Fechado Para Reforma!
34 Supresas.
Notas iniciais
CAPÍTULO 34: Inglaterra – Supresas.
Sexto dia– Parte 5.
Quando Atena abriu os olhos foi vagamente capaz de perceber que a luz que iluminava o quarto era muito fraca, então ela supôs que já estava escurecendo. A deusa sentiu a cabeça pesada, o corpo levemente dolorido e os olhos extremamente secos. Tudo isso, juntamente com o gosto de sal em sua boca, a fazia se lembrar dos litros de lágrimas que havia derramado algumas horas atrás, antes de adormecer.
Ela suspirou e se manteve deitada, com os olhos semicerrados. O estômago da deusa se contorcia de medo de encarar o guarda roupas e ver que os trajes dele haviam sumido. Quer dizer, já tinha se passado cerca de quatro horas desde que eles haviam brigado. Alguma hora os pertences dele desapareceriam. E mesmo tendo certeza do fato, Atena não conseguia suportar a ideia.
E isso era tremendamente estúpido. Porque ela não tinha esse direito de se sentir triste, desamparada e incompleta. Ela havia o dispensado. Ela havia imposto os limites. Ela tinha um juramento para manter. Ela sabia que aquela loucura não duraria para sempre, que eles não tinham a menor chance de dar certo. Que era errado.
E mesmo que houvesse uma mínima possibilidade de levarem aquilo à diante, não existia mais. Porque ela ordenara que ele partisse. Optara pelo certo.
Então porque, meus deuses, ela se sentia tão vazia?
Atena tentou ignorar os trezentos mil pensamentos que tinha por segundo. Não adiantava mais ficar se lamentando. Agora, a deusa só tinha um caminho para seguir. Sem voltas. Sem loucuras. Sem Poseidon.
Pensar no nome dele fez com que o coração da loira se comprimisse. Ela respirou fundo duas vezes, preparando-se mentalmente para levantar da cama e arrumar os próprios pertences, porque só tinha mais um dia em Londres antes de voltar para o Olimpo. E quanto antes ela voltasse para o Monte melhor. Lá ela teria trabalho e poderia se trancar na biblioteca, para manter a mente ocupada.
A deusa suspirou pela milésima vez e se levantou, calçando as pantufas que estavam na beirada da cama de casal. E então abriu os olhos, com muito medo de encontrar o guarda roupa vazio, ou algum bilhete rancoroso vindo dele...
Mas nada, nem em um milhão de anos, a prepararia para o que a deusa viu.
O que... O que era aquilo?
A loira piscou os olhos, esperando que tudo sumisse. Mas os buquês de flores brancas continuavam ali, espalhados por todo o quarto, em cima de cada móvel, preenchendo cada mínimo espaço visível. Um sorriso cauteloso e involuntário surgiu nos lábios de Atena quando ela aspirou o perfume que as flores emanavam. Era lindo.
E completamente surreal.
Flores?
O coração dela bateu mais acelerado que o normal e Atena se pegou imaginando o que estava acontecendo. A loira foi até um dos buquês e analisou brevemente uma das rosas. Sua mente apitava coisas desconexas e ela não sabia o que fazer.
A deusa andou até a porta sem fazer barulho e foi até o corredor, ainda hesitante. Se haviam flores, tudo indicava que ele tinha passado pela casa. E que, por algum motivo estranho, ele não estava assim tão bravo.
Ela não sabia se estava mais confusa ou espantada. Não sabia se era bom ou ruim. Mas sabia que não podia adiar seus sentimentos outra vez.
A casa estava com as luzes apagadas e Atena teve um mini ataque cardíaco ao ver que os degraus da escada estavam iluminados com velas perfumadas. Inúmeros pontinhos de luz, juntamente com mais flores fizeram com que ela parasse no topo da escada e observasse tudo deslumbrada. Aquilo, decididamente, queria dizer alguma coisa.
Ela mordeu o lábio inferior. Não dava pra enxergar nada no primeiro andar. E só tinha um modo de descobrir o que a esperava lá em baixo. A deusa desceu os primeiros degraus o mais rápido que pôde, e quando percebeu já estava quase correndo.
A luz se acendeu automaticamente quando ela chegou à sala. Mas não havia ninguém lá. Nada havia mudado além da decoração.
Ela engoliu em seco, sentindo algumas lágrimas inundarem seus olhos. Não podia se decepcionar novamente. A deusa baixou as orbes azuis para os próprios pés, quando percebeu que tinha algo no chão.
Atena franziu as sobrancelhas ao reconhecer pegadas de cachorro manchando todo seu chão impecavelmente branco com tinta azul. Ela ficou apenas encarando a trilha de patinhas que sujava a sala sem saber o que fazer. Toda aquela bagunça levava até a porta de entrada, onde as pegadas desapareciam.
A deusa respirou fundo.
E reuniu coragem pra abrir a porta que dava para o jardim.
–X-
Poseidon estava de costas, observando o jardim, com as mãos terrivelmente ocupadas, quando ouviu o barulho da maçaneta girar. Ele se virou, um sorriso maroto surgindo em seus lábios ao vê-la parada ali.
Atena não conseguiu se mexer, não conseguiu chorar, nem esboçar o mínimo traço de felicidade. Tudo o que ela conseguia era absorver cada mínimo movimento do deus, anotar mentalmente cada detalhe do que via.
A varanda estava toda iluminada com luzinhas piscantes e velas penduradas no teto, juntamente com alguns arranjos e buquês em formato de coração. Havia também alguns balões coloridos flutuando ao lado da fonte no gramado. Uma enorme faixa estava pendurada acima da cabeça do deus, com as palavras “I’m sorry” pintadas em uma caligrafia desleixada que obviamente era dele.
O sorriso de lado do deus fez com que Atena se arrepiasse. E ela também não conseguiu refrear um sorriso ao perceber que ele provavelmente tinha acabado de escrever o cartaz, porque respingos de tinta azul se espalhavam pelo cabelo e pela roupa do deus, o deixando ainda mais bonito.
A deusa olhou mais uma vez para a caligrafia torta do deus que enfeitava a faixa, para a mancha azul que ele tinha na bochecha, para as pegadas de tinta no chão e, enfim, para as mãos do deus.
—O... o quê...? – Foram as primeiras palavras da deusa ao perceber o bichinho que Poseidon segurava.
O filhote de labrador se contorceu freneticamente nas mãos dele ao ouvir a voz da deusa e latiu, parecendo feliz.
—Psiu. – Poseidon sussurrou para o cachorrinho que tinha as patinhas sujas de tinta azul. E ela não evitou sorrir ao compreender o motivo das pegadas. – Hey.
Um silêncio esmagador caiu sobre os dois e Poseidon passou a mão livre pelo cabelo, num gesto claro de nervosismo.
—Me desculpe por invadir sua casa.
—Você veio dizer adeus? – Ela perguntou, antes que tivesse a oportunidade de pensar nas palavras que dizia. Poseidon a fitou, internamente satisfeito por notar que ela se importava.
—Eu vim dizer um monte de coisas, Atena. Vim falar tudo o que eu não disse mais cedo, vim me explicar, vim te pedir desculpas por ter sido tão idiota e incompreensivo. Mas, definitivamente, eu não vim me despedir de você. Porque te deixar nunca foi uma opção. – A deusa abriu a boca para falar alguma coisa, mas ele sorriu e balançou levemente a cabeça. E foi a vez do deus pedir: – Não me interrompa. Eu preciso dizer tudo isso antes que minha cabeça exploda. Você mesma diz que eu não tenho amplitude emocional e que não sei lidar com as palavras e com tantos pensamentos. E é verdade. Eu não sei fazer um punhado de coisas, não sei ser sempre educado e inteligente, não sei o jeito mais certo de tratar uma pessoa tão especial como você, Atena. Não consigo ficar um dia sem brigar contigo, ou te irritar só pra te ver corada e gritando. Não sou o cara mais gentil, nem o mais perfeito pra você. Provavelmente sou o mais lerdo e mais egocêntrico. Por que quem, além de mim, leva três mil anos para perceber que gosta de uma pessoa? Depois de tantas brigas, implicâncias e de alguns beijos eu já deveria ter percebido que estava apaixonado por você. Eu deveria ter sido menos estúpido e arrogante. Eu deveria ter feito um punhado de coisas, falado toda a verdade, assumido para o mundo os meus sentimentos. Mas eu nunca fui conhecido por ser o cara que faz as coisas certas. E só quando eu fui embora me dei conta de que não posso te perder. E eu não me importo se parece errado, ou se as pessoas dizem que é errado, ou se seu juramento torna esse sentimento errado. Porque pra mim, parece completamente certo. E dessa vez, só pra variar, eu queria fazer as coisas direito. Queria te falar tudo o que sinto com todas as letras pra não restar nenhuma dúvida. Eu te amo, Atena. Me perdoa?
O coração da deusa parou por um momento.
Um breve momento de silêncio, no qual era possível ouvir um alfinete caindo no chão a dez mil quilômetros de distância. Um segundo, até que ela absorvesse aquelas palavras e seu significado.
“Eu te amo”
As palavras ecoavam na mente da deusa e a circulação sanguínea do cérebro dela parecia ter congelado.
“Eu te amo”
E uma lágrima solitária escorreu pela bochecha dela, fora de controle.
“Eu te amo”
E o coração dela voltou a bater.
Atena sentiu as pernas bambas como na primeira vez que se beijaram. Sentiu um milhão de borboletas no estômago e sentiu uma corrente elétrica perpassando seu corpo. E percebeu que era inútil negar todos aqueles sentimentos.
O deus andou calmamente até a deusa, se controlando para não agarrá-la de uma vez por todas. E lhe entregou o pequeno filhote de labrador. Atena arqueou uma sobrancelha e afagou o pelo do bichinho.
Até que notou algo preso na coleira.
Com os dedos tremendo ela tirou o pequeno bilhete e o desdobrou, tentando ignorar o fato de ter Poseidon tão por perto.
Atena estreitou os olhos para poder enxergar a minúscula caligrafia do deus e quase teve um colapso na hora em que leu apenas uma frase. “Quer namorar comigo?”. Poseidon esperou pacientemente até que a deusa colocasse o cachorrinho no chão e o fitasse com aquelas duas piscinas cristalinas que eram os olhos dela.
E então ela não se conteve mais.
A deusa jogou os braços desajeitadamente em volta do pescoço dele.
—Sim. – Ela respondeu. E o beijou. Talvez o melhor beijo dos dois até então. Talvez o mais sincero. Talvez o mais intenso. Mas era difícil comparar, já que tudo o que tinham parecia perfeito para os dois. – Eu te perdoo. Eu aceito namorar contigo. Porque você é perfeito pra mim, porque eu não conseguiria passar nem mais um dia longe de você, porque eu não me importo se é certo ou errado. Eu também te amo.
Poseidon sorriu. Tudo o que ele conseguiu foi sorrir extasiado diante da resposta dela.
E voltou a beijá-la.
O tempo parecia simplesmente não passar quando os dois estavam juntos, porque as sensações eram as melhores possíveis. Atena entrelaçou os dedos nos cabelos negros e sedosos de Poseidon enquanto ele afagava a cintura dela e a trazia mais pra perto. A deusa aproveitou para aprofundar o beijo também. Até que sentiu alguma coisa puxando e mordendo a barra de sua calça.
Eles se separaram rindo, ao ver o filhote destruindo toda a barra do jeans de Atena. Poseidon deu um beijo na testa de Atena e ela beijou-lhe a ponta do nariz antes de se abaixar e pegar o pequeno mordedor outra vez.
—É pra você. – Ele explicou, brincando com o cabelo dela. –Como um pedido de desculpas.
—É lindo! Poseidon, não precisava.
—Psiu. Não reclama.
Ela rolou os olhos.
—Como ele chama?
—Você que escolhe.
—Hmm... que tal Chopin. Ou Mozart?
Poseidon riu.
—Nada de Rex ou qualquer outro nome pra cachorro. É muito mainstream.
A deusa fez careta para ele só de provocação.
—Que tal Bear?
—Um cachorro chamado ‘Urso’, Atena? Pff. Voto em Zeus.
—Vou ignorar isso. – Ela deu de ombros e Poseidon mordeu o ombro dela pra mostrar que estava brincando. – Louie?
—É nome de gente, quando nós tivermos um filho vai se chamar Louie. Não o cachorro.
—Você implica com todos os nomes! – Ela reclamou, rindo. Um pouquinho assustada com essa ideia de “filhos”.
—Já sei. Vou te dar duas opções. Oreo ou Muffin.
—Por que eu não estou surpresa por ser nome de comida? Talvez devêssemos por Lasanha.
—Ele não tem cara de Lasanha!
—Eu desisto Poseidon!
Ela colocou o filhote no chão outra vez e cruzou os braços. Poseidon jogou a cabeça para trás e riu, a puxando pela cintura.
—Eu estava só te provocando, meu amor.
—Já sei! – Ela o abraçou enquanto depositava um selinho nos lábios dele. – Padfoot.
—Padfoot? De Harry Potter?
—Yeap. O Sirius era um cachorro então eu achei que seria legal, sem contar que você também gosta de Harry Potter e...
—Perfeito. – Ele a interrompeu com outro beijo. – eya Hey Hey, Padfoot. Pra dentro menino.
O cachorrinho se sentou sobre as patinhas traseiras e inclinou a cabeça, esperando que Poseidon brincasse com ele. O deus suspirou, com um sorrisinho de canto.
—Você quem vai ensinar essas coisas a ele.
—Se ele for teimoso que nem você, desisto em dois minutos. – Ela retrucou brincando.
—Eu não sou teimoso!
—Só é um caso perdido.
—Não sou não!
A deusa arqueou uma sobrancelha loira.
—Viu?
—Droga. – Ele resmungou.
Ela se abaixou e bateu palmas, fazendo com que Padfoot fosse correndo com suas perninhas pequeninas para seus braços. Atena se levantou sorridente, carregando o labrador como um bebê.
—Hey, Padfoot. Não ligue pra esse Cabeça de Atum Enlatado. Eu sou muito mais legal que ele. E vamos lá dentro arrumar...
Ela se virou para entrar de volta na casa, mas Poseidon gentilmente a puxou antes que a deusa pudesse dar um passo.
—Hey, aonde a senhorita pensa que vai? – Ele perguntou, afagando a cabeça do filhote.
—Providenciar um lugar pra ele dormir, oras.
—Nops. Infelizmente preparei um jantar que não pode ser adiado. Sabe, e é pra minha namorada.
Atena sorriu de orelha a orelha ao ouvir Poseidon dizendo aquilo, até que ele classicamente a tirou do chão e carregou a deusa e Padfoot para dentro de casa, como em todo filme clichê. Mas, afinal de contas, Atena não estava exatamente reclamando.
–X-
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