Notas iniciais
Sem notas.

Depois de algum tempo martelando onde eu havia errado, cheguei a conclusão de que eu não sabia onde. Minha mente estava confusa e mesmo assim, a sensação não passava. Mesmo com a noite iluminada, as estrelas cobrindo o céu como belos vaga-lumes e o clima frio que sempre habita a essas horas, eu estava mau. Mau por Jake fugir de mim daquele jeito. Tudo bem que as vezes parecia que tinha uma tatuagem em minha testa dizendo ''Me ignore'' mas ele... Ele não... Eu não o conhecia direito. Não podia julgar o que ele faria, seu jeito e essas coisas. O jeito era eu seguir em frente, e também ignorá-lo. Eu tinha que parar de pensar nele como se fosse uma garota obsessiva. Eu não era. Eu nunca fui. Eu tinha saudades de quando ele não estava nessa cidade, naquela escola e quando eu não era uma pessoa esquentada. Eu era normal!

Era.

Abro a porta de casa e esfrego os braços para afastar o frio, e devolvo um ''olá'' para meu pai que sorri e diz ''oi querida, como foi a escola?''

Ele era um homem de negócios, o tipo de pai que não para em casa, o que vive no trabalho para sustentar a filha. Mas tínhamos condições de vida, claro. Ele era advogado, um ótimo advogado.

''Foi... Bem.'' — talvez tenham ligado para minha casa e meu pai estivesse no trabalho e devia ser por isso que ele não estava furioso comigo. Ainda bem.

''Eu preparei um frango assado dos deuses, você ira gostar querida.'' — eu sorri para ele, lembrando de sua arte na cozinha e como seu frango assada era delicioso.

''Obrigada pai, vou amar.'' — subo as escadas com minha mochila nas costa e abro meu quarto, sentindo o cheiro floral que se estendia por ele. Eu amava esse cheiro. Era o meu cheiro. O meu único perfume, quer dizer, não único mas o único que eu sempre usara a minha vida toda. Era um cheiro que não enjoava e era tão bom... Eu me sentia ligada a minha mãe de certa forma pois o perfume era dela e toda vez que acaba, eu encomendo de paris até aqui. E para mim, vale mais que a pena.

Deito de costa em minha cama e examino o teto, com adesivos fluorescentes que brilham no escuro, uma galáxia de planetas, e nuvens de estrelas. Uma coisa que me fascinava. Papai achava engraçado isso, sempre que podia, eu pegava meu telescópio e ficava a noite inteira olhando para o céu, os olhos vidrados a cada estrela cadente que passava. E cada suspiro toda vez que eu conseguia achar um planeta perfeito para ficar olhando suas cores e suas feições.

Meu celular vibra, tirando-me do transe, eu olho para o número e não o reconheço mas mesmo assim eu atendo.

''Sim...?'' — eu pergunto com a voz embriagada. A pessoa não responde. Mas havia alguém na linha pois eu ouvia sua respiração constante tilintando em meu ouvido. — ''Quem está ai?''

Nada.

''Olhe, se não me responder eu...'' — a ligação cai e eu fico na linha falando sozinha.

_____

''Está bom querida?'' — eu assinto enquanto mando todo o frango para meu estomago.

A campainha toca e meu pai se levanta para atender porém, eu peço para que ele fique e eu atenda, não era justo. Ele havia preparado aquilo então talvez... Isso seja uma recompensa.

Eu sorrio com o pensamente e abro a porta.

Era uma mulher.

Uma linda mulher.

Seus cabelos castanhos estavam presos num coque perfeito, seu sorriso era idêntico ao meu, seu nariz principalmente. Sua roupa era apenas um casaco, luvas, e touca.

Eu conhecia esse rosto. Um rosto angelical e luminoso.

Essa mulher era minha mãe.

Dou um grito agudo não conseguindo me controlar e percebo que o mundo a minha volta fora ficando preto rapidamente e eu tomo a inconsciência em segundos.

____

''Você sabia que alguma hora eu tinha que aparecer aqui para vê-la! Glenda é minha filha e eu tenho esse direito!''

A mulher que eu passei a minha vida toda pensando que havia morrido em meu parto disse, com uma voz solene e encantadora.

''Ah mas claro que não tem! Repare no que você fez conosco Lara! Eu sei que não foi sua culpa você ter que afastar-se de nós por esse motivo tão... Trágico mas... Você deveria ter aparecido a muito tempo a trás quando a situação havia esfriado...'' — a voz de meu pai abaixou o tom mas mesmo assim eu ouvia. Eu estava em um lugar confortável, eu não queria abrir meus olhos, eu queria ouvir mais.

Lara dá um suspiro e deixa o lugar com um ar de estresse.

''Eu sei mas... Eu estava com muito, muito medo Tom. Era inevitável toda essa situação, eu fiquei paranoica com tudo aquilo, sempre que eu pensava ''tudo bem, hoje vou falar que eu existo para Glenda, hoje é o dia.'' o medo me batia e eu imaginava aqueles brutamontes matando-a, ela é tão inocente Tom... Ou era... '' — eu queria entender oque ela estava falando, eu queria muito.

Papai bufa incansavelmente.''Eles estão presos a anos e não provocam nenhuma ameaça a anos Lara! E você não deu nenhum sinal de vida, apenas uma vez, uma única vez!'' — ele exclama alto demais, quando percebe o que fez, começa a diminuir novamente o tom de voz. — ''Glenda passou a vida inteira pensando que você havia morrido e eu não pude contar nada porque...''

''Você é fiel de mais e cumpre as suas promessas.'' — ela diz baixinho em um tom de admiração.

É nesse momento em que eu resolvo levantar. Olho em volta e reparo onde estou.

No quarto de meu pai.

Me perguntei o por que dele me deixar aqui e cheguei a conclusão de ele estar tão apavorado com meu desmaio repentino que acabou deixando-me no primeiro lugar da casa. Ou talvez não. Mas isso já não me importava mais.

Escancaro toda a porta que estava entreaberta e espio o lado de fora. No fim do corredor lá estava minha mãe e meu pai, se olhando sérios. Quando me notaram, se afastaram rapidamente e me olharam espantados, principalmente Lara.

''Acho que eu mereço uma explicação para isso.'' — eu olho para minha mãe, apertando os olhos e mordendo a língua pra não sair gritando com ela. Meus surtos estão ficando cada vez mais loucos — ''Eu preciso dessa explicação... Agora.''

Notas finais
Sem notas.