Pela primeira vez na vida parecia que tudo estava dando certo finalmente. Eu tinha tomado a minha decisão, nada mudaria isso, eu estava decidida a largar tudo por ela, dessa vez era verdadeiro. O que começou como um jogo, como uma oportunidade para eu ganhar um bom dinheiro e um apartamento próprio, se transformou em amor. Eu me encantei pela Marília, e pela primeira vez desde que conseguia me lembrar, eu queria ser só a Denise, uma mulher como qualquer outra, que faz sua faculdade, trabalha vestida e volta para casa, onde seu amor a aguarda. Só Denise. Sem Simone, sem Fernanda, sem Paula e, principalmente, sem Danny Bond.

"Ainda está aí?" Meneei a cabeça, voltando à realidade. Marília segurava uma taça de vinho e sorria de uma forma leve, pura, e ao mesmo tempo sexy, o sorriso que vinha me fazendo perder o sono, me fazendo desejar apagar todo o meu passado. O sorriso que me faria matar se preciso.

"Desculpa" bebi um pouco do meu vinho, sorrindo para ela, não o sorriso sedutor e costumeiro, mas um sorriso de moleca, que eu pensava ter perdido para sempre, mas que Marília resgatou. "Me perdi com tanta beleza" provoquei, piscando um olho.

"Eu disse que tenho pensado em sair dessa casa, é muito grande" ela deu de ombros, tentando parecer descontraída, mas seus olhos revelando algo mais, algo que fui incapaz de ler.

"E eu estou pensando em ser só a Denise" Soltei, com tanta naturalidade que nem mesmo eu notara as palavras me escapando. Levei a taça à boca, para disfarçar meu próprio choque, observando a mulher à minha frente ir do choque a felicidade em uma fração de segundos. Sorri satisfeita.

"Mesmo? E por quê?" Ela tomou um gole de seu vinho, talvez para se manter controlada.

"Porque eu encontrei alguém que finalmente mexe com meu coração de verdade, alguém por quem eu morreria ou mataria, alguém que confia de verdade em mim, como ninguém nunca antes o fez, e que me faz querer ser alguém melhor, alguém digna de ter uma pessoa tão maravilhosa assim na cama todas as noites, dias e horas"

Ficamos nos encarando, nossas respirações pesadas e descompassada embora nenhum esforço físico tivesse sido feito. Ela abriu a boca diversas vezes, mas as palavras não chegaram. Depois de um tempo, senti a necessidade de quebrar o silêncio.

"Eu te amo, Marília. Te amo de verdade. Te amo como nunca amei ninguém, nem sequer a mim mesma" Minha garganta ardia e eu não gostava da sensação de vulnerabilidade que a declaração me deixava, mas, em contra partida, meu peito inflamava de felicidade e minha mente se sentia aliviada por soltar as palavras que vinha mantendo prisioneiras por tanto tempo.

Esperava que ela não respondesse, que simplesmente se levantasse e se concentrasse na comida, contudo ela me puxou para um beijo. Eu não conseguia parar de sorrir contra seus lábios, mesmo com as lágrimas escorrendo pelo rosto de ambas. Eu me sentia como uma adolescente ao dar seu primeiro beijo na paixão do colegial.

"E os empregados?" eu sussurrei quando nos separamos, as testas coladas e a mão dela ainda em minha nuca, nossa respiração ofegante se fundindo.

"Eu não ligo pra eles" ela disse por fim, a voz fraca e rouca.

"Então" eu comecei, a olhando fixamente, buscando apoio para continuar. "Então casa comigo” Eu sorri, da maneira mais boba e natural que se pode fazer. “Casa comigo, Marília. Vamos sair daqui, vamos viver juntas. Diz que aceita que eu mato a Danny Bond aqui e agora. E então seremos só você e eu, Denise, sem maquiagem e sem codinomes"

As lágrimas dela aumentaram e por um momento pensei que sua resposta fosse não, pensei que tinha interpretado errado e que ela nada sentia por mim, que estava apenas confusa, mas que agora percebia que não era a mim que desejava. Eu tremia quando ela se aproximou e uniu nossos lábios em um selinho tão rápido que me questionei se não tinha imaginado.

Ela abaixou o olhar e eu demorei um tempo para fazer o mesmo. Ela estava com meu celular, tirando o chip dele. Voltamos a nos encarar, ela tinha um brilho diferente no olhar e eu podia jurar que estava corada.

"Você tem certeza disso?" ela perguntou, mesmo que algo em seu tom de voz gritasse que ela já sabia a resposta, que só questionara pois queria ouvir, queria se sentir importante, queria ser o motivo pelo qual alguém muda da água para o vinho.

Vacilei por um momento, pensando em tudo o que eu fizera até ali, pensando em como a perderia se ela suspeitasse e, a simples menção à perda dela, fez meu coração enfraquecer, eu não sobreviveria a isso. Fechei os olhos, respirando fundo. Voltei a encará-la e me pareceu que ela perdera um pouco da confiança que tinha. Sorri e lhe acariciei o rosto.

"Eu nunca tive tanta certeza na vida" respondi, meu sorriso aumentando "Anda" e afastei, fazendo sinal com a mão para ela seguir em frente, "Faça as honras e acabe com a Danny, quebre o chip e eu serei só sua"

Ela quebrou o chip e eu pude escutar as correntes se soltando de meus pulsos e caindo no chão. Pude sentir o corpo mais leve. Então era isso que chamavam de felicidade. Levantei a taça e ela tocou com a dela.

"Ao fim de Danny Bond" falamos juntas, virando o conteúdo de uma vez.

"Eu tenho que me livrar de umas últimas coisas, quando eu voltar, prometo nunca mais sair sem você ao meu lado" lhe dei um selinho demorado, mais para pegar força e coragem, do que como despedida.



Eu dirigia rápido, o que não era bom considerado que minha mente não estava na estrada. Eu estava tentando entender como aquilo havia acontecido, como aquele sentimento me alcançara e quando eu sucumbi a ele, em que parte eu havia me apaixonado pela Marília dessa forma. Mas nenhum momento específico vinha em mente. Desde quando eu conseguia me lembrar, estar com ela me fazia bem, ela anulava a Danny e trazia das cinzas a menininha a muito enterrada, ela me fazia esquecer de algo que eu sempre achei ser minha natureza. Ela me fazia querer ter um passado, sonhar com o futuro, e o fundamental, viver o presente.

Parei o carro na frente do edifício. Fiquei encarando a entrada, lembrando das vezes que eu estivera ali, lembrando do trato que eu fizera com o diabo. Na hora eu me achara o máximo, ganharia um apartamento, um bom dinheiro e ainda me livraria do marido escroto da Marília, cheguei a nos fantasiar em Paris, Roma, Londres, mas agora eu via o quanto fora ingênua e me amaldiçoei por isso.

"Você mexeu com a Bond errada" Sussurrei antes de sair do carro e bater a porta com mais força do que precisava.

Caminhei decidida, tentando suavizar a expressão e me manter relaxada. A liberdade da minha amada dependia da minha atuação, meu amor e meu futuro dependiam só disso.

"Oi" disse, debruçando no balcão e deixando Danny assumir o controle uma última vez. "Sabe, eu perdi as chaves que o Joel me deu, eu liguei pra ele, ele vai demorar e eu preciso muito do meu notebook que esqueci aqui" Fiz uma expressão triste, sem perder o ar sexy, podia ver que o porteiro não prestava atenção à explicação, ainda assim continuei "Teria como você fazer a gentileza de abrir pra mim?" perguntei, mordendo o lábio em expectativa, deixando a frase morrer em sua ambiguidade.

Ele engoliu em seco, piscando algumas vezes antes de sair cambaleante e indicar que o seguisse. Eu o segui, tagarelando como um papagaio, sorrindo nervosamente. O que estava acontecendo comigo? Ele abriu a porta e eu entrei, tão rápido como um furacão, ansiando por pegar logo o notebook e acabar com todo o terror que me perseguia.

Não foi difícil achá-lo, estava na mesa, soltei o ar que nem sabia que prendia. O segurei, sorrindo, sentindo o coração aliviar e as mãos queimarem ao toque. Por um breve momento me permiti desfrutar do alívio, quase me esquecendo do porteiro à porta. Por fim me virei sorrindo. Coloquei o notebook em uma mochila que achei e sai, murmurando um desajeitado "obrigada" por cima do ombro enquanto quase corria pelo corredor.

Entrei no carro, ligando o notebook. Os vídeos estavam lá, não só os meus com o Cláudio, mas com a Marília também. Olhei alguns, e pela primeira vez me dei conta de como aquilo era nojento, sentindo nojo de cada toque no e do Cláudio. Por outro lado, fiquei tentada em salvar os da Marília, se eu fechasse os olhos, eu poderia sentir cada toque, cada Beijo, cada sussurro e palavras desconexas dita no alto do prazer. Fechei o notebook, sabendo que teríamos mais momentos daquele e que seriam ainda melhores.

Voltei para a rua, mais aliviada dessa vez. Liguei o rádio e me permiti acompanhar Renato Russo em uma canção. Meu coração vibrava, ansiando por encontrar Marília e comemorar em silêncio essa vitória.

Parei no alto da ponte, olhei as roupas no banco traseiro pelo retrovisor e sorri.

"Adeus, Bond" disse, pegando o notebook e saindo.

Olhei para baixo, para a água que corria calma, e lancei o notebook ao ar, lançando junto a sombra do medo. Não pude evitar uma gargalhada. Corri para o carro e peguei as roupas e perucas, fechei os olhos, saboreando o gosto da liberdade que já chegava aos meus lábios. Joguei as roupas ao vento, sentindo que parte de minha alma ia junto. Eu assistia Danny Bond evaporar no ar, sentindo um brilho de um futuro, sem temor pela minha vida. Quem diria que uma puta encontraria a felicidade? Eu soltei um grito, um grito de felicidade, de liberdade. E eu pulei, e vibrei, ainda gritando, talvez quem ali passasse de carro me rotularia como louca. Eu queria que Marília estivesse lá, ao meu lado enquanto Danny Bond morria e Denise renascia para um futuro onde sua vida seria mais leve. Até que o telefone tocou.

"Oi" disse sorrindo, pensando que nada mais poderia me afetar.

"E aí, Danny, sua putinha" A voz beirava à insanidade, como se o dono imaginasse suas mãos apertando o meu pescoço.

"Danny morreu" disse entre risada. "MORREU" Gritei para os quatro ventos.

"Então olha esse arquivo, vamos ver se ela não ressuscita"

Meu corpo gelou quando o celular anunciou a chegada do arquivo. O sorriso se esvaiu e parecia que o rio me puxava para ele, anunciando que Denise nunca poderia viver sem a Danny. Eram os vídeos. Senti meu corpo gelar e eu soube que não conseguiria me mexer.

"Acha que eu sou burro? Que eu não teria uma cópia?" ele cuspia as palavras e eu as sentia como facas perfurando meu corpo.

"Va-vamos conversar" Eu comecei, sentindo a angústia e o desespero em todo o meu ser. "Você não precisa fazer isso. Po-podemos nos encontrar, me diga onde você está, não precisa ser assim. Deixa a Marília fora disso. Onde você está?"

"No cemitério?"

Gelei. "Cemitério?" Temi pelo pior e me peguei rezando, coisa que não me lembro de fazer.

"Meu pai morreu"

Por mais egoísta que soasse, relaxei, agradecendo por isso.

"Eu estou indo, não saia daí, não faça nada, não precisa ser assim"

Sai correndo com o carro, a cabeça martelando, um vento gelado sobrando minha nuca como um fantasma agourento que zombava de mim. Burra, burra, mil vezes burra, é claro que ele teria uma cópia. Onde eu estava com a cabeça quando me deixei levar? Eu não podia ter me envolvido assim. Não há esperanças para uma puta como eu.

Cheguei ao cemitério, sentindo tudo rodar, sentindo o sangue pulsar tão forte que chegava a doer. Olhei para os lados como uma maníaca, mas eu não conseguia ver, eu precisava me acalmar. Fui para a lateral do cemitério, encostei no muro, fechando os olhos e respirando controladamente, para tentar aliviar a pulsação.

"O que você está fazendo aqui?" a voz familiar tinha um tom diferente. Mágoa, dor. Abri os olhos e encontrei a fúria nos olhos da outra. Ela sabia, ela sabia. Voltei a ficar pilhada, lágrimas encheram meus olhos.

"Eu soube que seu sogro morreu, vim ver como você estava" Mentira, mentira, mentira. A mentira se fazia clara em tudo. Na minha voz, nas lágrimas que escapavam, do meu corpo agitado e, sem dúvida, da minha expressão desequilibrada.

"Fale a verdade uma vez na vida, Denise" ela cuspiu as palavras, como se elas queimassem seu ser e ela me olhava com nojo, mas talvez isso fosse minha cabeça tentando piorar minha situação “Ou eu devo lhe chamar de Danny?”

"Por favor" eu sucumbi as lágrimas, as liberei com intensidade. Dei um passo em direção a ela, que recuou "Não faça isso, me perdoa, não faça isso" Eu abrira mão da pouca dignidade que me restara, eu estava disposta a rastejar e a implorar por ela, alheia à situação e ao público. Eu chorava copiosamente, eu respirava ofegante e me mexia como um louco em uma camisa de força. Eu não conseguia olhar pra ela, mas sentia seus olhos me fuzilando.

"Eu te amava" Ela cuspiu, segurando as lágrimas, depois do que me pareceu ser uma eternidade. A olhei com esforço, seu rosto desfigurado pelas minhas lágrimas.

"Eu te amo" sussurrei, sentindo que eu segurava meu coração fora do peito, totalmente exposto. "Sobre isso eu nunca menti"

Ela pareceu ponderar, e eu me peguei rezando pela segunda vez.

"E você conseguiria ser honesta mais uma vez?" eu via seus olhos brilharem com o ódio. Eu balançava a cabeça freneticamente, tomada pelo desespero e pela vontade de ter seu perdão.

"Sim, sim, sim" a loucura na minha voz me assustou, mas nada além do perdão dela me importava "Sou capaz de qualquer coisa por você" Eu estava praticamente de joelhos.

"Então me responde" Ela me olhava com ferocidade, que chegava perfurar minha alma "O Cláudio é seu cliente?" Me senti como um animal ferido e encurralado, que olhava como um condenado para seu ceifador. Pensei em mentir, a mentira aliviaria a raiva dela, mas eu sentia que já a tinha perdido de qualquer forma.

"Sim" olhei pros meus pés, incapaz de encarar a mulher. A vi se virar. Levantei o rosto, sentindo meu coração ser arrancado de meu peito "MARÍLIA" a palavra saiu com dor, como se levasse com ela minha alma.

Ela se fora, ela não voltaria. Senti meu mundo desmoronar. Respirei fundo e me virei, limpando com força as lágrimas, andando a passos largos e firmes em direção ao meu carro.

"Ei" Joel chamou, me segurando pelo braço.

"O que?" Minha fúria era palpável, minha mente imaginava diferentes jeitos de matá-lo.

"Eu quero o que você me deve"

Gargalhei na sua cara.

"Eu não te devo mais nada" Minha mão coçava, ansiosa por encontrar a cara daquele doente "Você já destruiu a minha vida. Quer enviar o vídeo? Envia. Nada mais importa pra mim" Eu me virei, mas senti o aperto forte dele em meu cabelo. Vi de soslaio que ele mexia no celular.

"Pronto, agora sua namoradinha tem um vídeo seu com o marido dela e você vai me dar o que eu quero"

Ele foi me arrastando até meu carro, me empurrou pra dentro e se sentou ao meu lado. Fiquei um tempo encarando o volante, até que um tapa no rosto me despertou.

"Anda, Danny, não tenho a vida toda" Fechei os olhos, deixando a mão tatear pelo objeto que sempre ficara ao lado do banco. Quando senti meus dedos encontrarem o metal sorri.

"Eu já disse que Danny morreu" Puxei a arma e apontei pra ele, que esbugalhou os olhos. "E se você não sair do meu carro agora, você se juntará à ela no além" Eu segurava a arma com força e segurança, eu não tremia e minha voz não vacilava, mesmo meu coração estando em pedaços.

"Calma, eu só quero os papéis" o desespero dele alimentava minha alma.

"E eu só queria uma vida feliz, ao lado de quem eu amo" engoli as lágrimas e tentei ignorar a ardência em meu coração "E você tirou isso de mim" ele não fez menção de sair. "SAI DAQUI" E então eu escutei um tiro.

Fechei os olhos esperando a dor e a escuridão da morte me atingir, eu estaria de braços abertos esperando por ela, na verdade, até ansiava por isso, mas ela não veio. Senti um líquido quente em meu peito, depois um peso me esmagando contra a porta. Abri os olhos, me deparando com o corpo morto de Joel em mim. Abri a porta em desespero, saindo cambaleante do veículo. Olhei assustada na direção do tiro e encontrei Marília estática, os braços estendidos e a arma balançando em sua mão.

Fui até ela, cautelosa. Ela tinha o olhar petrificado no vazio, os lábios abertos em um grito mudo. Segurei a arma e a tirei de sua mão, que caiu sem vida ao lado do braço. Toquei seu ombro, movimentando as mãos como quem aquece quem está com frio.

"Vai ficar tudo bem" Eu a olhava nos olhos, mesmo achando que ela nada via "Eu estou aqui, vai ficar tudo bem" A puxei para um abraço. Um que eu precisava tanto quanto ela. Até que seu corpo tremeu, pensei que era uma reação contra meu abraço, mas senti algo tocar a parte de trás da minha cabeça, e soube que era um tremor de medo.

"Sua putinha miserável" Cláudio disse. Eu fechei meus olhos e me agarrei ainda mais em Marília. E rezei pela terceira vez.

"Polícia, largue a arma" Escutei ao longe, sorrindo por ter sido atendida de pronto.

Senti a pressão em minha cabeça parar, mas me mantive presa em Marília. Ainda de olhos fechado eu virei meu rosto, o escondendo em seu pescoço e sentindo o cheiro de seu perfume reavivar meu ser. Senti alguém mexer nela e começar a puxá-la.

"Não" Sussurrei, deixando um beijo em seu pescoço. "Não" eles a puxavam mais forte e senti mãos em meu braço "Não, não, não, NÃO" Meu desespero aumentava gradativamente enquanto nos afastavam "Não a levem, ela não tem nada haver com isso" Eles conseguiram nos afastar, eu lutava contra os braços do policial. "Marília, Marília" eu murmurava, tal qual gemido de alguém insano. Ela me lançou um sorriso antes de se virar e se afastar com o policial.

Quando o homem que me segurava me libertou da prisão de seus braços, eu cai de joelhos no chão, chorando copiosamente, soltando grunhidos tal qual um lobo ferido. Até que eu lembrei dos papéis que ainda tinha, eu ainda podia salvar a Marília. Corri para o carro, puxando o corpo sem vida de Joel.

"Porco imundo" não pude evitar "Bem feito" dei um chute em seu rosto. Olhei por todo o carro, achando os papéis e os segurando contra o peito. "Eu ainda posso te salvar, como você me salvou"





Eu caminhava impaciente pela sala da delegacia, meu coração batendo na boca.

"Você precisa se acalmar"

"Não, Hugo, eu preciso da Marília" Ele deu de ombros e voltou sua atenção para o celular. Voltei para minha caminhada em círculo e já estava cogitando a possibilidade de um escândalo quando escutei passos a minhas costas. Hugo se levantou sorrindo e eu me virei, ansiosa. Marília parou na nossa frente e ficamos os três em um silêncio pesado.

"Vou esperar no carro" Hugo saiu.

"Marília, me desculpa, eu..." Ela levantou a mão me fazendo parar.

"Estou farta de suas mentiras, eu nem sei porque matei o Joel" Ela ia saindo, mas a puxei de volta.

"Me escuta, um minuto" Eu a olhei suplicante. Ela não esboçou reação, então continuei "Marília, eu posso ter mentindo em relação a várias coisas e acredite, eu me arrependo, mas eu não menti sobre como eu me sentia em relação a você. Eu te amo. Eu te amo desde a primeira vez que te vi. E quando tran" Parei, engolindo em seco e esboçando um leve sorriso de desculpas "quando fizemos sexo" me corrigi "pela primeira vez, foi como se meu coração se completasse, foi diferente de tudo o que eu já senti ou vou sentir. Naquele momento eu desejei que você fosse só minha, desejei repetir aquela noite em vários lugares diferente, em vários países, de várias formas. Eu queria te escutar sussurrando meu nome, arranhando minhas costas, queria sentir seu gosto em meus dedos e minha boca todos os dias e noite" Eu dei uma breve pausa para recuperar o fôlego "Sempre soube que eu nasci pra dar prazer, mas, ao te conhecer, ao te ter por completo, percebi que eu nasci pra te dar prazer" Eu enxuguei algumas lágrimas e sorri. "Olha, eu entendo que te magoei e me tortura saber disso, mas eu sou a Denise, sua Denise, e viverei cada dia em prol de me redimir com você, eu arrumarei um emprego e farei o impossível pra te pagar cada centavo que o Cláudio gastou comigo" Coloquei a mão no bolso e puxei um bolo de dinheiro, por um momento desejei tocar o braço da mulher para deixar o dinheiro em sua mão, mas achei melhor não, coloquei em uma mesa ao nosso lado. "Não é muito, mas é um começo" Caímos em silêncio uma outra vez "Você e cada momento que tivemos juntas estará para sempre tatuado em meu coração, saiba disso. Você foi a única capaz de me mostrar o que é o amor, a única que confiou em mim, e eu sou grata por isso. Um dia, ainda serei merecedora disso tudo" Tirei o anel de meu dedo e o deixei por cima do dinheiro.

Contorne a mulher, evitando esbarrar em seu ombro e estava quase saindo quando escutei meu nome. Me virei. Marília remexia o anel entre os dedos, por fim o colocou em seu dedo. Depois pegou o dinheiro e o estendeu pra mim.

"Não quero seu dinheiro" Não fiz menção de pegá-lo, ao contrário, tornei a me virar e a sair da delegacia, escutando passos me seguindo "Acho que uma cama é melhor que um banco de carro, não acha?" Parei bruscamente, sentindo meu coração se alegrar. Me virei aturdida, Marília sorria enquanto chorava. "Não posso te oferecer Paris por enquanto" Ela levantou os braços, indicando o lugar "Mas ainda tenho uma casa aqui no Brasil"

Corri em seu encontro, segurando firme seu rosto e lhe dando leves Beijos.

"Eu te amo, eu te amo" eu sussurrava entre os beijos.

"Eu também" ela devolveu, me puxando para um beijo mais demorado.



Os fracos raios de sol da manhã me despertaram. Ainda de olhos fechados afundei meu rosto nos cabelos negros a minha frente, puxando o ar mais fundo que consegui, transbordando do perfume que me servia de combustível. Levantei lentamente, tendo cuidado para não acordar a mulher. Fui ao banheiro e encarei meu reflexo sorridente no espelho. Três anos se passaram desde toda a confusão, desde a morte da minha antiga vida e desde quando eu descobrira o verdadeiro amor.

Voltei pra cama, meus olhos caíram no celular que repousava na mesinha. O peguei. Enquanto brincava com o aparelho, me peguei imaginando que o Cláudio voltaria à liberdade hoje, fiquei imaginando como seria lhe mandar uma foto de Paris, onde sua esposa, agora minha, dormia nua, com um sorriso nos lábios depois de uma intensa noite de amor.

Me ajeitei atrás dela, sorrindo maliciosamente e bati a foto. Eu tinha o número dele porque Marília precisava do contato para ajeitar o divórcio, este que Cláudio não queria dar.

"Toma, corno desgraçado. Ela é minha e assim será pra sempre" Enviei a foto, sorrindo ao imaginar a cara de Cláudio ao recebê-la. Devolvi o celular e me virei, admirando a mulher ao meu lado.

"Bom dia" ela disse sonolenta.

"Ótimo dia" respondi, a beijando.

"Já tomou café?" Ela perguntou, abrindo os olhos. Meneei a cabeça.

"Não, meu café acabou de acordar" Sorri maliciosa, arrancando uma risada da mulher.

Uni nossos lábios em um beijo apaixonado, apesar do tempo que estávamos juntas. Coloquei o peso de meu corpo contra o dela e deslizei as mãos pelas linhas do corpo que era só meu e senti as unhas dela cravarem nas minhas costas, que, assim como cada parte do meu corpo, agora pertenciam só a ela

Notas finais
É isso... Não tenho uma resposta se vou ou não dar continuidade, vai depender muito... Qualquer coisa só falar no ask: ask.fm/Crisgron... Até a próxima.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!