Faísca
3 Persistência
Notas iniciais
Juro que não estou disposta a dar mais nenhum passo, além de serem pesados e cansativos, são ocos e desagradáveis, mas eu não vejo outra escolha á não ser continuar minha caminhada matinal até encontrar algo útil para se fazer até chegar em casa. Creio que as celebrações desse ano sejam fantásticas, eu não sou muito festiva mas conto uma coisa á vocês: Eu nunca vi uma celebração do Distrito, aliás nunca saí de minha província, as pessoas dizem ser tão lindas. É que todo ano, em cada província é escolhida uma pessoa para viajar com tudo pago para o Distrito, para festejar o aniversário da cidade. Isso ocorre anualmente mas sempre são escolhidas pessoas egoístas, elas viajam pra lá e não voltam pra contar história, decidem ser ricos e snoobs da alta sociedade, é o que eu acho pois até hoje não conheço nenhuma pessoa de Luxúria que tenha voltado, ou até ido.
– Posso te ajudar? — Era Jack, o filho mais novo dos Clarkson que estava atrás de mim com seu cão vira-lata cinzento. Jack é um garoto magricela, de cabelos castanho-claro e olhos azulados, eu o conheço desde os tempos do jardim de infância, nossos pais eram grandes amigos, mas depois da morte dos dois, nossas mães não se falam como antigamente, Os Clarkson chegaram em Luxúria cinco anos atrás, depois da guerra ter acabado.
Algo mais sobre o Clarckson: Pode se ver claramente que ele tem uma queda por mim, ele vive tentando ser gentil como se isso fizesse eu gostar mais dele, mas na verdade eu não dou a mínima pra ele, e pra terminar ele ainda tem como hobbie encher meu saco.
– Não Jack, obrigado, eu sei fazer isso muito bem. — Expliquei.
– Mas... — Ele insistia que eu o deixasse fazer.
– Si a soertuào¹ — Exclamei.
– Bieluarto, bieluarto² — Ele disse, enfim saindo.
Eu continuava voltando para casa, o caminho é longo, cheio de pessoas esquisitas, minha mãe diz que eu ainda vou me perder nesse meio de gente. Ao chegar em casa, vi meu irmão Peter sentado no chão brincando com ratos minúsculos, Peter tinha apenas dois anos e tinha cabelos castanhos e olhos azuis como os de mamãe, ele era um pouco desengonçado ao falar, minha mãe estava preparando o almoço, e para a minha surpresa Jack estava ao lado dela com um enorme peru morto para preparar, olhei com um ar de indignação para ele e depois me voltei á minha mãe.
– Aqui está a água — Falei.
– Obrigada, querida. Porque não vai ver como sua avó está? — Minha mãe era como uma camponesa, ela usava um vestido azul borrado e com bordas brancas, seu cabelo loiro estava preso de um lado, seus olhos azuis refletiam a face de uma mulher sofrida, sua pele era branca como se ela fosse albina e ela levava um paninho no ombro para limpar o rosto. Muitas vezes eu acho que não pareço muito com minha mãe, ela mesma me diz que eu pareço mais com meu pai, talvez seja mesmo isso.
– Auau! — Peter me olhava e apontava para o cão cinzento de Jack, o cachorro fungava um pouco o menino e lambia o rosto do menino.
Então eu fui ao pequeno quarto onde minha avó estava deitada, os quartos aqui na nossa casinha são muito pequenos, eu entrei silenciosamente e minha avó virou o rosto enrugado lentamente para mim, ela me olhou de baixo à cima como se estivesse tentando me reconhecer, seus cabelos brancos estavam presos em um coque apertado, seu corpo era coberto por uma coberta branca e ao lado da cama havia uma lamparina apagada e enferrujada...
– Vovó, a senhora... — Eu comecei a perguntar.
– Sim, eu estou — Ela me interrompeu, respondendo antes mesmo de eu perguntar.
– Vó, realmente, o que está acontecendo? — Eu perguntei à ela, eu gostaria de saber realmente o que estava acontecendo, porque nós sempre estivemos vivendo desse jeito, qual o motivo de tanta coisa escondida e de tanta guerra pelo poder.
– Minha querida, são tempos difíceis de se prever, nem eu mesma saberia que chegaríamos á esse ponto, mas você já é grande o suficiente...Está na hora de saber a verdade!
* Como a guerra estava por toda parte, as pessoas não sabiam como diferenciar os aliados dos inimigos, então elas começaram a usar uma língua própria para se comunicar com os outros sem que os inimigos entendam e pra saber a verdadeira identidade dos outros que lutavam, essa língua foi nomeada MURTESTALIVEOS ou como já quer dizer: "A língua morta".
¹* É sério!
²* Certo, certo.
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