Notas iniciais
O Senador Aguiar aparece pela primeira vez e Caio logo simpatiza com ele. Por sua vez, uma visita fará Fernanda ver o quanto sente falta de sua vida de aventuras nos processos criminais.

Caio estacionou o carro e foi direto para o seu escritório. Ainda teria tempo para a reunião, então ficou resolvendo outras coisas. Como sempre ficou grudado no celular enquanto respondia a uns e-mails importantes e apagando os de propaganda e os desinteressantes. Tião, seu amigo de longa data, enchia sua caixa de mensagens com histórias idiotas, e para não magoar o amigo, preferia apenas apaga-los ao invés de pedir para que ele não os enviasse mais. Abriu a marcação “Nanda” quando viu que havia uma mensagem nova. Sorriu quando leu a mensagem “Tenha um ótimo dia de trabalho, papai”. Acariciou a foto de Fernanda, fechou o e-mail e foi à sala de reuniões para conferir se estava tudo certo.

Sua secretária, dona Rosa, estava acabando de colocar as pastas com as informações impressas na mesa para cada participante. Ela era uma senhora de cabelos brancos presos num coque impecável, baixinha, rechonchuda e com as bochechas rosadas. Havia sido secretária do seu pai por anos, e quando ele precisou de uma pessoa de confiança não pensou duas vezes em contratá-la.

Aos poucos, os investidores foram chegando. Ele estava em sua sala e de lá, ele tinha visão privilegiada do estacionamento. Reconheceu todos que estavam saindo dos carros menos um. Ele chegou em um carro que Caio logo percebeu ser um modelo Sedan S da Mercedes “Um Mercedes?” ele pensou meio desconfiado.

Ele esperou todos entrarem e ocuparem seus lugares na sala. Demorou cerca de dez, vinte minutos antes de entrar. Começou a cumprimentar um a um sorrindo cordialmente, oferecendo água, café, suco, salgados e outros petiscos. Em outros tempos, não faria isso, mas com a convivência com Fernanda, ele aprendeu a ser mais relaxado. Bom, na maior parte do tempo.

Ao chegar perto do homem, Caio sentiu uma sensação ruim. Havia tempos que não sentia algo assim, e perto daquele homem, ele sentiu que não poderia abaixar a guarda como os outros. Ficou por alguns momentos olhando para aquele homem baixo, cabelos grisalhos e olhar completamente impessoal. Teve a sensação de estar olhando para dois buracos negros que sugavam tudo o que havia ao seu redor. Isso ficou por apenas alguns segundos, mas Caio soube que ele não era boa pessoa.

- Bom dia! – Ele falou olhando para o homem que sorria impassível. Sentiu o aperto de mão forte do homem.

- Me chame de Lopes. – Ele falou sem desviar o olhar. As outras pessoas na sala notaram as faíscas saindo do aperto de mão dos dois homens.

- Seja bem vindo, Lopes.

- Eu vim em nome do Senador Aguiar. Ele soube sobre o complexo de prédios de escritórios e se interessou.

- O senador Aguiar? Interessado no meu empreendimento?

- Alguém falou meu nome?

Caio se virou rapidamente quando escutou a voz de uma pessoa vindo da porta de entrada. Olhou uma cena engraçada, Rosa ofegante atrás do homem mostrando somente a cabeça pedindo mil desculpas por não ter conseguido impedi-lo.

O senador era um homem alto, quase da mesma altura de Caio, robusto, rosto risonho e vermelho do sol. Logo simpatizou com aquele homem e se surpreendeu com isso. Mas o instinto dizia para ele não abaixar a guarda com o senador, pois ele era um político e ele aprendeu a não confiar neles.

- Senador! – Caio falou apertando forte a mão dele. Rosa que ainda estava parada na porta se retirou assim que notou o discreto aceno de cabeça do patrão.

- Soube que você está pensando em construir um complexo de salas comerciais neste terreno. É verdade?

- Sim senhor. Por favor, sente.

- Bom, vamos ver o que você tem. Estou querendo mudar de ares e partir para novas aventuras e acho que seu complexo de salas será uma das maiores. – Ele falou ao se sentar na poltrona ao lado de Caio.

A poltrona estava reservada para Ruy que, até aquele momento, estava sendo completamente invisível para todos os outros naquela sala. Caio, sempre que iria começar um novo empreendimento, o chamava para que eles depois pudessem conversar sobre a reunião. Foi assim com o galpão e deu bem certo. Ruy era um homem prático e conseguia ver tudo de forma direta.

Ele ficou o tempo todo observando o senador e seu assistente. Assim como o amigo, não gostou muito do homem chamado Lopes. Algo no semblante dele o assustava, e ele não era um homem de se assustar facilmente. Não gostava de injeções, mas fora isso, ele não ligava muito para o perigo. Até aquele momento. Mas, ao contrário do amigo, também ficou com um pé atrás com o senador. Pessoas alegres demais sempre o deixavam apreensivo e para ele, o senador tinha alegria demais.

Além do mais, Ruy era o tipo de homem que tinha suas superstições. Dentre as que ele acreditava a do ‘efeito borboleta’ era a que mais o preocupava. E, de alguma forma, aquela pequena mudança nos planos, não traria nada de bom para o amigo.

Fernanda estava terminando sua aula quando bateram à porta. Era a recepcionista falando que era para ela ir à secretaria assim que possível. Fernanda ficou se perguntando o que seria que queriam falar com ela. Olhou o relógio da sala e ainda faltava meia hora. Tempo suficiente para terminar o assunto que estava dando.

Ao terminar, foi direto para a secretaria. Ao entrar encontrou seu antigo professor de direito penal, professor Marcelo. Fernanda ficou encantada de encontrá-lo no cursinho e os dois ficaram um tempo relembrando os tempos de faculdade.

- Então, minha filha, estava querendo falar com você sobre um processo.

- Professor, eu não estou mais assumindo processo.

- Sim, eu sei, tenho acompanhado sua carreira. Admirei sua decisão de cuidar da sua família, nos dias de hoje é difícil uma mulher fazer isso.

- Mas eu não parei de trabalhar, professor, apenas mudei meus horários.

- Então, é sobre isso que gostaria de falar com você.

- É sobre o que esse processo?

- Você no caso, seria minha assistente. Tenho outra pessoa que faz as pesquisas pra mim, mas quero você como assistente particular. Você se lembra das notícias sobre os sequestros das crianças?

- Lembro sim.

- É sobre isso este processo.

- Professor eu estou enferrujada...

- Vamos, acompanhei toda a sua carreira, sei que você está sentindo falta dessa adrenalina. – Marcelo estava vendo um brilho nos olhos de Fernanda. Ela já havia aceitado.

Depois de quase duas horas de conversa, Fernanda saiu da secretaria com as cópias do processo. Prometeu ao professor pensar. Ele dera uma semana para ela se decidir. Fernanda estava mais que tentada em aceitar, mas primeiro gostaria de falar com Caio sobre isso.

Durante estes quatro anos de casamento Caio nunca se meteu na vida profissional da mulher, aceitava todas as suas decisões, mas mesmo assim, Fernanda sabia que Caio ficou aliviado quando ela decidiu mudar de área. Se afastar da área criminal trouxe mais tranquilidade para suas vidas; agora, com este processo ela estaria de volta a ativa. E estava adorando a sensação.

Encontrou alguns amigos da faculdade e todos saíram para tomar um café na cantina da esquina. Ficaram lembrando os anos de agonia com as provas, os trabalhos e seminários. Os amigos lembram que Fernanda era a mais tímida da turma, mas sempre com boas notas e muito bonita, ignorando todos os pretendentes. Ela ria dizendo que não era nada disso que na verdade ficava era com vergonha de ver todos os rapazes dando em cima dela.

Terminaram o café quase na hora de ir buscar Cristina no colégio. Fernanda se despediu dos amigos prometendo que participaria de mais reuniões como aquela. Colocou cuidadosamente os papeis do processo no banco de trás e foi buscar a filha. Estava se preparando para ter uma conversa com Caio. Saberia que esta conversa não seria muito fácil.