Feliz aniversário, mamãe

1 Feliz aniversário, mamãe...


Que belo dia chuvoso. Os relâmpagos e trovões celebram conosco esta data tão especial. O som da chuva no telhado é como uma sinfonia tribal em ritmo extremamente acelerado. Hoje celebramos o seu controle sobre a minha vida, mamãe. E o que seria de mim sem você? Desde a mais tenra idade você me cercou de cuidado. Temos que combinar, faltou carinho, você concorda? Embora sua vida, a partir do meu nascimento, tenha sido em função da minha própria existência, confesso que senti falta de me relacionar com outras crianças da minha idade. Vê-las pela rua correndo atrás de uma bola, ou mesmo pedalando uma bicicleta, por vezes me cortou o coração. Mas como poderia eu ir de encontro a tudo aquilo que você representava? Como poderia me manifestar contra a mulher que decidiu pela minha vida quando teve no seu ventre um ser gerado a partir de um momento de violência e dor? Eu nunca a culpei pelo fato de, anos mais tarde, sair numa louca caçada atrás daquele homem que eu deveria ter chamado de pai. Jamais passou pela minha cabeça tentar frear o seu ímpeto enquanto assistia, no banco de trás do nosso carro, você acelerar ao máximo e jogar aquele ente miserável a mais de quatro metros de altura, pagando assim por todo mal que lhe fizera. Enquanto você seguia dirigindo em frente, gargalhando de forma insana, eu assisti pelo espelho retrovisor a chama que ardia em sua pupila e, olhando pra trás, senti pena daquele homem deitado de bruços no asfalto; disse mentalmente: Adeus, papai.

Senti muita pena de você pelo julgamento que as pessoas faziam ao seu respeito. Sinto pena da ignorância daquelas pessoas que a julgavam e amaldiçoavam pelo simples fato de sentirem medo do desconhecido. Acho injusto condenarem alguém que domina as secretas artes antigas, ancestrais, de manipulação do mundo espiritual, baseando-se em mitos e lendas. Nunca se deram ao trabalho de sentar, conversar e tentar lhe entender. Julgaram sua aparência, mamãe! Convenhamos que você não é o que chamamos de “convencional”, não é mesmo? Suas costas curvadas, o cabelo prateado, a falta de alguns dentes e os pelos que insistem em nascer no seu queixo lhe tornam uma figura intimidadora. É isso! Eles se sentiam intimidados. Lamento muito que algumas vezes eles tenham se reunido para vir à nossa casa, porém não para conversar e confraternizar. Lembro, ainda na época da primeira infância, de pelo menos duas ocasiões em que você correu comigo no colo para dentro da floresta, enquanto eles queimavam nossa casa e bradavam alegremente, demonstrando uma satisfação orgástica. Mas você nunca permitiu que eu sentisse o mínimo desejo de estar entres eles naquela triste celebração, de modo que recordo perfeitamente enquanto corríamos de pés descalços pela chuva, com a lama se espremendo por entre os dedos dos pés enquanto você uivava para a escuridão. Podia jurar que alguém, ou algo, nos aplaudia de perto.

Já no período de minha adolescência, entendo que você se esforçou para aceitar que eu deveria me relacionar com garotas; embora elas também fossem cruéis às vezes. Por que será que a aparência dos diferentes incomoda tanto a essa gente? Realmente foi uma pena que a única jovem que se aproximou, talvez por curiosidade, tenha falecido um dia após ter jantado conosco uma única vez. Espreitando pelas sombras da noite, na janela da sua casa, ouvi sua família dizer que ela havia sido acometida de alguma doença rara. Disseram que seu lindo cabelo dourado caíra da noite para o dia e que fortes dores estomacais a acompanharam até o seu doloroso fim. O que teria feito essa pobre alma para que algo assim a tocasse? Lembro-me de vê-la, pela janela, deitada em seu quarto, pálida como a lua, sem um fio de cabelo em sua cabeça e acha-la linda.

Uma das maiores injustiças que cometeram em relação a você, e isso me dói na alma até hoje; se é que tenho uma alma; foram as pessoas jogando ovos podres e fezes em nossa cabana, chamando-a de bruxa. Eles não entendem que você apenas sabe o que eles não sabem, que você é superior a eles em muitas coisas, que conhece e manipula aquilo que eles só assistiram em filmes de Hollywood e leram em livros de ficção barata.

Você é muito mais do que isso, mamãe. Hoje eu sei; cada chicotada que açoitou as minhas costas foi para que eu aprendesse e nunca mais esquecesse os ensinamentos que me preparariam para a vida. Quando outros garotos me atacaram e me abandonaram para morrer, foi o seu rosto que eu vi, o seu colo que eu senti... Você é minha mamãe.

Então, celebremos. Hoje faz um ano que você me deixou. Hoje contam trezentos e sessenta e cinco dias que eu comecei de fato a minha vida. Todo aprendizado, toda experiência, toda fuga, todos os segredos que me ensinou é que me forjaram num fogo de chama negra. Hoje faz um ano em que eu passei a cuidar de você. Faz um ano que o sopro de vida lhe deixou, é verdade, mas eu seria incapaz de sepulta-la na terra fria. Deitado na cama ao seu lado, é como se você estivesse num sono profundo; e eu jamais conseguiria me separar de você.

Feliz aniversário para nós, mamãe – disse enquanto se aconchegava no peito seco e beijava o rosto acinzentado da velha bruxa.

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