Feeling that flies

3 The feeling always flies.


O que eu te escrevi até agora tem sido muito real para ti?

O que eu te escrevi até agora fez você ao menos chorar alguma vez?

Seria o mínimo que você poderia me dar.

Desculpe o tom ordinário. Não, não me desculpa não. Você me fez me sentir ainda mais ordinária.

Falei demais do sentimento que sinto por você nesse momento. Talvez eu não tenha tocado realmente na ferida — provavelmente terei que belisca-la.

Pense bem: é muito provável que você não esteja pronta para ler isto, como talvez eu não esteja pronta para escrever sobre isso. Vai ser duro escrever isto. No entanto, eu já estou tão suja, podre, pobre, obscura, má, cruel, perversa, ignorante, farta, ímpia — esse último adjetivo é o pior. É o que desencadeia ou outros, e certamente, é o que fez você se afastar de mim.

Há uma luz que nunca se apaga...

Meus olhos já começaram a lacrimejar. Apenas respire, água viva, você é forte mesmo estando fraca.

Há uma luz que nunca se apaga dentro de todos nós. Eu não sei que luz é essa — mas desconfio. Alguns sabem, alguns têm certeza. Você é uma deles — ou pelo menos afirma com toda a certeza. Eu não sei. Isso (a luz) é algo tão pessoal que é intocável, incorruptível. Talvez a única coisa pura que nos resta por mais que nos molestem. Ao contrário da integridade que pode ser roubada de nós — senão a humanidade não estaria como está.

Você não está me entendendo, né? — não estou me referindo ao último parágrafo, mas em tudo. Desde esses textos até quando nós conversávamos — enquanto escrevo, nós ainda não rompemos definitivamente por sei lá quanto tempo, e nem sei se você lerá isso, mas eu estou escrevendo para... mim no final das contas, para mim, para me convencer de que você está errada, para me convencer de que na única coisa que errei foi em quase amar você. E não diga que um quase amor não vale nada. Leia o que eu estou fazendo! Ouve o que digo para você! Se toca de uma vez! Para de não entender! Deixa de ser patética e seu amor ficar só no seu credo! Deus... eu não sei! Não entendo! Mas eu tento! E nem por isso, você vale mais do que eu só porque você diz entender! Eu sinto! As vezes penso que sinto mais do que você que detentora de toda a certeza! Arrogante! Como eu consigo mesmo assim gostar de você? Como não consigo, depois de tudo, sentir desdém por tu? Você vai dizer o que agora? É porque eu sou uma boa pessoa? Minha mãe e minha família que você tem tanta raivinha estavam certos sobre você. Você segue em frente. Você não olha para trás. Você não olha para quem esteve ao seu lado ouvindo seus choros por causa da sua mãe que fode sua autoestima. Sabe que você andou fodendo a minha também? Você só é grata a Deus. Não desmereço o valor dele, seja lá o que ou quem for. Mas eu sou um ser independente e te apoiei. Eu sou um ser humano, cheio de vermes, podre, mas eu te ajudei quando você precisou de mim. Eu quase te amei, de verdade. Eu senti algo por você... você não me entende... você não vai procurar me entender... entender de verdade.

E olha que eu nem mergulhei a fundo de verdade, isso foi mais raso do que quando a chuva cai e molha a calçada ou piso do seu quintal da sua casa.

Eu tive sonhos terríveis. Eu tive sensações horríveis nos meus sonhos. Aqueles sonhos me fizeram me sentir cruel, suja... me fizeram sentir que, se há algo bom depois de tudo isso — a vida — e se há um castigo, eu mereço o castigo. Eu me culpei. Vi você tendo tanta convicção de que você iria para o lado bom... enquanto eu ficaria para trás, para o lado ruim. Eu também tive uma convicção — as vezes ainda tenho — de que eu merecia o lado ruim. Não importava o por quê, eu merecia — as vezes até exigia como uma forma de me penalizar, uma forma de descontar — eu me sentia criminosa e sentia que merecia um castigo.

Me desculpe, mas você teve sua parcela de culpa. Você praticamente fez parecer que merecia mesmo. Porém nunca dizia o porquê. Eu também não perguntava. Até hoje não sei se eu tinha mais medo da resposta ou da ausência dela. Você me viu definhando, chorando, pirando — ainda piro e adivinha só? — e não me disse nada confortante. E eu não me sentia confortada, já sentia tudo isso que estou te escrevendo e que você não está lendo ou entendendo de verdade, mas não tinha coragem de te deixar como você me deixava. Eu não tenho outras pessoas como você.

Você recentemente disse duas vezes que somos irmãs. Não enxerguei convicção na sua fala, mais parecia um ditado que você tentava repetir para si mesma para decorar. Talvez eu esteja errada e você hoje realmente me vê como irmã. Jamais saberei se você alguma vez sentiu algo a mais por mim como eu senti por você. Mesmo que você diga, eu vou duvidar, mentiu tantas vezes... brincou tantas vezes... e eu não sei se há como provar. Essa coisa de provar... não existe mesmo além de estar com quem realmente você sente algo.

Você pode até dizer que esteve comigo, quando mesmo? Quando eu surtei aquele dia porque você ficou zangada com a minha mãe porque ela tinha falado mau da sua outra amiga pelo celular com meus tios, — que por sinal, é a sua melhor amiga, a que realmente te conhece, como você mesma disse na minha cara — você ficou irritada com o que eles disseram, eu também, mas não porque eu a considero de mais, mas porque eu não gosto do modo como me tratam, como se tivessem que escolher as coisas por mim já que eu não sei escolher nada para eu mesma direito! Porque eles julgam e julgamentos são cruéis, me julgam o tempo todo, eu sei como é e sei o quão é duro, ruim e errado. Eu me zanguei por eles e por você. Você toma as dores de todos, menos de quem? Adivinha.

Você quer parecer madura mas a verdade é que você não sabe lidar com a verdade.

Se eu reclamo de qualquer coisa que aconteceu comigo, você prefere mostrar o quanto você sofreu pior em outra situação pior.

Gosta de parecer forte.

Mas eu não te vejo.

Eu não vejo mais você.

Você se tornou tão transparente e previsível.

Tudo o que eu vejo agora, eu não vejo, prevejo.

E acontece.

Eu teria sido melhor sem você.