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37 ... acontece um imprevisto.
CAPÍTULO 37: Inglaterra – ... acontece um imprevisto.
Sétimo Dia– Parte 2.
Atena sorriu ao colocar a louça na pia, consciente de que Poseidon observava cada movimento dela. O deus se aproximou sorrateiramente e puxou uma mecha solta de cabelo, fazendo com que o coque dela se desfizesse em uma cascata dourada.
—Droga, Poseidon!
Ele sorriu e passou os braços ao redor dela enquanto Atena se debatia e tentava socá-lo.
—Você fica linda nervosa.
—Argh. Eu te odeio.
—Mentira. Eu sei que você me ama.
—Me solte, seu convencido estúpido e nojento.
—Sério, eu adoro quando você fica irritada.
—Eu já percebi. – Ela rolou os olhos, fazendo força para não se render ao abraço dele. – Faça algo útil e lave a louça.
—Por que eu? – O deus resmungou, soltando Atena de seu aperto pétreo enquanto ela abriu um sorriso inevitável.
—Porque você é meu novo escravo.
—Acho que a Deusa da Sabedoria deveria saber que a escravidão foi abolida há muitos anos.
—Não nessa casa, eu conservo antigas tradições.
—Que tipo de escravo eu sou? – O deus arqueou uma sobrancelha.
—Que tipo de pergunta é essa? – A loira retrucou, se apoiando no balcão branco e cruzando os braços.
Poseidon se virou para a pia e começou a ensaboar alguns pratos e xícaras, parecendo realmente concentrado no trabalho. Mas é claro que ele estava maliciando algo, não havia dúvidas. Não quando ele sorria daquela maneira malditamente sacana. Ela pegou um pano de prato e começou a secar a louça conforme ele enxaguava tudo.
—Sabe, eu não reclamaria da minha condição de subordinado se fosse algum tipo de escravo sexual...
—Poseidon! – Ela o repreendeu, rindo e colocando o último copo no armário– Deuses, eu ainda me surpreendo com a sua capacidade imaginativa para o que não presta.
Ele deu de ombros e abriu a porta da geladeira, examinando tudo o que tinha lá dentro. A deusa franziu as sobrancelhas e esperou que ele dissesse algo.
—O que você está procurando?
—Algo pra preparar o almoço.
—NEM OUSE! – A deusa disse, alarmada. – Você não vai encostar em mais nenhuma panela enquanto estivermos aqui, não quero minha cozinha destruída. Não depois do último almoço que você fez.
—Ah, qual é. Eu arrumei o jantar de ontem.
—Não é a mesma coisa. – Ela riu. – Eu estava te supervisionando.
—Então o que vamos almoçar?
—Acabamos de comer, Poseidon. E eu sempre posso contar com a Marie ou pedir comida chinesa. De qualquer modo tenho outros planos em mente.
—Ah, é? – O deus sorriu maliciosamente e a trouxe para mais perto, sussurrando de um modo que fez Atena se arrepiar. – E esses planos envolvem um banho relaxante com o cara mais gostoso do Olimpo?
Ela suspirou com um sorrisinho de canto.
—Di Imortalles! Até quando você vai maliciar tudo que eu falo?
—Por toda eternidade. Achei que isso estivesse bem claro, meu amor.
A deusa ficou perplexa por alguns segundos, refletindo sobre o que ele acabara de falar
“Por toda eternidade”. Deuses. Atena ainda não tinha pensado na amplitude da relação dos dois. Não havia sequer cogitado a possibilidade de se separar de Poseidon, obviamente, uma vez que eles estavam namorando. Mas também não imaginava como contariam para os outros deuses que estavam juntos, nem o que fariam quando saíssem de Londres.
E aquela frase de Poseidon, aquela simples frase, fez com que tudo isso passasse pela cabeça da deusa como um monte de informações desconexas. Será que ele estava insinuando... A deusa tentou afastar esses pensamentos. Ela abriu a boca para perguntar exatamente o que ele queria dizer, mas reconsiderou.
— Atena? Ainda está aí? – Ele acenou para a deusa, como se a puxasse novamente para a Terra.
—Hey. Me desculpe. Às vezes fico alguns segundos fora do ar.
—No que estava pensando?
—Nada importante.
O deus não insistiu. Ele sorriu ternamente e afagou a bochecha dela.
—O que vamos fazer agora?
Atena abriu um sorriso do tipo ‘tenho-trinta -e-dois-dentes’ e saltitou no próprio lugar, sem disfarçar a empolgação.
—Vem comigo.
–X-
—Eu pensei em passear com Padfoot no parque, mas aí não teria como levarmos isso. – A deusa disse, saindo do pequeno estúdio de música do primeiro andar com um violão nas mãos. – Então acho que podemos ficar no jardim mesmo.
—Sem problemas. – Ele sorriu, seguindo Atena e andando até a porta da frente. – O que você pretende tocar?
A deusa desceu a escadinha da varanda que levava ao enorme gramado e correu os olhos pela extensão verde, sem coragem para encarar Poseidon. Ela se manteve calada por mais algum tempo, até que decidiu se sentar a sombra de um carvalho que ficava relativamente longe dos portões da mansão e perto de algumas cadeiras de jardim. Poseidon se sentou ao lado dela, passando um braço sobre os ombros da deusa, e encostou-se na árvore.
—Eu ia pedir pra você tocar alguma música, mas você não é do tipo que faz serenata. – Ela baixou os olhos realmente envergonhada e deu de ombros.
— Hey! Não me subestime. Eu posso ser um romântico incurável! – Ele riu e beijou a mão dela, como um perfeito cavalheiro. – Viu?
—Aham. – A deusa gargalhou e se escorou na árvore, dedilhando o violão. Poseidon brincava com um dos cachos dela e a loira concordou em sarcasmo. – Isso realmente prova que você é um ser civilizado, Poseidon. E nem um pouquinho pervertido, safado e chantagista.
—São apenas minhas outras qualidades. – Ele retorquiu com falsa modéstia. – Mas estou falando sério, eu sou romântico e atencioso. É o mínimo que você merece.
A deusa sentiu o sangue subir para suas bochechas e podia se imaginar corando. Os olhos azuis e límpidos dela brilhavam. Era e sempre seria assim com Poseidon. O deus a encarou por alguns minutos, apenas apreciando o momento e a beijou, fazendo com que uma corrente elétrica passasse por ambos os corpos. Ele se separou, arfante, e perguntou:
—Se lembra de quando nós tocamos juntos no Acampamento Meio Sangue, antes virmos para sua casa?
—Aquele dia que você me espionou tocar piano, você quer dizer? Quando você simplesmente invadiu o estúdio da Casa Grande e minha privacidade e quase me fez morrer de vergonha? – Ela sorriu triunfante, com uma expressão de divertimento. – Sim, eu me lembro. Faz apenas três dias.
O deus bagunçou o cabelo dela apenas para irritá-la.
—Que estranho, parece que tem tanto tempo... E na verdade, eu não te espionei. A porta do estúdio estava aberta e eu só entrei por que ouvi a música do Coldplay saindo de lá e, coincidentemente, era você que tocava piano. Então, tecnicamente, eu só estava te observando.
—Sem que eu soubesse disso.
—Detalhes. – Ele deu de ombros. – Mas depois nós tocamos juntos. E eu fui romântico. Isso prova que eu posso ser inegavelmente encantador.
—Poseidon – Ela começou, rolando os olhos para não rir. – A música era romântica. E há três dias nós ainda éramos inimigos mortais.
—A música não foi por acaso. – O deus disse simplesmente, abrindo um sorriso fofo ao ver a reação de Atena.
—Como assim?
—Eu não ia mesmo desistir de nós. I won’t give up, on us.¹
Atena abriu um sorriso estonteante, mais feliz do que podia imaginar e atirou os braços em volta do pescoço de Poseidon, o sufocando em um abraço apertado. O deus retribuiu calorosamente e no segundo seguinte eles já estavam se beijando outra vez. Atena riu ao se separar e pegou o violão novamente.
—E então, vai tocar o quê?
—Uma adaptação de Mozart.
Ele a fitou, incrédulo. Atena piscou.
—Brincadeira.
—Depois eu que sou a criança da relação.
—Oh, isso é indiscutível. Hm... Na verdade, eu não escolhi nenhuma música. Então acho que você pode sugerir qualquer coisa legal.
—Okay. Eu começo a cantar e você me acompanha?
—Pode ser. – A deusa deu de ombros, se ajeitando melhor. Pelo que a loira sabia, Poseidon tinha praticamente o mesmo gosto musical que ela. Talvez ele escolhesse um rock alternativo, ou uma boa banda dos anos 80.
—I like big butts and I can not lie...
Atena piscou repetidamente, mal acreditando na música que ele cantava.
—Mas o quê...? Você está cantando ‘Baby got Back’?!
Poseidon começou a rir freneticamente enquanto Atena parecia ferver. As bochechas dela estavam mais vermelhas do que nunca, e ela não saberia dizer se era de vergonha ou frustração. Provavelmente as duas coisas. O deus levou alguns minutos para parar de rir e ficou ligeiramente assustado ao ver a expressão assassina da loira.
—Você é um completo imbecil.
—Eu já te disse que não precisa usar de psicologia reversa toda hora pra provar que me ama, Atena.
—Aham. Psicologia reversa. – Ela rolou os olhos pela quadrilhonésima vez. – Você é mesmo um ser desprezível.
Ele bufou, parecendo chateado por um segundo, mas já estava acostumado a ter o ego esmagado por Atena. E depois sorriu maroto.
—Sua reação foi impagável!
—Oh, Poseidon, isso me faz reconsiderar a sua proposta de namoro.
—Qual é! – O deus se aproximou dela, como um pedido mudo de desculpas. – Você sabe que não sobreviveria sem meu lindo ser.
—Eu não teria tanta certeza. – Ela deu de ombros com um sorrisinho desdenhoso.
Ele se aproximou dela e beijou-a antes que a deusa sequer pensasse em protestar. A loira tentou não corresponder, mas era simplesmente impossível quando se tratava de Poseidon.
—Você não pode me beijar sempre que me irritar, isso não vai fazer com que eu te perdoe todas às vezes.
—Eu posso fazer outras coisas bem melhores também...
—Imbecil! – Ela riu.
—E gostoso
—E humilde. – A deusa completou.
—E absurdamente sexy.
—Oh, por favor, fique quieto!
Poseidon não desobedeceu daquela vez, e a deusa sorriu satisfeita. Ele era mesmo um chantagista barato e aproveitador. Um chantagista barato aproveitador realmente convincente, ela completou em pensamento.
Atena começou a tocar, as notas e acordes fluindo naturalmente. Em geral, era Poseidon quem ficava com o violão, mas daquela vez ela realmente queria cantar uma música que expressasse todos os seus sentimentos. Uma música que realmente fizesse sentido para os dois, uma música como aquela que eles haviam cantado juntos...
As primeiras palavras vieram fáceis, e a deusa cantou-as com perfeição. Poseidon a observava, encantado. Não havia como negar, ela era perfeita. Perfeita em todos os aspectos. Perfeita para ele.
A deusa continuou cantando baixinho, os dedos percorrendo habilmente as cordas do violão, até que finalmente olhou para o deus. Ela sorriu quando ele a enlaçou pela cintura e continuou tocando, até que chegou o refrão. Atena observou aqueles incríveis olhos verdes que mais pareciam duas esmeraldas, e cantou, dizendo tudo que estava sentindo para ele:
—Do you remember we were sitting there by the water, you put your arm around me for the first time...– A deusa sorriu ao perceber que todas as palavras se encaixavam perfeitamente na situação deles. – You made a rebel of a careless man careful daughter. You are the best thing that’s ever been mine.²
–X-
—Atena!
A deusa riu enquanto corria pelo gramado com Poseidon em seus calcanhares. Ele estava a menos de dois metros dela, mas a deusa não desistiria tão fácil assim. Ela desviou de uma das roseiras e continuou seu percurso. O deus estava se aproximando rapidamente.
Poseidon passou a mão pelo cabelo, fazendo com que ficasse ainda mais despenteado, enquanto perseguia Atena. Oh, não, ela não fugiria mais uma vez. Ele sorriu triunfante ao enlaçá-la pela cintura e erguer a deusa.
—Aaaaaaaaah. NÃAAAO! – A loira protestou, em meio às risadas, enquanto ele a girava no ar. – Me ponha no chão!
—Não! Esse é o preço que você paga por ser tão insolente com um dos Três Grandes!
—Eu não fui insolente!
—É claro que foi! – O deus afirmou, a colocando de pé sobre os próprios tênis, ainda abraçado a cintura dela. Ele a fitou com uma expressão divertida e ligeiramente safada. – Como ousa dizer que Apolo é mais bonito que eu?
—Eu não disse isso! Foram os mortais que o elegeram o deus mais bonito. – A loira disse, inocentemente. – Eu só concordei!
Poseidon estreitou os olhos como se estivesse muito furioso, mas ele mal continha a vontade de rir.
—Oh, você não deveria ter feito isso! Não mesmo.
—E por que não? – Ela provocou.
—Porque agora eu vou te provar que está errada.
O deus dos mares a pegou outra vez e deitou Atena no gramado, espalhando beijinhos por toda a pele exposta da deusa. Ela riu quando Poseidon beijou a ponta de seu nariz antes deles rolarem na grama por alguns segundos.
Atena se separou de Poseidon por um momento, enquanto eles se recompunham.
O deus ainda estava com o cabelo todo desajeitado e ela podia jurar que as próprias bochechas estavam ruborizadas. Ela se sentou e o deus fez a mesma coisa, ambos sorrindo feito duas crianças que tinham acabado de ganhar um dia grátis na Disney.
—Você é muito, muito, muito ruim na corrida.
—Eu te peguei, então nem vem com essa de ‘muito ruim na corrida’. Admita logo que eu sou o melhor deus em TODOS os quesitos.
—Vai sonhando. – A deusa brincou, o puxando para um beijo de verdade.
Poseidon se separou dela alguns segundos antes do previsto e a loira ficou realmente surpresa com isso, até entender que ele estava pegando o pager no bolso da calça jeans. A tela do aparelho piscava freneticamente e Atena esperou que Poseidon dissesse alguma coisa, mas tudo que ele fez após ler a mensagem foi encarar o vazio, como se algo muito ruim tivesse acontecido.
A loira se aproximou ainda mais dele, buscando alguma explicação. Seria a terceira guerra mundial? Cronos havia voltado? Algum deus estava em apuros? Pela expressão de Poseidon, ela não saberia dizer.
—Hey, o que foi? – Ela perguntou.
Poseidon ainda estava atônito, encarando o vazio, quando Atena tirou o pequeno aparelho eletrônico das mãos dele. O deus respirou fundo duas vezes e disse, ao mesmo tempo em que Atena lia a pequena mensagem que estava na tela do pager:
—Anfitrite.
–X-
¹ Música que Atena e Poseidon cantam juntos no capítulo 19.
² Música Mine da Taylor Swift, do álbum Speak Now.
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