Felina
16 Julgamento
Laís e sua família estavam ao mesmo tempo irados e abismados com o fato de Marcinha ter um namorado. Ninguém sabia quem era o rapaz. A cena era a de um tribunal do Santo Ofício. Marcinha, a herege impura, estava sentada numa poltrona, a mãe no sofá, junto do pai e a irmã, exímia promotora, estava de pé fazendo sua acusação.
"Enquanto nós, aqui, esperávamos inocentes o pão e o leite do café da manhã essa desviada andava de namoricos com um rapaz. Rapaz esse que ninguém aqui do bairro conhece."
Era mentira. O rapaz era até mais conhecido do que sabia, posto que sua família paterna habitasse aquele bairro desde mil novecentos e Niemeyer jovem. Dessa forma toda gente que tinha história no bairro conhecia a família. No Méier era a mesma coisa, toda a gente o conhecia por conta da mãe ter lá habitado antes de casar, além do fato de a avó ainda lá habitar.
Em Copacabana a coisa era diferente. Não tinham história no bairro, e ainda que tivessem era tanta gente que se mudava que um sentimento de grupo era impossível. Esse espírito de grupo era suburbano. Na Zona Sul não ocorria.
"Essa menina já não respeita a família há séculos! Nem nossa religião segue mais. Foi se batizar e ser católica. Tem essa mania de achar os motivos que geraram o protestantismo um erro histórico. Nossa família é seguidora de um erro histórico. Essa mentecapta. Mentecapta sim. Não nos respeita. Diz ser virgem e nisso eu até acreditava, acreditava e acredito. Acredito mas vou duvidar. Porque até ontem nunca a tinha visto com rapaz. Ontem ela chega tarde com esse rapaz. Esse mesmo que tomou café da manhã com ela hoje. Coincidência? Não acredito. Vocês acreditam?"
O júri estava comovido pela elocução da promotora. Marcinha, de quem nós sabemos a inocência, a transbordava no seu simples vestido branco, no seu cândido laço azul pastel — portava um laço azul -, mas as duras palavras de Laís eram capazes de desconstruir essa imagem. Os olhos baixos, puros, eram vistos como criminosos e sujos. Marcinha não queria se defender. Não adiantava, ela sabia. Quando tocava sua opção religiosa, ela estava errada. Sempre errada. A família nunca aceitou sua opção e Laís sabia disso. Qualquer que fosse a ocasião, o argumento era sempre válido contra Marcinha. Era sempre um meio de ganhar um debate sem ter razão.
"Nada a dizer em sua defesa?" disse Laís.
"Não, senhora. Sinházinha tá sempre certa." Ironizou Marcinha.
"É seu namorado ou não é?"
"Não."
"Não é?"
"E se fosse?"
"Não é certo. A família tem de saber."
"Não é meu namorado. Gosto dele. Até, quem sabe, seria. Mas não é."
"Conheceu quando?"
"Ontem mesmo." Marcinha se levanta e confronta a irmã.
"Amor à primeira vista!" disse Laís, em desdém.
"Quem sabe? Eu sei que você não acredita em amor à primeira vista. Não acredita em amor nenhum. Nunca amou ninguém."
"Ah, isso é mentira."
"Já teve muitos namorados, talvez nem virgem seja. Eu sou. Sou e seria mesmo que namorasse. Você se apaixona muito e ama pouco."
"Tenho culpa de ser bonita e cortejada?"
"Não. Mas tem um "não" na boca, mas só diz "sim".”.
"Digo não."
A família, digo, o júri, assistia calada. O pai não tinha nervos para tender para essa ou aquela filha, e, enfim, impor o direito que tinha de patriarca. A mãe assistia a discussão como assistia às novelas, curiosa e apática. A cena mesmo contribuía, parecendo televisiva. As filhas brigavam como duas feras.
"Diz não pros feios e só. Pra você, sendo bonito, vale. Aliás esse seu despeito todo é porque alguém foi capaz de gostar de mim!"
"É mentira."
"Mentira nada!" Rugiu, felina. "Não suporta que alguém possa amar além da beleza porque você, você é incapaz disso!" Toma fôlego. "E esse rapaz, Lúcio, é o último romântico. Ele é a prova de que ainda existe amor. Gosta de mim apesar disso!" aponta para o próprio rosto. "Você não ama nem a si mesma!"
Laís dá um tapa na irmã. Estalado. O clepe hediondo ressoou por aquela sala. Seria continuado por palmas da mãe, D. Márcia, se fosse uma novela e não suas filhas brigando. O pai levanta e separa as duas. Marcinha manteve a calma. Não se alterou e respondeu, altiva:
"Laís, eu tenho pena de você." disse Marcinha. "Me solta, pai, fica tranquilo." O pai solta. "Só daria um tapa com o objetivo de forçar alguém a ter vergonha na cara. Você Laís, não tem, teve, ou terá vergonha na cara. Não é digna nem de um tapa."
De sala de estar para um júri, de um júri para um coliseu. Laís sai de casa sem dizer palavra. Marcinha sobe para o quarto. O pai estava aliviado pelo clima ter se acalmado, apesar de a tensão na verdade, ter aumentado. A mãe estava secretamente ansiosa e amuada. Amuada e ansiosa pelo próximo capítulo da novela, capítulo este que, creio, o leitor também está curioso para ler.
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