Fear

2 Destinos entrelaçados


Notas iniciais
Espero que gostem!!!

“I'm on the highway to hell
On the highway to hell
Highway to hell
I'm on the Highway to hell”

–Já acordei desgraça... — E joguei meu celular para longe.

Senti Lúcifer, meu gato preto, pular em cima de mim e me encarar com seus olhos amarelos e felinos. Resmunguei lutando contra o sono:

–Já vou, Lúcifer... — Cobri-me de novo com o cobertor quando Lúcifer começou a me arranhar. Não pense que ele queria que eu acordasse para trabalhar... Ele só queria que eu o alimentasse mesmo. Tirei o felino de cima de mim e me espreguicei vagarosamente. Lavei o rosto, fui até o pequeno cômodo o qual transformara em closet e escolhi a roupa do dia: Jeans, camiseta preta, uma camisa xadrez rosa envelhecido como jaqueta e botas. Chequei meu cabelo no espelho rapidamente; ondulado, azul pastel com pontas em lilás e o joguei para o lado. Corri para a cozinha, passando pelo corredor de ontem, coloquei a comida para Lúcifer e saí para a garagem com uma maçã na boca.

– Divirta-se seu demoninho!- Gritei para Lúcifer ao sair. Ele miou em resposta.

Ao chegar na “garagem”, que na verdade era o antigo estábulo, subi em minha Harley Davidson, coloquei o capacete e sai em disparada para meu trabalho. O pequeno “castelo” em que me mudara, ficava a meia hora do meu trabalho. Apesar de toda a ostentação de ser um “castelo” do século XIX, comprei-o por um preço absurdamente barato, pois segundo a corretora; “não era do gosto dos ricassos”, mas na verdade sabia que era porque ninguém conseguia ficar ali e ontem descobri o porquê...

Mudei-me definitivamente para Stirling antes de ontem devido ao meu trabalho: sou arqueóloga, formada em Oxford, pós graduada, mestrada e atualmente terminando meu doutorado em história medieval; porém minha verdadeira especialidade era de encontrar tumbas, restos mortais, pertences... Tudo relacionado aos mortos. Meus “palpites de sorte” são relativamente famosos, mas admito que não seja exatamente sorte...

–Acho que é aqui... — Disse avistando um enorme campo verde e logo em seguida, uma impressionante ruína medieval. Parei a moto por um instante: A ruína era da baixa idade média... Século XIII para ser exata. A vegetação já tomava conta das colunas de pedra, dando ao campo um ar bucólico. Mesmo ao sentir a tão comum brisa gélida da Escócia, fechei os olhos deixando aquela aura me dominar por um momento. Quando voltei a abri-los , percebi que realmente estava no lugar certo: estandartes coloridas estavam erguidas, homens lutavam entre si em busca de liberdade... De si mesmos... Ou quem sabe da vida em si... Descobriram mais um campo de batalha da Independência da Escócia...Mais um para o mito de William Wallace. Agora entendi porque me chamaram aqui.

Desci com a moto mais um pouco até achar onde estacionaram os carros. Tirei o capacete, peguei minha identificação já me dirigindo a entrada. Ao chegar lá, notei que havia uma mulher já com seus 56 anos que me olhava como se eu fosse o fantasma de Michael Jackson em um monociclo.

–Desculpe-me mocinha...- Ela me dirigiu a palavra. –Aqui não é lugar para você e...

Mostrei minha identificação fazendo-a arregalar os olhos incrédulos:

–Dra. Lys Mclaine. Creio que fui solicitada...

–Dra Lysanor!!- Ela exclamou envergonhada. Detesto esse nome... — Mil perdões... Mas não imaginei que fosse tão...

A palavra pela qual ela procurava era irreverente. Aparentemente, cabelo azul, vinte e sete anos e um quase doutorado não combinavam em nada.

–Jovem. — Ela concluiu.

– Me chame só de Lys... –Pelo amor de Deus.- E a senhora é...

– Dra. Cordelia Wall. –Ela estendeu a mão ainda envergonhada; mas sentia que estava confusa.

A Dra. Codelia me guiou até onde estavam os outros da equipe. Todos maiores de 52 anos. Ótimo. Os arqueólogos olhavam para mim da mesma forma que a Dra. Cordélia me olhou. Sinceramente, não estava me importando com isso já que era meio difícil, pois dois guerreiros lutavam ferozmente em meio ao grupo de arqueólogos. Era fascinante como o passado e o presente eram tão distantemente interligados... Tão fascinante que chegava a ser bizarro.

–Dra. Lysandor?- Voltei à realidade.

–Dra. Lys, por favor... – Corrigi. Porque insistir no meu nome?!

Então apertei a mão de mais umas vinte pessoas, ainda distraída.

–Finalmente nos conhecemos!- Exclamou um senhor já nos seus 70.

–O senhor seria...

–Dr. Arthur MacGregor. –Ele disse sorrindo.

Agora sim voltei à realidade: Dr.Arthur MacGregor trava-se do maior arqueólogo, especializado em historia medieval, que já existiu ou existirá. Só para ter ideia do tamanho da capacidade dele; nem Oxford conseguiria pagá-lo como professor. Acima dele; só Holland Carter.

–O prazer é todo meu senhor... –Disse boquiaberta como se Jesus Cristo estivesse na minha frente. Bem... É mais ou menos isso mesmo. — É uma honra trabalhar com o senhor e...

–A honra é toda minha senhorita. –Ele se assegurou. Meu Deus... Acho que estou no céu. – Afinal não é todo dia que se conhece uma das mais jovens doutoradas em historia medieval...

–Faltam seis meses ainda... –Balbuciei.

–Mesmo assim... A honra é toda minha Dra. Lys.

Melhor arqueólogo vivo, me chamou de Lys, se sentiu honrado por trabalhar comigo... Aonde assino para me casar com esse cara?!

Quando todos os apertos de mãos cessaram, ele me conduziu pelo campo, como um cavalheiro a moda antiga. Atualizou-me de todos os progressos e das descobertas: as ruínas foram descobertas por um casal de turistas que se perderam na estrada, há mais de um ano e meio. De início, imaginou-se que era mais uma ruína sem grande importância; mas depois de relerem alguns registros, perceberam que poderia ser bem mais do que simples campo... Aquelas ruínas poderia ser o lugar em que as ossadas do próprio William Wallace estão sepultadas. Discordei:

–Impossível. William Wallace foi julgado na Inglaterra e foi sentenciado a ser enforcado até ficar inconsciente, foi amarrado a uma mesa, estripado e teve suas entranhas queimadas ainda presas a ele. Então foi esquartejado e teve partes de seu corpo espalhadas em Newcastle, Berwick, Perth e aqui mesmo em Stirling... E ainda teve sua cabeça colocada em um pique na ponte de Londres para servir como exemplo a traidores...

–Está certa em absolutamente tudo Dra Lys, porém há um pequeno detalhe...

– E qual seria?

–A cabeça de William Wallace sumiu depois de três dias... Assim como as outras partes do corpo...

–Está querendo me dizer que sepultaram as partes do herói escocês em um campo de batalha?!

–Eu nunca mencionei que aqui foi um campo de batalha... — Ele disse sorrindo.

Ah merda...

–Mas afinal, porque me chamaram?- Tentei desviar do assunto.

–Chamamos você aqui... Para que nos ajude a encontrar a ossada de William Wallce, Dra Lys.

Ele iria dizer mais alguma coisa quando outro arqueólogo o chamou por uns instantes, me deixando sozinha. Aproveitei o momento para perambular pelo sitio arqueológico. O vento bagunçava meus cabelos enquanto andava sem rumo, perdida entre passado e presente. Devia todo meu sucesso a esse dom: ver os vivos e os mortos. Enquanto a maioria dos arqueólogos passavam dias em busca de um pedaço de vaso quebrado; para mim era só perguntar a qualquer morto zanzando por ai e em cinco minutos achava uma dezena de vasos inteiros e intactos. Foi assim que consegui minha pós graduação e mestrado tão rápido.

– Me ajude... — Sibilou uma voz ao meu lado.

Havia diferentes tipos fantasmas. Eu particularmente conhecia dois: a impressão; que é o que estava vendo naquele sítio arqueológico, mortos que não interagem, são alheios ao mundo em sua volta e condenados a repetirem a mesma cena pela eternidade; e a entidade. Esse sim enche o saco, é basicamente um ser humano só que sem o corpo físico. Eles tem consciência do mundo ao redor, de que ninguém pode vê-los... E o pior é que eles interagem.

– Vai cantar em outro terreiro. –E o ignorei.

– Você não pode me ignorar...

– Sabe onde está a ossada de William Wallace?

–William Wallace... Nosso salvador...- E então começou a cantar uma antiga balada medieval sobre seus feitos. Esse era o problema do limbo: quando se é um morto no mundo dos vivos, sua sanidade é a primeira a desaparecer.

–Vejo que já conheceu nosso amigo...

Era a voz do Dr. Arthur. Encarei-o perplexa demais para dizer alguma coisa: eu sempre fui a única que conseguia vê-los. Nunca conheci ninguém que...

–O senhor...- Balbuciei.- O senhor também consegue ver?!

Ele sorriu afirmativamente.

Notas finais
Enfim... Se gostaram, adoram, odiaram... Ou qualquer outra coisa; deixem seus comentarios!!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.