Fernanda E Caio - O Político.
7 Capítulo 07
Depois de pronto, o complexo foi um tremendo sucesso. A rotina de Caio começou a voltar ao normal e ele pode se dedicar aos dias finais de aula na faculdade. Suas aulas terminariam em meados de Agosto e a entrega da monografia seria a última coisa que ele teria que fazer. Estava tudo quase pronto. Faltava apenas a assinatura de seu orientador e a ficha de avaliação que a faculdade entregaria duas semanas antes do final do prazo.
Ao mesmo tempo, Fernanda terminou sua pesquisa. Deixou uma cópia de segurança em um HD criptografado para não correr o risco de roubo. Mostrou a pesquisa a Caio que avisou para ela não chegar perto de Aguiar novamente. Ele já sabia que o senador tinha atividades ilegais graças a sua antiga vida e seus conhecidos. Ele permaneceria sem fazer nada em relação a sala dele no complexo, mas pediu a Tião para que deixasse pessoas investigando o que ele estava querendo.
Havia mais ou menos uma semana que uns e-mails anônimos começaram a chegar ao e-mail pessoal de Caio afirmando que sua mulher estava mentindo para ele. Que ela não ia dar aulas e sim se encontrar com um amante. Os primeiros ele apenas deletou, afinal, se fosse algo sério o e-mail estaria identificado. Mas, mesmo tentando ignorar, ele começou a ficar desconfiado. Tentava tirar isso de sua cabeça, pois sabia que Fernanda o amava verdadeiramente. Ela jamais faria isso.
Sem ela notar, Caio começou a controlar cada passo de sua mulher. Aonde ia, com quem. Ela nunca mentia, sempre que ia se encontrar com qualquer pessoa, fosse homem ou mulher, ela o avisada da hora, local e que horas estaria de volta. Mas a cabeça dele estava uma confusão.
Tentava esconder seu ciúme sem muito sucesso. Por várias vezes, Fernanda perguntava o que estava acontecendo. Ele apenas respondia que eram problemas rotineiros administrativos.
Numa determinada segunda feira, Fernanda estava chegando ao cursinho. Uma nova turma de atualização jurídica foi aberta e ela seria a primeira professora a dar aula para a turma. Estava arrumando suas coisas quando viu uma pessoa conhecida no fundo da sala. Era Henrique. A primeira coisa que ela pensou foi querer saber por que ele estava em sua sala. Achou que tivesse acontecido alguma coisa com Caio, mas viu logo que não; ele estava matriculado.
Ela começou a aula falando um pouco do que ela iria ministrar pelas próximas quatro semanas para a turma, como seriam as aulas e os assuntos que seriam abordados por ela. Em todo tempo em que estava falando, sentia os olhos de Henrique para ela, mesmo que ela evitasse olhar diretamente para ele. Pediu para um dos alunos da frente para entregar umas apostilas para a turma toda. Nela constava o assunto abordado da aula e alguns exercícios.
Começou a aula normalmente dando uma introdução na história das constituições brasileiras e suas várias edições. Depois de algum tempo, ela relaxou e fez o que fazia de melhor, encantar seus alunos. Henrique, mesmo não tendo esta intenção, ficou impressionado com a desenvoltura de Fernanda como professora e notou que o serviço seria mais difícil do que estava imaginando.
Mas, aos poucos, ela foi ficando pálida e cansada. Terminou sua aula dez minutos mais cedo para poder ter meia hora de descanso. Enquanto arrumava suas coisas, viu Henrique saindo dando-lhe apenas um discreto aceno de cabeça. Guardou tudo e foi o mais depressa que pode para a sua sala. Quase desabou na cadeira. Estava suando frio e estava trêmula. Ligou para Caio pedindo que ele fosse buscar Cristina no colégio, pois ela não estava se sentindo muito bem e iria direto para casa.
– O que você tem?
– Nada grave amor, apenas acho que estou trabalhando demais.
– Eu te falei que você iria acabar doente. Vou lhe buscar e depois pego a Cris.
– Não precisa Caio. Eu posso...
– Você sabe que nunca ganha uma discussão comigo quando o assunto é esse, não sabe?
– Mas meu carro...
– Peço para um dos rapazes levar seu carro pra casa, mas você não vai dirigir sozinha.
E essa foi a conversa que teve com Caio naquele dia. Ele não aceitaria não como resposta. Ela foi para a sua segunda aula. Começou a explicar o assunto, mas no meio da aula passou mal e precisou ser levada para a pequena enfermaria. Estava com pressão baixa demais. Foi o momento em que Caio chegava para ir buscá-la.
– Você esqueceu de comer novamente, não foi?
– Não brigue comigo. Fernanda falou levantando da maca.
– Vem amor, vamos pegar a Cris e ir para casa.
Quando os dois estavam saindo, de longe Caio avista Henrique entrando em seu carro. Henrique, que o avistou deu a volta e parou bem ao lado dele abaixando o vidro.
– Caio, como está?
– Estou bem. O que você está fazendo aqui? Achei que estivesse cuidando dos interesses do Aguiar.
– E estou. Ele falou de maneira misteriosa sem olhar para Fernanda.
– Avise a ele que preciso conversar com ele sobre algumas coisas de última hora. Estarei esperando por ele amanhã pela manhã.
– Ele pode lhe ver hoje à tarde.
– Estarei ocupado hoje à tarde. Caio falou abraçando sua mulher.
– Entendo. Avisarei pra ele. Henrique fechou o vidro e saiu um pouco ríspido do estacionamento.
– Mas... O que foi isso? Fernanda perguntou olhando o comportamento dele.
– Atrapalhei os planos dele. Aliás, o que ele está fazendo aqui?
– Gostaria de saber isso também. Ele está na turma de atualização jurídica. Vai ver o senador pediu que ele se atualizasse. Ele não mora fora do Brasil?
– Sim, mas pensei que ele fosse ficar pouco tempo. Vem, vamos pegar a Cristina e ir pra casa que hoje vou cuidar de você.
– Mas eu estou...
– Sem reclamações doutora.
Caio estava com ódio velado de Henrique por estar perseguindo sua mulher. Fernanda era distraída demais para notar isso, mas claramente ele estava a seguindo.
Eles chegaram à escola de Cristina na hora em que a turma dela estava saindo. Caio foi buscá-la na porta e foi recebido com gritos de alegria e abraços fortes. Cristina contou o que fez naquele dia e que havia recebido mais uma estrela, o que deixou o pai orgulhoso.
Fernanda ficou escutando a filha falando das suas atividades no colégio, tentando parecer normal. Chegou em casa completamente esgotada. Maria fez uma canja grossa para que ela pudesse comer. Mesmo a contra gosto Fernanda comeu e deitou para descansar. Caio passou o resto da tarde ajudando Cristina nos exercícios que a professora passou e depois a deixou andando de bicicleta no jardim e foi ficar com sua mulher.
Entrou silenciosamente no quarto. Viu a mulher dormindo profundamente. Arrumou uma mecha do cabelo que estava caído em seu rosto e ficou admirando a sua beleza. Lembrou os e-mails e ficou se perguntando se Fernanda teria coragem de fazer o que estava descrito lá.
O celular dela tocou dentro de sua bolsa e mais que depressa Caio atendeu para que ela não acordasse. Era Marcelo ligando para agradecer a ótima pesquisa. Se preocupou sinceramente quanto Caio avisou que ela havia passado mal no trabalho e prometeu visitá-los em breve. Caio admirava Marcelo, o achava um ótimo profissional. Honesto e sincero, diferente dos muitos advogados que passaram pela sua vida. Até agora, somente dois o fizeram ter esta reação e um deles estava dormindo em sua cama.
– Você está precisando de alguma coisa? Posso arrumar algo?
– Não Caio, obrigado pela ajuda, mas não. Isso de hoje é apenas diligência de rotina. Tudo que preciso sua mulher já me passou. Ela é uma advogada brilhante.
– É sim, devo minha liberdade a ela. E olha que eu não estava nem um pouco a fim de conhecê-la.
– No caso do assassinato daquele deputado? Eu acompanhei pela TV. Você teve sorte de tê-la ao seu lado. Bom, agora terei que ir. Quando me desocupar farei uma visita para vocês.
– Vá com cuidado. Tem certeza que não quer ao menos um segurança? Posso ceder um dos meus.
– Não se preocupe. Não será perigoso.
– Bom, até mais tarde então.
Cristina entrou correndo pelo quarto acordando Fernanda. Caio advertiu a filha que ficou triste pedindo desculpas. Deixou Caio a repreendê-la, mas depois conversaria com ele para que ele fosse menos ríspido com a filha. Ela estava muito melhor, mais alerta.
– Você está bem?
– Estou amor.
– Marcelo ligou para agradecer a pesquisa.
– Por que você não me acordou?
– Porque você passou mal hoje e precisava descansar. E depois ele disse que passaria aqui mais tarde.
– Ele falou alguma coisa?
– Disse que iria para algumas diligências. Até ofereci ajuda, mas ele garantiu que não era necessário.
– Ele foi sozinho?
– Parece que sim.
– Não estou gostando disso.
– Não se preocupe amor, ele está bem.
Do outro lado da cidade, Henrique embarca mais um carregamento no grande barco com destino para Amsterdã. Quem se concentrasse muito e abstraísse o barulho ambiente ouviria um som que mais parecia choro em várias caixas que estavam sendo embarcadas.
– Logo, logo doutora, será a sua vez, mas para você tenho algo especial reservado. Ele falou olhando para alguns barcos ancorados no porto.
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