Notas iniciais
Quarto ato - Cena I Personagens: O investigador. O policial. Vívian. Sofia. O cobrador. Lara. Olívia.

O investigador bate à porta.

VÍVIAN – Quem é?

INVESTIGADOR – É o Cardoso.

VÍVIAN – Estou em entrevista com Olívia.

INVESTIGADOR – Há três horas.

Vívian sai da sala e fecha a porta.

VÍVIAN – Está difícil aqui viu, Olívia está bem fragilizada com tudo que aconteceu hoje. Ela está falando aos poucos, fizemos uma pausa de mais de hora.

INVESTIGADOR – O que eu tenho aqui pode te surpreender.

POLICIAL – Olívia talvez não esteja tão fragilizada assim...

INVESTIGADOR — Melhor deixar isso comigo e com a Dra. Beltrão, por enquanto acompanhe a senhora Lara até a sala 205.

POLICIAL – Tudo bem. Avise se tiver novidades.

O policial sai e os dois ficam conversando.

VÍVIAN – Espero que seu método ortodoxo de não prestar atenção às testemunhas tenha funcionado.

INVESTIGADOR – Bem... Acho que eu descobri mais coisa que você durante essas duas horas.

Vívian respira e abaixa a cabeça.

VÍVIAN – Ela deixou de cooperar na primeira hora.

INVESTIGADOR – Pois leia aqui esses depoimentos que acabei de receber. Só dois deles tiveram utilidade, e ambos apontam para a direção de que Olívia é uma baita mentirosa.

Vívian retira os papéis das mãos do investigador. Lê tudo atentamente e sua testa começa a enrugar como se estivesse num momento eureca.

VÍVIAN — Cadê os familiares dela? Não chegaram?

INVESTIGADOR – Beltrão... Ela já é maior de idade, parece que vive sozinha.

Ainda perplexa, Vívian paira um pouco no silêncio.

VÍVIAN – Não pegou o depoimento de ninguém na família? Nenhum parente próximo? Cadê o depoimento do cobrador?

INVESTIGADOR – A única pessoa que está aí é a vizinha assessora de imprensa. Disse que ela estava só, como sempre. O cobrador só concordou com Olívia. Duas pessoas acham que Olívia está trabalhando com o cobrador. Todos os outros depoimentos... Hum... Entediantes!

VÍVIAN – Olívia mora na zona norte, rastreiem urgentemente o endereço dela. Procurem a mãe dela em todos os lugares. Deem uma olhada no lixo da casa dela, procurem remédios e qualquer outra coisa suspeita.

INVESTIGADOR – Pelo jeito você também suspeita dela.

VÍVIAN – Ainda não é tempo. E chame o cobrador, a vizinha e a senhora Lara aqui.

Começa uma correria dentro da delegacia. As ordens de Vívian são acatadas e começa o interrogatório na sala, as testemunhas e a vizinha aguardam do lado de fora do cômodo.

VÍVIAN – Olívia, eu sei que pode ser assustador, mas durante essas horas sua história chegou a todo o país. Todos estão do seu lado nesse momento.

Olívia arregalou os olhos.

VÍVIAN – Por isso teremos que resolver o seu caso o mais rápido possível. As coisas tomaram rumos inimagináveis. Começaram a Revolução Barulhenta por causa disso, todos estão exigindo mais segurança em nosso país.

OLÍVIA – Ajudarei no que for possível.

INVESTIGADOR – Eu trabalho aqui junto da doutora Vívian há anos. Nunca vi um furto de ônibus tomar essas proporções. E eu não quero assustar, mas é melhor não mentir, garota.

Vívian olha para o investigador de maneira irritada.

VÍVIAN – Mas não se preocupe porque tudo correrá bem. Se você não fez nada, sairá daqui ainda hoje. A partir de agora, algumas pessoas que você pode conhecer entrarão nessa sala e conversarão conosco. Você está pronta?

OLÍVIA – Sim. Pode me perguntar o que quiser, eu só quero sair daqui.

Entra o cobrador, Olívia segura o choro. O cobrador encara Olívia com confiança.

INVESTIGADOR – Reconhece este homem, Olívia?

OLÍVIA – Sim, é o cobrador do ônibus.

VÍVIAN – Já conversou com este homem alguma vez na sua vida antes do incidente do ônibus 67?

OLÍVIA – Não.

VÍVIAN – Alguma coisa a dizer? Sr. Souza?

COBRADOR – Não, senhora.

INVESTIGADOR – O senhor se lembra de quando a senhorita Olívia entrou no ônibus?

COBRADOR – Não, exatamente, mas acho que eu a vi escutando música sozinha no banco.

INVESTIGADOR – O que aconteceu então?

COBRADOR – O ônibus foi enchendo e eu segui meu trabalho de sempre. Até que ela chegou até a mim e disse que algumas pessoas estavam sendo feitas reféns no ônibus e que eu deveria colocar o dinheiro e meu celular na bolsa. Ah! E que eles estavam com alguém apontando uma arma para nós, para o caso de alguém avisar a polícia.

VÍVIAN – Obrigada, por enquanto, senhor Souza. Aguarde do lado de fora junto aos policiais, por favor.

O cobrador sai. Vívian e o investigador saem da sala e conversam em particular.

INVESTIGADOR – Tudo na mesma.

VÍVIAN – Os depoimentos do cobrador procedem. Ele se mostrou bem seguro, e ambos são de realidades completamente distintas.

INVESTIGADOR – Não encontraram nenhum ponto em comum entre os dois durante o rastreio. Nada que prove qualquer laço emocional.

Os dois se voltam para Olívia.

VÍVIAN – Agora falaremos com outra pessoa que estava no ônibus. Essa pessoa está tão nervosa quanto você, então é melhor se manter calma.

Entra senhora Lara. Olívia começa a tremer e chorar.

OLÍVIA – Ela segurou a minha bolsa! Ela estava junto com eles! Tire ela daqui! Prendam essa mulher!

A senhora Lara se enfurece.

LARA – Pare de mentir, sua safada!

VÍVIAN – Se acalmem!

OLÍVIA – Como assim? Eu não estou mentindo. Eu dei a bolsa cheia de dinheiro para você porque ele mandou eu te entregar!

INVESTIGADOR – Eu faço as perguntas. Como foi que o criminoso te abordou, senhorita Olívia?

OLÍVIA – Ele disse: “Vá lá atrás, alguém vai pedir para segurar essa bolsa para você. Entregue e depois volte.”. Então eu fui e essa mulher pediu para segurar a bolsa, depois eu voltei ao meu lugar.

INVESTIGADOR – Você estava a mando de algum criminoso, senhora Lara?

LARA – Claro que não! Ela está mentindo descaradamente. Eu peguei a bolsa por educação, depois ela não veio pegar de volta, então eu levei para casa. Sei que deveria ter devolvido, mas eu não estou envolvida em ataque nenhum!

OLÍVIA – Quem está mentindo aqui é você! Querem colocar a culpa em mim, está vendo, doutora? Essa mulher é uma criminosa! Tirem ela daqui! Tirem ela daqui agora ou eu vou gritar!

VÍVIAN — Obrigada, por enquanto, senhora Lara. Aguarde do lado de fora, por favor.

Senhora Lara sai cheia de raiva. Investigador e Vívian conversam em particular.

INVESTIGADOR – E aí?

VÍVIAN – Complicado, mas precisamos da família.

INVESTIGADOR – Uma das duas está mentindo.

VÍVIAN – Ou não.

Vívian pede para Sofia entrar.

VÍVIAN – Olá, senhora.

SOFIA – Olá, doutora Beltrão.

Sofia dá um tchau para Olívia. Olívia fica meio triste.

VÍVIAN – Olívia, você reconhece a senhora Sofia?

OLÍVIA – Sim, ela é minha vizinha.

VÍVIAN – Sofia, você me disse que sua mãe fez o seu café hoje. A senhora Olívia disse que não conhece sua família, mas afirmou que a senhorita mora sozinha. Isso procede?

Olívia baixa a cabeça.

OLÍVIA – Minha mãe só aparece quando quer. Eu sou realmente bem sozinha, não tenho muitas pessoas com quem contar.

INVESTIGADOR – Quem paga as suas contas, Olívia?

Vívian revira os olhos.

OLÍVIA – Eu recebo bolsa da faculdade. Dá para me manter. Como é que isso pode ajudar no caso?

VÍVIAN — Obrigada, Sofia. Obrigada, investigador Cardoso. Eu e Olívia precisamos de um momento a sós.

Notas finais
Trilha - https://www.youtube.com/watch?v=1G4isv_Fylg