Felicidade Cinzenta

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Oooolá, caro leitor o/ As frases em tálico no começo representam conversas em francês. Tenham uma boa leitura ^^

Em seu emprego de bartender Paty havia aprendido a ignorar o som de mil vozes, quase sempre incompreensíveis, por cima da música suave do Citrus, sua atenção se resumia a um sorriso cordial e a voz que saia da boca do cliente da vez, quase em modo automático suas mãos procuravam os apetrechos que a bebida necessitaria e voilà.

As conversas em dezenas de tons distintos, indo do mais baixo sussurro até o berro de alguém passando do próprio limite, eram quase como uma música sobre a música ambiente, seu exercício de meditação diária.

Mas ali, na pequena reunião na casa de Duda em comemoração ao noivado de seu melhor amigo, esses sussurros não podiam ser ignorados.

— O que tá ligado significa? — Indagou Brandon com um sotaque carregado do outro lado da linha.

Algo como ´´entendeu?``. — Respondeu em seu francês também sotaqueado. — Como consegue escutar o que eles estão falando? — Mesmo na sala o bar ficava um tanto longe do sofá, embora Mônica praticamente gritasse piadas sem pudor algum.

O microfone do seu celular deve ser muito bom. — Debochou ele, Paty o ignorou para terminar o Dry Martini. Ao pegar a bebida Duda a encarou com dúvida no olhar. — Estou tentando aprender francês. — Deu de ombros, se negando a admitir que fora obrigada a deixá-lo escutar uma festa por causa de sua maldita sorte com apostas.

— Você não para mesmo, né? — Devolveu-lhe o olhar questionador de segundos enquanto arrumava o rabo-de-cavalo. — Sempre tenta aprender tudo sozinha, mão-de-vaca. — Sua amiga riu ao vê-la rolar os olhos.

O que é mão-de-vaca?! — Ignorou-o de propósito por mais alguns instantes, só podia ser brincadeira.

Alguém sovina. — Duda olhou para o celular em viva voz no balcão e a encarou com um rosto nada inocente enquanto tomava um gole do drink. — Está me assustando.

— Ele é gatinho? — Murmurou, obviamente para tentar esconder a pergunta do francês na linha.

— Vai querer o que, Leandro?! — Exclamou para seu amigo barbudo que voltada da cozinha.

Alguém tinha que lhe salvar.

— O mais difícil que você souber fazer. — Ele colocou o braço no balcão para causar efeito dramático, mas a mão cheia de doces fofinhos era mais chamativa.

— Se não quer responder ele deve ser gostoso. — Ignorando a fixação de sua amiga em achar que todo seu contato com homens deveria ser romântico, Paty virou-se para procurar a garrafa de vodka.

— Do que estão falando? — Disse Leandro, coçando a barba negra casualmente enquanto esparramava os doces pela madeira, Duda logo experimento um dos beijinhos.

— Do boy magia da Paty! — Sua amiga virou o rosto para gritar em direção a sala, fazendo os cachos médios balançares. Leandro a encarou para ter alguma afirmativa, uma negativa com a mão foi o bastante.

Que inferno! Do que vocês estão falando?! — Brandon gritou ao mesmo tempo que os vários assovios e exclamações soaram do pessoal sentado nos sofás.

Eu disse que estaria ocupada para ficar traduzindo e você quis mesmo assim, fique quietinho. — Dan tratou de abafar o outro salvo de zombaria que sua fala causou e puxou a conversa para outro assunto.

Paty notou o olhar de estranheza de Dan, apenas rolou os olhos para tranquilizá-lo.

— Ei! Isso não foi nem um pouco difícil. — Contestou seu amigo ao vê-la apenas despejando a vodka e licor de menta em um copo com gelo.

— Se tomar isso sem fazer careta prometo que faço um complicado. — Comeu um dos brigadeiros antes colocar a mão no peito em juramento, Leandro empurrou a bebida, o que fez a ela e Duda rirem.

— Você já trabalhou demais mocinha, vamos lá pro sofá. — Sua amiga contornou o balcão e a puxou pela mão. — Os outros que se danem com a bebida.

— Trabalho? — Pegou o celular e outro brigadeiro, Leandro colocou a maior parte dos que haviam sobrado na boa e bebeu a Kriptonita. — Vai me pagar, é? — Duda apenas mostrou a língua para sua piada.

— Credo! — Disse seu amigo depois do gole, Duda se sentou na poltrona, Leandro fez questão de empurrar a perna de Vini do sofá de três lugares, o irmão de Dan deixou de encarar o celular para demostrar sua indignação. — Isso aqui é feito de Halls preto? É pior que enxaguante bucal.

— Ei, cara?! Um por favor sempre vai bem. — E pegou a bebida do outro, sem pedir por favor. Leandro apenas bufou e murmurou um boa sorte.

Paty aproveitou o momento para mandar uma mensagem a Brandon, dizendo o óbvio, desligou a chamada e mudou o celular para o silencioso. Ele ficaria furioso por ser ignorado daquela forma, mas ela não tinha paciência para mais gracinhas naquela noite, sua cabeça já estava cheia em demasia.

Um estalar de dedos aleatório a fez desviar o olhar para Duda novamente.

— Sei que seu namorado gringo é gostoso, mas tá na hora dos padrinhos do casal 10 falarem alguma coisa. — Duda tinha sorte que seus olhos não podiam derreter pessoas. — Cauã e Gisele! Parem de atacar minha geladeira e venham socializar!

Um segundo depois o som de algo batendo seguido de um ai percorreu o apartamento, por fim uma risada feminina, Cauã apareceu pela porta da cozinha com a mão atrás da cabeça e, por baixo na maquiagem pesada de ser das trevas, o rosto de Gisele estava vermelho de tanto rir.

E Mônica a acompanhou.

Cauã rolou os olhos e fui se sentar ao lado de Dan, tomando boa parte do espaço, seu melhor amigo cobriu a boca para não rir, Paty deixou um esboço de sorriso risonho sair enquanto olhava para a expressão azeda de Vini, tentando virar o drink.

— Puta merda. — Ele murmurou quando foi empurrado novamente, dessa vez por Gisele. — Esse sofá é só pra três pessoas, não pra três e um Smurf. — Vini sorriu vitorioso antes de engasgar de susto e dor pela cotovelada abaixo das costelas.

— Se quer espaço senta no chão. — Ela pegou o drink da mão dele e virou, soltando um suspiro satisfeito logo em seguida. — Gostosinho. — O olhar de espanto de Leandro se ligou ao seu.

As vezes Gisele era assustadora.

— Agora que já vimos quanto o nosso casal 10.1 se ama, vamos pro original. — Disse Duda, Vini murmurou algo sobre tentativa de assassinato, mas se levantou, pegando uma latinha de cerveja na mesinha de centro.

— Bem, caros amigos. — Cauã conteve o riso pelo tom solene do amigo, Vini quis sorrir, mas conseguiu manter a expressão séria. — Agora eu vou declamar um poema de 15 estrofes sobre como o amor é lindo.

Mônica, Cauã, Duda e Leandro fizeram vaia, Dan tomou um gole da tequila, achando a situação divertida, Gisele apenas demonstrou sua indiferença sacando o celular, Paty encheu um copo descartável com vinho, sentindo uma satisfação enorme por estar ali, cercada por pessoas que tanto gostava.

— Tá bom, seus sem cultura, vou ser rápido. — Ele passou a mão pelo cabelo castanho e curto e suspirou, fingindo decepção. — Sabe, meu irmão mais velho nunca foi de trazer namorada pra casa, nossos pais passaram a nossa adolescência toda achando que você fosse gay! — Dan soltou um cala boca bem humorado diante da gritaria dos amigos e da noiva. — E aí um dia, dois anos atrás, ele me diz que iria levar uma pessoa pro almoço de domingo. — Vini tomou mais um gole, olhando para algum ponto no teto. — Achei que o Daniel tinha sido substituído por robôs. — Mais uma salva de risadas foi ouvida, mas Paty não deixou de notar que a mão de Mônica buscou a do noivo, não para consolá-lo pela zombaria, era apenas um ato natural.

Eles eram um casal lindo.

— E quando eu vi a Mônica entrando pela porta com esse sorriso Colgate dela: tive certeza que meu irmão tinha sido trocado por robôs.

— Vini! — A noiva protestou, embora em risos, Dan jogou uma almofada no irmão.

— Sem violência, qual é?! — Ele parou o projétil com uma das mãos, que ricocheteou e caiu inerte a seus pés. — Agora é sério. — Ele respirou fundo para dar razão a sua fala. — Mônica, você foi a primeira namorada que meu irmão trouxe pra casa, e eu tenho certeza que nessa hora ele já queria casar com você.

O ar foi poluído com sons melosos, — que Paty fizera questão de puxar, — Dan, passou a mão pelo cabelo, envergonhado, Mônica lhe deu um beijo no rosto, que apenas fez o coro aumentar.

— Um brinde ao casal 10! — Duda se levantou com o Dry Martini em mãos, quase acabado, Leandro e Cauã pegaram uma cerveja as pressas na mesinha para baterem com as outras bebidas. — Agora é a sua vez, Patinha!

A alegria no rosto de Paty sumiu, encarou Duda, que devolvia seu olhar com uma expressão fingida de inocência.

— Você sabe que fui que fiz o seu drink, né? — Ela abanou a mão enquanto se sentava. — Eu também tinha preparado um sarau de poesia, mas como vocês não tem cultura... — Vini soltou um isso aé! — Vou tentar falar de um jeito menos meloso.

Sorveu um gole do vinho, perscrutando as lembras que tinha daquela época.

Dan havia terminado a pouco seu terceiro ano na faculdade de engenharia mecânica e ela convencido seus pais de que o curso superior não era algo para ela, ao menos não naquele momento.

— Como o Dan é de exatas, óbvio que a vida dele estava um saco. — Cauã e Dan a vaiaram, contra os aplausos de Gisele e Vini. — Então eu, como sou uma ótima amiga resolvi bancar a Cupido.

Não que aquela fosse sua primeira vez no cargo, ainda se lembrava da cara espinhenta e irritada de Dan, quando tinham 14 anos, ao dizer-lhe vez ou outra qual garota seria ao menos sua ficante fixa, ele odiava, mas ela sempre acertava.

Não devia ser estranho que Paty acertasse na esposa também.

— Como sempre, a dona Eduarda não tinha nada pra fazer... — Duda mostrou o dedo do meio tomando o último gole do drink. — E veio me encher o saco no trabalho.

Era sua primeira experiência trabalhando com bebidas, seus pais achavam que era uma cantina italiana com um bar, apenas Dan, Duda e Gisele sabiam que era um clube de strip.

— Depois de muita fofoca sobre sei-lá-o-que, ela me convidou pra ir em uma festa de família na casa dela. — Encheu o copo descartável de vinho novamente. — Depois do que o Vini disse acho que deveria ter ficado com medo dessa festa. — Cauã soltou um assovio alto, Dan e o irmão caíram na gargalhada, o queixo de Duda caiu, mas os olhos faiscavam em desafio e irreverência.

— Tá vendo, Mônica? — Gisele finalmente falou, chamando a atenção dos presentes. — Como é que não vamos shippar essas duas?

— É, eu não vou te culpar, elas não ajudam. — Paty encarou Duda, sem saber o que estava acontecendo.

— Então... — Disse com tanto mais alto, para chamar a atenção dos amigos, sua brincadeira havia saído pela culatra...Ou algo assim. — Eu conhecia a Mônica. — Olhou para a irmã de Duda, que empunhava o sorriso doce como um estandarte. — Ela era divertida, bonita, simpática e tem um bom gosto para filmes: tudo o que o Dan não é. — Seu melhor amigo a encarou com falsa irritação e dirigiu o olhar para noiva logo em seguida, pouco se importando com a algazarra. — Naquele dia eu tive certeza que meu lugar no céu estaria garantido se juntasse esses dois.

Na verdade sua intuição fora muito mais simples e a primeira vista, Dan era tímido e pouco articulado com estranhos, Mônica era espontânea e um imã de gente, ela sorria o tempo todo, ele era irônico e tinha um humor ácido, ela de humanas em seu sonho de ser professora infântil, ele de exatas, os cachos dela eram longos e volumosos, — que a Paty sempre lembravam Taís Araújo ou Cris Vianna, — o cabelo dele estava sempre em corte militar, como um Capitão América antes de tomar bomba.

Se tinha algo que sempre chamava sua atenção eram complementos interagindo, sabores diferentes, mas maravilhosos quando unidos, como o cítrico e o doce.

Ao primeiro olhar, Paty sabia que deveria apresentá-los e enfiar essa ideia na cabeça de Dan.

— Palmas para a Santa Paty! — Cauã exclamou, levantando a cerveja para outro brinde.

— Os noivos já sabem o que os padrinhos ricos vão dar de presente? — Leandro disse quando se sentaram novamente, Vini e Paty olharam pra ele ao mesmo tempo, de cara feia, o irmão de Dan esmurrou o braço de Leandro, que apenas riu. — Vai ter que malhar mais, varetinha...Ei?! — Paty enfiou as mãos por baixo do moletom do amigo: todo mundo sentia cócegas nas costelas. — Chega! — Leandro travou os braços na lateral do corpo quando Vini ameaçou fazer o mesmo. — Mãos-de-vaca!

— E como. — Gisele pegou a garrafa de vinho e depositou o conteúdo no copo esquecido de Kriptnita. — Vini reclama de me pagar lanche e a Paty é capaz de passar fome se não tiver promoção no mercado.

— Gisele! — Ambos falaram juntos, mas a indignação se voltou para o riso de Dan.

— Qual é? É verdade. — Vini jogou a almofada ainda no chão no irmão.

Paty encarou o melhor amigo, que apenas deu de ombros, rolou os olhos, — ele nunca a ajudava nessas coisas.

— Eu vou dar uma panela de pressão, tá ótimo. — Vini cruzou os braços, espremido contra o encosto do sofá.

— Eu já apresentei os dois, não me peçam mais nada. — Duda, Gisele, Cauã e Leandro se juntaram para vaiar os dois padrinhos e Vini revidou gritando um monte de justificativas aleatórias, Paty propôs a si mesma apenas beber o vinho tinto, viajando com o olhar pela sala espaçosa.

E foi assim que a atenção recaiu na fala ao pé do ouvido de Mônica para o noivo.

Dan tinha um braço apoiado no sofá, circulando os ombros de sua futura esposa enquanto cochichavam baixinho, ambos tão à vontade que só um cego com retardo mental negaria o amor presente.

As vezes Paty sentia orgulho pelo que fizera, aquela sensação boa de notar que estava certa e que seu toque resultara em algo bom.

Mas apenas as vezes...

Quando Mônica desviou a atenção para responder ao celular os olhos de Dan se ligaram aos seus. Depois de praticamente uma vida toda de contato, 20 anos de convívio, desde a creche, Paty poderia dizer com total certeza que aquele brilho em seus olhos era uma mistura de agradecimento e amor, que o sorriso que formava uma covinha em sua bochecha era dirigido apenas para ela.

Eles se amavam tanto quanto amigos poderiam se amar, — ou irmãos, — foram as pessoas mais próximas um do outro desde que se conheciam por gente, a ponto de não precisarem falar para entender o que se passava.

E Paty sempre havia amado aquela relação meio simbiótica, era engraçado ver outros amigos que tiveram ao longo dos anos tentarem se infiltrar, ou algum namorado ou namorada, ainda se lembrava quando Dan lhe dissera para terminar com Rafael, seu segundo namorado, simplesmente porque o achava babaca, sequer pensou duas vezes, porque confiava cegamente no julgamento dele.

Nunca esqueceria da vez em que Gabriela, — ou Gabrielle, não se lembrava com exatidão, — pedira a Dan para escolher entre ela e Paty.

Fora deveras engraçado.

Não importava quantas pessoas passassem por suas vidas, eles sempre acabam na casa um do outro assistindo filmes ruins de terror ou jogando seu velho Playstation 2.

Isso até que um deles resolvesse dar um passo à frente.

Deu de ombros e bebericou do vinho, voltando o olhar para a briga infindável dos amigos, sem devolver o sorriso para Dan, — o que também era apenas para ele, — quase conseguiu ver o rosto de seu melhor amigo murchar aos poucos e o olhar de descrença estampar sua expressão, não importava de que forma tentasse disfarças, ele saberia que havia algo de errado.

E tratariam ainda naquela noite, mesmo contra sua vontade.

***

Depois de três pedaços de pizza, — frango com catupiry, calabresa e de morango com chocolate para a sobremesa, — Paty caminhou até a varanda para fumar seu cigarro sabor cereja, — porque o de menta era uma porcaria, — uma boa tragada depois do jantar era seu ritual desde os 17 anos, quando ainda tinha que fumar escondida dos pais, usando um rolo de papel toalha para soprar a fumaça para a casa do vizinho. Jamais esqueceria da surra quando seu pai achou uma bituca no quarto.

Agora aos vinte e cinco, morando em outra cidade e pagando as próprias contas, se perguntava se o doutor Cezar Augusto ainda teria coragem de dizer que era apenas rebeldia de adolescente.

Como ele dizia ser cada decisão que tomava desde os doze anos.

Puxou o maço do bolso da calça jeans junto ao isqueiro de plasma, — caro, mas nunca mais teria que comprar outro, — pegou um cigarro e prende-o aos lábios, o céu estava limpo, a lua começava a minguar, o que não a deixava menos lindam verdade seja dita.

Em suas pausas no meio da noite e no final do turno, Paty aprendeu a valorizar o céu salpicado de estrelas, até descobriu o nome de uma ou outra constelação, o Cruzeiro do Sul e Órion foram fáceis, sua última aquisição conquistada fora Leão.

Estava a procurando com o olhar enquanto acendia o cigarro e devolvia o maço e isqueiro aos bolsos, tragou com calma, quase de forma automática, notando a pouca quantidade de janelas iluminadas no prédio vizinho.

— Patrícia... — Dizer que a aproximação de Dan foi uma surpresa seria deboche demais.

Soprou a fumaça para o lado e acenou.

— Já terminou de se entupir? — Dan bateu a mão na barriga e sorriu, satisfeito apenas como uma criança gulosa poderia ser.

— Nem vem, que daqui a meia-hora você vai estar lá comendo de novo. — Ele descansou os cotovelos na varanda, respirando fundo o vento úmido. — Vai tentar pegar mais aulas na escola?

Um sorriso presunçoso escapou por seus lábios, adorava não ter que explicar mil coisas para as outras pessoas.

— Talvez ano que vem. — Deu de ombros. — Francês é bem mais difícil que inglês. — Ele murmurou uma concordância. — Línguas latinas são um inferno.

— Então porque não tenta japonês? — Empurrou-o com o ombro, notando o gracejo óbvio.

Tragou mais uma vez, tentando relaxar e aproveitar a última conversa franca e íntima que provavelmente teriam.

— E pensar que a droga da Wizard seria tão boa pra você, né? — O sorriso que evitou a todo custo naquela noite saiu, um que crescia aos poucos e durava menos ainda, mas só uma pessoa era capaz de lhe tirar.

— Cala a boca. — Disse com o riso na voz.

Com seus pais enchendo seu saco para fazer inglês, e seu amigo do outro lado ajudando foi difícil dizer um não que fosse eficiente, ao menos o pai reclamava de suas madrugadas assistindo séries e ouvindo música tinha a desculpa de exposição a língua. Sempre colava.

E também foi como conseguiu uma desculpa para não fazer a maldita faculdade e sair de casa.

Ser professora em uma escola de idiomas e bartender poderia parecer pouco para Cezar, mas Paty estava feliz, era divertido e pagava o aluguel.

— Cê lembra da Fernanda? — Encarou-o, procurando pistas de onde Dan queria chegar.

— A da sétima série? Que por algum motivo era maluca por você? — Nem um tom de brincadeira passou por sua voz: ela era maluca mesmo.

— Encontrei ela esses dias, tá casada e grávida. — Boquiaberta, Paty tentou conciliar a imagem da garota asiática rechonchuda viciada em boy band com aquela descrição nova. — Disse pra pedir desculpas pra você. — Ele sorriu sem graça e Paty soltou um bufo.

— Eu não vou desculpar alguém que me segue até em casa e me ameaça. — A ação havia causado mais irritação do que medo de sua parte, já que Nanda era baixinha e destrambelhada.

Mas ninguém a ameava daquele jeito, não importava o motivo.

— Que coraçãozinho de pedra. — Ele sussurrou, fingindo indignação.

Bateu o cigarro na mureta para que o vento levasse as cinzas, já que não tinha onde descarta-las. Tragou por mais uma vez, lendo o clima.

Dan nunca trazia um assunto que não queria que virasse uma discussão elaborada, se de fato quisesse falar de Fernanda não teria soltando apenas um comentário, tão pouco Paty teria deixado o assunto morrer, quando poderia ser tão constrangedor.

Ele sabia que o problema era algo profundo e queria uma abertura para resolverem e, aquela seria a melhor maneira de jogar limpo.

— Por que você nunca me chama de Paty? — Indagou olhando para Órion no céu.

— Porque me lembra patinete. — Esboçou um sorriso, Dan era tão idiota.

— Nem meu pai me chama de Patrícia. — O que era estranho, para dizer a verdade.

— Te chamo assim só se me chamar de Daniel. — Engoliu em seco antes de tragar por uma última vez e apagar o cigarro na mureta. — Desde quando está aprendendo francês? — O tom sério disfarçado de banal fez Paty entender que Dan sabia exatamente o que estava acontecendo.

A real pergunta ali era quando havia começado a não compartilhar tudo.

— Dois anos. — Respondeu apenas à pergunta disfarçada. — Sabe como é... Não é nada importante.

Porque agora apenas o imprescindível deveria ser contado.

— É... — Seu melhor amigo trocou o peso dos pés, desconfortável. — Seu PS2 ainda funciona?

Ele ainda estaria lá para que pudessem jogar juntos outra vez?

— Sei lá, não jogo mais. — Engoliu em seco outra vez, desenhando nas cinzas com a bituca.

Não, eles nunca mais jogariam de novo. Nem dividiriam um podrão em uma madrugada qualquer, sequer sairiam para beber e xingar os respectivos chefes.

Porque agora Dan teria outras coisas com que se preocupar.

— Enjoou? — A voz monótona sempre a irritou e seu melhor amigo sempre a usava de propósito.

— Tsc... — Disse, que ele encarasse como quisesse. — Quando é que vai ser o jantar de noivado? — Sentiu o olhar dele em si, tentando entender as entrelinhas da pergunta.

— Mês que vem, quando o pai da Mônica sair do hospital. — E esperou o próximo enigma a sair por sua boca.

— Já parou pra pensar que vocês estão juntando um monte de gente? — Encarou-o, tentando ajudá-lo a solucionar o mistério. — As famílias de vocês dois vão ter que conviver agora. — Deu de ombros, pouco se importando com aquela parte. — E vão formar uma coisa nova, só de vocês. — Suspirou teatralmente para dissimular a tristeza, não conseguiria enganar Dan, mas ser tão direta não fazia seu estilo. — Aposto que em dois anos já vão ter um moleque. — Com a voz entediada voltou-se para a lua outra vez. — Espero que até lá meu francês tenha ficado fluente.

O silêncio que teve como resposta confirmou que a conversa tinha cumprido seu papel.

— Qual é? — A irritação começou a borbulhar em seu interior, Dan nunca sabia quando parar. — Você vai ser a madrinha do pive...

— Daniel! — Vini gritou, alto demais até para ele, o rosto estava vermelho e o andar um tanto capenga. — Me dá a chave do carro, o Cauã e eu vamos comprar mais cerveja.

— Você vai dirigir? — E a aura de irmão mais velho estava lá novamente. — Nem ferrando!

Eles começaram a discutir e Paty prestou a mínima atenção para saber que Dan iria junto, analisou a sala: Duda e Mônica comentavam algo enquanto a noiva apontava para o celular, Gisele reclamava da estupidez do namorando com Leandro, que parecia estar achando graça da situação.

Com o passo suave que aprendeu a dar em seus tempos de garçonete de karaokê, — o pior chefe que havia tido na vida, — andou até a cozinha, surrupiou uma caixa de pizza com dois pedaços e uma vodka com metade do conteúdo, esperou até o barulho se intensificar na sala para sair sem ser notada, subiu dois lances de escada até o terraço deserto.

Sentou-se de pernas cruzadas bem no centro, bebericando o destilado e comendo as calabresas generosas da pizza, o vento que batia em seu rosto era uma ajuda bem-vinda para que o álcool não a tomasse por inteiro, mas deixava a maravilha criada pelos italianos um tanto insossa.

Quando terminou de comer a porta enferrujada atrás de si rangeu.

— Que frio dá porra. — Gisele murmurou irritada, sentando-se ao seu lado. — Passa a vodka. — Foi o que fez, se perguntando o que ela queria ali. — O Cauã e o Vini estão disputando pra ver quem aguenta mais bebida e eu não tenho vocação pra cuidar de bêbado.

— E quem é que tem, né? — Murmurou, se lembrando das vezes em que tiveram que chamar a polícia no clube de strip para apartar brigas ou a ambulância. Paty estava feliz do Citrus ter entrado em sua vida. — Quem acha que vai ganhar?

— Óbvio que é o Cauã, o Vini é um graveto, já deve até ter desmaiado. — Sua risada franca saiu, apenas por causa do tom irritado e ligeiramente indiferente da amiga, pegou a vodka das mãos dela e sorveu um grande gole, seu paladar já estava comprometido e a boca dormente, todavia isso nunca seria um motivo para parar. — Eu que sou a antissocial do grupo e você é que foge?

Paty fitou a amiga, que a olhava com curiosidade genuína, conhecia Gisele a tempo demais, — lembrar no primeiro colegial sempre a fazia se sentir velha, — para saber que ela não a deixaria em paz, o álcool em seu organismo ajudou a afrouxar o pensamento constante, — e correto, — de que qualquer um entenderia errado.

A porta rangeu outra vez.

— Ainda tem comida aí? — Disse Leandro, ele parou de andar até elas na metade do caminho, o olhar mortal da gótica teve seu efeito. — O que foi?

— Senta logo. — Gisele disse pausadamente. — E se você abrir a boca pra dizer qualquer coisa sobre o que vai ouvir: vou te enforcar com sua faixa preta de judô.

Leandro encarou Paty em busca de ajuda, sorriu de forma inocente, apenas para causar mais pânico, ele se sentou ao seu lado bem quietinho.

— Desembucha, Branca de Neve. — Encarou-a com raiva, como ela tinha coragem de desenterrar aquele apelido idiota?

— Branca de... — Voltou-se para Leandro, o riso morreu em um olhar.

Respirou fundo para ganhar tempo, como fazer com que eles entendessem que sua tristeza não queria dizer que estava apaixonada por Dan?

— É que Dan e eu sempre passamos por tudo ao mesmo tempo. — O vício por desenhos japoneses aos 8 anos, vídeo games aos 10, o primeiro beijo na mesma festa aos 13. — Agora ele vai casar no final do ano e ontem eu bloqueei um cara do Tinder porque ele é grudento.

Gisele riu da última parte, Leandro a encarou com uma incredulidade cheia de censura.

— Como você é cruel. — O professor de judô pegou a garrafa de vodka e deu um gole longo.

— Tá se sentindo de lado? — Indagou a outra garota presente, Paty mordeu o lábio inferior, incerta do que responder. — Dá pra entender, vocês são quase gêmeos siameses, agora o Daniel vai mudar pra caramba e você não.

— É. — Respondeu com amargura, pegando a bebida novamente. — É como se ele tivesse amadurecido mais do que eu.

O que queria dizer é que um sentimento doloroso de traição a rondava, se por um lado não tinha direito algum de se sentir assim, — sabia disso, — por outro não negaria a verdade a si mesma.

— Pelo menos não descobriu que está apaixonada por ele. — Leandro disse de forma irreverente, mas coçou a barba e a encarou em dúvida. — Né?

— Claro que não. — Respondeu com banalidade, aquela insinuação era tão corriqueira que mal conseguia se importar, mesmo sendo incrivelmente entediante e repetitiva. — Vocês devem ter alguém que faz parte do seu dia-a-dia e que seria chato não ter mais. — Nem que fosse um atendente legal na padaria. — É a mesma coisa, só que por 20 anos.

Leandro assoviou.

— Estão fazendo bodas de porcelana. — Sua amiga disse, debochando como sempre.

— Vocês podiam trocar canecas com aquelas frases legais, não é fofo? — Leandro continuou e Paty não conseguiu ter outra reação que não fosse rir.

— Vai ser meu presente de casamento pra eles com Feliz Bodas de Porcelana escrito. — Gisele pegou a garrafa e Leandro soltou um berro de concordância. — Nossa, eu tô muito bêbada.

— Quem aqui não está? — A outra respondeu, a empurrando de leve.

— Você quer casar? — Leandro indagou, a encarando com verdadeira curiosidade, comprimiu os lábios, incerta do que responder.

— É meio que o curso da vida. — Ele semicerrou os olhos, insatisfeito. — Só parei para pensar nisso agora, como o Dan vai casar sinto que devia fazer isso também, é como passar de fase.

Não queria continuar naquela sozinha.

— Você é uma menina má e, meninas más não se casam. — A fala de Gisele soou como um provérbio, encarou-a por incontáveis segundos.

— Que porra é essa? — Disse devagar, surpresa demais para outra coisa.

— Qual é? Desligou na cara do namorado francês, cagou pro cara do Tinder e não me faça lembrar do sonho de princesinha que era o Murilo, lembra do coitado? — Paty sentiu a pálpebra pulsar, o sorriso de Gisele foi cruel. — Admita garota, somos farinha do mesmo saco.

— Vai se ferrar. — Desviou o olhar para o céu, negando-se a aceitar aquela verdade.

— Quero morrer amiga de vocês. — Foi o único comentário que Leandro teceu sobre o assunto, mais um gole da vodka se foi. — Sabe, a Duda ficaria puta contigo se soubesse disso.

Paty engoliu em seco.

— Que eu estou meio triste porque perdi meu amigo melhor para a irmã mais nova dela? — Ao menos um tapa seria dado antes que explicasse a situação direito.

— Ela acharia isso estranho, mas estou falando de você estar lamentando ter ficado para trás. — Foi a vez de Gisele assoviar alto.

— Ela ficaria muito puta, já fica irritada quando a gente falar que o Daniel é seu melhor amigo. — Paty rolou os olhos, apenas para esconder o arrepio de medo, Duda era o demônio quando ficava irritada. — Por que vocês não se pegam logo? Seria tão bonitinho.

Suspirou profundamente, sua amiga tinha ideias tão estranhas as vezes.

— Na época da escola você achava que o Dan queria me comer, agora acha que a Duda quer me comer, eu devo ser muito gostosa. — Era uma piada, mas ouvir o riso sincero dos dois a deixou indignada.

— Alguma vez eu vou ter que acertar. — Ela apenas deu de ombros.

— A Gisele está certa em uma coisa, a Duda gosta muito de você. — Leandro falou, distraído com a linha de sua blusa de frio estilho canguru. — E ela também não parece ter planos para casamento.

— Não. — Prolongou a palavra até se deitar no chão. — Ela não gosta de jogar vídeo game.

Precisava ficar um pouco mais carente para levar a ideia a sério.

— Você nem pensou nisso. — Respondeu a indignação de Leandro com um sorriso.

— Chega de falar da Paty, vamos para as minhas merdas agora. — Gisele se deitou ao seu lado, o que fez o outro presente revirar os olhos e fazer o mesmo. — O Vini está grudento demais e chato, vou terminar com ele. — O tom banal a fez morder o lábio inferior.

— Que merda, somos farinha do mesmo saco. — Paty murmurou, desgostosa.

— Terminei, sua vez Leandro. — Ao menos Gisele ainda era pior que ela.

— Eu tô ótimo. — E aquilo não parecia brincadeira ou sarcasmo.

Paty fechou os olhos por alguns instantes, pensando seriamente em dizer a seus amigos que os amava e dormir logo em seguida, não soube ao certo quanto tempo se passou até ouvir a porta ranger de novo.

— Sabia que não tinham indo embora. — Escutou a voz de Cauã, completamente drogue, mas suas pálpebras estavam tão pesadas.

— E estão fazendo o meu terraço de cama. — Reconheceu o sarcasmo na voz de Duda, palmas se seguiram. — Vamos! Aqui não é pensão!

Gemeu em protesto quando Leandro rolou para o lado, Mônica chamou Gisele, que respondeu com um palavrão e se aproximou mais de seu corpo, ouviu um suspiro irritado antes de mãos envolverem seus braços e a puxarem até se sentar.

— Levanta, Patinha. — Abriu os olhos com dificuldade, Duda estava a sua frente com o olhar atento, a única coisa que Paty conseguiu discernir foi o cabelo preso.

— Duda... — Sussurrou com a voz entrecortada de sono. — Você quer me comer?

— Gisele, você deu aquelas porcarias pra Paty fumar, né?! — A voz passou de um murmúrio exasperado para um grito que poderia acordar o prédio vizinho.

Paty não soube exatamente como conseguiu ficar de pé, ou para qual santo deveria rezar por não ter vomitado.

Apenas o fato de Gisele estar errada, — novamente, — e Leandro ter chance de estar certo já compensava a dor de cabeça horrível que teria na manhã seguinte.

Ela não deixou de notar que Dan não apareceu, provavelmente estava cuidando do irmão, porém a ideia simbólica de sua ausência era proposital acalmava seu coração, ele iria na frente e, talvez se encontrassem algum dia por aquele caminho.

Notas finais
Bem, eu tentei retratar os personagens da forma mais normal possível, nem totalmente bons nem totalmente maus (olha o nome da fic aí!!), MAS isso não significa que concorde com tudo que está aí, portanto.... (Momento propaganda do Ministério da Saúde ON) Fumar tê mata devagar, dá câncer, tê deixa broxa e quem colhe a planta pro cigarro se lasca mais do que quem consome ^^ O álcool destrói seu cérebro, simples assim =3 (Momento propaganda do Ministério da Saúde OFF) Críticas, sugestões, (mais propagandas antitabagismo) ou comentário de qualquer tipo são sempre bem-vindo. Xauuuuu, serumanihos o/
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!