele lembrou, principalmente das palavras de Pedro para ele de que ele jamais veria Fernanda novamente enquanto segurava seu corpo frágil e inerte em seus braços com uma arma.
Somente depois de algum tempo, foi que começou a escutar a voz de Fernanda.
– Caio, Caio pare, você vai matá-lo. – Caio estava num torpor cego. Mas a voz de Fernanda entrou em seus ouvidos como um alerta.
– Fer... Fernanda?
– Caio, amor, solte-o... – Caio notou que Fernanda estava tendo cuidado ao falar as palavras, quase como um sussurro.
– Por que você está falando assim, tão baixo?
Foi quando Caio notou o que realmente estava acontecendo. No momento em que Henrique falou o nome de Pedro, ele soltou Fernanda e foi em direção a Henrique que não teve tempo de reagir. Caio o pegou pela camisa e desferiu um murro bem no queixo.
Quando Henrique caiu no chão, Caio sentou-se em suas pernas e começou com os golpes em seu rosto. Logo Henrique desmaiou, mas Caio estava num transe levado pelas imagens da mulher ferida e inconsciente, que ele não respondia a nada nem a ninguém. Dois seguranças tentaram afastá-lo de Henrique sem sucesso. Foi somente quando Fernanda chegou perto falando baixo e calmo com ele, foi que ele voltou a si. Soltando o corpo inerte de Henrique no chão, Caio levantou-se e abraçou sua mulher.
– Nunca... Nunca mais quero passar por aquilo novamente. – Ele falou abraçando forte Fernanda. Estava controlando as lágrimas o máximo que podia.
– O que? Amor, o que foi? – Fernanda abraçava-o tão forte quanto podia.
– Você... Quase morta... Nas mãos daquele porco sádico.
– Ei... Ei... Eu estou bem... Estou bem... – Foi quando Fernanda notou a plateia que estava se formando. – Vem... Vamos embora.
Fernanda saiu levando Caio para longe de onde estavam. Antes chamou uma ambulância para que prestassem socorro a Henrique. Ele não prestaria queixa contra Caio, disso ela tinha certeza. Ainda alterado, Fernanda pegou as chaves do carro e foi dirigindo até o colégio de Cristina que a recebeu com um sorriso largo e um abraço apertado na porta do colégio.
Durante todo o percurso, Caio ficou calado. Mal falou com a filha. Ficou a maior parte do tempo olhando para a janela. Fernanda, com um olhar, pediu para que a filha ficasse sentada e quieta em sua cadeirinha. Apenas avisou que o papai estava com dor de cabeça e que precisava de silêncio.
Somente quando chegaram em casa, foi que seu celular tocou. Era do cursinho avisando que os médicos chegaram e socorreram Henrique. Pediram mil desculpas dela sobre o comportamento dele e que iria avisar que não era mais para ele voltar às aulas.
Chegou no quarto e Caio estava mudando de roupa, cabisbaixo.
– Desculpe. – Ele falou baixo. – Sei que hoje eu quase... – Caio falou olhando para as mãos ensanguentadas.
– Shhh. Não se preocupe com isso, tudo bem? – Ela falou acariciando o rosto do marido. – Eu estou bem.
– Quando ele falou o nome daquele... Eu lembrei de você caída, desacordada... Eu não...
– Eu sei... Venha... Vamos tomar um banho quente. Você está precisando. – Fernanda pegou na mão do marido carinhosamente o levou para o banheiro onde um belo banho de espuma os esperava.
Longe dali, Aguiar visitou Henrique em sua casa. Ao chegar olhou com horror para o rosto de seu assistente.
– Não se preocupe, já estive pior. – Henrique falou enquanto colocava uma compressa de água gelada no lado esquerdo do rosto.
– Você é uma besta quadrada, sabia disso? – Esbravejou Aguiar surpreendendo Henrique.
– Ao menos sabemos o que o tira do sério.
– Sim, mas já parou para pensar que agora você não terá mais como chegar sequer perto daquele escritório?
– E isso é problema? – Henrique falou olhando sério, mas com certo ar irônico em seu rosto.
– Vejo que você já tem alguma ideia. – Aguiar falou agora mais calmo.
– Não se preocupe. Sua vingança será concluída. Você ainda está com a ideia de levá-la?
– O que você acha?
– Você sabe minha posição...
– Então nos concentraremos nele. Quebrar a confiança que um tem no outro já vi que é impossível mesmo.
Henrique e Aguiar se sentaram em uma poltrona. A hora estava quase chegando e nada poderia dar errado.
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