Felizes... para sempre?

22 - Um momento de hesitação pode ser o último!


Notas iniciais
Olá, selecionadas e príncipes. Depois de uma derrota vergonhosa da Seleção brasileira de futebol, voltei com mais um capítulo pra vocês. Eu iria postar ontem mesmo. Já tinha cerca de 1500 palavras digitadas, estava sozinha em casa e com a geladeira cheia de opções. Clima perfeito pra concluir o capítulo e postar, não acham? Mas a idiota que vos fala esqueceu que tinha uma consulta marcada no médico. Então concluí e estou postando o capítulo 22 hoje. Tenho que fazer isso rápido, porque só tenho 30 minutos antes de ter que desligar o computador. Também estou um pouquinho enrolada pra responder aos comentários, mas vai melhorar. Fico sozinha em casa amanhã de novo, e sem consultas médicas, então respondo aos que faltam. Queria agradecer aos elogios ao Pov do Aspen. Foi um verdadeiro desafio escrevê-lo. Hoje, atendendo a pedidos, o Pov é da Lucy. E um muito obrigada super especial para Jéssika Kelly, que é a responsável pela sexta recomendação da fic. Eu amei. Acho que já disse que eu não esperava tantos resultados na minha primeira fic, mas, acredite ou não, tem gente lendo essas loucuras que se passam na minha cabeça (e gostando). Isso está enorme! Deixe eu parar de tagarelar aqui. Enjoy.

– Os povos antigos tinham uma lenda que falava sobre o lobisomem. Diziam que uma pessoa poderia se transformar em metade lobo, metade homem nas noites de lua cheia. Só voltava a ser humano ao amanhecer.

– Por que eles eram assim? – Meu filho me perguntou, como sempre, curioso.

– Bom, isso depende. Alguns povos diziam que era por castigo divino, outros acreditavam que o sétimo filho numa linhagem de meninos se transformaria, outros acreditavam que seria o primeiro filho após uma linhagem de sete meninas, ou ainda um sétimo filho de um sétimo filho. Existem muitas versões dessa lenda. Em uma dessas diz que uma pessoa que for mordida por um lobisomem e não achar a cura até as 12 badaladas do relógio, será um lobisomem para sempre. – Expliquei.

– Garotas também podem ser lobisomens?

– Claro que não, Nicole. O nome é lobisomem. Lobo + Homem. – Evans disse como se fosse uma pergunta óbvia e bem idiota.

– Na verdade, em alguns lugares as pessoas acreditam que sim. Que a companheira de um lobisomem, vira uma peeira, que também pode ser chamada de loba-mulher ou lobisomem-fêmea. – Nicole fez uma cara de vitoriosa para Evans, que deu de ombros, levantou da cama e foi até a janela.

– Não tem lobisomem hoje. A lua não está cheia. Hoje é noite de lua nova. – Observou.

– Sim. A lua nova é aquela que carrega segredos. – Sussurrei, mas não tão baixo quanto pensei, porque Evans logo me perguntou.

– Como assim, mãe?

– Isso é história para outro dia. Já está tarde. Vão dormir os dois. – Desviei do assunto, enquanto arrumava as cobertas de Nicole e esperava Evans voltar para a cama para ajeitar as dele.

– Mãe, quando o meu pai vai voltar? – Seus olhos brilhavam. Ele admirava tanto o pai que não tinha nem uma ponta de dúvida. Para ele, já é uma certeza: Aspen vai voltar, vivo, bem e vitorioso.

– Amanhã, filho. Amanhã. Agora durma. – Afirmei, me permitindo ficar esperançosa. Depositei um beijo na testa dos dois e fui em direção à porta, apagando a luz e encontrando um par de olhos azuis me fitando no corredor.

– Lucy... – America começou, mas eu a interrompi.

– Eu estou bem Meri. É sério. Não vai adiantar nada eu ficar pensando o pior mesmo. – Caminhei para a sala e Meri me acompanhou andando ao meu lado.

– Suas palavras dizem isso. Seus olhos dizem que você está assustada. – Insistiu.

Eu parei no meio do corredor e suspirei profundamente.

– E não deveria estar? Meu marido voltou para dentro daquele palácio numa missão quase que suicida. Impossível, no mínimo. – Falei com a voz controlada, para não chamar atenção das crianças.

– Não é impossível. Você, melhor do que todo mundo, sabe da capacidade do Aspen. Se fosse impossível ele não iria correr o risco de deixá-la desamparada e ainda colocar mais nove homens na missão.

– “Quando não há nenhuma chance de vitória, assuma uma posição defensiva; quando há uma chance de vitória, lance um ataque”. – Citei, me agarrando ao pensamento de que existia uma chance, mínima que fosse.

– E ele atacou. Se ele, que é o estrategista, acredita que consegue, quem somos nós para discordar? Além disso, Aspen sempre foi o único que conseguia ser mais teimoso que eu. Ele disse que ia voltar, não disse?

– Ele prometeu.

– Então não se preocupe demais, tudo bem? Eu sei que é impossível parar de pensar no que pode estar acontecendo, mas tente pensar positivo. – Voltamos a andar em direção à sala.

– Você já pensou se fosse com Maxon? Como você pensaria? – Perguntei e America ficou um tempo em silêncio.

– Eu já passei por isso, Lucy. Numa situação diferente, é verdade, mas ainda assim angustiante. Enquanto eu estava na Itália, Maxon estava dentro daquele palácio, cercado de pessoas que passaram a odiá-lo por me odiarem. A missão dele não era saquear o arsenal, era afastar os que queriam matar nossa filha. Uma missão que levou onze anos, e teria levado mais, se não fosse por uma interferência de Nicolleta, May e Kiah. Eu me sentia impotente. A única coisa que me restou foi confiar que Maxon estava fazendo o seu melhor. Confiar na capacidade dele. Eu sei que a distância e, pior ainda, a impotência são terríveis, mas precisa confiar. – America olhou para mim e, naquele momento, senti como se ela pudesse enxergar meus temores dentro da minha alma.

– Eu sei. Obrigada, Meri. Por tudo. – Ela me abraçou e eu retribuí, me permitindo ser confortada pelo seu abraço.

– A gente já passou por muita coisa juntas, não é? – Ela me puxou para o sofá e se pôs a divagar.

– É verdade. Parece que eu te conheço desde sempre. É estranho pensar na época anterior à Seleção; é quase como se fosse um sonho distante. – Falei divagando com ela.

– Eu nunca poderia imaginar que chegaríamos aonde chegamos ou os caminhos que passamos.

– Isso é o que? Momento nostalgia? – Perguntei e nós rimos.

– Não. Acho que não. Nostalgia não envolve melancolia?

– Eu sei lá. Acho que sim.

– Então. Apesar de tudo, eu gosto de viver o agora. E o meu agora, perto das pessoas que eu mais amo, não é ruim. Vai ficar melhor daqui a algumas horas, quando o meu melhor amigo voltar vitorioso e completamente convencido. – Mesmo tocando nesse assunto, me recusei a ficar triste. Eu preciso confiar na capacidade do meu marido. Sorri.

– Com certeza. Ele perdeu um pouquinho de humildade com os anos. – Brinquei.

– Um pouquinho? Eu sou o General AspenLeger, Estrategista de batalha, Guardião da Família real, treinado pelos melhores Generais do mundo. Não acredita? Pois acabei de voltar da minha mais recente vitória. Eu sei que sou demais. Obrigado. – America fez uma voz de homem, tentando imitar o Aspen. Gargalhamos por muito tempo e eu me senti imensamente grata por estar mais calma.

Ficamos rindo e fazendo imitações baratas por tanto tempo que eu já estava curvada com dor na barriga e lágrimas nos olhos.

– Obrigada, Meri. Eu precisava disso. – Agradeci quando nos acalmamos.

– Estou à disposição. Agora vamos. Precisamos dormir um pouco. Não vai querer receber o Aspen, cheia de olheiras, ou vai?

– Não mesmo. Você está certa, vamos dormir. Quero dizer, eu vou dormir. Maxon já deve estar agoniado sozinho no quarto de vocês. – Sorri maliciosa e, como resposta, ganhei um soco fraco no braço e um sorriso acanhado de America.

– Maxon já deve estar dormindo.

– Hum... Sei. Atravessado na cama, para você ter que acordá-lo antes de deitar. – Impliquei.

– Lucy, vai dormir, vai. – America bufou, mas eu sabia que ela não estava chateada. Acabei rindo da careta que ela fez.

– Tudo bem, tudo bem. Boa noite então. – Levantei as mãos em sinal de rendição.

– Boa noite, Lucy.

Como é que se dorme mesmo? Acho que perdi essa capacidade.

Depois de uma hora rolando pela cama, resolvi espairecer um pouco na banheira, tentando pensar positivo e me lembrar do sorriso de Aspen, dos seus olhos verdes brilhando de orgulho, dos seus braços levantando Evans para um abraço apertado, dos seus lábios nos meus.

O que direi quando ele voltar? Tenho certeza de que só a minha expressão será suficiente para que ele seja capaz de perceber o meu alívio. Mas muito mais do que isso, quero que ele saiba o quanto significa para mim e para nossa família.

Ele vai voltar. Ele precisa voltar.

Em algum ponto da madrugada consegui dormir. Sabe quando a gente acha que encostou a cabeça no travesseiro por dois minutos e, na verdade, já se passaram horas? Então, foi assim.

Não que tenha se passado muitas horas, mas não foi bem o que se pode chamar de uma noite de sono revigorante. Ainda meio irritadiça, me levantei e fiquei enrolando no banho, torcendo para que, quando descesse, pudesse encontrar Aspen me esperando para o café da manhã.

Quando desci as escadas e fui para o quintal, não o encontrei.

Quando tomei meu café da manhã, ele não estava lá me esperando.

Quando terminei o café da manhã, ele não me deu um beijo apressado dizendo que tinha muito que fazer.

Quando atravessei o quintal, não o vi se exibindo no treino para deixar Evans orgulhoso.

Quando entrei na casa, não o vi debruçado sobre um mapa do palácio.

Mas por tudo isso, apesar de desejar imensamente que não acontecesse, eu já esperava.

O problema começou quando as horas foram passando, e passando, e passando. Eu podia jurar que os ponteiros do relógio estavam zombando de mim. Rindo da minha agonia e andando em sentido anti-horário, só para me irritar.

America tentou me confortar; Maxon tentou me confortar. Não deu certo. Eu só seria confortada quando o visse vindo em minha direção, são e salvo. O que parecia cada vez mais surreal, considerando a demora.

Tive que parecer forte na hora do almoço, mesmo com todas as minhas dúvidas assombrando meus pensamentos, porque Evans e Nicole almoçaram perto de mim. E a última coisa que eu precisava era assustá-los com o pessimismo que insistia em me atormentar.

Não sei em que hora do dia exatamente eu escutei America murmurar para Maxon, só sei que foi em algum momento depois do almoço.

– Max, até eu estou ficando preocupada com isso. Ele não deveria estar demorando tanto.

– Eu sei, Ames. Também estou preocupado. Mas não há nada que possamos fazer a não ser esperar.

– Seria uma excelente hora para Addae ligar com notícias, não acha?

– Seria se não fosse tão perigoso. Ele provavelmente está tomando cuidado.

Resolvi parar de ouvir a conversa sussurrada deles. Não estava me fazendo bem ouvir ainda mais desconfianças.

Já faz umas doze horas que Aspen foi para aquela casa dos horrores e, tudo que eu conseguia pensar era: “Você prometeu,Aspen. Você prometeu”.

Talvez respondendo a uma prece silenciosa, vi Andrew se aproximar e sussurrar algo para America, mas agora que queria ouvir, não consegui. Mas assim que vi America lançar um olhar para mim, soube.

Ela se levantou calmamente, como se nada demais tivesse acontecido, chamou Maxon e enquanto ele se levantava, ela me lançou um olhar e depois olhou para além de mim. Quando me virei, vi Nicole e Evans com outras crianças ali perto e entendi a mensagem: “Me acompanhe, mas não os deixe alarmados”.

Fiz o mesmo que ela, me levantando como se nada demais estivesse acontecendo e torci para que Evans não viesse atrás de mim. Felizmente, avançamos sem crianças ao nosso encalço.

– O que Andrew falou? – Perguntei quando estávamos a uma distância segura dos outros.

– É ele que está vigiando a câmera da entrada do túnel subterrâneo por onde Aspen e os outros soldados saíram.

– E?

– E eles estão de volta. – Soltei um suspiro aliviado. Agora me restava saber em que condições eles tinham voltado.

Entramos na casa e praticamente corremos em direção ao porão e ao subsolo. Meus olhos vasculharam entre os soldados, procurando por Aspen. Não!

Ele estava inconsciente sendo carregado por Avery.

– Ele foi muito forte.

America abraçou Maxon instantaneamente, inconsolável. Maxon estava estático, surpreso. Eu estava incrédula, mas ainda assim derramei uma lágrima.

– Foi? – Sussurrei. Não tinha forças para formular uma frase inteira. Nenhum de nós parecia ter essa capacidade. Maxon despertou do choque e tomou as rédeas da situação.

– Ele está...? – Não, não, não, por favor, não.

– O que? – Avery pareceu confuso – Ah! Me desculpe, eu não queria ter dado essa impressão. Aspen está vivo. Pelo menos por enquanto. Ele perdeu muito sangue.

– Devia ter dito isso antes. Vamos, levem-no para o quarto dele.

Tiveram um pouco de dificuldade para movê-lo para cima, do subsolo para o porão, mas conseguiram dar um jeito. Depositaram-no na nossa cama com cuidado e eu me sentei imediatamente ao lado dele, onde eu permaneceria irredutivelmente.

– E agora, o que fazemos? – Trevor perguntou.

– Conseguiram as armas? – Maxon perguntou. O que? Armas? Sério que agora que ele tem que pensar nisso?

– Sim. Estão nas bolsas.

– Deixem no canto do quarto e peçam ajuda as criadas para cuidar dos seus ferimentos. Não deixem que as crianças os vejam ainda ou Evans e Nicole virão pra cá e não precisamos disso agora. Por enquanto, apenas as criadas que forem ajudá-los e suas esposas devem saber que voltaram. No jantar daremos a notícia, tudo bem?

Eles assentiram e saíram do quarto.

– Max, me faz um favor? – America perguntou.

– O que?

– Vai lá fora, chame os soldados que foram verificar o resultado do Chamado em Angeles ontem e mande que liguem para suas famílias e perguntem se há algum médico aliado à nossa causa. Se houver, peça que ele seja chamado imediatamente. Enquanto isso, Lucy e eu vamos cuidar dessa ferida.

Maxon concordou e saiu do quarto. Eu só estava observando o desenrolar dos fatos pela minha visão periférica, porque eu estava indisposta a desviar o olhar do rosto do meu marido.

– Aspen, por favor, você tem que ser forte. – Sussurrei próxima ao seu ouvido.

– Lucy, deve ter uma caixa de primeiros socorros por aqui. Sabe onde está? – America perguntou, me despertando da minha inércia. Aspen precisa de mim.

– Banheiro.

Ela correu até lá e voltou com uma caixinha branca, bem diferente da caixinha de primeiros socorros do palácio, que é completamente preta.

– Precisamos limpar a ferida para não infeccionar e ele deve estar fraco pelo sangue que perdeu. Vai precisar comer alguma coisa também.

– Como? Ele está desacordado. – Perguntei confusa pela última parte.

– Se o médico estivesse aqui, poderia aplicar soro direto na veia dele, mas como não está, acho que teremos que acordá-lo para beber. Ou, se conseguir, comer alguma coisa. O mais fácil pra ele seria sopa.

– Tudo bem, vamos cuidar da ferida, depois vemos isso.

– É. Você está certa.

Fizemos o nosso melhor, tirando a blusa que amarraram para estancar o sangue com cuidado para não reabrir a ferida. Limpamos e passamos uma solução desinfetante, reparando que Aspen havia levemente reagido a ela, mesmo desacordado.

America e eu nos entreolhamos.

– Isso é um bom sinal, não é? – Perguntei, me agarrando a qualquer mínima esperança de que a ferida não era grave.

– Acho que sim. Essa solução arde.

Continuamos nosso trabalho, passando um pouco de bálsamo na ferida.

– Isso vai aliviar a dor. – America explicou e enquanto eu aplicava, ela ficou encarando o vazio por um tempo.

– O que foi,Meri?

– Não é nada. Só um déjà-vu. — Explicou vagamente e eu não quis pressioná-la. Um déjà-vu deste momento seria outra ferida que ela deve ter tido que limpar. Um déjà-vu nada agradável então.

– E agora? O que fazemos? – Perguntei.

– Podemos cobrir com gazes, mas talvez seja melhor deixar a ferida respirar. – Assenti.

– Como acha que isso aconteceu? – Perguntei, passando o dedo levemente sobre o contorno da ferida.

– Não sei. Bom, sabemos que não foi um tiro. Talvez tenha sido uma espada ou uma faca. – Analisei o corte.

– Teria que ser uma faca bem grande.

– Uma espada, então.

– Acho que o plano de entrar e sair sem ser visto não deu muito certo. – Comentei.

– Pelo menos eles conseguiram sair de lá. Eu não me perdoaria se ele tivesse... – America se interrompeu. Seus olhos banhados em lágrimas.

Involuntariamente, lembrei que America e Aspen já tinham namorado muitos anos atrás. Isso me deixava desconfortável, mas quando comentei com Aspen, ele disse que os dois sempre teriam o instinto de cuidar um do outro e que eles sempre se amariam, mas que o amor deles se tornou um amor de irmãos.

– Meri, você mesma disse que Aspen é a única pessoa no mundo que consegue ser mais teimosa que você. Provavelmente foi a teimosia dele que o trouxe de volta e, essa mesma teimosia, vai fazê-lo melhorar.

Eu sei que há minutos atrás estava inconsolável e temendo o pior, mas o vendo assim, tão sereno, tão perto de mim, parecia que ele estava apenas dormindo e logo acordaria com a sua rotineira indisposição matinal.

Minhas esperanças foram completamente renovadas.

America e eu ficamos velando seu sono pelo que pareceu uma eternidade, até Maxon retornar para o quarto acompanhado de um homem que julguei ser o médico.

– Esse é o doutor Campbell. – Maxon apresentou – Doutor, minha noiva, America, Lucy e o esposo AspenLeger.

– Muito prazer. – Ele se dirigiu a mim, antes de fixar os olhos em America – Majestade, é uma honra conhecê-la; vim o mais rápido que pude.

– Agradeço sua rapidez, doutor. – Ele se aproximou de Aspen e America se levantou.

– Como pode ver, limpamos a ferida, mas ele está fraco, porque perdeu muito sangue. – Expliquei a situação, tentando facilitar o trabalho dele.

– Fizeram um excelente trabalho por aqui. Eu vou examiná-lo para ver se está tudo certo e devo colocá-lo no soro.

– Doutor, espero poder contar com sua discrição quanto a esse assunto. – America acrescentou.

– Sim, eu já havia prometido isso ao seu noivo. Sei que não têm razões para confiar na minha moral, já que não me conhecem, mas eu garanto que minha ética profissional me impediria de contar qualquer coisa. Além disso, sou favorável a sua causa, senhora. Não há com o que se preocupar.

– Eu espero que não.

– Doutor, eu conheço o General do palácio, e ele tem uma mania de envenenar os gumes das espadas e as pontas das lanças. – Maxon disse mudando de assunto e eu paralisei. Veneno?

– Não acredito que seja o caso. Se ele envenena as armas, é porque quer que a pessoa morra, mesmo que o golpe em si não seja fatal. Esses venenos costumam ser bem rápidos, porque se demorarem ainda dá uma chance ao oponente de lutar.

– Por via das dúvidas, tem como examinar a ferida, ou algo do tipo? – Perguntei.

– Até tem, mas não estou com o equipamento necessário aqui. Eu teria que contatar o meu pessoal do laboratório de análises.

– E pode fazer isso? – Foi America quem perguntou desta vez. Doutor Campbell pareceu ponderar um pouco, mas assentiu.

Momentos depois o doutor se retirou e uma criada apareceu para acompanhá-lo.

– Lucy, se importa se ficarmos aqui com vocês? – America perguntou.

– Me importaria se me deixassem sozinha. Vocês são as pessoas em quem Aspen e eu mais confiamos. Vai ser bom para ele vê-los aqui quando acordar.

– Obrigada. – America se sentou no chão e Maxon se sentou ao lado dela, envolvendo-a com os braços. Eu continuei sentada ao lado de Aspen na cama. Ficamos por um bom tempo ali, conversando trivialidades, até eu sentir Aspen se mover ao meu lado. America e Maxon se levantaram e vieram em nossa direção.

– Aspen, acorda, amor. – Chamei e ouvi um gemido em resposta.

Quase chorei quando vi olhos verdes me encarando. America soltou um “graças a Deus” e Maxon suspirou aliviado.

– Oi. – Murmurou e eu depositei um beijo em sua testa e outro em seus lábios.

“O general, ao aplicar táticas de surpresa, torna-se tão infinito quanto o céu e a terra e, como o fluxo interminável de um rio”. – Citei e ele sorriu. Eu estava completamente alheia a America e Maxon ali, mas Aspen pareceu notá-los.

– Você nos deu um susto daqueles. – Maxon repreendeu, mas ainda sorrindo.

– E disse que não ia tentar ser herói. – America completou.

– Eu disse que ia fazer o possível. – Respondeu e nós rimos.

– Como você está se sentindo? Você precisa de alguma coisa? Quer que eu te traga um copo d’água? Precisa de mais um travesseiro? Remédio para dor? Você quase me matou do coração, sabia? Você está proibido de fazer isso de novo!

America gargalhou e Maxon estava segurando o riso. Aspen estava com uma sobrancelha arqueada.

– Também te amo. E não, não preciso de nada. Onde está o meu filho?

– No quintal. Ainda não sabe que você voltou. Queria que estivesse acordado para recebê-lo.

– Podem pedir para chamá-lo?

America foi até a porta e chamou uma criada. Voltou logo em seguida.

– Ele já vem. Enquanto isso, por que você não tenta nos explicar o que aconteceu pra você ficar desse jeito?

FLASHBACK’S ASPEN ON

Já estávamos quase no muro quando o primeiro guarda nos avistou. Quase como um pesadelo, ouvi o alarme soar.

Em fração de segundos analisei mentalmente minhas opções.

Se formos para o muro, não vamos conseguir alcançar o topo antes de eles chegarem, principalmente agora com o peso das armas pra carregar.

Se corrermos, o barulho das armas se chocando umas contra as outras vai ser um sonoro “estou aqui” para qualquer guarda que estiver ao nosso encalço, além de sermos atrasados pelo peso extra, enquanto eles virão a todo vigor.

Se nos escondermos, incontáveis patrulhas vão supervisionar a floresta e o muro, nos impedindo de sair.

Se lutarmos, a superioridade numérica deles vai acabar conosco.

As opções não são nada boas, mas optei pela necessidade mais imediata: subjugar o guarda que nos avistou.

Josh já havia previsto que uma hora ou outra teríamos que lutar então, quando dei a ordem, ele foi o primeiro a agir.

– Peguem-no.

Josh largou a mochila no chão e partiu desarmado para cima do guarda que, felizmente, só estava com um bastão. Um guarda de baixa patente.

Josh foi golpeado algumas vezes, antes de finalmente conseguir jogar o bastão do guarda para longe e nocauteá-lo.

– Vamos, temos que nos esconder antes que nos alcancem. Não vai dar pra escalar o muro com os guardas nos perseguindo.

Ganhamos tempo com o único guarda que viu nossa localização desacordado, mas assim que o encontrassem, começariam a nos caçar. De qualquer forma, tentamos colocar uma boa distancia entre nós e eles.

– Esperem. Procurem uma árvore alta e cheia de folhas e escalem, mas não se distanciem muito. Fiquem em silêncio e esperem meu sinal para descerem. Temos que esperar a poeira baixar. Há essa hora todos os soldados do palácio devem estar patrulhando o perímetro do muro.

Eles assentiram e foram procurar suas árvores. Procurei uma para mim também e de onde estava podia ver quatro deles. Consultei a bússola, esperando não ter desviado muito do caminho.

Ficamos incontáveis horas em cima da árvore. Víamos as patrulhas passando ao redor de nós sem se darem conta da nossa presença. Não podíamos nos arriscar a descer ainda. Meus músculos já estavam com câimbras pelo tempo em que eu estava na mesma posição. Com o passar das horas, percebi que o número de patrulhas tinha diminuído na parte em que estávamos. Já estava entediado até acontecer algo diferente.

Ouvi um farfalhar nas folhas de uma árvore a minha direita, e fiquei imediatamente atento.

O que vi foi Eric tentando ajeitar a mochila em suas costas. A minha também estava pesando, mas não dava pra arriscar ficar fazendo barulho. Segundos depois, ouvi o som do metal colidindo com metal abafado pelo tecido da mochila dele. Segurei a língua pra não gritar “Qual a parte do fiquem em silêncio que você não entendeu?”.

Ouvi um shhh em uma árvore à frente, mas não vi quem estava ali.

– Ouviram isso? Foi naquela direção. – Ouvi alguém gritar antes de ver uns cinco guardas passando debaixo da árvore em que eu estava. Se eles não matarem Eric, eu mesmo faço isso.

É pedir muito que eles sigam em frente sem nos notar? Sim. É pedir demais.

– Estão nas árvores!

Caí, literalmente, sobre um deles, enquanto falava “agora” suficientemente alto para que alguns descessem das árvores e suficientemente baixo para não chamar mais atenção indesejada. Lutei sozinho enquanto Jason e Arthur, que estavam mais próximos de mim, vinham me ajudar.

Estavam armados, mas no meio da confusão, se atirassem, poderiam matar uns aos outros, então partiram para o combate corpo a corpo.

Não pare! Não hesite! Um momento de hesitação pode ser o último! Disse para mim mesmo enquanto socava, chutava, prensava na árvore e tornava a socar o guarda a minha frente.

Não pare! Não hesite! Um momento de hesitação pode ser o último! Vi o sangue escorrer pelo nariz do guarda. Vi seu olhar assustado. Deveria ter uns dezenove anos. Deveria ser recém-recrutado.

Não pare! Não hesite! Um momento de hesitação pode ser o último! Mostrei para ele o caminho para a inconsciência e ele seguiu obedientemente.

Não pare! Não hesite! Um momento de hesitação pode ser o último! Dei uma cotovelada no rosto de um guarda que agarrou minha cintura por trás, tentando me jogar no chão. Falhou.

Não pare! Não hesite! Um momento de hesitação pode ser o último! Aproveitei a distração que a cotovelada causou para dar um chute no peito do guarda, que tentou inutilmente segurar meu pé. Mais um soco e ele seguiu o outro no caminho para a inconsciência

Não pare! Não hesite! Um momento de hesit... Senti uma forte ardência na minha lateral esquerda, sobre o rim.

Não pare! Não hesite! Um momento de hesitação pode ser o último!Me virei com dificuldade, mas rapidamente e surpreendi meu agressor, me aproximando e virando a mão dele de uma forma nada natural. Com certeza quebrei. A espada caiu. O guarda também.

Olhei em volta. Jason e Arthur já tinham dominado os outros dois guardas.

– Chamem os outros. Precisamos sair daqui.

Depois de cumprirem minha ordem, me seguiram de volta ao ponto cego das torres de vigia. Esperamos algum tempo antes de nos arriscarmos no muro.

Um de cada vez, eles escalaram o muro, enquanto os que ainda estavam dentro do palácio ficavam vigiando. Tivemos que lutar com mais uns quinze ou vinte guardas antes de ficarmos apenas Avery e eu dentro do palácio. Já há algum tempo eu tinha a impressão de que tudo estava girando ao meu redor, mas me recusei a desmaiar.

Você tem uma missão a cumprir, AspenLeger. Sua missão inclui ir e voltar. Nada de ficar no meio do caminho. Você prometeu que voltaria. Está ferido? Está, mas não vai ser um cortezinho que vai te parar. Está com um problema? Resolva.

Interrompi minha conversa mental quando ouvi a voz de Avery.

– Você não parece bem.

– Eu não me sinto bem.

– Vá na frente. Se cair eu te seguro. – Assenti – Me dê a mochila. Não vai aguentar subir com ela.

– Eu consigo.

Demorei mais do que todos os outros subindo aquele muro. Ele não era menor da outra vez?

Quando cheguei ao topo, parei um pouco para controlar minha respiração descompassada e me recuperar da dor excruciante que estava sentindo, meu corpo reagindo a cada minúsculo movimento. Tornei a descer o muro e me agarrei à corda quando minha visão escureceu. Olhei para baixo, para os olhares preocupados de dois rostos indefinidos e para dois pares de braços estendidos. Caí, mergulhando na inconsciência.

FLASHBACK’S ASPEN OFF

– E é isso que eu me lembro. Não sei como cheguei aqui. – Aspen terminou o relato.

– Como acha que chegou aqui? Carregado, obviamente. – Maxon falou antes de ser interrompido pelo som da porta se abrindo.

– Pai! – Evans pulou na cama ao meu lado.

– Tio Aspen! – Nicole ficou ao lado de Maxon.

– Estamos com um problema. – Aspen falou com uma expressão carrancuda no rosto. Evans olhou para o pai confuso.

– Qual? – Nicole ainda é a mais curiosa.

– Nenhum dos dois veio me dar um abraço. – Sorriu enquanto recebia dois abraços apertados. Percebi quando segurou a respiração.

– Tudo bem, tudo bem. Deixem-no respirar. Ele foi ferido e vocês não podem apertá-lo tanto assim. – Disse enquanto puxava Evans para o meu colo. Nicole se afastou um pouco, mas permaneceu sentada na cama.

– Conseguiram te ganhar numa luta, pai? – Evans perguntou assustado.

– Claro que não. Eu estava lutando com outro, quando o homem veio e me acertou. Mas então, eu virei e acabei com ele. Ninguém machuca AspenLeger e sai inteiro pra contar história. Eu sou demais.

Evans sorriu orgulhoso enquanto eu e America nos entreolhávamos segurando o riso.

– E agora, tio? Qual o próximo passo?

– O último. Atacar o palácio e capturar seu avô.

Continua...

Notas finais
Vocês que chegaram até aqui, criei uma página no facebook para falar dessa fic e talvez de outras que venham pela frente (quem sabe?). Aí eu posso parar de tagarelar nas notas. Quem quiser dar uma passada por lá... Não tem muita coisa ainda porque eu sabia que ninguém ia aparecer antes de eu avisar. Agora que avisei, e se passarem por lá, atualizo mais vezes. https://www.facebook.com/enthrallingbooks O que acharam do capítulo e do Pov da Lucy??? Beijos, e até a próxima.