Fear
1 My Fears
Notas iniciais
-Damon POV-
O pior e o melhor sentimento de todos. Você pode pensar que é o amor, a felicidade, o prazer...Mas na verdade é o medo.
Você pode estar se perguntando: "Por que o melhor?". Bom, essa pode ser uma opinião só minha, mas o medo é um dos vários sentimentos que me faz sentir vivo, juntamente com a tristeza, o ódio...Os sentimentos felizes não me fazem sentir vivo, pois são passageiros e superficiais. Se algo te deixa feliz, a vida rapidamente se encarrega de acabar com essa sensação. E lá está você, com sentimentos ruins a sua volta, ou talvez com uma sensação horrivelmente neutra em mente. Você pode não entender o que estou dizendo, mas o medo está presente na minha vida, como parte da minha rotina.
Meus pensamentos foram rapidamente esquecidos assim que senti a dor aguda em baixo do meu olho. Pressionei o cubo de gelo envolto por uma toalha mais uma vez no ferimento, já estava quase acostumado com aquela dor.
Ouvi sons de coisas se quebrando no andar de baixo, esses sons que já me eram familiares. O barulho parou, sendo substituído por ruídos nas escadas, e logo depois por leves batidas na minha porta.
— Filho abra a porta. — Ouvi a voz chorosa da minha mãe.
— Você sabe que eu não vou abrir. — Ela não se misturava nas minhas brigas com o meu pai, simplesmente tentava ser neutra, o que era frustrante.
Ouvi ela descer as escadas, aquilo era quase uma rotina, uma rotina que me deixava cansado.
Andei calmamente até o banheiro e peguei a lâmina brilhante de cima da pia, minha pequena ajudante. Fiz quatro cortes no antebraço direito e observei o sangue sair. Mais uma forma de me sentir vivo.
Pressionei a toalha delicadamente sobre o ferimento, vendo-a tomar uma tonalidade vermelha. Quando estanquei o sangue olhei os vários outros cortes em meus dois braços. Aquilo era doentio, mas era a forma que eu sabia de acabar com a dor. Parece besteira, mas a dor do coração é facilmente substituída pela dor física.
Me deitei na cama e pensei, eu nunca teria uma vida normal, nem se quisesse, nem se me esforçasse. Minha vida seria pra sempre esse pesadelo, e não tinha nada que eu pudesse fazer.
XxX
Acordei com o som irritante do despertador, minha cabeça doía, assim como meus cortes e meu olho machucado. Olhei em volta, o sol mal tinha nascido, mas eu preferia sair de casa bem cedo e voltar o mais tarde possível.
Me levantei e segui até o meu armário. Coloquei uma calça jeans escura, uma blusa azul escuro com capuz, já que precisava esconder todas aquelas cicatrizes, e coturno. Peguei minha mochila e saí de casa sem me preocupar em tomar café da manhã.
A escola ficava perto de casa, por isso sempre ia andando, o tempo estava frio e úmido, uma fina névoa cobria o ambiente.
Pelo caminho observei um casal que andava de mãos dadas. Como podiam estar tão felizes? Era óbvio que não iriam passar a vida toda juntos, e mesmo assim estavam lá, alegres e sorridentes.
Depois de andar por mais alguns minutos entrei pelo portão da escola, e segui para a minha sala, tentei não encarar as pessoas, a maioria me ignorava ou me tratava mal, eu nunca ligava.
Me sentei na última carteira ao lado da janela e vi alguns alunos deixando o material na sala pra ficar no pátio. Ainda estava bem cedo, então peguei meu caderno e comecei a desenhar em uma das últimas folhas.
Fiz uma flor entrelaçada a um punhal ensanguentado. Eu geralmente só entendia o significado dos meus desenhos alguns dias depois de fazê-los. Observei o desenho por um tempo até me assustar com uma voz vindo em minha direção.
— Nossa, você desenha muito bem. — Olhei para o garoto sentado na minha frente. Ele tinha cabelos curtos e um pouco arrepiados, de uma tonalidade castanho escura. Eu não sabia definir a cor de seus olhos, eles eram amendoados, mas a luz que vinha da janela os faziam ficar verdes.
— Obrigado. — Respondi baixo.
— Bom...meu nome é Zackary, mas você pode me chamar de Zack. E o seu? — Ele disse estendendo a mão.
— Damon. — Respondi apertando delicadamente a sua mão.
— Eu acabei de ser transferido pra cá, então não tenho nenhum amigo ainda...será que nós poderíamos passar o intervalo juntos? — Zack disse meio envergonhado.
— Bom...tudo bem, eu acho. Mas talvez você não queira ficar comigo...é só que...eu não sou popular nem nada...eu nunca tive nenhum amigo aqui. — Corei ao ver que ele sorria.
— Eu não me importo com isso, os garotos populares são na maioria das vezes burros e metidos...mas você parece ser completamente o oposto. — Ele parou pra pensar por uns cinco segundos. — Enfim, você parece ser muito legal, e eu adoraria ser seu amigo...se você não se importar.
Ele era a primeira pessoa que se interessou em mim daquele jeito, Zack também não parecia querer se aproveitar de mim. Eu estava grato por ele me oferecer sua companhia.
— Eu não me importo...ninguém nunca foi gentil assim comigo, eu ficaria feliz de ser seu amigo. — Respondi forçando um sorriso.
Não é que eu não estivesse me sentindo bem com ele, é que depois de tantos anos sentindo medo, todos os meus sorrisos eram forçados. Eu não me lembro da última vez que sorri com sinceridade.
Zackary sorriu e agradeceu por eu te-lo deixado ficar comigo durante o intervalo. Depois disso ouvi o sinal batendo, e os outros alunos voltaram correndo pra sala. Quando o professor de filosofia, Jack, chegou na sala, todos os alunos ficaram em silêncio. Não por medo, mas todos adoravam ele, então Jack era muito respeitado.
— Olá, então parece que vocês tem um novo colega. — Jack disse apontando para o Zack. — Venha até aqui e se apresente.
Zack se levantou e andou até a frente da sala.
— Diga a todos o seu nome. — O professor disse.
— Meu nome é Zackary Saunders. — Ele disse sorrindo de lado.
O professor perguntou mais coisas como, de qual escola ele veio, se estava gostando da escola. Enquanto Zack respondia eu percebi que um grupo de garotas não parava de olhar pra ele. Elas davam risadinhas patéticas a cada palavra que era dita por ele.
Antes que você me pergunte eu gosto de garotos sim. Não estou dizendo que estou apaixonado pelo Zack...é só que ele é bom de mais pra elas. Aliás qualquer um era bom de mais para aquelas vadias.
Zack acabou de se apresentar e voltou até a sua carteira, me direcionando um sorrisinho antes de se sentar. Eu estava corado de novo, deveria estar desacostumado a interagir com as outras pessoas.
As outras aulas passaram rapidamente, e logo o sinal do intervalo bateu. Eu saí da sala com Zack sempre me seguindo alegremente, nós descemos as escadas e andamos até o gramado atrás do estacionamento. Ninguém nunca ia lá, então eu sempre passava os intervalos sentado à sombra de uma árvore.
Nos sentamos em baixo de uma grande árvore no centro gramado. Era ótimo estar em um lugar calmo como aquele.
— Então...o que você gosta de fazer no tempo livre? — Zack me perguntou.
— Eu passo a maior parte do dia no parque. Fico desenhando ou ouvindo música. Só volto pra casa quando já está escurecendo. — Eu não deveria contar da minha vida assim, mas ele parecia ser confiável.
— Legal, eu também gosto de música, eu e mais três amigos vamos formar uma banda, mas ainda falta um vocalista.
— O que você toca na banda? — Perguntei curioso.
— Eu e Danny tocamos guitarra, Matt toca baixo, e Jeff toca bateria. Eu faço vocal de apoio, mas não sou bom o bastante pra ser vocalista. — Ele respondeu rindo um pouco.
Conversamos mais um pouco até o sinal tocar, na verdade eu só comentava algumas coisas que Zack contava, ele gostava bastante de falar, o que era muito fofo.
Voltamos pra sala e assistimos as duas últimas aulas. Depois que o último sinal bateu eu comecei a arrumar minhas coisas calmamente, não gostava de sair da sala logo que o sinal tocava. Coloquei minha mochila sobre o ombro e dei alguns passos até sentir uma mão tocando a minha.
— Hey... — Zack soltou minha mão, um pouco corado. — Você disse que só volta pra casa tarde, então eu estava pensando...por que nós não vamos tomar um café? Mas só se não for incomodo pra você...
— Incomodo nenhum, eu adoraria ir. — Respondi olhando em seus olhos. Era difícil sorrir, então tentei pelo menos mostrar um olhar agradecido.
Saímos da escola e andamos alguns minutos até chegar a uma Starbucks. Escolhemos uma mesa mais afastada e nos sentamos.
— Então... — Ele começou, tentando puxar assunto. — Me fale um pouco sobre a sua vida.
— Ah nem sei por onde começar, digamos que eu não tenho uma vida maravilhosa. — Respondi cabisbaixo.
— Vamos você pode me contar. — Zack me encorajou a falar.
— Meu relacionamento com meus pais não é muito bom...
— Por que? Eles são rígidos? Trabalham de mais? — Ele perguntou com um olhar curioso.
— Essa é uma história tão longa...faz alguns anos que isso vem acontecendo, mas eu me lembro desse dia como se fosse ontem.
(Continua)
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