Faça o que eu mando

5 Revolução barulhenta


Notas iniciais
Terceiro ato - Cena III Personagens: O policial. O investigador. A testemunha. O repórter. A senhorita. Lara.

Mais uma vez na sala de depoimento, com foco na televisão.

REPÓRTER – Até agora não há provas sobre o ataque silencioso do ônibus 67. Precisamos de ajuda da população. Se vocês testemunharam qualquer ataque nesse ônibus, se viram qualquer sinal de perigo, venham até a delegacia. Não há notícias de vítimas fatais, mas o incidente de hoje iniciou um movimento na internet chamado “Revolução Barulhenta” em resposta ao crime. Muitos anônimos estão prestando apoio à Olívia Brandão e ao cobrador Antônio Silva, e o movimento “Revolução Barulhenta” está alcançando patamares históricos neste país...

O policial abaixa o volume da televisão.

POLICIAL – Isso já está virando uma palhaçada.

INVESTIGADOR – O cobrador já está aí esperando há duas horas e ainda não existiam testemunhas. Agora brotaram testemunhas de todos os lugares.

POLICIAL – Acabei de receber um homem aqui que disse que estava no ônibus na hora do ataque silencioso. Esse homem não foi capaz de dizer nem quem era o cobrador ou a cor do ônibus.

INVESTIGADOR – Sem falar nas pessoas que chegaram aí só para tirar uma selfie com a Olívia.

POLICIAL – Falar nisso... Cadê essa menina? Agora até eu quero falar com ela.

INVESTIGADOR – Conversando com a doutora ainda. Parece que estão fazendo as unhas, porque já estão a horas contando a mesma história.

POLICIAL – Acabaram de chegar vinte testemunhas, são trinta e sete com as que estão aguardando aí fora. Até agora ninguém deu um depoimento que me ajudou. Já temos cinco retratos falados totalmente diferentes! É um circo completo.

O investigador revira os olhos.

INVESTIGADOR – E pensar que eu pensei que eu ia para casa mais cedo hoje.

O policial sai da sala e chama alguém para entrar. Entra um senhor de meia idade.

POLICIAL – Boa noite. Como o senhor pode me ajudar?

TESTEMUNHA – Eu estava dentro do ônibus hoje de manhã.

POLICIAL – E foi refém também.

TESTEMUNHA – Na verdade não.

O policial começa a perder a paciência.

POLICIAL – Então porque o senhor veio até aqui? Para dizer que não viu nada?

TESTEMUNHA – Não. Na verdade eu vim para dizer que eu não acredito nessa história de assalto silencioso.

Ao ouvir isso, o investigador entra na conversa, interessado.

INVESTIGADOR – Finalmente alguém que concorda conosco! Prossiga...

TESTEMUNHA – Bem... É que... Por mais que um ataque seja silencioso, dá para sentir a atmosfera de medo no ar. Dá para notar o medo no rosto das pessoas. Eu estava naquele ônibus e, acredite em mim, ninguém estava tão desesperado para sair correndo.

POLICIAL – Então o que o senhor sugere que aconteceu?

TESTEMUNHA – Eu acredito que essa menina e esse cobrador estão juntos nisso aí. Pode até ser que ela tenha seduzido ele... Mas é só suposição.

O investigador coloca a imagem de cinco senhores com vários uniformes diferentes em cima da mesa, em frente da testemunha.

INVESTIGADOR – Qual desses é o cobrador do ônibus 67?

POLICIAL – Por favor, não arrisque. Se não esteve lá, melhor sair pela porta da frente.

A testemunha olha para todos e aponta para uma foto com certeza.

TESTEMUNHA – É esse aqui. Não posso ajudar em mais nada, mas espero que meu depoimento sirva para alguma coisa.

POLICIAL – Obrigado por ajudar.

O investigador e o policial se entreolham e se admiram com a perspicácia do senhor. Sai o senhor e entra uma mulher de vinte e poucos anos com o cabelo azul.

POLICIAL – Boa noite. Como a senhorita pode me ajudar?

SENHORITA – Eu estou aqui para ajudar não só ao senhor, mas a toda sociedade.

O policial fica pasmo, sem entender nada. A senhorita coloca o celular em cima da mesa e fica em pé em cima da cadeira. Clica no play e começa a gritar.

SENHORITA – Essa é a revolução barulhenta! Libertem Olívia ou vocês nunca mais dormirão!

O investigador revira os olhos e resmunga. Pega o celular e desliga. O policial a leva para fora e pede para que outros policiais a prendam por desacato, em seguida volta à sala de depoimentos.

POLICIAL – Eu não sou pago para aguentar isso.

INVESTIGADOR – Vamos terminar logo com isso.

O policial chama então uma mulher, senhora Lara Santos, que está segurando uma bolsa.

POLICIAL — Boa noite. Como a senhora pode me ajudar?

Lara começa a chorar desesperadamente. O investigador se dirige ao policial.

INVESTIGADOR – Será que... Será que ela é uma vítima?

POLICIAL – É isso que descobriremos.

Os dois se voltam para a senhora.

POLICIAL – A senhora deseja um copo de água ou outra coisa?

LARA (aos prantos) – Não... Não! É que eu fiz uma coisa horrível! Eu nem deveria estar aqui, mas acho que de qualquer jeito vocês chegariam até a mim. Não sou uma pessoa ruim!

O policial e o investigador franzem o cenho, sem entender nada.

POLICIAL – Prossiga...

LARA – Eu não queria fazer isso... Quer dizer, eu poderia ter evitado, mas eu realmente estou precisando do dinheiro...

Lara então coloca a bolsa em cima da mesa e mostra todo o dinheiro roubado no ônibus e mais dois celulares. Os dois ficam chocados com a atitude da mulher. O policial fala no walktalk.

INVESTIGADOR – Chame alguém para ficar com o resto das testemunhas. Algo realmente interessante apareceu por aqui.

POLICIAL – Acho que a senhora vai ter que explicar muita coisa...

Notas finais
Trilha - https://www.youtube.com/watch?v=LkIWmsP3c_s