Felicidade Clandestina

1 Felicidade Clandestina


Ela era magra, alta, pele limpa e de cabelos bem hidratados, loiros, parecia uma bonequinha. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas, estranhas, com o cabelo as vezes bagunçado e um pouco acima do peso. Não que ser acima do peso fosse um defeito, mas naquela época era. Como se não bastasse, era muito inteligente e namorava o garoto mais popular da escola. E ela possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.

Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela apenas nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai, ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Todo aniversário era isso. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como “parabéns” ou “feliz aniversário”.

Por fora aquela doce e linda garota, mas por dentro cruel e mesquinha. Ela toda era pura maldade, com um olhar intimidador, mas não para todo mundo, só para nós, pois todas éramos amigas antes dela começar a namorar e nos ignorar, nos afastar. Mas continuamos o grupo sem ela, estudávamos juntas, nos divertíamos, sempre alegres, então ela de certa forma nos odiava. Comigo, ela exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Pelo pai dela ser dono de livraria, eu sempre lhe pedia livros emprestados já que ela não lia, mas depois que começou a namorar ela me humilhava, não na frente dele é claro, mas como eu era apaixonada pela leitura, tinha aquela ânsia de ler, eu não me submetia a tais humilhações, fingia que não era comigo.

Até que veio para ela o magnífico dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía Harry Potter e as relíquias da morte, de J. K. Rowling, era o último livro da saga de Harry Potter que eu ainda não havia lido.

Era um livro grosso, capa linda, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o, fazendo tudo com ele. E, completamente acima de minhas posses. Disse-me de um jeito debochado que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.

Apesar de o deboche dela me incomodar, até chegar o dia seguinte eu me transformei na própria esperança: eu não vivia, nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam. Queria muito ler aquele livro, mergulhar nas palavras, nas últimas aventuras de Harry Potter.

Como combinado, no dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo com o meu jeito destrambelhado de ser. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Toquei a campainha, me viu pela janela e foi até o portão, não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, com aquele jeito mesquinho disse-me que esqueceu que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta e triste, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.

Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono da livraria era tranquilo e diabólico. No dia seguinte eu a encontrei na escola e lhe perguntei sobre o livro, ela disse-me que eu poderia buscá-lo a tarde e lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo.

E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, ela estava gostando de fazer aquilo comigo, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.

Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados. Na escola ela me evitava para eu não lhe perguntar. O namorado dela ficou incomodado e me perguntou o que estava acontecendo, pois ela havia contado uma versão para ele em que não acreditara. Eu lhe disse que era sobre o livro que eu pedi emprestado e fui embora.

Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu, pois o namorado da filha saiu da casa e contou-lhe sobre o livro. Ela voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!

E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada das atitudes da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina morena em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser, minha querida”.

Entendem? Valia mais do que me dar o livro: “pelo tempo que eu quisesse” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, amante de livros, pode ter a ousadia de querer.

Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro com aquela felicidade disfarçada. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito, pois quanto esforço para tê-lo em meu poder. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.

Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre ia ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.

Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.

Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!