Felina
11 "Perde-se a vida, ganha-se a batalha!"
Passara-se um mês ou nem isso. A cena do cão era ainda uma decepção para o nosso pobre rapaz. Lia e relia os discursos do Borba, tanto num como noutro livro do Machado, mas não conseguia justificar o ato compassivo e abnegado do cão. Não achava nos livros uma linha, uma palavra, uma sílaba que argumentasse em favor de um ato de amor. Se bem que, pensou Victor, o homem, então Humanitas, é capaz de amar. Mas pela lei da conservação o amor do homem só pode existir pra conservação do homem. Aí estava uma contra justificativa filosófica para a proibição divina do onanismo e do homossexualismo. Humanitismo puro. Mas eram dois machos, se bem se lembrava o rapaz. Ademais, ainda que fossem de sexos diferentes, não poderiam reproduzir. Um tinha duas patas na cova, outro três e então quatro. Estavam moribundos, talvez doentes.
Nisso o semblante amuado de nosso rapaz se iluminou. Podia ser que o outro cão estivesse com alguma zoonose infecciosa, o que morreu, e o sobrevivente sabia disso. Aí não convinha comer-lhe a carne. Estava ali a justificativa racional para toda a cena: Humanitas sabia que morreria mais cedo se absorvesse um Humanitas ruim, doente. Então era conservação pura. Preferiu pensar assim e foi feliz por algum tempo, recuperando a fé na, agora ainda mais sólida, filosofia Humanitista.
Foi feliz para a prova do vestibular. Antes ia confiante e triste. Agora, feliz e confiante. Se duvidava de si mesmo por conta de todo melindre que foi duvidar de tão nobre corrente de pensamento e por isso achava que não ia obter o primeiro lugar do curso de Direito – O segundo, talvez – agora estava certo. Já sentia o cheiro dos bulevares franceses, e o perfume que delas devia emanar. Devia ser um cheiro majestoso, como se toda a Paris cheirasse a perfume. Os perfumes franceses são bons. A França não pode cheirar pior que seus perfumes.
Durante a prova, já eram as provas específicas, feliz coincidência. “Quincas Borba” era o tema da redação, que pedia algo bem abrangente sobre a dignidade humana. Sorriu. Quis fazer graça, já estava aprovado e não tinha motivos para não se conceder certas liberdades. Começou a redação com “Oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura!”. Pretendia fechar com a chave de ouro que foi dada ao primeiro desocupado. Naturalmente não seria ele o primeiro, mas um desocupado ele era, e continuou a redação.
A redação era um resumo da filosofia do Borba aplicada ao ser humano, em específico, e versava sobre como o ser humano não era nem bom nem mau, apenas instintivo. Era um argumento naturalista, quase. O homem era, na sua visão, não mais que um animal que cumpre um instinto de conservação que não vem dele, mas da essência universal de que participa, que é Humanitas. Victor era lido, mas não tinha lido muita coisa fora do roteiro escolar. Se tivesse, talvez tivesse conhecido Richard Dawkins, e acharia neste ícone ateu uma análise do Humanitismo, em seu livro “O Gene Egoísta”. Sim, o ser humano é uma máquina a serviço do gene, que quer se manter vivo e se reproduzir. Máquinas prescindem de dignidade, portanto, tudo que se faça a humano, desde que dentro do princípio da conservação, era válido. A essa conclusão nosso amigo chegou sem a ajuda do eminente biólogo, e concluiu “Perde-se a vida, ganha-se a batalha!”.
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