Feita de água e trevas - Lívro I
4 Capítulo 4
Notas iniciais
As aulas naquele dia se arrasaram como uma lesma, quanto mais eu implorava pelo fim mais lentamente se passavam. Victor nem mesmo olhou para mim durante todo o primeiro período, era torturante, a todo segundo me lembrava daquela conversa, daquele olhar, frio e desaprovador, o que eu havia feito?
O final da terceira aula foi meu ápice, não suportava mais aquele silêncio, já havia tentado falar com ele milhares de vezes durante as outras aulas,mas não obtive nenhuma resposta, contudo chamei-o de novo, mas falhei miseravelmente, fui ignorada, nesse momento simplesmente juntei minhas coisas e saí da sala, aquilo me machucava profundamente, ele sempre foi meu melhor amigo, por que ele estava fazendo isso? Eu só queria uma resposta.
Passei pelas portas do colégio já aos prantos, a chuva já havia passado e o cheiro de grama molhada impregnava o local, Light continuava alí, imóvel olhando para mim, como se não tivesse se mexido desde que entrei.
Não queria conversar. Não queria chegar perto de alguém que me trouxe tantos problemas, mas o desejo de conversar novamente era mais forte, andei até o garoto que se encontrava debaixo de uma árvore sentado no banco com um ar pensativo.
– Não deveria estar na aula? — Perguntou Light assim que percebeu minha presença.
– E você não deveria estar pensando em como fazer o Victor acreditar em nós?
– Você ainda está chateada, não?
– Claro, Light como você se sentiria se seu melhor amigo parasse de falar com você? — Perguntei incrédula de que ele achasse que eu já poderia estar melhor.
– Nunca tive muitos amigos, na verdade nunca tive um amigo que tivesse minha idade, então não sei como você se sente, me desculpe. — Respondeu em um tom triste. — E sobre o Victor, não se preocupe ele vai voltar, e vai acreditar em você, em nós.
Estava começando a me cansar da conversa, parecia que minha melancolia estava devorando tudo que me fazia feliz e transformando em tristeza, naquele momento o sinal que marcava o fim do primeiro período bateu e todos os alunos começaram a sair pelas portas de uma vez como um tsunami de pessoas, olhei em busca do rosto de Victor, mas ele não aparecia, levantei, então, e adentrei novamente o prédio, era minha última esperança, ele teria que me ouvir. Passei correndo pelos corredores até chegar na sala, ele estava lá, sentado, parecia que sentia o mesmo que eu.
– Por favor não fuja. — Implorei vendo que ele estava prestes a fazer isso.
– O que você quer, não está vendo que eu quero ficar sozinho? — Perguntou o platinado em um tom pouco amigável.
– Victor, por favor, eu não aguento mais...
– Já cansei desses seus shouzinhos, dá pra parar com tudo isso? — Gritou batendo em minha mão que segurava seu braço e virando-se para correr.
– Você vai ouvi-la. — Impôs Light ao entrar na sala.
– Você de novo? O que você quer?
– Victor, deixa ele em paz, por que essa implicância? — Perguntei prestes a voltar a chorar.
– Por que? Vou te dizer o porquê. Esse menino é o culpado, ele chegou e te roubou de mim, eu gosto de você e é isso que está me deixando puto...
– É isso? — O interrompi — Um ciúme bobo, sabe o que eu penso de você agora? Que você é um idiota! Como acha que eu iria te trocar por alguém que eu conheci a dois dias? Victor eu não posso dizer que sinto o mesmo por você, pelo menos não agora, minha mente está uma bagunça, você é meu melhor amigo, não quero te perder...
Não consegui mais falar, estava afogada em lágrimas novamente, então senti algo, as mãos de Victor me puxavam para sí de forma carinhosa, abri meus olhos no exato instante, nossos rostos estavam muito próximos, o suficiente para que ele pudesse me beijar. Meu corpo já não respondia mais, não queria magoar os sentimentos de Victor, mas também não queria aquele beijo, mas foi tarde Victor me puxou mais para perto e então uniu nossos lábios, me assustando completamente, eu não sentia nada por ele além de amizade, não tinha como aproveitar aquele momento ainda mais enquanto Light nos observava.
– Me desculpe... — Disse assim que Victor separou o beijo. — Eu não consigo sentir o mesmo por você...
– Não estou te obrigando, só quero que pense.
– E eu quero que você me escute. — Disse Light depois de seu longo silêncio.
– Pode falar...
Light explicou tudo novamente,mas parecia que Victor nunca acreditaria, me levantei impaciente e puxei os dois para fora, continuei puxando-os mesmo com os pedidos de Victor dizendo que não podíamos sair assim, pois as aulas já iriam começar novamente. Os arrastei até a praça, que por sorte estava deserta, cheguei perto da fonte e larguei os dois.
– Agora não vai poder me contrariar. — Falei olhando diretamente para Victor. estendi minhas mãos para os lados e tentei senti-la, sentir a água, imagina-la mudando de forma e subindo, fechei meus olhos "respire fundo, você pode fazer isso" disse a mim mesma, quando os abri vi os olhos do garoto de cabelos brancos completamente arregalados, perplexos com a água se movendo daquela forma estranha.
Olhei para Light, ele parecia estar orgulhoso com meu avanço, aquela sensação era boa, mas logo foi sumindo e comecei a perder as forças até que minha visão escureceu e meus ouvidos se tamparam, minha última lembrança era de sentir dois braços, que ao encostarem em minha pele ocasionaram um leve choque, me envolvendo para que eu não caísse.
...
"Eu estava numa clareira em meio a uma floresta, estava bem escuro, portanto deduzi que estava de noite, ao longe somente se via uma fortaleza de pedras bem antiga, minha visão logo me levou a um ponto específico; duas pessoas, uma garota sentada segurando o que parecia ser um corpo morto.
Conforme me aproximava podia ouvir o choro de desespero.
– Não, não, por favor não me deixe... — A garota, que muito se parecia comigo, implorava. — Eu preciso de você... Chorou.
Estava quase podendo ver o rosto do corpo, porém quanto mais me aproximava mais minha visão se tornava turva até que ela se apagou totalmente e comecei, então, a ouvir uma risada maníaca. "
...
Acordei eufórica, nunca havia tido um pesadelo tão realista, olhei em volta e, dessa vez, reconheci minha sala, não lembrava de muita coisa, mas tinha certeza de que não estava alí antes. Tentei me levantar, contudo meu corpo todo doía profundamente.
– Não vai conseguir sair daí tão cedo. — Disse Light se aproximando do sofá com uma xícara de chá nas mãos. — Acho que você tem uma certa paixão por desmaios. — Riu.
– O que aconteceu? — Perguntei levando a mão à cabeça. — Onde o Victor está?
– Ele estava aqui até agora. — Responde enquanto ajuda-me a me sentar e entrega a xícara. — Saiu a uns dois minutos... E sobre o que aconteceu, você somente se esgotou, não está acostumada a usar tanto poder, mas olhe pelo lado bom, agora o Victor acredita no que falei.
– Hm... — Concordei após bebericar minha xícara de chá. — Estou com um pouco de dor de cabeça, mas eu tenho certeza que não a bati quando desmaiei, certo? — Perguntei apenas para confirmar minha hipótese.
– Não. — Afirmou — Consegui te segurar antes que isso acontecesse... — Resmungou num tom extremamente baixo essa última parte, então havia sido ele, ele não deixou que eu caísse, mas talvez ele quisesse guardar essa informação só para ele então acabei por fingir não te-lo ouvido. — Você acordou um pouco assustada, o que aconteceu?
– Nada, só um pesadelo...
– O que aconteceu nele? — Perguntou aproximando-se preocupado.
– Pra que um interrogatório, foi só um pesadelo normal. — Deixei escapar irritada.
– Porque talvez depois de você ter sonhado com coisas que realmente aconteceram eu prefira saber o que você sonha, pode ser algo importante. — Olhei diretamente para o seu rosto enquanto falava, ele realmente parecia preocupado comigo, mas eu não queria compartilhar aquilo, era difícil para mim.
– Foi só um pesadelo bobo, te juro. — Menti. — Nada demais...
– Tem certeza?
– Sim...
Continuei mentindo, por que fiz isso? A resposta mais óbvia era que não queria preocupa-lo, mas talvez, lá no fundo, eu quisesse guardar aquilo somente para mim.
– Light, obrigada por ter cuidado de mim, sei que o Victor também ajudou, mas ele não está aqui agora para eu agradece-lo...
– De nada, na verdade você nem precisava agradecer, mas isso me deixa feliz... — Light virou o rosto no exato momento, talvez estivesse com vergonha, mas não acreditava que era possível alguém como ele se sentir assim.
– Light, você tem onde ficar hoje à noite, não que eu queira desesperadamente que você fique aqui, é que ontem eu fiquei pensando onde você passou a noite, saiu daqui tarde e depois apareceu cedo na escola...
Light deixou escapar uma leve risada me interrompendo. — Não, não tenho onde ficar, eu na verdade não dormi noite passada, fiquei andando pela cidade procurando por qualquer outro guerreiro que aparecesse, e achei o Victor.
– Como assim 'não dormiu'? Seres humanos dormem sabia? — Questionei incrédula — Então está decidido, você vai dormir aqui.
– Vai deixar um menino que você mau conhece e mais velho que você dormir na sua casa?
– Como sabe que é mais velho? Quantos anos acha que tenho? — Perguntei inconformada de que ele me achava uma criança.
– Dezesseis? — Respondeu com uma pergunta, tudo bem eu poderia estar errada na impressão que tive de sua pergunta — E quantos anos você tem? — Perguntei quase enterrado meu indicador em sua cara.
– Dezessete. — Respondeu enquanto segurava minha mão para afastá-la de seu rosto. Aquela sensação. Aquele choque que senti quando desmaiei. Era a mesma, o que estava acontecendo comigo?
– Ah, e tem uma grande diferença entre dezesseis e dezessete. — Ironizei depois de me "recuperar" da sensação boa que estava tendo enfatizando o 'grande'.
– Sim, um ano.
– Você me irrita. — Murmurei cruzando os braços.
Não estava olhando para ele mas percebi que estava rindo de meu comentário, como ele podia ser tão bipolar? "Que garoto chato" eu pensava a todo momento.
– Mas eu aceito sua proposta. — Aceitou com um sorriso no canto do rosto e logo apoiando os pés em cima da mesa de centro de onde estava sentado.
– Ei, ei, ei, pode ir tirando os pezinhos daí, aqui não é casa da mãe Joana não. — Desaprovei.
– Vem tirar então. — Desafiou o moreno tendo consciência de que eu não conseguiria fazer aquilo já que mal conseguia me mover.
...
A tarde passou rápido, na verdade voou, Victor me ligou no mínimo três vezes para saber se eu já estava bem ou se Light não havia feito nada comigo, ele era assim, desconfiava de tudo e de qualquer menino que chegasse perto de mim, eu já entendia o porquê disso, mas era um exagero já que a vida era minha.
Quando me recuperei arrumei o pequeno quarto de hóspedes que ficava no andar de cima, não usado a anos, já que amigos eram precários na minha vida, apesar de eu ser completamente sociável.
Apesar de saber que o Sr. Voz do além esteve presente durante toda a noite parecia que não havia mais ninguém na casa além de Light e eu. Era estranho e ao mesmo tempo incrível, ele realmente podia ser uma pessoa carismática quando queria, a todo momento deixava escapar alguma risada ou até mesmo um sorriso de canto com minhas loucuras bobas.
Eu realmente deveria gostar ou ter alguma amizade com ele? A pessoa que entrou na minha vida de repente somente me trazendo problemas, aquele que me fez até mesmo brigar com meu melhor amigo? Não, nada disso fora culpa dele, obviamente talvez alguns desses fatos não teriam acorrido se ele nunca tivesse aparecido, mas há uma coisa que aprendi, tudo que ocorre tem um porquê, pode ser algo bobo ou algo grandioso, mas essas coisas são as que nos guiam e nos transformam no que somos quando amadurecemos.
Fale com o autor