Felicidade
1 Ser Feliz
Era um garoto um tanto diferente, não passava o dia pensando em garotas ou em carros, não viva rodeados de amigos, ou rindo de coisas que não tinham a menor graça. Seus pais não o davam atenção freqüentemente o nomeavam de opaco, ou sem graça, isto não o feria mais, já havia se acostumado.
Vivia cercado de livros, desde romances intermináveis até longos livros de Física ou mesmo resumos de ciências, parecia que neles encontrava os amigos que quase não tinha, os pais que o cercavam e abraçavam e a felicidade que ele sabia que um dia o encontraria.
Meio a fórmulas atômicas e teorias evolucionistas ele passava suas tardes no seu quarto, que acompanhado da biblioteca e do parque próximo a sua residência, eram os únicos lugares que ele sentia-se bem.
Tinha poucos amigos, e que nunca estavam com ele, seja por morarem muito longe, ou porque os seus problemas diários não os permitiam terem momentos de lazer. Isso o fazia às vezes pensar o porquê de ele não ter tantos amigos, como os meninos de sua idade.
Certo dia, os alunos de sua escola resolveram, como era de costume, judiar dele, do garoto solitário e sério demais para sua juventude. Riram, caçoaram, apelidaram-no, jogaram seus livros no chão ou pela escada. Os alunos ao redor apoiavam, batiam palmas, assobiavam, era como uma tourada, que todos se excitam até a morte do pobre animal. E a sua morte era atendida quando ele recolhia todos os livros e saia para os fundos do colégio.
Quando lá chegava, tentava sorrir, esquecer, ou ler, mas desta vez não pode conter suas lágrimas que caiam constantemente sobre todas as imensas fórmulas de um livro que pegara na biblioteca. Encharcavam o grosso livro de história que ele carregava como um tesouro entre seus braços. Ele fechava os olhos tentando estancar aquele sangramento transparente. Mas parecia inútil, meio a todos aqueles cadernos e folhas ele isolou-se com a mão no rosto esperando que por qualquer motivo, seus olhos voltassem ao brilho original e esperando que suas lágrimas secassem por si mesmas.
Chegou em casa e quis voltar a sua rotina, mas sua alma parecia tão magoada, tão esquecida que não importa o que fizesse continuava com seu pensamento longe.
Olhou-se no espelho, e viu dentre todos os objetos que compunham seu quarto, ele mesmo. Um garoto de óculos, com roupas sem graça, expressão séria. Não, ele não parecia com aquelas caras rosadas, com roupas de marca e sorrisos brilhantes que os alunos continham, ele não era igual a eles, e em sua cabeça havia uma única pergunta: Por quê?
Olhou ao seu redor e viu amontoados de livros, livros sobre seres microscópicos, livros sobre todos os planetas, livros que explicavam o planeta Terra, grandes ou finos, de capas dura, de cores claras ou escuras, livros que ele nunca vira outro garoto levar entre seu braços. E novamente, ele escutava em sua cabeça o mesmo “por que” sofrido e profundo que seu cérebro insistia em pronunciá-lo.
Viu que em lugar a todos aqueles livros deveriam haver protótipos de carros, telefones de garotas, latas de refrigerante e revistas sobre motocicletas e caminhões. Viu que no lugar daqueles óculos deveria haver olhos penetrantes, que no lugar de sua roupa deveria estar a nova moda e percebeu que neste momento ele deveria estar indo a alguma festa, encontrando-se com algum colega ou assistindo programas engraçados na televisão.
Como um vulto, ele retirou seus óculos quase o jogando ao chão, sua visão parecia embaçada, mas nada que o tempo não o fizesse acostumar. Levantou-se e jogos todos os livros ao chão, com uma braçada empurrou tudo o que havia sobre sua mesa, destruiu todos os seus papéis com desenhos de animais e suas estruturas, pegou o seu dinheiro, que ele estava juntando para comprar um telescópio e foi em direção a loja de roupas mais descolada da cidade. Naquele momento ele havia decidido mudar completamente, decidiu livrar-se de si mesmo.
Durante os meses seguintes, ele tornou-se o típico garoto que deveria ser, vestia roupas descoladas, tinha um cabelo estiloso, andava em volta dos seus amigos, rindo das pessoas na rua, gritando asneiras, desrespeitando os seus pais. Sim, ele finalmente havia se tornado um deles, o que ria de outros garotos solitários, o que cuspia quando passava alguém estranho. Enfim, ele era.
Não percebia que estava afastando os seus antigos amigos, que não recebia os mesmos olhares dos antigos professores atenciosos, que não sorria mais espontaneamente, eles eram simplesmente forçados para agradar os seus aliados. Não percebeu que estava jogando fora tudo que tinha construído até ali. Não percebeu que nunca estivera tão só, e tão escanteado, não por seus novos colegas, mas pelas pessoas que sempre o receberam com o carinho sincero e sem interesse.
Depois de tempos, ele, antes de sair a uma festa olhou-se novamente no espelho como era freqüente para ajeitar o cabelo ou admirar sua aparência. Mas desta vez ele olhou-se profundamente e novamente viu o que era, e o que se tornara. Por trás de toda aquela boa aparência, de toda aquela roupa, por trás daquela máscara que o cobria, havia um garoto preso, dominado pelos padrões, fechado entre quatro paredes. Viu amigos que o deixaram quando precisou, garotas que estavam atrás apenas de diversão, pessoas que o olhavam sobre maus olhares, brincadeiras que ele fazia com gosto, mas que deixavam pessoas como ele um dia foi magoadas, humilhadas, condenadas a chorar lágrimas de promessas vazias, lágrimas afogadas de solidão e arrependimento.
Novamente o mesmo sofrido “por que” voltara a sua mente: por que ele teve que mudar? Por que ele tinha que esquecer o garoto que foi? Novamente sua mente se enchera de dúvidas, até ele olhar ao redor e ver seus antigos óculos, esquecido abaixo de sua cama bagunçada. Colocou-o e sentiu feliz por ver normalmente, olhou dentro de uma caixa à sua estante alguns antigos livros, agora empoeirados, esquecidos como antigas lembranças. Pegou o primeiro que vira e abriu-o por volta da centésima página, onde encontrou uma figura que ele mesmo havia feito de um camarão, enumerando todas suas patas, e riu-se pela simplicidade do desenho. Olhou novamente no espelho e decidiu trocar a sua roupa. Enfim, ele havia voltado ao antigo garoto de antes, mas que carregava um belo sorriso, feliz como ele nunca havia estado. Mesmo com todos os livros, com seus velhos óculos e com seus antigos hábitos típicos do garoto que era, e sempre foi.
Finalmente, ele percebeu que para alcançar a felicidade você não necessita ter tudo que os outros tem, não precisa agir como os outros agem, não precisa ter acessórios bacanas, carros, boa aparência, amigos descolados, pais imponentes, fantasias impossíveis. Descobriu que para ser Feliz não se precisa ver o sorriso em todos que passam, mas em apenas você mesmo.
Descobriu que felicidade é algo tão simples, que você já nasce com ela, basta você aceitá-la do jeito que ela é, e ainda mais, do jeito que você é.
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