Felizes para sempre?
13 De volta a realidade...
Notas iniciais
DENISE ACORDA ANITA assim que amanhece. No começo, sua amiga está confusa, continua grogue de tanta bebida na noite anterior.
— Onde estamos? — Anita pergunta.
— Shh… — Denise toca os lábios da amiga com o dedo. — Te conto enquanto estivermos voltando. Chamei um táxi.
— Mas cadê a Tia Isabella?
— Não sei — Denise responde. — Voltou para casa dela?
Denise não entra no quarto para se despedir de Antonia. Tudo o que quer é ir embora do apartamento dela. Quis sair assim que despertou e viu que Antonia continuava a dormir, de costas para ela. Tinha a respiração profunda e melódica. Apesar da transa da noite anterior, Denise, agora sóbria, vê que não sente nada mais por ela. Sente que está ainda mais louca por Marilia. Quer ela de volta ainda mais. Sabe que é uma hipócrita, pois acabou de voltar aos braços de sua antiga amante e sem precisar de muita insistência. Uma pequena parte dela queria fazer isso, ela sabe.
Era uma história mal resolvida, mas sente do fundo do coração que acabou. Não sabe como Antônia se sente, mas não tem a menor intenção de voltar a vê-la.
O táxi atravessa as ruas desertas de Londres, cobertas por uma névoa espessa. Essa bruma branca faz com que se sinta fora de seu corpo, como se estivesse em um de seus sonhos psicodélicos.
Anita se aconchega nela no banco de trás. — Mio dio, o que aconteceu na noite passada? Não consigo lembrar de nada — diz, bocejando.
— É a tequila — Denise diz secamente.
— O que aconteceu com Tia Isabella? E, indo direto ao ponto: — e Antonia? Dormiu com ela? — lança um olhar curioso para Denise.
Denise diz que sim e Anita fica confusa.
— Então por que você está nesse táxi comigo em vez de ficar na cama para um dia de sexo com ela? — Sua voz estava levemente irritada.
Denise observa a névoa impenetrável pela janela do carro. É um mundo completamente branco, sem começo nem fim. Sente como se estivessem a caminho da obnubilação.
— Talvez ela seja ‘o cara’, Denise. Afinal de contas, foi o seu primeiro amor — Anita diz. Mas Denise chacoalha a cabeça.
— Não. É tarde demais para voltar. Ela partiu meu coração uma vez. Não vou entregá-lo para ela de novo — não ousa contar a respeito de seus sentimentos por Marilia.
A amiga dá um tapinha na mão dela.
— Ok — diz, sabendo que não deve insistir. — Então, o que aconteceu com a minha tia?
Denise não fala por um momento. Sabe que Anita ficará escandalizada quando souber da sacanagem de sua tia com Peter e Rupert, mas algo lhe diz para não contar nada. Isso é entre Isabella e Anita.
— Não sei — diz para Anita. — Isabella deve ter ido para casa mais cedo.
* * *
O frio de Londres gela Denise até os ossos, fazendo-a tremer enquanto saem do táxi.
Olha para o relógio: são seis e meia e são poucos os que já se aventuram pelas ruas de South Kensington. Anita vai na frente dela, abrindo o portão de ferro e subindo as escadas para a porta de entrada da casa de sua tia. Denise sente as costas formigarem. Instintivamente, sabe que estão sendo observadas por alguém. Vira-se na esperança de ver Marilia atrás dela, mas, no fundo, sabe que não é ela. É perseguida por uma única pessoa. Tem certeza de que, do outro lado da rua, Glen está no meio da bruma, de óculos escuros e vestindo seu longo casaco preto.
Está muito cansada para perder tempo com ele agora e também não quer preocupar Anita. Sendo assim, ignora-o e anda com determinação até a entrada da casa, batendo a porta com força.
Isabella já está acordada, parecendo imaculada em um tailleur feito sob medida, com o cabelo preso em um coque brilhoso e o rosto fresco, sem qualquer sinal de olheira. Está sentada à mesa do bar, tomando uma xícara de café preto e mexendo em seu iPhone.
— Bom dia, meninas — diz, sorrindo docemente. — Não esperava vocês de volta tão cedo.
— Pra onde você foi, tia? — Anita se joga no sofá. — Você simplesmente desapareceu.
— Foi você quem desapareceu, querida. Acredito que foi para cama… sozinha!
Anita começa a roer as unhas, olhando pela janela.
— Engraçado — diz —, achei que fosse rolar alguma coisa com aquele cara, o Peter, quando estávamos dançando, mas, de repente, comecei a pensar em Mike.
— O cara russo? — Isabella pergunta.
— Sim. Acho que sinto falta dele.
Isabella sorri intencionalmente.
— Querida, acho que você sente um pouco mais do que falta dele. Qual a sua teoria, Denise?
Denise pega uma caneca e se serve de café. Quer tirar a roupa e tomar um banho, pois tem a pele pegajosa com o sorvete seco. Pergunta-se se uma das duas consegue sentir o cheiro de creme que exala.
— Acho que Anita é romântica por mais que se esforce para sufocar isso — Denise diz.
— O que você quer dizer? — Anita pergunta defensivamente, cruzando os braços sobre o peito.
— Não há do que se envergonhar, querida — Isabella diz. — Na verdade, é muito meigo.
— Acho que, por baixo do seu exterior aventureiro, lá no fundo, você acredita no conto de fadas… — Denise diz, sentando-se ao lado de sua Anita no sofá e oferecendo um gole do seu café.
— Qual conto de fadas? — Anita quer saber, enquanto aceita o gole e pega a caneca.
— De que, um dia, o seu príncipe ou princesa virá — Isabella diz.
— Ah, não é verdade… acho isso uma bobagem.
— Acha mesmo? Você sabe que a maioria das mulheres, lá no fundo, sonha com isso secretamente… — Isabella bate as unhas no balcão. — Não há do que se envergonhar. Isso demonstra um grande otimismo. Eu, infelizmente, sou uma realista e suspeito que Denise também seja.
Isabella cerra as sobrancelhas em questionamento e Denise olha nos olhos dela. Pergunta-se se Isabella sabe que ela a viu com os dois homens mais jovens. Obviamente, essa mulher tem uma vida dupla secreta.
— Bem, minhas queridas — Isabella diz, pegando a bolsa e as chaves. — Tenho que ir trabalhar. Vejo vocês hoje à noite, na abertura da exposição de Denise. Ciao!
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