Feliz Ano Novo
1 Feliz Ano Novo
Abriu a porta e tirou os sapatos. Quis dar uma de elegante e foi trabalhar de salto alto na véspera de feriado, juntamente o dia em que mais trabalhava. Agora se arrependia totalmente. Jogou a bolsa e as chaves no sofá e ligou o rádio. Tocava A Day in the Life dos Beatles. Desligou o som e foi para a cozinha, colocou uma panela com água, óleo e sal no fogo. Dirigiu-se para o banheiro e no caminho foi deixando suas roupas. Vinte minutos depois, saiu com uma toalha enrolada no corpo, dançando Beyond Here Lies Nothing do Bob Dylan. Vestiu um pijama velho e foi preparar a macarronada. Fez o molho, fritou batatinhas congeladas e abriu um champanhe.
Depois de jantar, Érika desligou o som e foi assistir Senhor dos Anéis e as Duas Torres pela quarta vez. Os vizinhos impacientes já soltavam os fogos e rojões. No meio do filme adormeceu. Pensou ter passado apenas dez minutos quando acordou com o celular tocando, mas passaram-se algumas horas. No visor do celular um nome: Sabrina.
- Alô? – disse sem ter certeza do que vira.
- Pensou que eu não ligaria? – o lugar estava barulhento, cheio de vozes.
- Achei que não se lembrava mais de mim.
- Pois eu deixei essa festa de lado só para te ligar.
Érika achou aquilo atípico. Numa hora dessas, Sabrina deveria estar se agarrando com alguém num canto escuro de algum lugar cheirando a cerveja velha.
- Ligou só para me encher o saco?
- Queria te desejar “Feliz Ano Novo”.
- Já fez isso.
- Credo, é fim de ano e você fica assim, de mau humor.
- Você me conhece, sabe que eu não gosto de festas.
- Eu realmente esperava que você tivesse mudado...
- E você mudou?
Érika ouviu um barulho de algo estalando.
- Olha, eu não liguei para a gente brigar. Você sabe que eu te amo e não espero nada de você depois do que eu fiz.
- A única coisa que eu espero é que você pare com essa vida louca e promíscua. Quando isso acontecer, estarei te esperando.
- Me sinto péssima quando você diz essas coisas. Por que você simplesmente não me chuta de uma vez, eu ficaria arrasada.
- E eu não ficaria? Não estou pensando em você, estou me auto preservando.
- Sei. Vou desligar antes que você acabe com a minha noite.
- Você já acabou com a minha.
Ouviu um suspiro e a linha ficou muda. Teve vontade de jogar o celular na parede, mas se conteve. Desligou a TV e foi dormir pensando porque, depois de todo esse tempo separadas, ela ainda tinha esperança de ver Sabrina em sua porta, de mala nas costas, pedindo para voltar. Deu um sorriso meio torto com o que imaginou. Se quer tinha mandado ela embora. E Sabrina merecia. Mas a verdade é que uma não sabia viver sem a outra.
Antes de pegar no sono desejou que o ano que estava se iniciando fosse pior que o anterior. Estava cansada de querer que as coisas melhorassem. Talvez assim desse certo.
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