Felina
9 Desenho Numero um
Laís estava irada e despeitada. Irada pelo egoísmo da irmã, que atrasava o café da manhã da família para andar de namoricos com um desconhecido e provavelmente um louco, afinal, estava apaixonado por Marcinha. Por Marcinha! Via a menina, agora que estava de dia; no dia anterior, à media luz, pode ser que perdoasse esse e aquele defeitos. Mas estava de dia! Via todos os defeitos e ainda assim sentava-se à mesa com ela. E o despeito era a única reação que ela sabia para situação tal.
Marcinha estava envergonhadíssima. Tinham ambos já comido e bebido, apenas conversavam. Ela estava feliz. A aparição da irmã era como uma nuvem que obscurecia aquela amanhã tão aprazível. Como uma Éris teófana, espalhava a discórdia. A menina não relutou. Despediu-se, comprou o pão junto da irmã e com ela foi-se.
Lúcio ficou amuado. Estava perto, tão perto! Tinha de ser paciente. Quem era aquela mulher e como possuía tamanho poder sobre Marcinha? E por que ela, antes de sair, fulminava-lhe com os olhos, como se ele fosse algum tipo de criminoso? Lúcio não possuía nenhuma resposta a essas perguntas. Fato é que Laís o via como um criminoso. Era, para ela, efetivamente um crime hediondo que alguém pudesse amar Marcinha.
Levantou-se e quis pagar a conta. Não pôde. Já estava paga. Mas que diabo! Que coisa era aquela? Já saíra com várias meninas, mas era a primeira vez que não pagava por dois, ou, ao menos, por um. Essa era, talvez, uma forma de Marcinha agradecer sua companhia. Mesmo assim preferia ter, ele mesmo, pago a conta. Não pelo dinheiro – uma mixaria – mas por um anacrônico sentido de dever. Anacrônico, talvez: Muitas mulheres hoje não pensam que o homem deve pagar a conta. Muitas por um orgulho feminino inofensivo. Outras por um orgulho feminino exacerbado e danoso. Mas a grande parte acha que é dever masculino, e o ser pródigo era mais que uma demonstração de virtude, uma obrigação categórica.
Há, hoje, no entanto, as feministas. Lúcio detestava as feministas, os machistas e os gayzistas. Era um igualitarista, não suportava esses grupos que queriam impor sua moral pervertida a todo custo. A feminista, no fundo, no fundo, não é mulher. Detesta o fato de ter nascido mulher. O sonho de toda feminista é ser homem, e, bem, dessa forma a feminista se aproxima muito do travesti. Se pudessem trocar de corpo, seriam felizes para sempre. Ou não. Provavelmente não.
Saiu da padaria ainda mais incomodado. Foi andando em direção à casa de sua tia. No caminho, vinham duas crianças com a mãe. Acresce que a rua, mesmo àquela hora – já passava das nove – estava deserta. Este fato era motivo de discórdia entre os pequenos. A mãe dizia que a rua era deserta e um menino disse que não, e argumentava:
“Que deserta nada! Nem tem areia, sol, camelo!”
“Pô, tu é burrão!” Disse o outro. “Deserto não precisa de camelo, não é mãe?”
“Não é disso que eu tô falando” Disse a mãe, rindo.
“Mas” Disse o primeiro. “Precisa de sol, de areia”
“E não tem sol, não tem areia?” Chuta a areia de um montinho de areia de obra que estava na rua.
“Areia, areia, só tem aqui. Tem cimento.”
De fato aquele montinho de areia ia dando à calçada toda um aspecto de Saara. Mas só a mente de uma criança, essa que consegue ver carneiros através de caixas desenhadas e elefantes digestos no lugar de chapéus, conseguiria encontrar nisso a justificativa para o que a mãe dizia. Uma expressão tão comum! A criança era realmente uma coisa fantástica, Lúcio pensava. E ele lembrou que não sabia mais ver com olhos de criança, tão melhores que os de um adulto. Tinha se tornado um idiota da objetividade. Escravo da realidade sensível, um insensível, enfim.
Era mentira. Lúcio não era de forma alguma insensível. Mas, perto daquelas crianças, se sentiu uma rocha de insensibilidade. Tinha envelhecido. Não que achasse ruim envelhecer. Desde que pudesse manter um pouco dos bons olhos infantis, salvar aquela perspectiva magnífica. Mas o tempo não perdoava, e a maturidade o enrijecia, o que era bom por um lado, e ruim por outro, e o punha confuso.
Mas a situação era, enfim, engraçada e ele sorriu. Aquilo o distraiu dos maus pensamentos da padaria, os compensou e enfim. Em situações normais teria rido. Mas a graça só ia até certo ponto compensando a irritação, e como fosse uma equação química de neutralização, só conseguiu compensar até a neutralização completa. Não teve saldo positivo, se o tivesse, teria rido. A situação foi, em parte ao menos, esquecida, felizmente.
Sendo em parte esquecida a situação ruim, pôde enfim ficar feliz de ter sua Marcinha por alguns minutos. Então riu. Esse novo ânimo desequilibrou a equação para o lado do riso. Em todo caso, tinha de agir. Não estava ali para conhecer o lugar? E que guia poderia ser melhor que uma residente? Sua tia, é claro, era uma residente, e seria guia com gosto. Lúcio, no entanto, preferia Marcinha, por motivos óbvios.
Estava quase chegando à casa de sua tia quando ouve um barulho. Seu celular que toca. Olha na telinha para ver quem era. Era Victor, seu amigo de faculdade. Victor cursava medicina naquele lugar fúnebre de concreto que era a UERJ. Só podia ser obra do Niemeyer. Ô homem para gostar de concreto, material crasso e feio. Aliás, cumpre contar a curiosa história de quem é Victor. Ao leitor ansioso por saber a conversa que Victor terá com Lúcio no celular adianto que ela mesma não terá nada de interessante. Interessante mesmo é o segredo de Victor, que revelo para dar ao leitor a real dimensão dessa figura caricata. Vamos recuar no tempo três anos, quando Victor não era um cursando de medicina, mas um vestibulando heroico.
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