Notas iniciais
olha eu aqui alegrando o domingo de vocês! esse aqui é o meu xodó, espero que gostem! um beijo enorme!

— Seus olhos vão cair se você continuar assim. — observou o Rafa, ao me ver olhar fixamente para minha mão direita pela milésima vez no dia.

Desviei o olhar para encará-lo. Seus braços estavam esticados, com as mãos sobre o volante.

Os olhos verdes concentrados no caminho me encaravam pelo canto do olho por alguns segundos, antes de voltarem sua atenção ao trânsito.

— Agora vai me encarar em vez de encarar sua mão? — perguntou, risonho, ao perceber meu olhar sobre si.

Ri, passando a mão pelos fios curtos do meu cabelo.

— Desculpa. — pedi, envergonhada — É só que eu te amo. E eu amei o anel. E... Deus, isso parece um sonho!

Sorrir era inevitável ao me lembrar do meu pedido de casamento. As mãos tremendo, o coração batendo acelerado, o riso fácil.

Desde que meu namorado (agora noivo) abriu o jogo sobre me pedir em casamento dois meses atrás, na formatura da minha irmã, eu esperava ansiosa o momento do pedido, que só veio acontecer nesta Sexta.

Como hoje é Domingo, estamos indo almoçar na casa dos meus pais, como já virou tradição.

Mal posso esperar para contar as novidades e ver a reação deles, a Emma vai estar lá para apresentar o Jake ao nossos pais como namorado, visto que eles já o conhecem, mas não sabem que minha irmã e ele começaram a namorar.

O pedido foi feito no intervalo do jogo dos Lakers versus Bulls, causando um alvoroço na torcida, já que tanto minha irmã quanto o Jake ostentavam orgulhosos as camisas dos times que torcem, rivais naquele jogo.

Nós estávamos lá e foi lindo, minha irmã ficou tão feliz que o sorriso alcançava as orelhas. Foi uma noite maravilhosa para todos ali, depois ainda saímos para comer pizza e os dois ficaram no maior amor.

Ver a minha irmãzinha tão feliz é ótimo, por isso queria esperar para dar a notícia do meu noivado, não queria ofuscar a notícia dela.

O Rafa me convenceu de que isso era uma besteira, que a Emma ficaria feliz por mim, então pus o anel no dedo (ele normalmente fica num colar no meu pescoço, para facilitar no trabalho) e pus um sorriso no rosto para dar a notícia à minha família.

Meu noivo estacionou o carro na frente da casa dos meus pais e minha mãe nos recebeu com um sorriso no rosto e os braços abertos para nos abraçar.

Tomei cuidado para disfarçar o diamante de meio quilate em meu dedo, não queria que eles acabassem descobrindo antes da hora.

— Que bom que vocês chegaram! A Emma está demorando muito. — observou papai, depois de me abraçar e cumprimentar meu noivo.

— Ela já deve estar chegando, papai. — falei, passando os olhos pela casa — Onde está o Derek?

— No habitat natural dele, a piscina. — respondeu mamãe, nos guiando até o quintal, onde a mesa já estava posta.

Meu irmãozinho nadava de um lado para outro na piscina de 20 metros, me lembrando um peixinho. Quando me viu, pulou para fora da água e veio correndo me abraçar, todo molhado.

Recebi de bom grado o leve aperto no meu corpo, sentindo minha roupa molhar com esse contato.

O Rafa também não reclamou de se molhar um pouco, afinal o dia estava bem quente e o Derek é irresistivelmente fofo.

Emma chegou 20 minutos após nós dois, com o Jake a tiracolo.

— Olá, família! — cumprimentou, abrindo os braços e um sorriso enorme.

— Emma! — exclamou o Derek, antes que qualquer um de nós falasse alguma coisa, e correu de encontro à nossa irmã.

Depois que todos nós os cumprimentamos, nos sentamos para comer.

— Alguém me passa a batata, por favor! — pedi, recebendo o prato da mão da minha irmã, que arregalou os olhos quando viu o anel no meu dedo. Droga!

— Emma! — supliquei, num sussurro.

Ela apenas balançou a cabeça afirmativamente, antes de soltar o prato de batata frita e voltar a comer seu almoço.

A sobremesa dessa vez foi feita pelo papai, um mousse de maracujá divino!

— Agora que está todo alimentado e feliz, eu tenho algo a dizer. — comunicou minha irmã, ficando de pé.

Todos os olhos se voltaram para ela, que segurou carinhosamente a mão do Jake, olhando apaixonadamente para o namorado.

— Eu e o Jake estamos namorando! — exclamou Emma, sorrindo de orelha a orelha.

Mamãe abriu os braços, feliz, e partiu para o abraço, enquanto papai fazia uma cara surpresa que me fez rir muito.

— Pai? — chamei, estalando os dedos na frente do seu rosto.

Meu pai acordou do transe, encarando minha irmã. A mesa inteira ficou tensa, esperando uma reação, mas ele só levantou e ofereceu à Emma um abraço.

Depois que todos nós os cumprimentameos, minha irmã me encarou, com uma sobrancelha arqueada e os olhos indicando que ali era o momento de eu dar a minha notícia também.

Sorri, antes de agradecer em silêncio e me levantar.

— Bom, eu também tenho um comunicado a fazer. — falei, atraindo novamente a atenção de todos.

Meu noivo sorriu para mim, apertando minha mão.

— Estamos noivos! — exclamei, mostrando a mão com o anel.

— Até que enfim! — falou mamãe, levantando os braços.

Papai, por sua vez, falou algo que me deixou intrigada.

— Até que ele aguentou um bom tempo....

Resolvi ignorar aquilo por agora, afinal estava recebendo um abraço duplo da minha mãe e da minha irmã.

— Estou tão feliz por você, mana! — disse Emma.

Enquanto isso, meu pai parabenizava o Rafa, que se dividia em apertar a mão do papai e se equilibrar, já que o Derek estava grudado na perna dele.

Invertemos nossas posições e eu peguei meu irmãozinho no braço, recebendo um beijo na bochecha.

Papai me abraçou e me beijou a testa, me desejando felicidades.

— Como foi esse pedido? — perguntou mamãe, se sentando novamente.

Todos começaram a se acomodar, inclusive o Rafa, me encarando.

Sente sorrindo, me lembrando daquele dia.

Eu cheguei em casa cedo, minha última cirurgia demorou menos que o previsto e o paciente estava fora de risco, apenas para observação.

— Amor, cheguei! — gritei, colocando as chaves no ganchinho da parede.

— Ótimo, você chegou! — exclamou, me dando um selinho rápido — Nós vamos sair, preciso que se arrume.

— Ah, ok.

— Ou você está muito cansada? Porque se estiver, posso cancelar. — perguntou, me encarando ansioso.

— Eu estou bem, amor. Me dê meia hora e estarei pronta. — respondi, deixando um beijo, dessa vez mais longo, nos seus lábios.

Como o meu cabelo está curto, não tem o que fazer nele e eu nunca fui muito adepta a maquiagem, apenas o básico, então fiquei pronta rapidamente, embora com dez minutos de atraso.

— Estou pronta. — falei, entrando na sala. Senti seu olhar passeando pelo meu corpo e sorri.

Eu usava um vestido azul marinho, com decote triangular e a saia levemente solta. As mangas eram todas de renda. Nos pés, um salto preto básico.

— Você está maravilhosa. — disse se aproximando.

— Você também está lindo, amor. — retribuí, acariciando seu rosto e sorrindo ainda mais, antes de acrescentar — Mas estou com fome, será que podemos ir?

Ele soltou uma gargalhada, antes de beijar a palma da minha mão, que estava no seu rosto, e seguirmos para a saída.

— Onde vamos? — perguntei, quando ambos já estávamos dentro do carro.

— É surpresa.

— Você está misterioso hoje. — observei.

— Você vai gostar, não se preocupe. — me tranquilizou, apertando minha perna de maneira carinhosa, retornando a mão para o volante em seguida.

— Estamos saindo de Los Angeles? — perguntei, confusa.

— Você considera Beverly Hills fora de Los Angeles?

— Bom, eles têm o próprio prefeito. — retruquei, dando de ombros.

— Então sim, estamos saindo de Los Angeles. — confirmou — Vamos a um restaurante novo que abriu tem alguns meses.

Menos de vinte minutos depois, estacionamos na frente de um lugar chamado Maude.

— Uau. — exclamei, olhando toda a estrutura do local.

— O Maude é um restaurante bem famoso aqui em Beverly. — começou o Rafa, dando a volta no carro e abrindo a porta para mim — O chef monta um cardápio fixo para cada mês, o ingrediente principal de cada mês é aquele mais comum na época. Esse mês, são cerejas.

"Nós pagamos um valor por pessoa e aí podemos comer todos os itens do cardápio do mês. É bem interessante, na verdade. E você gosta de cerejas, então tive que esperar até a temporada de cerejas para te trazer aqui."

— Você esperou até Junho para me trazer aqui só porque eu gosto de cerejas? — perguntei, surpresa — Deus, como eu te amo!

Puxei meu namorado para um beijo ali mesmo, na porta do restaurante.

— Eu também te amo e estou feliz que tenha gostado, agora vamos! — respondeu, me puxando para dentro.

Devo admitir, a fachada me enganou direitinho. A parte de fora, pequena e simples, com apenas uma porta de madeira, nos deixa despreparados para a amplitude de espaço na parte de dentro.

Num ambiente aberto, temos mesas redondas, mesas quadradas que dividem sofá azul, cadeiras num balcão (que separa o restaurante da cozinha. Tudo muito harmônico e moderno.

A parte mais impressionante foi perceber que a cozinha era aberta, nós víamos o chef se movimentar por ela e as pessoas sentadas no balcão podiam conversar com quem estava na cozinha.

— Esse lugar é fantástico! — exclamei, tentando absorver todo o ambiente.

— Eu falei que você ia gostar.

— Eu adorei, é lindo!

Seguimos para a nossa mesa, que possuía quatro lugares e dois deles eram assentos no sofá. Sentamos eu e o Rafa um ao lado do outro no grande sofá azul, que era bastante confortável.

Em questão de minutos, um garçom trouxe a entrada. Jicama, uma raiz de origem mexicana, de planta perene e flor antiga.

—Eles servem foie gras* também, mas sei que você é contra a prática, então pedi que excluíssem da nossa refeição.

Sorri. Ele realmente me conhecia.

— Obrigada por isso.

Eu sempre comi carne, mas minha irmã é vegetariana desde que nasceu (ela não comia carne nem quando bebê, chorava horrores quando mamãe e papai tentavam) e acabou me mostrando o quão péssima é a vida dos animais nas grandes indústrias de alimentação, então eu reduzi absurdamente o consumo de carne de animal, qualquer que ele seja, abrindo pouquíssimas exceções.

Logo depois da Jicama, veio uma sopa de amêndoas maravilhosa.

— Sério, você vai ter que me trazer aqui todo mês agora! — decretei, apontando com a colher para o meu namorado, que sorria com minha animação.

— Com muito prazer.

O prato principal era agnolotti (um tipo de massa recheada) de presunto e alho. Também comemos esturjão, um peixe típico de água doce, com lilium, que são plantas com bulbos e flores largas e proeminentes, e folhas de Angelica (uma erva muito comum no hemisfério Norte) e Sakura (o tipo mais comum de cerejeira).

Comemos tudo em silêncio, explorando ao máximo os sabores apresentados.

— Eu realmente estou amando essa noite, Rafa. — confessei, sorrindo e segurando sua mão.

— Você não sabe como é bom escutar essas palavras.

— Qualquer coisa que você fizesse me agradaria. Até se me levasse naquele cachorro quente horrível na esquina da rua. — falei, segurando seu rosto em minhas mãos.

— Então eu podia ter te levado lá? Droga! — brincou, me fazendo rir.

Soltei seu rosto, vendo-o se aproximar. Trocamos um beijo rápido, mas cheio de paixão, antes que chegasse o próximo prato.

Uma pequena porção de carne de ave doméstica, acompanhada de beterrabas vermelhas e uma flor comestível que no Brasil chamam de Tropaeolum. Para completar, queijo gaperon (um tipo de queijo francês).

— Ok, eu não aguento mais nada. — falei, assim que terminamos de comer.

— Vai deixar de comer a sobremesa, amor? — perguntou o Rafa.

— É, acho que cabe mais um pouquinho. — falei, quando vi a fatia de Clafoutis de cereja ser colocada na minha frente.

Eu não entendo de cozinha, mal sei fritar um ovo, mas amo comer e experimentar sabores novos, então fiquei extremamente feliz ao descobrir que a sobremesa era um dos melhores doces franceses que eu já havia experimentado.

Comi cada pedacinho lentamente, sentindo o sabor das cerejas cozidas, que derretiam na minha boca a cada mordida. Percebi, surpresa, o sabor do Kirsch, uma bebida alcólica de cereja negra usada para marinar as cerejas na receita original do doce.

— Você fica linda saboreando uma sobremesa. — observou o melhor namorado do mundo, que por acaso era o meu, me fazendo abrir os olhos.

— Essa foi a melhor Clafoutis que eu já comi. — expliquei.

— Que bom que gostou, porque eu preciso te perguntar algo importante. — falou, colocando em cima da mesa, entre nós dois, uma caixinha preta.

— Rafa...

Minhas mãos foram direto para a minha boca, completando a expressão maravilhada que eu tinha, quando meu namorado abriu a caixinha e revelou o lindo anel.

Era simplesmente o anel mais lindo que eu já havia visto.

A cravação dos brilhantes em Channel realçava a pedra central, que mantinha a cravação original da Tiffany's de seis garras, revelando um brilho e luminosidade que me deixaram de queixo caído.

— Mel, nós nos conhecemos desde crianças e passamos por vários momentos juntos. Festas de aniversário, comemorações em família... — começou, me fazendo encará-lo — Eu deveria ser coroado a pessoa mais lerda do mundo, porque quem, além de mim, leva vinte e cinco anos para perceber que gosta de alguém e demora mais um ano inteiro até ter coragem de falar com essa pessoa?

Eu ri, em meio às lágrimas que teimavam em escapar.

— A verdade é que eu deveria ter feito esse pedido a um bom tempo, — continuou — mas fiquei pensando em como nós já aparentamos sermos casados e fiquei um pouco nervoso com isso. Mas aí, lá na formatura da Emma, você me disse que diria sim para mim, então minhas esperanças se renovaram. Aliás, me desculpe por esses dois meses de espera. Eu via o quão ansiosa você estava, mas eu tinha que planejar o momento perfeito, a noite perfeita.

"Suas amigas no trabalho sabem que estamos aqui, eu pedi que elas te liberassem só por hoje, porque eu realmente precisava desda noite para poder te dizer, com todas as letras, gestos e ações, o quanto eu te amo.

"Caso você ainda tenha qualquer dúvida, estou sanando-a nesse exato momento. Eu te amo, Melissa, mais do que eu imaginei que fosse possível amar alguém. Te amo como Julieta amou Romeu, a ponto de morrer por ele. Te amo como o José amou a Rapunzel, a ponto de abrir mão da própria salvação para que ela pudesse ser livre."

Interrompi sua declaração com a minha risada, ao ouvir suas doces palavras e sua referência ao meu filme de animação favorito, Enrolados.

— E por te amar tanto, Mel, é que eu peço sua mão em casamento aqui e agora, não por achar que nós precisamos de papel para nos afirmar, mas por achar que, com esse papel, eu provo ao mundo que você é e sempre será o amor da minha vida. Com esse compromisso, nós nos entrelaçamos definitivamente, nós mostramos ao mundo que pretencemos um ao outro, alma e coração. Então, Melissa Santiago, quer casar comigo?

Balancei a cabeça afirmativamente, com a visão embaçada pelas lágrimas e a voz embargada dizendo:

— Sim, mil vezes sim. Sim, sim, sim!

Abracei meu (agora) noivo, molhando sua camisa com as minhas lágrimas.

— Hey, pare de chorar. — pediu, secando minha bochecha com os polegares.

— Desculpa.

— Aqui, — pediu, com o anel numa mão e me estendendo a outra — deixe-me colocar o anel.

Coloquei minha mão sobre a dele, sorrindo como nunca ao sentir o metal frio passar pelo meu dedo.

Admirei minha mão, o diamante brilhando no meu dedo.

— É lindo. — suspirei — Obrigada.

— Você merece muito mais.

Desde aquele dia, me peguei admirando o anel em qualquer tempo livre, sorrinso como uma adolescente boba.

— Que lindo! — exclamou mamãe, quando terminei de resumir a história do meu pedido.

O Rafa, o Jake e o papai conversavam, absortos ao que eu contava. Meu irmãozinho nadava na piscina como um peixinho.

— Sim, foi bem emocionante. — concordei — E o fato de ele se importar com o que eu pensaria e com o que eu não comia do cardápio foi ainda mais especial.

— Eu vou arrastar o seu pai até esse restaurante, pelo que você falou deve ser ótimo! — exclamou mamãe.

— Mel, mãe. — chamou a Emma — Será que podemos aproveitar que eles estão distraídos e irmos comer o restinho do mousse de maracujá?

Nós nos entreolhamos, sorrindo. Naturalmente, cada uma se levantou e andou calmamente até a cozinha.

Segurei a risada até entrar dentro de casa, depois explodi em uma gargalhada junto com a minha irmã, enquanto mamãe já pegava a travessa na geladeira.

Demorou cerca de quinze minutos para que nos encontrassem e até lá nós já tínhamos comido tudo o que restara da sobremesa.

Eram quase sete da noite quando deixamos a casa dos meus pais.

— Posso te perguntar algo? — falei, depois de muito ponderar se deveria ou não tentar descobrir a natureza do comentário que o meu pai fez.

— Claro, querida.

— Porque o meu pai disse que você aguentou por um bom tempo quando eu contei sobre o nosso noivado?

— Ah, isso. Eu estava pretendendo te contar mesmo, só acabei esquecendo.- começou, estacionando o carro — Lembra quando fomos almoçar lá, no mesmo dia que você resolveu morar comigo?

— Quando o papai te pediu pra conversar com ele. — confirmei.

— Exato. Você lembra que eu estava nervoso? — assenti com a cabeça, interessada no caminho que o relato estava tomando.

Nós entramos no elevador e eu apertei o número do nosso andar, ao passo que meu noivo continuou a explicar.

— Bem, eu não estava nervoso só com a conversa. Nós estávamos juntos a quase um ano e eu já estava com algumas ideias na cabeça e queria conversar com seu pai.

— Sobre eu me mudar para o seu apartamento? — perguntei, confusa.

— Não, sobre eu pedir a sua mão em casamento.

Parei na metade do corredor, a alguns metros da porta do nosso apartamento.

— O-o que?

— Desculpa por ter demorado tanto, mas você estava tão insegura que eu não queria arriscar te perder.

— Você esperou quase dois anos para me pedir em casamento? — perguntei abismada. Quando começamos a morar juntos, tínhamos cerca de dez meses como casal. Mais os doze que equivalem ao ano passado inteiro, tem-se vinte e dois meses.

— Acho que sim. — ele respondeu, dando de ombros.

Ainda estávamos no meio do corredor, eu estava abismada demais para dar um passo sequer.

— Hey, isso não foi nada. Prometo. — falou, vendo meu estado.

— Por Deus, Rafa! O que tem de errado com você?! — exclamei, puxando-o para um abraço.

Quando nos separamos, segurei seu rosto entre minhas mãos, olhando no fundo de seus olhos.

— Dois anos, Rafael? Dois anos e você não disse uma única palavra sobre casamento! — reclamei — Nunca mais faça isso, me ouviu? Nunca! Se você tem algo a dizer, diga.

Eu estava me sentindo a pior pessoa do mundo. Como eu não percebi? Foram dois anos, caramba!

— Desculpa, eu não sabia que você ia ficar tão chateada. Mas, convenhamos, você não aceitaria se eu tivesse te pedido ano passado.

Nós fomos andando para o nosso apartamento, enquanto eu explicava.

— Eu estou chateada por você não ter falado comigo, Rafa. Você estava com essa ideia na cabeça sabe-se lá a quanto tempo e não me disse nada.

— Eu sei, desculpa. Eu só fiquei com medo de você achar muito cedo e acabar prejudicando a nossa relação com isso.

Suspirei, largando a bolsa no sofá. Meu noivo sentou ao meu lado, segurando minhas mãos.

— Eu sei que devia ter te falado, Mel. Me perdoa.

— Está tudo bem, sério. Eu só te peço que, a partir de agora, você fale comigo, ok?

— Prometo. — falou, passando a mão pelo meu rosto.

— Você quer ligar para sua mãe agora? Está tarde lá no Brasil... — perguntei.

— Vou mandar uma mensagem, e se ela estiver acordada nós ligamos.

Enquanto o Rafa tentava falar com a dona Gabi, tomei um banho rápido. O tempo estava frio agora de noite, então pus uma calça de moletom, mas vesti uma regata.

— Conseguiu? — perguntei, sentando ao seu lado na cama.

— Sim. — respondeu, apontando a tela do Skype.

Mel! Você está linda com esse corte novo!— cumprimentou minha sogra e tia, me fazendo sorrir.

— Obrigada, a senhora também está muito bonita com o cabelo comprido.

Obrigada querida, foi difícil me acostumar com ele, mas agora eu até que gosto.

Cumprimentei também o pai do Rafa, meu sogro Victor.

— Elogios à parte, — começou meu noivo — temos algo importante a dizer.

Nós temos um palpite do que seja, então podem falar. — disse Victor.

— Nós estamos noivos! — falei, sorrindo.

Oh, isso é fantástico!— exclamou minha sogra.

Meus parabéns. — meu sogro disse.

Deixe-me ver o seu anel, Mel!— disse a tia Gabi.

Aproximei meu dedo da câmera, de modo que a fizesse enxergar melhor a joia.

Ai meu Deus, ele é lindo!

— Eu concordo. — falei, sorrindo para o meu noivo.

— Eu vou deixar vocês duas conversando e vou tomar um banho, pois acabamos de chegar. — disse o Rafa, deixando um beijo na minha cabeça e indo para o banheiro.

Meu sogro nos desejou felicidades e nos parabenizou de novo, antes de se retirar.

Então, tem notícias da minha filha desgarrada? — perguntou minha sogra, que também era a mãe da minha melhor amiga, a Paloma.

— Nós trocamos emails, nos falamos pela última vez na Terça. — falei.

A Paloma havia saído de férias com o namorado, o Lucas, e os dois estavam viajando pela Europa.

Ela ainda está na França?

— Creio que sim. Ela deve retornar aos Estados Unidos na próxima Segunda.

Quando você a vir, por favor, dê nela um cascudo! Que tipo de filha faz uma viagem de um mês e só manda dois emails para a mãe?

Vou transmitir o recado, dona Gabi. — respondi, rindo.

Ainda conversamos por mais alguns minutos, antes de o Rafa sair do banheiro e se despedir da mãe, encerrando a chamada de vídeo.

Nos arrumamos na cama, nós dois juntos e a minha cabeça apoiada em seu peito.

— Foi um fim de semana cansativo. — comentei.

— Foi mesmo, mas estou feliz.

— Você está? — perguntei, apoiando o queixo no seu peito.

— Mais do que eu imaginei ser possível. — respondeu, subindo a mão pelas minhas costas.

Sorri, sentindo meu coração aquecer com aquelas palavras. Eu também estava feliz, de uma maneira que não dava para por em palavras.

Notas finais
*Foie Gras - fígado de ganso ou pato que foi forçosamente alimentado à exaustão, o que levou à hipertrofia lipídica do órgão. É horrível o que esses animais sofrem, não comam nem incentivem essa prática (já abolida por vários países). —x- Amores, o Maude realmente existe, lá em Beverly Hills, e eles têm essa dinâmica de cardápio e servem essas comidinhas que eu descrevi aqui, mas outras também.