Felix Culpa
2 San Junipero — 2/2
Notas iniciais

Vento.
Desde pequena uma coisa que Temari sempre amou era o vento.
Com sua forma livre e rebelde, ele possuía a força que quisesse, passando por qualquer lugar que fosse, sem se importar com nada nem ninguém em seu caminho.
Temari amava o vento.
E amava principalmente a sensação dele em seu corpo. Seus cabelos sendo levados para trás enquanto ela sentia aquele poder da natureza acariciar-lhe a face sem se importar com nada.
O vento era livre. E era isso que ela sempre almejava ser.
E nesses momentos, onde se sentia sufocada com tudo a sua volta, ela sempre sabia que podia recorrer a ele para se sentir melhor.
E era isso o que estava fazendo, pilotando sua moto pela autoestrada, deixando que o vento ganhasse força à sua volta, percorrendo-a por completo.
O velocímetro já passara em muito dos 100 km/h, mas ela não parecia nem ao menos se preocupar, ganhando cada vez mais velocidade naquela pista deserta da madrugada.
Temari de alguma forma podia sentir seu corpo mais leve e até mesmo a sua mente, deixando o peso dos problemas para trás, sendo levados pela força do vento para bem longe de si.
E conforme acelerava, seu desejo era fechar os olhos e se entregar para sempre àquele momento tão precioso e único. Deixar tudo para trás.
§
Temari abriu os olhos assim que ganhou consciência novamente, olhando à sua volta para o já tão familiar bangalô que ficava à beira da praia.
Ela suspirou, passando a mão pelos cabelos loiros ao se levantar para se preparar para mais um dia em San Junipero.
Sabia de tudo, das responsabilidades que tinha, da sorte por estar ali há tanto tempo... mas nada diminuía a dor de não poder estar perto de seus irmãos novamente.
Por mais que parecesse absurdo, sua mente a levou de volta ao estranho homem que apareceu no bar alguns dias antes. O homem que parecia ser um novato, mas ao mesmo tempo possuía um ar tão diferente.
E a forma como ele disse que daria um jeito em tudo...
Temari não sabia o que pensar, mas o modo como ele falou havia mexido com ela.
É verdade que ela estava esperando o suporte vitalício há algum tempo. Aquele suporte permitia às pessoas que, apesar de não estarem mortas, já não tinham condições de viverem no mundo real, a terem uma vida decente para sempre no San Junipero. E Temari sabia que a fila para conseguir isso era enorme, mas ela deixou bem claro, assim que chegou naquele lugar, que não queria depender de nenhum privilégio por ter mais dinheiro do que as outras pessoas. Foi decisiva ao dizer para a mulher que a orientou nos primeiros dias que não aceitaria os irmãos pagarem seu suporte vitalício, tirando o privilégio de várias pessoas que já estavam na fila para conseguir aquilo há anos.
E então ela foi colocada na lista. E assim ficou por muitos e muitos meses, sendo conectada por apenas poucas horas por semana ao sistema, tendo a consciência completamente apagada no restante do tempo.
Era difícil, Temari sabia, e foi por isso que conseguiu seu emprego no Tucker's, dessa forma era capaz de ter algumas horas a mais em seu banco de dados do San Junipero, e sabia que, ao fazer isso, levaria algum conforto para os irmãos. Eles precisavam saber que ela ficaria bem, independente de sua decisão altruísta e de todo o resto.
Temari suspirou, terminando de se arrumar. Aquele era um dos raros dias que teria uma folga, então pensou em aproveitar e explorar outros anos diferentes do sistema do San Junipero.
Ela programou o relógio que estava na parede da casa, selecionando o ano de 2018, sem pensar muito. Era um ano que ainda não havia visitado, então estava um pouco curiosa.
Se encaminhou para a porta, ainda pensativa. Temari se sentia estranhamente ansiosa já fazia alguns dias, como se algo estivesse para acontecer, algo bom. E foi com essa sensação que ela fechou os olhos e tocou na maçaneta, abrindo-a logo em seguida, pronta para o que aquele novo ano poderia lhe oferecer.
§
Shikamaru ficou dois dias hospitalizado. Sakura lhe garantiu que era apenas uma medida de segurança, deixando-o em observação por um tempo para garantir que todas as substâncias que ele ingeriu haviam de fato saído de seu sistema.
Neste tempo, sem absolutamente nada para fazer, Shikamaru pediu para que Chouji lhe trouxesse alguns documentos. A conversa com a balconista do Tucker's em San Junipero ainda não saía de sua mente, e ele falou sério quando prometeu a ela que tentaria resolver aquela situação.
— As pessoas que podem pagar pelo suporte vitalício tem preferência na lista de espera... O sistema gratuito também não é efetivo, muitas pessoas para poucas vagas por mês — Shikamaru falava sozinho, sentado analisando os vários papéis a sua volta na pequena cama do hospital.
Foi enquanto pensava numa solução que a porta de seu quarto se abriu, atraindo sua atenção para a voz estridente e familiar.
— Shikamaru, não acredito que você está trabalhando até mesmo aqui! — A dona da voz, uma loira bastante problemática caminhou até ele, não parecendo nada satisfeita.
— Tsc... não precisa falar tão alto, Ino — Ele reclamou, fazendo uma careta.
— Eu falarei mais baixo quando você parar de trabalhar. — Ela pontuou e Shikamaru suspirou.
— Problemática.
Ino sorriu, sentando-se na cadeira ao lado da cama do Nara.
— Mas é bom te ver voltando à ativa. Só quero que você pegue leve dessa vez.
— Eu vou.
— Hm, estou vendo... — Ela comentou de modo crítico, pronta para reclamar mais uma vez, mas Shikamaru, prevendo isso, foi mais rápido.
— E quando é que eu e Chouji vamos conhecer o maluco que decidiu sair com você? — Ele mudou de assunto em tom mais provocativo, sabendo que aquilo a faria esquecer dos problemas dele.
Shikamaru sabia que precisava discutir com ela e o amigo sobre os problemas da empresa, mas sabia que aquele não era o momento para isso. Se continuasse falando sobre trabalho estando internado no hospital, era capaz de Ino nunca o deixar sair de lá. E ele sabia que ela era capaz daquilo com a ajuda de Sakura.
— Não fale assim de Gaara! Ele não é nada maluco! — A Yamanaka reclamou, logo desfazendo sua expressão séria em um sorriso apaixonado — Vocês precisam conhecê-lo.
Shikamaru sorriu ao ver a amiga feliz assim. Fazia um bom tempo que não via Ino daquele jeito.
— E como diabos vocês se conheceram? — Perguntou um pouco curioso já que a mulher era quase tão viciada em trabalho quanto ele.
O sorriso de Ino se quebrou um pouco com a pergunta e ela suspirou, parecendo pensar em como responder, deixando nítido que aquele era um assunto complicado.
— A irmã dele está no San Junipero, na lista para receber o suporte vitalício. Ele veio várias vezes discutir o assunto pessoalmente comigo, mas... — Ino ergueu a mão, colocando alguns fios loiros de seu cabelo para trás da orelha, decidindo não entrar em muitos detalhes, pelo menos não no momento — É uma longa e complicada história, acredite.
O Nara franziu o cenho quando ouviu a amiga falar sobre suporte vitalício, mas também não comentou nada.
Ino deu um longo suspiro e se levantou, voltando a sorrir.
— Um dia vou apresentar Gaara a você e Chouji, tenho certeza que se darão bem! — Ela parecia ter voltado ao normal, recolhendo os papéis que estavam na cama de Shikamaru, ignorando as reclamações dele — Eu vou voltar para o trabalho, e você nada de trabalhar por agora, precisa descansar, e se insistir eu conto tudo para Sakura!
— Mas Ino...
— Sem "mas"! — Ino ia se afastando para a porta, agora com todos os papéis em mãos, parecendo satisfeita.
— Ino, espera — Ela parou ao ouvir a voz de Shikamaru lhe chamando em um tom um pouco mais sério do que o normal. Se virou para ele, curiosa.
Shikamaru sabia que não a faria mudar de ideia quanto a continuar trabalhando ali, mas ainda havia uma coisa que queria pedir...
— Você pode me trazer a ficha de uma pessoa que conheci no San Junipero? — Ino olhou para ele desconfiada e Shikamaru ergueu as mãos — Juro que não vou trabalhar enquanto estiver aqui, só quero verificar uma coisa!
Ela pareceu ponderar por um momento, mas acabou cedendo por fim.
— Certo, qual é o nome?
— Temari. Eu não sei o sobrenome, mas ela está na lista para receber suporte vitalício e trabalha no Tucker's e... Ino, tudo bem? — Ele próprio se interrompeu, perguntando a amiga se havia algo errado, visto que ela pareceu surpresa com o que ele falava.
Ino, no entanto, logo se recompôs.
— Não, não é nada. Eu vou... procurar pela ficha. — Ela disse, murmurando para si mesma logo em seguida — provavelmente só estou confundindo com ela…
Já era noite quando a Yamanaka retornou ao quarto de Shikamaru. Ele havia acabado de acordar e olhava com certo receio para uma gelatina suspeita que fora servida de jantar. Aquela comida de hospital era estranha demais.
— Não vai comer isso? — A voz da loira se fez presente no batente da porta.
— Acho que vou presentear Chouji com mais um pouco de comida de hospital... — Shikamaru resmungou, finalmente tirando os olhos da gelatina e fitando a amiga. Ele então se surpreendeu ao ver que ela não estava sozinha.
— Shikamaru, esse é meu namorado, Gaara — Ino deu espaço para um homem com cabelos ruivos entrar e se aproximar de Shikamaru, cumprimentando-o. Ino lançou um olhar para o Nara, claramente alertando-o para ser gentil e ele controlou a vontade de girar os olhos diante disso.
— Shikamaru, fico feliz em finalmente te conhecer, Ino fala muito ao seu respeito — Gaara disse polidamente, e o modo sério dele fez Shikamaru segurar o riso. Era bem típico de Ino se apaixonar por caras sérios daquele jeito. Pelo menos Gaara parecia ser mais simpático que Sasuke… e menos maluco que Sai.
— Igualmente — Ele esboçou um pequeno sorriso, simpático, e logo se virou para a Yamanaka que parecia de algum jeito desconfortável ali ao lado de Gaara. — Ino, você trouxe a ficha que te pedi?
— Shikamaru, sobre isso… — Ela pareceu ainda mais estranha, e foi aí que Shikamaru começou a perceber que tinha algo errado.
Ino nunca se comportava daquele jeito, muito pelo contrário.
— O que foi? Aconteceu alguma coisa?
— É essa ficha que você está procurando? — Foi Gaara quem falou, para a surpresa do Nara, estendendo uma ficha com a foto da mulher que ele havia conhecido há alguns dias no San Junipero.
— Sim, por que? Ela está bem? — Perguntou ao pegar a ficha dela das mãos de Gaara, subitamente preocupado.
— Ela está bem, é só que… — Shikamaru nunca havia visto Ino enrolar tanto para responder às suas perguntas e isso só o deixou mais preocupado e curioso.
Gaara apertou de leve a mão da namorada e tomou a frente na conversa.
— Temari é minha irmã.
A boca de Shikamaru se abriu em um perfeito “O” sem que ele tenha sequer tomado consciência disso, surpreso demais com tamanha coincidência, mas agora entendendo completamente porque Ino havia levado seu namorado até ali com ela.
— Posso supor que você a encontrou no San Junipero… — Gaara continuou, e Shikamaru percebeu que, apesar dele parecer sempre sério e inexpressivo, era possível ver que aquele assunto o machucava — Temari… ela está bem?
Shikamaru suspirou, deixando a ficha em seu colo e passando a mão pela cabeça.
— Sim, não há nada de errado com ela — Aquilo pareceu aliviar um pouco o homem a sua frente que relaxou a postura, enquanto Ino ao seu lado sorria de leve.
— Então por que pediu a ficha da minha irmã?
— Eu também estou curiosa com isso… — Ino comentou e Shikamaru sabia que ela havia segurado o tom malicioso apenas porque o namorado estava presente.
E aquela pergunta era o tipo de pergunta que ele também havia feito para si mesmo logo depois de pedir a ficha para a amiga. Shikamaru não sabia exatamente o que tinha na cabeça no momento em que pediu, só sabia que a figura daquela mulher havia lhe marcado o suficiente para ficar lembrando dela a cada instante desde que havia acordado do San Junipero.
Shikamaru não era o tipo de pessoa que se importava muito com os outros a sua volta, ainda mais desconhecidos assim. Mas de alguma forma, Temari, nas poucas horas que passaram juntos, havia chamado sua atenção. Não somente pela beleza (porque eis um fato, ela era bonita), mas principalmente pelo jeito que se comportou quando parou a briga no bar e como reclamou do sistema do San Junipero. Ela era problemática e tinha tudo para o Nara querer distância, mas apesar disso… não conseguia.
E então quando pediu a ficha dela para Ino, Shikamaru falou sério quando disse que não era nada relacionado ao trabalho. Foi um pedido egoísta e movido simplesmente pela curiosidade de saber mais sobre aquela problemática garçonete de olhos verdes.
— Tsc… não é nada demais — Tentou desconversar, mas sabia que não teria sucesso fácil assim quando os dois estavam parados a sua frente esperando por uma resposta. Sentiu o rosto corar de leve — Encontrei com ela no bar e conversamos sobre o sistema de suporte vitalício, então eu só fiquei curioso sobre ela… Já disse, não é nada.
Aquilo pareceu convencer Gaara, que esboçou um triste sorriso.
— Temari está na fila para receber o suporte vitalício — Ele falou então, embora Shikamaru já soubesse desse fato — Segundo Ino, ela foi bem determinada em recusar a receber o suporte pago que ofereci.
— Porque fazendo isso, vai pegar o lugar de pessoas que estão na fila há mais tempo… — Shikamaru comentou pensativo. Ele não conhecia muito daquela mulher, mas algo lhe dizia que era esse o motivo, e pela reação de Gaara, ele estava certo.
— Ela é cabeça dura, não é? — O ruivo disse, mas era visível o tom triste em sua voz.
Shikamaru suspirou, sorrindo ao se lembrar do modo como Temari falava sobre o suporte vitalício.
— Ela é problemática...
Depois daquilo, não demorou muito para Gaara e Ino irem embora.
Provavelmente se dependesse de Gaara, ele continuaria por ali conversando mais sobre Temari com Shikamaru, no entanto Ino logo o apressou, dizendo que tinham uma reserva em algum restaurante qualquer e que já deveriam estar lá. Shikamaru sabia que ela usara aquilo como desculpa, já que percebera como o amigo ficara desconfortável ao falar com o irmão da mulher que ele tinha conhecido. E por mais que ela adorasse constranger Shikamaru, Ino entendia que naquela situação, era melhor não forçar tanto, visto que era um assunto delicado principalmente para Gaara.
Além do mais, ela teria tempo de sobra para provocar Shikamaru sobre Temari quando estivessem a sós.
E mesmo ele sabendo que não havia escapado completamente das garras maldosas da amiga, o Nara agradeceu mentalmente por ela ter se esforçado para ir embora, deixando-o completamente sozinho, com a ficha de Temari ainda em mãos.
Ele olhou para a ficha quando o silêncio tomou conta do quarto, dando um longo suspiro e abrindo. Talvez aquilo fosse considerado uma invasão de privacidade de sua parte, mas agora era tarde demais para pensar nisso.
Sabaku no Temari.
Esse era o nome completo da mulher. Shikamaru também descobriu que ela era três anos mais velha que ele e que seu responsável legal era Gaara, o namorado de Ino e seu irmão mais novo.
Shikamaru não sabia mais sobre seus outros familiares, já que ali só informava o básico, mas…
Ele virou mais uma página, lendo então seu histórico e laudo médico.
Temari estava ali há um ano.
“Um ano utilizando do San Junipero e na fila para conseguir o suporte vitalício, isso é loucura…” Shikamaru pensou, e o pior é que Temari também havia dito para ele que existiam pessoas em situações piores que a dela.
Ele sentiu um arrepio, voltando a ler os papéis em suas mãos.
Temari, devido a um acidente de moto que sofrera, agora estava em um coma profundo e, desacreditada pelos médicos de despertar algum dia, tudo o que a mantinha viva eram os aparelhos do hospital, impulsionando oxigênio em seu corpo e fazendo seu coração continuar a bater.
Shikamaru fechou a ficha, não querendo ver mais detalhes de sua condição e nem relatórios sobre como foi seu período de adaptação no San Junipero.
Já havia acabado com sua curiosidade, se sentindo finalmente mal o suficiente por invadir a privacidade de uma mulher que pouco conhecia até então.
Shikamaru guardou os papéis cuidadosamente e colocou em cima da pequena cadeira que estava ao lado de sua maca.
Já estava tarde, e ele sabia que Sakura apareceria em breve apenas para verificar seu estado, mas o sono aos poucos o embalava, e Shikamaru tinha certeza que não aguentaria ficar acordado por muito mais tempo.
Provavelmente no dia seguinte poderia ir embora daquele lugar, e aí sim pensaria no que fazer sobre os problemas em relação ao trabalho.
Então, pela segunda vez desde que acordara naquele hospital, Shikamaru adormeceu com o pensamento naquela mulher problemática que já não era mais tão misteriosa assim.
§
— Você está parecendo minha mãe… — Shikamaru reclamou pela terceira vez naquele dia desde que Ino havia invadido seu quarto e começado um enorme discurso de como ela e Chouji cuidariam dele agora que recebera alta do hospital.
— Deveria dar graças a Deus por ela não estar aqui — Ela continuou e Shikamaru realmente agradeceu mentalmente por sua mãe não ter ficado sabendo do pequeno acidente que ele tivera. Ela morava em uma cidade afastada e se ficasse sabendo, certamente infernizaria a vida do Nara de uma forma muito pior do que Ino.
Mas isso não significava que aguentar a amiga seria fácil.
— Já falei com seu psicólogo e você terá consultas com ele semanalmente. Nós conversamos e achamos melhor não entrar com psiquiatra novamente pelo menos no começo… então não precisará se preocupar com remédios, isso vai ser melhor por agora.
Conforme ela falava, Shikamaru, já de pé, devidamente vestido com suas roupas e pronto para ir embora, olhava para a cama em que estivera deitado durante dias, com uma vontade de deitar novamente. Às vezes a voz de Ino era como um sonífero para ele. Não entendia nada e lhe dava vontade de dormir.
— … E já que você vai ficar na casa de Chouji por enquanto, nós dois concordamos em te manter afastado do trabalho até se sentir melhor. — Somente aquela frase foi capaz de tomar a atenção do moreno, despertando-o por completo.
— Você concordou com isso? — Ele questionou Chouji, interrompendo o falatório de Ino. O Akimichi que estava no batente da porta, parecia tão entediado quanto ele.
— Bem, você precisa ir com calma… Estava trabalhando como um louco antes — Chouji deu de ombros, abrindo um pacote de batatinhas enquanto mandava um olhar de desculpas para o Nara.
Este revirou os olhos, contrariado.
Ele aceitara calado todas as recomendações de Ino, concordando até que realmente deveria se cuidar depois de tudo o que aconteceu em sua vida.
Mas ficar longe do trabalho justo quando sabia que tinham coisas a serem feitas e que ele poderia ajudar?
Aquilo era algo que Shikamaru não podia aceitar.
— Ino, você sabia sobre a enorme fila para o suporte vitalício gratuito? — Questionou de repente antes que a loira recomeçasse o discurso sobre os cuidados que ele deveria ter.
Ela suspirou, parecendo não querer falar sobre aquilo no momento, mas também percebendo que não teria muita escolha.
— É claro que eu sei sobre isso. Todos os dias tenho que lidar com um enorme número de pessoas descontentes com o sistema, mas o que espera que eu faça, Shikamaru?
— Há quanto tempo isso anda acontecendo?
Ino mordeu os lábios, não querendo discutir com o amigo que ainda estava em uma situação difícil.
— Shikamaru, nós não queríamos te preocupar — Foi Chouji quem falou, para a surpresa do Nara que olhou para o amigo, indignado.
— Eu fiquei sabendo do problema por uma briga no Tucker’s! — Ele exclamou e percebeu como tanto Ino quanto Chouji pareciam envergonhados de ter escondido aquilo dele. — Se tem alguma falha no sistema, vocês não podem me deixar de fora, somos sócios, não somos?
— Eu pedi para o Chouji não te contar — Ino se adiantou, explicando — Vi que você estava piorando cada vez mais, preocupado demais com o trabalho e claramente sofrendo por isso e então… me desculpe, Shikamaru.
O Nara suspirou profundamente. Ele sabia que não estava realmente com raiva de Ino por ter feito aquilo, nunca conseguiria ter raiva por muito tempo dela e muito menos de Chouji, e de certa forma até entendia um pouco as intenções deles.
— Não é como se estivéssemos negligenciando a situação, Shikamaru. Só não conseguimos pensar em nenhuma solução. — Ino continuou, falando baixinho — Sabia que foi assim que conheci Gaara? Estive discutindo com ele sobre o sistema gratuito do suporte vitalício, já que a irmã quis depender disso. Mas ninguém está satisfeito, inclusive nós.
— Então me deixem dar um jeito nisso. Eu prometi para Temari que conseguiria uma solução, e é o que quero fazer.
Ino lançou um olhar para Chouji, indecisa. O Akimichi suspirou, dando de ombros.
— Shikamaru é o mais inteligente entre nós, Ino. Se alguém vai conseguir fazer alguma coisa, esse alguém é ele.
— Certo… que seja. Mas você — Ela apontou para o Nara — se percebermos que você está se acumulando de trabalho de novo, vamos te afastar. Somos seus amigos antes de sermos sócios, não se esqueça disso.
Shikamaru coçou a cabeça, bocejando.
— Eu sei, eu sei.
E com a questão sobre voltar a trabalhar sendo resolvida, Shikamaru juntou alguns de seus pertences e se instalou temporariamente na casa de Chouji, como haviam combinado.
Ele foi sério quando disse — e reafirmou — para Ino que realmente estava disposto a voltar com suas consultas com psicólogo, e concordou até mesmo em pegar mais leve no trabalho, embora estivesse mais ansioso do que nunca para se conectar ao San Junipero.
Mas durante os três dias que se seguiram, Shikamaru de fato resolveu ir retomando devagar a sua rotina. Enquanto não entrava no sistema para verificar os recentes problemas, ele decidiu ir gastando toda sua energia para pensar em algum modo de resolver a situação do sistema gratuito do suporte vitalício.
Analisou dados, pegou várias informações tanto de Chouji quanto de Ino, conversou um pouco com Gaara – que, curiosamente, parecia bastante integrado no assunto e disposto a ajudar no que fosse necessário,
Mas apesar de tudo, Shikamaru não conseguira pensar em nada.
É como se seu cérebro estivesse estagnado. Bloqueado.
— Algum problema? — Chouji perguntou quando o encontrou na hora do almoço. Haviam combinado de almoçar fora em algum restaurante porque, bem, nenhum dos dois sabia cozinhar uma comida decente em casa.
— Não consigo pensar, não consigo achar uma solução para o suporte vitalício. — Shikamaru desabafou, frustrado.
— Hm… Você está estranho mesmo. Não tem algo te atrapalhando a pensar?
— Não faço ideia.
— Não é a fome?
— Só você tem fome direto a ponto de atrapalhar sua vida, Chouji.
O amigo riu, concordando.
— Então… não tem algo que você queira fazer que está te atrapalhando?
— Como assim? — Shikamaru na maioria das vezes conseguia entender o que Chouji dizia, mas franziu o cenho, confuso diante da pergunta do Akimichi.
— Bem, eu não sei, o que você quer fazer agora? Além de achar uma resposta para o seu problema. — Ele viu Shikamaru pensando por um tempo, sem saber o que falar — Só responda sem pensar muito, o que você mais quer fazer agora?
— Ir para o San Junipero — Shikamaru falou então, suspirando.
Chouji sorriu.
— Aí está sua resposta.
— Está dizendo que se eu for para o San Junipero, milagrosamente meu cérebro começará a funcionar? — Shikamaru perguntou sem entender muito a lógica do amigo.
— Apenas vá. Se está com vontade de ir, vá. Não se pressione muito para conseguir uma resposta se está se sentindo tão bloqueado assim — Chouji falou, dando de ombros, como se fosse realmente simples. — Às vezes sua vontade pode estar bloqueando o seu cérebro de pensar direito. Acontece quando estou com fome.
Shikamaru olhou para o amigo em dúvida se ele era um gênio ou um louco, mas decidiu não discutir. Aliás, decidiu fazer o que ele falava. Afinal, talvez uma parte sua realmente desejasse muito ir para o San Junipero.
E ele tinha uma pequena ideia do que faria quando chegasse lá.
§
Shikamaru descobriu que não era tão fácil assim achar uma pessoa no San Junipero. Ele sabia que muitas pessoas transitavam por ali diariamente (a maior parte até de modo permanente), mas nunca imaginou que era tão difícil encontrar quem procurava.
Temari deveria estar no Tucker’s, ao menos era o que ele imaginava, mas tudo o que conseguiu de informação sobre ela naquele dia foi o ano em que estava: 1984.
Os anos 80 eram os mais cheios em toda San Junipero. Shikamaru nunca entendia muito a obsessão das pessoas por aquela década, mas aquele não era o momento de pensar sobre isso.
O que ele estava mais curioso é como Temari, apesar de estar no sistema naquele momento (assim Gaara o informara por telefone), ela não estava trabalhando no Tucker’s naquele momento.
Folga? Não parecia ser isso. Talvez uma mudança de turno? Era mais provável.
Mas se ela estava conectada no sistema e não estava trabalhando, então poderia estar em qualquer ano do San Junipero.
E pensar naquilo era extremamente desanimador para Shikamaru.
O sol já estava se pondo, se escondendo lentamente sobre a imensidão do mar azul ao longe, quando Shikamaru, já sem esperanças de encontrar a loira, sentou-se na areia cristalina, cansado.
O vento forte vindo da sua direção esquerda o fez virar o rosto para proteger os olhos da areia. E foi ao fazer isso que ele viu uma silhueta de uma mulher ao longe.
Shikamaru semicerrou os olhos para tentar enxergar com clareza entre os raios alaranjados do sol, não conseguindo acreditar que finalmente encontrara quem ele passara o dia buscando.
Ele se levantou, batendo a areia da calça, se apressando rapidamente para ir de encontro a ela.
— Temari!
A loira, que caminhava quase de braços abertos e olhos fechados, se agraciando com o vento, se virou ao ouvir uma voz levemente familiar a chamar em meio ao som das ondas do mar se quebrando na praia.
— Você...? — Ficou surpresa por ainda se lembrar da figura daquele estranho cliente que vira apenas uma vez há alguns dias.
Mas então, lá estava ele, se aproximando parecendo sem fôlego, mas aliviado por vê-la ali.
— Aconteceu alguma coisa?
— Achei que estivesse trabalhando no Tucker’s. — Ele disse ao se aproximar o suficiente dela.
— Estava. Consegui uma troca de turno de última hora e consegui sair mais cedo hoje…
Aquela sensação inquietante em seu peito não havia a deixado desde o dia em que o vira naquele bar, e naquela tarde, em especial, sentia que precisava sair e andar pela beira do mar. Somente com a companhia do vento Temari poderia se acalmar.
Mas ela não esperava ver aquele homem novamente bem ali a sua frente.
— Por que a pergunta? Estava me procurando? — Tornou a perguntar, desconfiada.
— Sim, eu disse que iria voltar, não disse? — Ele falou quase sorrindo, mas algo em sua voz parecia triste.
— Certo…
— Sou Shikamaru, a propósito. Nara Shikamaru.
O rosto de Temari se contraiu em surpresa ao ouvir aquele nome. Sim, é claro que ela conhecia aquele nome. Todo mundo conhecia. Principalmente as pessoas que frequentavam o San Junipero. O sistema para se viver após a morte, criado pela empresa Yamanaraki, comandado por três sócios, um deles sendo o gênio…
— Nara Shikamaru… — Ela murmurou, ainda surpresa, mas agora compreendendo o que ele disse por querer dar um jeito quando ouviu sobre o sistema falho do suporte vitalício — Entendo... Por que não me disse antes?
— Seria problemático demais se as outras pessoas descobrissem, principalmente aqueles que estavam brigando no bar naquele dia.
Temari concordou, mas se atentou ao fato de que na época ele também estava usando um relógio semelhante ao dela com as horas que restavam para usar o sistema.
— Você não deveria estar aqui, se está aqui assim, então quer dizer…
— Eu não estou morto. — Ele se adiantou, mas logo suspirou em seguida, se colocando a explicar — Quero dizer, quase estive, mas estou bem. E eu estive… trabalhando no que prometi.
— Sobre… o suporte vitalício? — Ela perguntou quase sem acreditar, surpresa por um dos sócios do lugar ter mesmo ouvido suas críticas naquele dia no bar. — Você conseguiu dar um jeito nisso?
E então o homem a sua frente suspirou novamente, parecendo buscar bem as palavras.
— Estou tentando, eu… Eu ainda estou pensando no que fazer. — Ele passou a mão pela cabeça, parecendo angustiado com aquilo. Não ter as soluções prontas e de forma eficaz sempre que quisesse costumava causar aquele efeito nele, como se estivesse frustrado consigo mesmo, como se não fosse capaz. — Eu pensei em expandir mais o sistema, mas precisamos de verbas para isso, verbas que em sua grande parte vem da compra pelo suporte vitalício. Se retirarmos a compra, a fila para o suporte gratuito começará a andar, mas nossa verba vai ser prejudicada, então…
— Você não sabe o que fazer — Temari completou, pensativa.
— Estou há dias pensando sobre uma forma de solucionar o problema, mas me sinto perdido… — Ele confessou, sem saber mais o que dizer. — Me desculpe. Eu prometi que daria um jeito e eu quero, mas-
— Essas coisas não podem se resolver de uma hora pra outra, Shikamaru — Temari o interrompeu de repente, em um tom sério, porém lançando-lhe um olhar preocupado ao notar que o homem parecia bem abalado.
— Eu sei que não, é só que... — Ele suspirou, passando a mão na cabeça — eu não aguento ver essa situação, queria poder fazer mais.
Shikamaru sentiu seus olhos marejarem e algumas lágrimas solitárias caírem sobre seu rosto. Ele abaixou a cabeça para que Temari não percebesse.
— Você já está fazendo o suficiente. E é incrível. É impossível criar um sistema perfeito, mas você está disposto a melhorá-lo cada vez mais. É isso que importa. — Temari ia falando percebendo como o corpo dele se balançava conforme chorava. — Você é chamado de gênio por um motivo, certo? Então sei que não vai desistir, sei que vai conseguir achar uma solução, mesmo que demore. Além do mais, eu estou aqui do seu lado, você não precisa solucionar cada problema sozinho, do jeito que parece ser preguiçoso, alguém tem que chutar a sua bunda para te mandar trabalhar, não é?
Shikamaru soltou um riso nasalado diante disso, secando suas lágrimas.
— Você é mesmo problemática…
Temari esboçou um enorme sorriso diante da fala, e Shikamaru pode sentir que ela estava sendo sincera. Que ele conseguiria, era capaz, e independente de tudo… ela realmente estaria ali para ajudá-lo.
Ele suspirou, se lembrando vagamente de algo que seu pai falou quando ainda era novo, quando tinha brigado com Ino e Sakura e fora reclamar sobre como mulheres podiam ser insuportáveis.
Shikaku, na época, somente se limitou a sorrir para o filho e dizer que não existiriam homens se não fossem pelas mulheres…
“Os homens não são bons sem as mulheres por perto… não é, velho?” ele pensou, sorrindo levemente com a memória. Antigamente, quando o pai falara isso, Shikamaru não havia entendido uma só palavra, mas agora...
— Então… vai ficar aí sorrindo que nem um idiota ou vai começar a trabalhar? — Temari perguntou de uma maneira nada sutil, o que fez Shikamaru bufar.
Mulheres até poderiam ser essenciais na vida dos homens, ele admitia, mas ainda assim sabiam ser bem complicadas.
§
— Que tal… abrir o sistema para um público maior? — Temari falava enquanto secava um copo com o pano que ficava em seu ombro.
Ela e Shikamaru estavam reunidos no Tucker’s novamente. Ambos trabalhando, cada um do seu jeito. Aquilo já havia se tornado uma espécie de rotina para eles de certo modo.
— Pessoas vivas, mas com uma condição melhor de saúde? — Shikamaru questionou, sem tirar os olhos dos papéis que continham os gráficos e porcentagens referentes a população do San Junipero.
— Talvez idosos… — A loira sugeriu, se afastando um pouco de onde Shikamaru estava e indo para o outro lado do balcão, atendendo a mais um cliente que chegara — O que deseja?
E assim era a noite deles na maior parte dos dias que tanto Shikamaru, quanto Temari, estavam no San Junipero. Diferente dela, agora de volta ao trabalho, ele possuía um passe livre e muito mais liberdade para ir e voltar – isto é, desde que cumprisse com suas consultas psicológicas regularmente e mostrasse uma melhora contínua no tratamento.
Mas Shikamaru não se preocupava muito com isso. A verdade é que ele se sentia melhor, se sentia até mesmo revigorado, e se perguntava se a presença de Temari teria alguma relação com isso, já que ele a visitava com bastante frequência depois de tudo.
E como até mesmo Ino e Chouji percebiam essa melhora, eles não questionavam muito. A garota nem ao menos o provocava sobre estar passando muito tempo com Temari, e o namorado dela, Gaara, parecia apreciar ainda mais isso, pedindo para o Nara mandar algum recado vez ou outra para a irmã, ficando mais feliz ao perceber que ela estava realmente bem apesar das circunstâncias.
Naquela noite em especial, Temari conseguiu sair mais cedo do Tucker’s, compensando algumas horas extras que havia cumprido recentemente no lugar.
Com isso, ela e Shikamaru foram andando pela areia cristalina da praia, ainda imersos na discussão sobre o suporte vitalício, nem ao menos percebendo que já estavam se aproximando da pequena casa que a loira residia.
— Então se reduzíssemos o suporte vitalício pago e aplicássemos o sistema do San Junipero para idosos, talvez…
— Sim, liberar o sistema pago por seis horas semanais para idosos em condições de saúde melhores talvez ajude.
— Assim o suporte vitalício seria somente gratuito e ninguém privilegiado por situação financeira poderia passar na frente daqueles que já estão há muito tempo esperando…
— E não prejudicaria a verba do sistema, de modo que você pode continuar trabalhando para ampliar o suporte vitalício cada vez mais — Temari concluiu, sorrindo.
— Nós. — Shikamaru disse, parando de andar, fazendo uma confusa Temari parar ao seu lado, sem entender.
— O que?
— Nós podemos continuar trabalhando para melhorar o San Junipero. Você tem me ajudado nisso mais do que qualquer pessoa que trabalha comigo — Ele explicou, se virando de frente para ela — E foi a única capaz de me mostrar um erro no sistema que nem mesmo Ino havia me falado antes. Nós fazemos uma boa dupla trabalhando juntos, Temari.
Temari, apesar de surpresa e com o rosto enrubescido, sorriu para ele, se aproximando.
Ela não precisou de muito mais para Shikamaru aproximar ainda mais seus corpos e cortar a distância entre suas bocas.
Era inegável o quanto ambos ansiavam por aquilo, de modo que o beijo foi correspondido com facilidade, de modo urgente, repleto de sentimento e desejos que um nutria pelo outro.
Era curioso pensar em como chegaram àquele ponto, como o destino às vezes parecia unir os dois de modo que eles nunca imaginariam.
E talvez a relação deles realmente tenha acontecido rápido demais, já que não se conheciam por tanto tempo assim, mas para eles, aquilo nunca pareceu tão certo.
§
O fato do bangalô de Temari estar logo em frente de onde os dois haviam parado para conversar e se beijar acabou caindo perfeitamente para a ocasião do casal, que entrou aos tropeços pela casa, sem se incomodarem de acender luz alguma, separando seus lábios um do outro apenas o estritamente necessário, deixando que o momento os consumissem por completo, sem se preocuparem com mais nada.
E agora, com ambos já deitados na cama da loira, tendo suas roupas espalhadas de qualquer jeito pela casa, ela ergueu o pulso, olhando para as horas restantes que possuía ali.
Não tinha mais do que uma hora no San Junipero, mas Temari não parecia disposta a sair dos braços de Shikamaru tão cedo apesar disso.
— Está acordado? — Ela sussurrou, não pretendendo acordá-lo caso não estivesse.
Mas Shikamaru se remexeu em torno de si, murmurando algo, sinalizando que não estava dormindo ainda.
Temari afastou de leve seu corpo de Shikamaru apenas para se virar de frente para ele. Ela se aconchegou mais no travesseiro, encarando o fundo dos olhos castanhos a sua frente.
— Shikamaru… Por que você veio parar aqui quando nos conhecemos?
Ela estava curiosa. Temari sabia que a primeira vez que o conheceu, Shikamaru não fora ao San Junipero a trabalho, e ele mesmo já admitiu que quase morreu naquela época. Temari não tocou no assunto quando conversaram, mas a curiosidade permaneceu ali até então.
Shikamaru suspirou.
— Meu padrasto e meu pai... morreram há alguns anos — Ele começou, pensando que seria mais fácil explicar desde o começo — Eu sempre fui muito apegado a eles, e acho que nunca soube lidar muito bem com a morte...
— Eles não vieram pra cá? — Temari o interrompeu, com o cenho franzido.
— Não. Quando meu padrasto morreu, isso aqui ainda não existia, e depois quando meu pai veio a falecer em seguida... ele disse que não fazia sentido prolongar mais, queria uma morte natural, era o que sempre falava.
Temari observava o homem a sua frente conforme ele falava, e não pode deixar de notar como seu rosto se tornara mais nebuloso conforme contava sua história.
— Não deve ter sido fácil pra você.
— Você não faz ideia — Ele esboçou um sorriso sem vida, voltando à explicação — Eu nunca soube lidar muito bem com a morte, não desse jeito, não quando acaba por completo... E depois de meu pai, era como se boa parte de mim tivesse ido também, tudo isso me destruiu e eu...
Temari ergueu a mão, acariciando de leve o rosto dele, de repente com aquela urgência de abraçá-lo e consolá-lo, mesmo que nunca houvesse sido exatamente boa nisso.
— Tudo bem. Não precisa me contar se não quiser. — Até porque ela já imaginava o que havia acontecido depois. Para alguém que viu de perto seu irmão mais novo enfrentar depressão por toda a sua vida e até mesmo tentar se matar, ela compreendia bem o que Shikamaru havia enfrentado, e compreendia principalmente o quão difícil devia estar sendo para ele falar sobre aquele tipo de coisa com ela.
Ele pegou a mão de Temari que ainda acariciava seu rosto e beijou docemente.
— Eu fiquei alguns dias internado no hospital depois de tentar colocar um fim em tudo. Quase consegui o que queria, e enquanto estava inconsciente, à beira da morte, me conectaram com este mundo aqui. Um dia antes da minha condição melhorar e eu despertar, foi que conheci você naquele bar.
— Então foi por isso que demorou a aparecer de novo… — Temari concluiu, suspirando. — Bem, fico feliz que não tenha desistido de voltar e procurar por mim.
— Temari… eu falei sério sobre ajudar a todos aqui. — Shikamaru falou assumindo sua postura séria, olhando para ela — E eu não vou desistir, nem do San Junipero e nem de você.
Temari sorriu, voltando a acariciar o rosto dele.
— Eu sei disso… Bebê chorão.
— Ah não — Ele resmungou do apelido enquanto Temari ria — Você nunca vai esquecer daquilo, não é? É isso que ferra nas mulheres…
— Você adora reclamar das mulheres, fico pensando o que sua mãe acharia disso — Temari comentou ainda rindo, e Shikamaru fez uma careta somente com a ideia de sua mãe ouvindo-o reclamar desse jeito.
— Mas e quanto a você? — Perguntou de repente e isso fez Temari cessar os risos — Sei um pouco sobre sua condição, mas como exatamente veio parar aqui?
— Sabe um pouco, é? Então andou investigando sobre mim, Nara? — Ela provocou e ele girou os olhos, emburrado. Mas logo Temari continuou, parecendo muito mais tranquila em falar sobre o assunto do que Shikamaru. — O que aconteceu comigo não foi nada de extraordinário. Eu sempre gostei de adrenalina e principalmente de pilotar uma moto em alta velocidade. Sentir aquele vento forte em mim… a sensação é incrível, mas pelo visto me empolguei demais na última vez que subi em uma moto. Bati de frente com um carro, se não me engano, ainda tenho dificuldade em me lembrar do que aconteceu, mas então estou aqui.
— Hm… então você sempre foi problemática mesmo — Shikamaru comentou, pensando que era incrível como ele só atraía mulheres complicadas para sua vida. Seu pai, de onde quer que estivesse, deveria estar dando gargalhadas vendo o filho naquela situação.
— Sei que não estou completamente morta, mas acho que é apenas uma questão de tempo… — Temari continuou, dando de ombros — é um milagre ter sobrevivido até hoje, para falar a verdade.
— Você parece ter se conformado com isso — Shikamaru não pode deixar de observar pelo modo natural com que ela falava.
E Temari sorriu, dessa vez um sorriso mais fraco e triste.
— E estou. Só sinto falta de meus irmãos… e preocupação por não cuidar deles.
— Eles estão bem. — Shikamaru garantiu, apesar de conhecer somente Gaara pessoalmente.
— É bom que estejam. Se vê-los significa que eles estarão aqui no San Junipero, então prefiro esperar uma eternidade para que isso aconteça.
Shikamaru sorriu diante da fala dela, pensando que Gaara gostaria de saber sobre o fato de sua irmã estar aceitando bem a vida no San Junipero. Ele se preocupava da mesma forma que Temari, embora de um modo mais discreto.
— Você gostaria que eu fosse visitá-la?
— Hn…? — Ela demorou a entender, mas logo depois completou — Ah, no hospital. Bem, eu não vou estar consciente de qualquer forma...
Essa era uma dúvida que Shikamaru estava ponderando há algum tempo, algo que não falara com Ino, Gaara e muito menos Chouji. Ele queria visitar o corpo de Temari no hospital, mas ao mesmo tempo estava com receio de fazê-lo. Ainda mais agora que o relacionamento deles se desenrolou daquela forma.
Ele sabia que não seria fácil vê-la ali com o corpo naquelas condições, mas ao mesmo tempo… estava começando a sentir uma certa urgência de conhecê-la no mundo real de fato, fora do sistema da consciência que era o San Junipero. Queria ver que ela era, de alguma forma, real. Embora soubesse que esse era um pensamento idiota, porque claro, ela sempre foi real.
Mas então, se perguntava se Temari também estaria confortável com essa ideia, ainda que ela não fosse ter consciência de nada caso a visitasse.
— Só se lembre de que eu estou bem. Independente de como me ver naquela cama de hospital, eu estou bem aqui. — Ela então disse de repente, apertando sua mão de leve e sorrindo, antes de depositar um leve beijo nele. — Meu tempo está acabando, eu tenho que ir.
E então, simples assim, ela se desconectou, desaparecendo da frente de Shikamaru, deixando-o sozinho naquela cama, com o nascer do sol despontando pelas frestas da janela e com muito o que pensar.
— Nara Shikamaru, desconectar. — Ele disse o comando com um suspiro, se desligando daquele mundo e voltando para o real.
§
Shikamaru andava pelos corredores do hospital em silêncio e com passos apressados, urgentes. Ele havia acordado há algumas horas na casa de Chouji, tendo tempo o suficiente para se arrumar e ligar para uma mal humorada Ino que nem havia tomado café da manhã ainda para perguntá-la onde Temari estava internada. Ela lhe deu a resposta rapidamente, mandando-o deixá-la em paz, e Shikamaru não se incomodou em atender ao seu pedido.
Ele continuava a andar, olhando os números das portas iguais daquele corredor branco de hospital. Não demorou muito, no entanto, para parar de repente, olhando para porta do quarto 172.
Shikamaru sabia que a possibilidade dela acordar era praticamente nula. E ele estava conformado com isso. Mas não significava que desistiria dela.
Porque ele nunca seria capaz de desistir de Temari. E não seria somente a morte do corpo que os separariam.
Shikamaru não podia ficar entrando no San Junipero sempre para poder se divertir e ficar ao lado dela. Mas ele prometera que trabalhariam juntos sempre que possível na melhoria do sistema, além de entrar lá sempre que possível para ficar ao lado de Temari. Por que eles queriam ficar juntos, mesmo que o tempo estivesse contra ambos, eles estavam dispostos a lutar por aquilo, por aquele sentimento e aquele relacionamento que estava só começando. Mesmo que ele estivesse vivo e ela praticamente morta.
E então, um dia, os dois se reencontrariam permanentemente.
Mas até lá Shikamaru tinha responsabilidades a cumprir. Tinha trabalho a fazer. E ele não era mais um menino que choraria por tudo. Mesmo que Temari não tivesse consciência disso, ela o ajudou a crescer e o impulsionava sempre a dar o seu melhor de cabeça erguida. E era isso o que faria.
O San Junipero estava longe de ser um sistema perfeito que agradasse a todos. Mas Shikamaru estava disposto a dar o máximo de si para melhorar aquilo. E com a ajuda de Temari, ele sabia que conseguiria.
Foi pensando nisso que ele tocou na maçaneta da porta daquele quarto de hospital, girando-a e abrindo, entrando em um quarto semelhante ao que esteve dias antes.
E então, no meio do quarto, ligado por vários aparelhos, estava o corpo inerte de Temari.
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