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1 0 - PRÓLOGO


PRÓLOGO

A vida é como um carrossel. Cheia de luzes, sorrisos e pessoas. Além de tudo isso, ele é você. A vida dá giros e giros, lentos e cada vez mais lentos.

Tantas pessoas que passam por nossa vida, que apenas só damos valor quando as a perdermos. Cada uma delas completa a si mesmo, e tantas outras. São humanas, é claro. E todas com seus defeitos, gostos e opiniões.

E cada um com sua única e profunda essência. É essa essência que se perde com o tempo. As pessoas quando crianças são seres puros e inocentes, honestas. São o que verdadeiramente são. E, ao passar dos anos, perde-se a si mesmo. São moldados a outros valores, a outras verdades que nunca serão as suas próprias. Sempre ao melhor que a sociedade impõe a elas.

Neste mundo, só existe eu e minha verdadeira essência...

-Suponho que cheguei na hora errada – disse uma voz grave atrás de mim.

Não quis questão de virar para olhá-lo, apenas mantive-me na mesma posição. Ao ouvi-lo, voltei a encarar o carrossel. Tinha sua estrutura de cor dourada, inúmeras luzes pelo teto e ao lado dos cavalos de diversas cores. Várias crianças estavam sentadas e rindo, como se estivessem no topo do mundo sobre aqueles cavalos. E o carrossel, ao parar de se mover, os pais tinham dificuldade em tirar seus filhos dali, pois, seria o fim do mundo delas. Gritavam, choravam ao saírem. Ao crescerem, essas crianças nunca mais se sentiriam no topo do mundo. Diante de mim, uma criança sorria, sem chorar, ao sair do carrossel. Tinha aproximadamente um ano ou dois, e tinha cabelos castanhos curtíssimos, e usava um vestido branco de babados. Eu a acompanhei com o olhar, e surpreendentemente ela olhava para mim também.

Você vai ver, o mundo não é o que você pensa, pensei tentando mandar de alguma maneira esse aviso pelo olhar. Mas, apenas ela sorriu e seguiu o caminho com os seus pais.

Ao sumirem, olhei para ele analisando a sua fisionomia. Tinha a pele negra, e era careca e não tinha barba em seu rosto. As sobrancelhas grossas bem rentes aos seus olhos escuros e pequenos, nariz reto e alargado na ponta e lábios grossos. Mesmo em seu rosto quadrado, tinha uma docilidade e preocupação constante sem que tirasse a sua maturidade e autoridade, porém comigo ele não era temido ele era muito próximo a mim, então sentir medo seria o último recurso que sentiria dele. Estava Bron ao meu lado, vestido de couro negro, com suas pernas cruzadas, braços sobre o encosto do banco, encarando-me. Não parecia intrigado, ou curioso, apenas impassível.

-Não existe hora errada, Bron. – murmurei, concreta.

-Qual é a razão da criança? – questionou, ao ver a mesma criança que saíra sentada novamente sobre os cavalos, sorridente – É sempre a mesma.

-Uma parte da vida do meu antigo eu, que voltara.

-Isto não é bom, você sabe disto. – voltou a dizer, alertando-me.

-Eu sei. – murmurei convicta.

-Não parece, Valerie. Você tem o controle do seu cérebro, da sua mente, coração e alma porque então diz que é uma nova você se isso volta? – ele apontou para o carrossel.

-É uma parte de mim que não se vai.

-Então você não está pronta. – se levantou, dando-me as costas.

-Você acha isso? – levantei-me.

Ele parou diante a porta, de costas para mim. E disse:

-Não precisa se dizer ou repetir isto, se isto é visível, você é falha. Você não é perfeita, não está pronta. Precisa provar a si mesma e não apenas fingir para mim ou para qualquer pessoa.

E ao atravessar o buraco na parede, voltei a olhar para o carrossel, sendo surpreendida pelo olhar da mesma garota. E desta vez, voltei a me sentar no banco e olhei com atenção a cena se repetir diante de mim.

Meu organismo acordara. O sol já tinha nascido, e era preciso acordar. E segundos depois, as luzes foram ligadas. E, por debaixo da porta uma bandeja foi arrastada para dentro. Logo me apressei, levantei da cama e corri para a bandeja. E como sempre foi, havia apenas a vitamina azul. Não era uma vitamina comum. Era azulada, tinha luz própria que quando eu a colocava entre minhas mãos, refletia em meu rosto. E ela me sustentava por um dia inteiro, sem sede ou fome, sem doença, sem ferimentos. Nada.

E quando a bandeja foi retirada, voltei para a cama. E encarei o espaço, a espera dele mudar. As paredes eram feitas de aço. Tudo ao meu redor é cinzento e circular. E não me incomodava em nada. Depois de alguns minutos, perdida em portas na minha mente, o lugar oscilou.

No começo, iniciou-se um som muito baixo. Algo distante, e aos poucos foi se intensificando ao mesmo tempo que o carrossel ia surgindo em uníssono. Ao surgir completamente a cena novamente se repetiu. E eu encarei a menina olhando para mim, e eu desta vez nada fiz.

Diante de mim, novamente a cena se repetiu. A criança não chorava ou fazia qualquer esforço ao sair do carrossel. Ela ao estar no chão, eu me aproximei. Eu sabia que aquilo diante de mim não poderia ser fácil de ser mudado. E eu tinha batalhar por isso, pois eu era e sou muito mais forte do que uma lembrança.

Respirei fundo e encarei a cena repetir novamente.

Os pais novamente a tiraram do cavalo, e deram suas mãos para ela, que as apertou de bom grado. Percebi que seus pais não tinham olhos, boca e nariz, apenas um borrão. Aquilo eu nunca havia percebido.

-Quem são vocês? – questionei a eles, ao me aproximar.

Eles pararam de rir com a sua filha, e em questão de segundos, viraram seus rostos para mim. Ficaram imóveis.

-Quem são vocês? Digam. – ordenei, me aproximando ainda mais.

Um riso ecoou pelo espaço. Ao invés de me assustar, irritei-me. Mantive quieta no lugar, ainda encarando os pais. Era a criança rindo, ria de nós.

Abruptamente, como se o tempo tivesse sido apressado, os dois ergueram-se estranhamente e ficaram diante de mim, totalmente retos, com os braços ao lado do corpo. Ergueram o seu rosto para mim.

-Somos ninguém. – disseram, numa voz estrangulada e grossa.

E sumiram.

Dei as costas, sentando-me novamente sob o banco. E a cena voltou a se repetir.

Eu não conseguia entender. O que aquele carrossel tinha a ver comigo? Como isso podia deixar-me ser falha? Eu havia me tornado fria, sem sentimentos. Não queria sentir nada mais sobre família. E havia essas três pessoas interferindo em minha vida. Eu não sabia mais como agir diante disso. Eu era uma nova eu. Uma humana perfeita.

A garota novamente olhou para mim, sorridente. Eu não entendia aquilo! Nada disso fazia sentido.

Senti a adrenalina percorrer o meu corpo, as pontas dos meus dedos pulsarem, meus ouvidos zumbirem. Eu tinha que fazer algo! Eu tinha que acabar com aquilo.

-Por que você tanto sorri?! – gritei.

Ela parou de sorrir, olhou para seus pais que no segundo seguinte sumiram e então ela caminhou como se fosse uma adulta e sentou-se no chão, rindo. Ela não parava de rir, que chegou a chorar. Ela abaixou a cabeça, olhando para o chão. E continuava a chorar, sem rir desta vez.

Abri a boca para questiona-la, mas ela apenas estendeu a mão para mim, ainda de cabeça baixa. Encarei a sua mão, estupefaça. Depois de algum tempo, eu a segurei. Sua mão era três vezes menor que a minha. Era apenas um bebê, o que tinha haver com tudo isso? Com uma força maior do que ela tinha para um bebê, puxou-me do banco para que eu ficasse sentada a sua frente.

Deixou sua mão cair no chão, ao lado de suas pernas. Ainda mantinha a cabeça baixa e aquilo me irritava. Ela soluçou mais uma vez, e ficou imóvel.

-Vai me dizer porque tanto sorri? – murmurei, depois de um longo silêncio, amarga.

Não me respondeu. Ficou quieta.

-Vai me dizer...

-Não.

-O quê?

-Não.

Ela ergueu a cabeça subitamente, encarando-me. Tinha o maxilar pressionado, estava exprimindo raiva. Respirava e soltava ar, irritada.

-NÃO. – cuspiu.

-Você nem existe. – retruquei, ácida.

Pensei que a garotinha iria chorar, e se desmontar. Mas ao contrário, ela jogou-se contra o chão, acabando-se de rir. Debatia os braços e as pernas, rindo loucamente.

-Não vou aturar uma coisa que nem você... – dei as costas, falando.

-VOCÊ VAI VER, O MUNDO NÃO É COMO VOCÊ PENSA! – gritou, as minhas costas, cortando-me.

Virei-me, cautelosa. Olhei-a com assombro. Como ela sabia disso? Disso que eu tanto tentava falar para...

-ELA! E TANTAS VEZES QUE TENTEI DIZER A ELA: VOCÊ VAI VER, VOCÊ VAI VER... – ela gritou lendo meus pensamentos.

Eu não tinha o que dizer. Isso tudo estava me confundindo... eu não podia voltar a ser aquela menina... aquela que eu fui um dia. Não podia voltar com aquilo. Eu sou mais do que aquela coisa frágil. Sou perfeita.

-Quer? – perguntou-me a menina, diante de mim. Ela abraçava minhas pernas, e sorria. Como nada daquilo antes havia acontecido.

Encarei o que havia em sua mão, e a afastei delicadamente. Ela tinha em sua mão uma casquinha com sorvete de creme.

-Pode ir. – sussurrei, doce. Ajoelhei-me e beijei sua testa. Desta vez, ela chorava tristemente. E tentava impedir que as lágrimas rolassem por seu rosto. Seu sorvete estava caído sobre o chão, derretido.

Seus pais eclodiram atrás de si, cada um com uma mão sobre seus ombros. Ela chorava compulsivamente.

-Por quê? Por quê? — ela esganiçou dolorosamente.

-Pois, agora eu entendi.

-Vai... – soluçou. – doer?

-Talvez sim.

Ela ficou quieta. Abracei-a e limpei o que restava de suas lágrimas. Ergui a minha cabeça para os seus pais, e balancei a cabeça. Era hora deles irem, e eles foram. Com beijos e mimo, deram as costas e andaram até o carrossel, onde a cena se repetiu novamente.

E seria pela última vez.

Sentei no banco, e olhei cada detalhe e cada ação de todos. Desta vez, a cena mudou. As outras crianças, iam sumindo aos poucos e a única que ficava era ela. E por um tempo, o carrossel moveu-se apenas com ela. Depois, de um tempo, seus pais voltaram. E tinham rosto, é claro.

Ao deixarem ela no chão, a cena se paralisou. A mãe tinha os braços em volta da cintura da menina, e tinha um sorriso lindo nos lábios. Estava feliz. E o pai, olhava a cena, com as mãos nos bolsos da blusa, com os olhos brilhantes.

Toquei na mulher, e ela virou-se para mim. Estava chorando.

Depois de um momento, ela me abraçou.

-Filha! – disse em meu ouvido, chorando. Eu não a abracei de volta, mantive-me dura, fria e impassível. Percebendo a minha indiferença, se afastou.

-O que...?

-Você morreu. Era fraca, não sabia viver. Ficou dependendo dele, e morreu por causa dele. Não merecia viver e eu não precisar ver, por isso fugi. E me encontrei, sem a sua ajuda. Adeus. — murmurei toda a verdade para ela. Ela chorava e não acreditava naquilo que eu dizia. Mas, uma mesma vez dito adeus, tinha que partir. Abaixou a cabeça, ao passar direto por mim.

Me aproximei do meu pai, que estava imóvel, olhando a garota que tinha os braços erguidos para o nada. Olhei em seus olhos e toquei seu ombro. Ao me ver, sorriu sem acreditar no que via. Eu, sentia nojo. Automaticamente, afastei-me dele.

-Valerie, minha pequena Valerie! – ele diz, avançando para me abraçar. Dei outro passo para trás, deixando-o cair no chão. Tenta se levantar, mas, arfa em dor. Por cair de mal jeito, havia se machucado.

-Filha, me ajude! – ele olhou para mim, estendendo os braços, em piedade. Não compreendia. Seus olhos me transmitiam dor.

-Você devia sentir muita mais dor, você merece muito mais. Isso que você está sentindo é nada comparado ao que você fez com a vida de outras pessoas. Você destruiu a minha vida, pensei que você era honesto mas, sempre foi sujo, podre por dentro. E isso consumiu você e ela. Não merece qualquer tipo de sentimento. Desejo que esteja morto. Adeus.

Sem qualquer reação, ele sumira.

E agora, faltava a garota diante de mim. Continuava imóvel, com os braços estendidos no ar, sorrindo para o nada. Toquei sua mão. Dei as costas para ela, e respirei fundo.

-Valerie. – a garota sussurrou atrás de mim. E virei para olha-la.

Não era a mesma criança do carrossel. Estava suja, com cabelos até a cintura em ninhos, roupas negras e descalça. Tinha 16 anos, estava com a mesma aparência quando havia sido pega. Seus olhos claros, se destacam contra a sujeira do seu corpo, e me olhava com interesse ao reconhecer.

-Valerie.

Ela deu um passo para frente, com os braços estendidos mas, recuei. Tinha nojo de mim mesma, daquele jeito. Como eu fora estupida, infantil e mimada. Mas aos menos aquela menina burra fez algo que prestava. Ela me deu a chance de me encontrarem. E, depois, encontrei a mim mesma aqui, sozinha.

-Não se aproxime, você está suja! – falei, com repulsa.

Ela abaixou a cabeça, e um soluço ecoou pelo espaço.

-Como você foi fraca... – ela me interrompeu.

-VOCÊ? SOU VOCÊ! COMO PODE FALAR ISSO DE SI MESMA? POR QUÊ? POR QUÊ? – ela explodiu, avançando para cima de mim.

-Você é mimada, uma criança nojenta, detestável. A menininha que queria um final feliz para todo o sempre. A garotinha que queria o papai e a mamãe juntinhos...

-Está mentindo para si mesma! ESTÁ FALANDO ISSO POR QUE NÃO TEM OUTRA VIDA!

-Como? Vou mentir como? – ri alto, rindo de sua cara chorosa. – Só de olhar para essa sua cara de suja, vejo...

-MEDO! VOCÊ TEM MEDO! MEDO DE SI MESMA! – ela segurou meu braço, puxando-me para si. Ficamos cara a cara, encarando uma a outra.

-Você quer mesmo isso? – sussurrei para ela. Ela mantinha o rosto erguido, firme, enquanto deixava as lágrimas escorrerem.

-Sim, você também quer.

Apenas com o olhar, concordamos. Sinto muito, Bron...

Num longo silêncio, nos afastamos. Ficamos de costas uma para outra. A outra eu, chorava. E, eu me remoía por dentro. Não devia fazer isso...

-Mas, você quer. – disse com firmeza Valerie. Virei-me para ela.

-Por quê? – questionei, com um nó na garganta.

Sentia-me desarmada. Não conseguia entender o que sentia, o que fazer, o que falar. Lágrimas desceram por minha face, descontrolada.

-Você deixou-me viva. É por causa disso. – disse suave, ao se aproximar de mim. E, desta vez, não me importei que estivesse suja. E meu cercou em seus braços pequenos.

-Mas por que você?

-Se não fosse eu, você não teria sido encontrada. Talvez, hoje, estivesse morta ou coisa pior...

-Mas eu disse tudo aquilo para você. De ser suja, mimada...

-Shh... eu sei. Você está assustada.

-Estou?

-Muito.

E voltei a chorar. Depois de algum tempo, ela me ajudou a levantar e me levou até o carrossel.

-Não, não me leve lá... – implorei, tentando fugir de seus braços.

-Vamos, por favor! Você quer, claro que sim!

-Não, não quero... – tentei lutar com ela, mas conseguiu me levar ao carrossel. E ao nos aproximarmos, o carrossel voltou a girar. Nos sentamos, admirando os cavalos vazios girando.

Ficamos em silêncio ouvindo a música tocar pelo carrossel. Agora, eu percebia em como era lindo o carrossel. Depois de tanto tempo aqui, eu não conseguia me concentrar na beleza e delicadeza da daquele em si. Sempre tinha o objetivo de saber quem era aquelas crianças, e seus pais.

-Você é forte. – disse Valerie, quebrando o silêncio.

-Você acha?

-Sim. – ela suspirou, ainda olhava para o carrossel. – Você disse a verdade para o papai e a mamãe, apesar de tudo.

Respirei fundo e virei-me para ela. Ela não me olhava, ainda admirava os cavalos que giravam e giravam.

-Eles precisavam ouvir aquilo de mim. Me fizeram sofrer, me julgavam como apenas uma criança, indefesa, que podia ser disputada por um juiz e não como um ser humano, fruto do amor deles, filha do mesmo sangue, se queria aquilo ou não. Com quem queria ficar.

— Você foi sincera do fundo de sua alma.

-Me olhe, por favor. – murmurei, implorando por seu olhar. E, lentamente, virou o rosto para mim.

Desta vez, estava limpa, arrumada, e deslumbrante. Usava um vestido azul-bebê, sandália vermelha brilhante, e uma longa trança amarrada por um gigante laço vermelho. Seus olhos azuis sorriam em conjunto do seu sorriso, nos lábios. Parecia um ser angelical.

-Mas você precisa ser sincera comigo, Valerie. – disse Valerie.

-Mas... não estou sendo? – deixei escapar, confusa.

-Sincera sobre mim.

Perdi a fala. Não tinha como falar. Mas, o que exatamente ela queria saber?

-Não tenha medo. Apenas fale. – murmurou, doce. Esticou seu braço e com sua mão, pôs sob a minha. E com o olhar, me dizia: Vai, vá em frente.

-Tudo bem. – consenti.

-Vamos começar. – sorriu. – Você teve muito medo quando veio para cá, não é?

E lembrei-me de tudo que passei.

“Fazia há muito tempo que eu não sabia mais como era sentir medo.

A rua parecia anormal ao constante movimento de dia, o que não era agora. Mas, também não tão quieta. E se não fosse pelo som da minha respiração e dos passos dos estranhos que me seguiam, eu diria queria uma noite daquelas bem tranquilas. Eu não sabia exatamente quantos eram; se eram três ou quarto. Eu não sabia e isso terrivelmente me assustava.

Não importava se era de dia ou noite, ninguém reparava em mim. E eu adorava isso. Não queria mais que ninguém ligasse para mim, mas, por algum motivo, nesta noite, essas pessoas repararam em mim. E eu estava com medo e não com raiva de terem reparado em mim.

Eu não sabia quantas horas eram, nem o porquê eu querer me importar com as horas neste exato momento.

A adrenalina corria por minhas veias, por cada pedaço da minha carne dizendo apenas uma ação: Corra.

Nem quando eu corria para escapar das minhas vítimas depois de tê-las roubado eu sentia tal medo como agora. A sensação era diferente. Antes; de diversão e agora: medo. Um medo que parecia ter criado garras, que arranhavam minha garganta para que eu seguisse em frente.

As lojas da rua estavam silenciosas, me deixando-me num estado de loucura. Eu tinha que fugir, não queria que eles me pegassem eu nem sequer queria saber o porquê deles estarem atrás de mim. Eu só queria sossego para ter a minha vidinha que eu mesma proporcionei ao fugir de casa.

Virei para trás para olhá-los e tropecei por um momento, o que me fez perder o equilíbrio, mas, mesmo com a fina camada de neve na calçada consegui a me erguer e voltar a correr.

-Ela vai entrar no beco, droga! – gritou um deles, talvez o primeiro homem que me vira momentos antes da perseguição se iniciar.

Olhei para o beco a minha direita e antes de entrar, olhei de relance para eles. Três homens de terno negro corriam furiosamente na minha direção. Soltei uma fumaça no ar e corri para o fim do beco e vi uma grande grade e uma lixeira azul-escura ou verde, o breu não deixava identificar sua cor, próxima à grade.

Eu poderia empurrá-la até a grade.

Apressei mais os passos e corri até a lixeira. Fiquei de costas para ela e comecei a empurrá-la. E cada esforço que eu fazia, meus dedos reclamavam em pura dor.

Vamos, vamos. Apenas agüentem.

Quando eu percebi que havia empurrado uma grande parte dela rente à grade, um dos grandes homens entrou no beco. E estava a cada segundo mais perto de mim. Não havia como eu continuar empurrando, se eu a empurrasse até o meu objetivo, ele já teria obtido o seu. E nada me faria parar até eu ter o que eu queria.

Afastei da grande lixeira, e próximo a mim um gato no breu chiou por eu estar invadindo em seu território. Então, eu fiz o mesmo.

Virei para a grade e comecei a escalar, antes que ouvir um resmungo atrás de mim. O homem.

-Droga de gato.

O mesmo homem da voz de antes.

Eu podia ter odiado o mesmo gato segundos antes, mas, agora eu começara a criar um sentimento de simpatia.

Um depois da outra, subia com minhas mãos pela grade. Só faltava só mais um pouco. Mas, algo rígido e que me puxava na direção contrária fazia com meus dedos tentassem continuar, mas, a força contrária os impedia.

Olhei para meus pés e vi uma grande mão em meus tornozelos. O homem havia chego tão rápido e eu nem sequer havia ouvido ou sequer perceber.

-Te peguei garotinho. – ele sorriu, puxando-me. A raiva me consumiu.

-Eu acho que não! – gritei, levantando a outra perna em seu rosto. Em seguida, um som como um cleek fez ele me soltar e cair no chão, cobrindo o rosto, em dor.

Talvez eu tenha quebrado seu nariz. Sorri. Perfei.to.

Voltei a minha curta escalada e finalmente saltar para o outro lado. A dor quanto o impacto foram instantâneos. Desequilibrei-me ao levantar e em resposta, meu pé gritou em dor. Voltei ao chão involuntariamente.

Lágrimas vieram aos olhos. Eu não iria conseguir. Por causa de um maldito pé!

Você é durona, querida, dissera minha mãe, num dia que eu havia me livrado de alguns meninos na escola. Ela aprovara a minha reação de ter pisado no pé de cada um e depois, acabar na diretoria. Minha mãe ficou do meu lado não importasse os argumentos da diretora do nariz grande e voz rouca.

Tenho certeza, que depois a minha fuga, até ela ficou meiga e doce e inesperadamente, dissera palavras doces sobre a minha pessoa para as outras pessoas. Eu não compreendia o porquê das pessoas mudarem de opinião após a um acontecimento igual ao meu. Como a minha mãe dissera uma vez ao meu pai: Você diz para o seu bem estar pessoal ou para algo maior que você.

E foi depois dessa discussão que ele arrumou as malas, virou as costas para a minha mãe e eu, e foi embora. Como se nunca fossemos importantes.

Tanto para o meu pai e para diretora: aquilo era o mesmo para os dois.

-Deem à volta, e rápido! E a cerquem! – disse o outro, soltando um belo palavrão.

Respirei fundo e corri, não sei com quais forças, para fora do beco e indo parar em outra rua. Tão silenciosa quanto à outra.

E para a minha sorte, a minha frente, havia um beco. E sem grade. E foi para lá, mesmo mancando, respirando fundo para tentar não sentir dor, que a segui encostando-me a parede gélida.

Ouvi os passos dos outros homens cercarem a rua atrás de mim, subitamente cessando.

Ofegante, esfreguei o meu pé que subiam uma dor do começo dos dedos até o tornozelo.

-Você está o vendo? – perguntou.

-... Não.

-Vamos procurá-la debaixo dos carros, entre eles, em todos os lugares. E rápido.

-Sim.

Eles não me viram entrar neste beco. Sorri e senti meu coração parar de acelerar. Eu estava livre e eles nunca me pegariam.

Sentindo-me melhor, e a dor quase inexistente, comecei a andar para o fim do beco e sem perceber, cai. Havia esbarrado em algo que eu não conseguia ver, mas ao caírem e espatifarem entendi o que eram. Garrafas.

Ao me levantar, toda a adrenalina voltara a tomar conta de mim. Senti outra dor nas mãos, e nem precisava vê-las para perceber o que era. Cacos de vidro.

-Você ouviu? – disse o primeiro homem, esperançoso.

-Sim. – disse o outro, em êxtase.

Como podiam ficar em êxtase por ficar perseguindo uma garota que nem a conheciam? O que uma garota como eu faria para eles? Que benefícios eu tinha? Na verdade, as respostas só estavam com eles e eu não queria da maneira que eles que queriam.

Voltei à mesma adrenalina que eu pensara que não voltaria a ter; o mesmo medo, o sentimento de perda de tudo, a perda... de eu mesma. Não sabia o porquê, mas, esses homens não iriam me fazer bem.

Na maioria das pessoas de hoje, só tinham intenções más. E esses, tinham essas intenções.

Voltei a correr, sem olhar para trás, e voltei a esbarrar em algo que não parei para ver e continuei a fazer o que meu corpo mandava. Correr, correr e correr.

Á minha direita havia uma grande avenida, iluminada. Só que vazia. E de frente com o beco, um grande parque.

O parque era perfeito para a minha situação. Suspirei e corri, mesmo com o meu pé latejando para que eu pudesse dar um jeito de parar de doer. Mas, naquela situação não tinha como dar jeito ou sequer mesmo parar. Parar seria a pior coisa que eu fizesse.

-Ali! Ali! – gritou um dos homens, a me ver passar por de baixo do poste iluminado. Porque eu havia feito isto!

Corri o mais rápido que pude e cheguei à praça pavimentada e próxima aos bancos, escondi-me atrás do grande caule da árvore, parando e respirando.

Só havia o sussurrar das folhas nas árvores, como se elas estivessem torcendo para que eu saísse ilesa disto tudo. Ilesa, não, mas, viva sim.

E quando eu estava pronta para olhar na direção que os homens estavam me seguindo, um borrão preto me cercou e me jogou contra a grama.

-Peguei! Agora, está sem saída, moçinha. – ele disse, olhando-me diretamente nos olhos. Era um homem de pele morena, olhos pequenos, mas, tão selvagens como uma pantera negra e uma cabeça careca e lustrosa. Sua boca era o dobro da minha, assim como seu nariz.

Um choramingo escapou de meus lábios e sem seguida, um grito.

-Socorro! Socorro!

-Ah, se eu fosse você não faria isso, moçinho... – ele desvencilhou-me por um momento e pude libertar um dos meus braços, e deixei meus dedos procurarem por algo na grama.

Ele botou a sua mão sobre minha boca, antes que eu pudesse dizer que era menina e não um menino! Eu estava tão feia, imunda e irreconhecível para ser chamada de garoto?

-AH! – gritei ao sentir algo em minha mão, e então o homem seguiu a minha mão segurando o quer que fosse e em seguida, atingi-lo na testa. Uma pedra que não cabia em toda a minha mão, mas, eu havia conseguido ter levantado.

Ele me olhou antes de fechar os olhos e ficou inerte sobre meu coração. Ao mesmo tempo, eu conseguia ouvir mais passos rentes a nós, e então libertei o meu outro braço que estava preso em seu peito, e o empurrei para longe de mim, mesmo que os cacos entrassem em minha carne e deixassem gotas de sangue cair em seu terno.

Ao me levantar, segui pelo túnel de árvores e voltei a correr. O túnel estava em pleno breu e então era difícil correr sem tropeçar ou de dar de cara com alguma árvore. Com as mãos fui tateando o nada para saber onde eu estava assim como os passos atrás de mim parecia fazer o mesmo.

Eram passos confusos e irritadiços. Sorri ao imaginar a irritação emanar deles enquanto tentavam encontrar o moçinho. Soltei uma risada, o que fez tudo paralisar.

Quando acho que vou dar um jeito eu mesma, me enfio em cada situação que piora. E me traz mais desafios para fugir dela.

Enfim, eles haviam me achado.

-Ele está aqui. Corram.

Corri igualmente a eles, mesmo aos tropeços, com as dores latejantes e todo o resto. O túnel de árvores parecia infinito.

Não sei quanto tempo havia se passado desde meu riso, só me lembro daquele túnel de árvores até virar a esquerda, depois a direita e seguir em frente até que eu em um momento no fim da virada para a direita, encontrei uma brecha nas árvores grande o suficiente para que eu passasse.

Atrás de mim, lanternas surgiram. Senti-a tocar em minhas costas antes de entrar na brecha. Ouvi resmungos repletos de palavrões e voltei a focar no caminho a minha frente.

Ultrapassei as árvores mordendo os lábios no processo, mas mesmo assim avançando, aguentando cada ferimento novo em minha pele e me vi no outro lado do parque. Saindo diretamente rente a uma grande fonte acinzentada que irradiava luz prateada da lua nos movimentos constante da água correndo.

A água era tão reconfortante, tão apaziguadora. Mas, por mais que ela me fizesse-me sentir segura, essa segurança que me confortava não faria os meus perseguidores pararem até não conseguirem me avistar.

Era uma bela fonte, não tinha como negar. Ocupava a maior parte do chão ao meu redor, e até as árvores pareciam pequeninas comparadas à beleza tão simples dela. Sua circunferência acinzentada se misturava ao mesmo material do chão, e assim chegando a poucos metros de altura para mostrar a sua poderosa beleza e superioridade.

Olhei para os dois lados, a procura de mais homens e nenhum sinal deles. Suspirei, aliviada.

Aproximei da base da fonte e comecei a retirar os pedaços de vidros em minhas palmas, segurando os gritos. Ao conseguir tirar todos, lavei ambas as mãos e também meus recentes machucados.

Encostei-me a fonte, e deixei-me escorregar até o chão. Aliviada.

-Enfim, livre. – falei para eu mesma. Balancei a cabeça, em concordância.

Peguei um dos caminhos de pedra próxima a fonte e antes de começar a caminhar, sorri para a fonte, agradecida. E então, voltei a caminhar.

Passei por outro caminho, voltando a passar por outro túnel de árvores. Mas, desta vez, até assobiando enquanto caminhava por aquele breu.

Ao chegar ao fim daquele túnel, me encontrei em outra parte do parque. Realmente, este parque parecia me impressionar com tamanha vastidão.

Cocei a cabeça, olhando para os lados em busca de uma saída. Olhei a esquerda e vi uma rua, a rua da sorveteria onde eu estava antes de tudo acontecer. Antes de me virem e me perseguir.

Eu sabia que estava a salva então apenas segui a esquerda e andei até a sorveteria. Ao chegar à porta, vi um pequeno quadrado escrito “FECHADO” e segui em frente. Quando eu era pequena, na verdade, mais jovem, eu e minha mãe vivíamos vindo para aquela. Como ela mesma dizia era o nosso lugar secreto. Nem meu pai ia conosco.

Era um momento tão doce, pois, quando víamos para cá nós nos sentávamos, comíamos sorvete, falávamos tinha o que vinha a boca e depois saiamos satisfeitas. Tanta em fome quanto psicológica.

Não sei se tinha chances de encontrá-la aqui. Mas, talvez pudesse acontecer isto. Eu sentia falta dela, será que ela sentia a minha? Eu não saberia dizer.

Minha mãe. Marilyn, depois de ter visto meu pai sair de casa e nunca mais dar noticias, a abalou. Fazia semanas que não saiamos juntas, nem que ela sorria que não fazia nada do que gostava de fazer. Aquela não era a minha mãe e meu pai tinha causado tudo isto.

Marilyn tentou encontrar alguém que a completasse como um dia meu pai a completou. Eu mesma a aconselhei, por mais que eu sentisse falta dele, mas, ele nos machucou e não fazia sentido darmos chance a ele tal como ele não a nos deu de voltar.

Quantas noites, ela chegara a casa com homens mais novos do que ela e dizendo que todos era meu pai e nunca mais ousariam de ir embora e nos deixar. Tão tola e eu não acreditava no estado em que ela havia chego.

Meses depois de tentar encontrar alguém para ela, teve a certeza do começo de depressão em que estava se afundando. Tantos remédios para aliviar essa dor, essa perda.

Estou com você, M, eu dizia a ela. E então, ela engolia os remédios. Por mim. E chegara um dia que ela engolira demais da conta, por mim e por ela, e acabara no hospital estando a beira da morte. Era realmente deprimente ver aquela mulher que enfrentou sua família, pois estava grávida aos 17 e ninguém aceitara a sua situação. E que então constituiu sua própria família, jovem demais e mesmo assim conseguiu dar base a ela, junto com meu pai.

E também, a destruiu. Sem um motivo sequer para dizer o porquê. Arrumou suas malas e foi embora, como se não fossemos a sua família importante. Como tantas vezes ele havia dito.

As pessoas fazem promessas, esquecendo-as um dia ou dois, e assim como nunca as tivesse feito. Apenas a quem as ouviu, se lembra. E sorri a cada dia, por lembrar-se daquele gesto tão incomum que as pessoas faziam e que por saber que existia algumas como ele, o que nós achávamos que era, fez. O fazia diferente das outras. Mas, no final, ele era igual às outras. Mentiam, prometiam e quebrava suas promessas e enganava a si mesmo.

Uma brisa leve passou por meu cabelo reconfortando-me, como se soubesse o que eu estava pensando. Ajudando-me a passar por este momento novamente. Uma lágrima caiu por minha bochecha e atingiu o chão, tal como a promessa do meu pai.

Sua promessa era como vidro, se fosse atingida, quebraria e se espatifaria pelo chão. E ele fez a mesma coisa com as pessoas que ele dizia ser importante para ele. Por mais que minha mãe tentasse por nós duas reconstruir aquela família, todo aquele vidro permanecia naquele estado. Quebrado, jogado por todos os lados.

Respirei fundo, esfreguei meus olhos antes que mais lágrimas viessem. Não havia o porquê de eu querer reviver aquela vida que eu fiz questão de deixar para trás. Eu era ninguém, não mais Valerie, a garotinha filha da Marilyn da casa ao lado, a tal mãe problemática. Não mais.

Eu fiz questão de ser ninguém e me orgulhava. Não queria ser mais a garotinha que tentava ajudar a mãe e que cada vez mais se afundava em problemas e amenizá-los.

Apenas de imaginar aquela sorveteria me dava náuseas, ódio e resolvi erguer meu queixo e continuar andando. Não queria mais ver aquele lugar de novo. Nunca mais.

Eu vivia tão perto daquela antiga vida que deixei para trás, e passando por aquela rua e eu me sentia a mesma menininha que antes. Eu tinha que deixar isso para trás, de vez. Simplesmente tomar ruas diferentes e sumir.

E foi o que comecei a fazer.

Ao ver uma esquina na rua ao lado, corri até estar nela e suspirei satisfeita. E em seguida ao fim da rua, peguei a esquerda e depois à direita.

Novas ruas, novo rumo, nova vida. Eu era definitivamente, ninguém.

Veio-me a mente, os homens. Um arrepio ultrapassou o meu corpo, fazendo-me ficar alerta. Dei uma rápida olhada para os dois lados e não vi nenhum sinal deles a vista. E eu era grata.

Não conseguia encontrar uma resposta para aquilo tudo que acabara de acontecer, mas, agora parecia que havia acontecido há anos. E o medo, parecia contrariar.

Meu estomago roncou. Eu não me lembrava quanto tempo fazia que eu houvesse comido desde hoje. E pelo jeito, parecia que foi muito cedo e pouco. Não eram todos os dias que eu chegava ao ponto de ter fome a noite.

A fome não conseguia manter M longe de minha mente. Um vazio surgira em meu corpo, em meu coração. Era como se tudo isto... fosse errado. Eu não sabia se ela estava bem, se ainda estava viva!

Olhei para a rua para trás, na chance de que ela aparecesse, corresse até mim e chorasse. Iríamos até a nossa casa e tomaríamos um chocolate quente, como quase todas as noites nós fazíamos.

Esses homens me perseguindo poderia ser um sinal, os dos melhores. Eles foram à única oportunidade depois de anos de mostrar o quanto eu havia perdido da minha vida. Tudo o que tinha feito com M, devia ser demais para ela.

Chegou um dia, em que M estava de folga e estava sentada em nosso sofá surrado esverdeado e a companhia tocou. Eu estava desenhando na cozinha e não levantei a tempo de abrir a porta, mas, ela foi rápida. E ao abrir, nós tivemos uma grande surpresa.

Era meu pai. Bem arrumado, e parecia ano mais novo do que Marilyn. Era impressionante e repulsivo ao mesmo tempo. Fazer M sofrer de novo? Não era uma ótima ideia.

Ela ficou paralisada com a mão na maçaneta e ficou tão pálida quanto eu. Antes que eu a ajudasse, meu pai já a estava ajudando. Quando recuperou a cor e as forças, eles discutiram. Quase a noite toda. Sobre a separação, sobre ela ter a depressão, a nossa vida sem ele e como ele tinha a coragem de voltar como se tivesse saído ontem e voltado hoje. Ninguém conseguiu ter uma boa noite de sono.

Ele dormira com a gente aquela noite. O começo da manhã foi tranquila, M tomava o seu café puro e eu comia os pedaços de bacon vencido que ela fizera. Depois de me arrumar e receber o beijo dos dois na testa e abri a porta, ele diz:

-Vou recorrer no juiz para a guarda dela. Eu tenho uma família agora, vou me casar. E amo Valerie, me desculpe não a suporto com você nesta vida em que vive.

Eu estava atrasada e não tinha como espernear e dizer alguma coisa, eu tinha que ir para a escola.

Como ele podia dizer ‘me desculpe’ ao tentar tirar a filha de uma mãe? Não havia desculpas para isso! Porque ele não simplesmente podia ir embora e nos deixar em paz? Depois de tudo que ele havia feito ele queria mais? Era impossível. Eu não consiga acreditar que eu havia amado, tanto quanto a M, este homem.

E depois da escola, eu fugi. Não queria que meus pais disputassem a minha guarda, eu queria ficar com M e não sair de casa para ir morar em outra, conhecer a nova família dele e por vontade dele, tentar ser da família e fingir que M nunca existiu.

Se meu pai descobrisse sobre as recaídas de M, provavelmente ganharia a minha guarda. Diria que ela era incapaz e problemática e assim o juiz teria terminando um de seus casos e me enviaria para a nova casa, a nova vida que ele acharia que seria melhor. E se o juiz desse essa chance a ela ao saber que ele teria saído de casa sem mais e nem menos? Ela ganharia o caso?

Depois de tantos anos, eu não sabia por que só agora eu havia parado para pensar nisto. Por causa daqueles homens de negro? Porque não antes?

Na época, eu tinha 10 anos? Eu não conseguia lembrar. Faz tempo em que sai daquela escola e nunca mais segui o trajeto de volta para casa que me era rotineiro. Talvez, agora, eu tenha 15 ou 16?

Dava para ver as diferenças no meu corpo no de antes e no de agora. Eu crescera, estava mais alta, meus cabelos chegavam a cintura, mas, infelizmente estavam nós e ninhos, ganhara curvas e estava mais feminina e não aparentava ser uma garotinha como naquela época.

Eu podia voltar, vê-la e pedir desculpas pela minha loucura. Nós podíamos ser uma família e ninguém poderia nos impedir. Um grande sorriso formava em meu rosto, um sorriso tão verdadeiro que eu tinha vontade de ficar assim pelo resto de minha vida. Agora em diante eu teria uma vida.

Então, olhei para todos os lados a procura dos homens. Não havia nenhum sinal deles, mas mesmo assim eu quis arriscar. Não me importava se me seguiriam, eu chegaria lá e eles não poderiam fazer nada.

Andei de voltar pelas ruas em que eu corri daqueles homens de negro e não vi nenhum sinal deles.

Depois de alguns minutos, cheguei a minha antiga rua e ao meu antigo prédio. Olhei para o prédio, admirada. Enquanto eu via o ar soltar de minha boca, branco desaparecer na noite fria. E, agora, percebi que a temperatura havia abaixado.

Ainda ofegante, subi as escadas, silenciosa. Eu tocava o corrimão, as paredes, em êxtase. Em lágrimas. Eu não podia acreditar. Eu estava em casa... novamente! Depois de tantos anos!

Cheguei ao terceiro andar do velho prédio avermelhado, e bati na porta de número 12. Esperei um momento. E estava inquieta, louca para ver M diante de mim, mas ninguém atendeu. Então, bati novamente. E depois, depois e depois.

Soltei um grito ao ver ao meu lado, uma mulher idosa, com uma cara amassada e cabelos grisalhos, olhando-me com cautela.

-Que é quer? – ela perguntou, irritada.

-E-Eu queria ver a M...

-Marlyin? Você está brincando! E ainda mais nesse horário, garoto?!

-Não, eu...

-Ah, deixe-me ver. – ela abruptamente mudara o seu tom de voz. Parecia algo como curiosidade. Não me afastei, pois, ao ficarmos cara a cara, nós duas nos reconhecemos.

Por que eu não tinha me lembrado! É Claro! Depois de tanto tempo, também, ela envelhecera e, eu ficara suja. Logo, D. Carmen estava me levando para dentro de sua casa, com uma cara de espanto e surpresa. Não sabia se ficava feliz ou de boca aberta para admirar-me.

Carmen ficava comigo em alguns dias e em breves momentos, quando mamãe tinha que sair para comprar algo, ela não me levava. Então, deixava-me com Carmen, uma bondosa mulher que me acolhia com sorrisos e doces.

Ao entrar, fui surpreendida por um cheiro delicioso. De biscoitos recém feitos. E a minha barriga roncou, fazendo com que D. Carmen, ao fechar a porta, sorrir para mim e correr para a cozinha.

Não disse nada, simplesmente deu as costas e enfiou-se atrás da bancada verde ao lado da sala de estar, batendo pratos e copos. E olhei para cada canto em sua casa. Diante de mim havia uma poltrona amarronzada, velha e mofada, com uma mesinha ao lado e um telefone sobre o mesmo. No chão, um tapete grande, onde um preguiçoso gato alaranjado, descansava. Uma televisão ao lado do sofá verde, do outro lado. Algumas estantes com fotos e coisas jogadas, coisas antigas. E ao meu lado direito, a bancada que estava bem iluminada. Era de azulejos esverdeados e brancos, Apenas era possível ver os armários velhos de cor branca, pois da altura da bancada só se via o topo da cabeça de Carmen. E defronte com a bancada, uma porta entreaberta para um quarto escuro. Que devia ser o seu quarto.

-Sente-se, querida. Sente-se. – insistiu Carmen, sem olhar para mim.

-Mas, estou suja...

-Não me importo, querida. Eu ainda não acredito! – disse enquanto mexia em algo na cozinha.

Me aproximei cautelosa para o sofá, e o gato mexeu suas orelhas ao perceber que havia alguém próximo. Diminui o ritmo dos meus passos, mas mesmo assim, abriu seus olhos e fuzilou-me. Prontamente afastou dali e sumiu dentro do quarto escuro.

-Não se importe com o Bichento, ele normalmente não gosta de visitas. – disse, ao sair da cozinha. E trazia nas mãos um prato recheado com biscoitos e um copo de leite.

E, aos meus olhos visualizarem aquilo tudo, logo ergui-me num segundo e estava devorando. Eu não comia faz muito tempo, percebi. E, Carmen, bondosa como sempre foi, compreendeu e esperou que eu acabasse tudo para começar a falar.

Suspirou e tirou o prato e copo vazio, olhando para mim.

-Onde você esteve metida, menina? – ela perguntou, pasmada.

-Bem, por ai. Morando na rua.

-Por quê? – ela esganiçou, vendo o meu estado. – E valeu a pena, menina?

-Eles queriam disputar a minha guarda, Dona Carmen. – respondi, com a cabeça baixa para esconder os meus olhos se enchendo de lágrimas.

-Você ainda lembra meu nome?

-Sim.

Ela ficou quieta. Olhou para o meu estado e torceu o nariz.

-Ficamos tão preocupados, menina. 6 anos, você desapareceu por 6 ANOS! Sua mãe sofreu um bocado...

-E ela? – levantei a cabeça para ela, com o coração na boca, tremendo-me toda por ouvir algo relacionado a minha mãe.

-Ah, menina... Bem, você sumiu, ela havia piorado... Me desculpe, mas, eu sinto muito... ela morreu, se matou para falar a verdade. Não aguentou te perder, dias e dias se passaram sem notícias de você, seu pai casando-se com outra... ela não aguentou. Que Deus a tenha.

A primeira coisa que me atingiu, foi o choque. Eu não podia acreditar. Minha mãe, Marlyin, minha M, morta? 6 anos haviam se passado, eu havia fugido e ela... morta? Depois de tudo que passei esta noite, pensei em voltar para ela, para a minha mãe, ela.. Está morta. Não podia ser possível.

Aqueles homens foram um sinal. Meu deus...

As lágrimas vieram sozinhas, antes que eu pudesse interrompe-las. E, Dona Carmem, aproximou-se de mim, me cercando em seus braços.

-Oh, querida... eu sei, eu sei... não chore, não chore. Ela está em paz. – ela afastou-se. – Quer um copo de leite, para melhorar? Sim?

Olhei-a e acenei, voltando a chorar. Ela lançou-me um olhar de pena e voltou para a cozinha.

Eu não podia acreditar. Minha mãe, morta? Depois de tudo isso, para nada?

Aqueles homens... é isso. Eles.

Olhei para a cozinha e vi Carmen pegando o leite da geladeira e logo levantei-me. Dei uma olhadela para Carmen e voltei para a porta, silenciosa. Abri lentamente a porta e corri o mais rápido possível.

Desci todos os andares e corri para a direção oposta do prédio. E enquanto eu corria, vi que tudo que eu fiz, eu havia estragado a minha vida, a de minha mãe e de meu pai. Acabei com tudo!

6 anos haviam se passado tão rápido que eu nem percebera! Eu havia me tornado uma garota de rua, com fome, suja, como se fosse ninguém! E minha mãe, louca por me achar, qualquer notícia sobre mim, simplesmente se matara! E como o meu pai deve ter reagido? Agradecido por eu ter sumido? A menina da primeira família a menos, sem outros para cuidar, não? Pode ter sido...

Parei de correr, pois estava ofegante. E dei-me conta de uma coisa, que fez um arrepio passar por toda a minha espinha. Eu estava no mesmo becos em que esbarrara nas garrafas e que por pouco eu não conseguira fugir dos homens.

Não...

Vi diante de mim, o mesmo homem negro, encarando-me, triunfante. E antes que pudesse reagir, percebi que estava congelada no lugar. Não, eu tinha que fugir. E, o mais rápido possível.

-Pegamos. – ele disse para alguém no rádio em seu ombro.

Automaticamente, a adrenalina percorreu o meu corpo então fiz o que ela me ordenava: fugir. E ao virar as costas para ele, trombei com alguém. Era um homem também de preto, que me segurava pelo pescoço.

-Me solta! – gritei, debatendo-me contra os seus braços.

E com um único movimento, jogou-me dentro de um lugar escuro. Era uma van. Gritei e corri para fora, mas, algo forçou um pano sobre a minha boca e tentei alcançar o homem que me agarrara, para bater nele. Mas, em questão de segundos, minha visão embaçou e perdi toda a força, e adrenalina morrer dentro de mim.

As roupas, os rostos sumiram. Tudo ficara negro.

-Você estava aterrorizada. – ela concluiu, sem sorrir.

-Eu era uma criança.

-Sim, e com razão. Perdera a sua mãe em anos e só soubera 6 anos depois. E quando quer voltar para ela, ela não vive mais. E, para terminar, é capturada.

Não murmurei nada. Tudo aquilo havia voltado e por um segundo, senti-me como uma criança, chorosa por tudo isso ter acontecido. Eu sentia o medo, a fome, a sujeira impregnado em mim como eu sentia quando era uma adolescente. Aquela adolescente mimada, infantil e burra.

-Que bem, continuo a ser. Diante de você. – ela disse, seca. Lembrando-me que podia ler meus pensamentos.

-Estou sendo sincera. – relembrei-a, irritada.

-Eu sei, me perdoe.

Ficamos em silêncio. O carrossel sumira. E, aquilo, assustou-me. Estávamos numa sala branca. A cena mudou novamente. E como eu não havia percebido?

-O carrossel era a sua antiga vida. Agora estamos num patamar mais elevado na sua mente.

-Qual seria?

-A parte mais dramática de quando você viera para cá. Sabe onde estamos...

-Sim.

-Quer me contar? – ela disse, mais ordenando do que simplesmente perguntando inocentemente se eu queria contar. E, aos poucos, o começo da minha nova vida, foi voltando.

Acordei e vi-me no escuro. Eu podia abrir ou fechar os olhos, era a mesma coisa. E a primeira coisa que invadiu a minha mente foi: homens de pretos. Sim, eles haviam conseguido me pegar. E, agora, eu estava aqui... viva. Mas, que utilidade eu teria? Eu não tinha ninguém, não tinha nada. E, como que não fizeram nada comigo?

Levantei-me, tateando pelo escuro algo para me apoiar. E mexendo as mãos pelo ar, procurei por algo e bati em algo resistente e gélido. Comecei a percorrer a estrutura gelada e percebi que era uma porta.

-ALGUÉM! – gritava ao bater contra a porta, fazendo um som alto. – ME AJUDE! ALGUÉM? OLÁ?

Minha voz parecia ecoar pelo espaço. E não houve nenhuma resposta.

Depois de algum tempo, batendo contra a porta, exausta e sem fôlego, escorreguei até o chão, e fechei os olhos.

Uma luz penetrou por debaixo das minhas pálpebras ainda fechadas. E fui obrigada abri-las. Mas, ao abri, soltei um grito e cobri meus olhos. Era uma luz branca, incrivelmente forte que ao simples abrir os olhos, senti meus olhos arderem. Senti as lágrimas escorrerem por meu rosto.

Tateei o espaço a minha volta com as minhas mãos, de olhos fechados, para tentar entender onde eu estava. E senti novamente a porta gelada ao meu lado. Apoiei-me nela e consegui ficar de pé.

Subitamente, fui rodeada por uma voz, que vinha de algum ponto lá de cima:

-ATIVANDO GÁS EM 10...

-O quê? – gritei, desesperada. Tentei olhar novamente para o lugar onde eu estava à procura de uma saída, de algo para fugir. Mas, a luz obrigou-me a fechar os olhos. Gás?

-9...

Tateei o lugar a minha volta e senti que a porta não estava mais próxima a mim...

-8...

Tateei com mais agilidade e desespero algo para me apoiar, mas senti algo duro bater contra o meu pé, fazendo-me cair no chão. Soltei um grito de dor...

-7...

E, instintivamente abri meus olhos para ver o que acontecera. Mas, a luz cegou-me novamente...

-6...

Eu não sabia o que pensar, o que fazer...

-5...

Senti o cheiro de sangue próximo a mim, e logo pensei que algo ruim iriam acontecer.

-4...

Estava próximo, eu sentia...

-3...

Eu estava morrendo...

-2...

Então seria assim? Morreria sem saber o porquê?

-1...

Me perdoe, mamãe...

-0...

Por todos os lados, ouvi o barulho de gás sendo pressionado ao meu redor. Logo entrou por minhas narinas, um cheiro indescritível. Comecei a tossir, logo em que a minha garganta queimava em dor. E antes mesmo que eu pudesse levar meus braços para minha garganta, para impedir, fui sentindo-me mais pesada, sonolenta. Tossi mais uma vez antes de perder a consciência.

Lembro da sensação de viajar no carro. As risadas dos meus pais, felizes e lançando olhares radiantes e breves em minha direção. E como eu retribuía seus mimos com meus risos angelicais. Quantos anos eu tinha? 6 ou 7 anos? Não sei dizer... Mas, lembro da sensação quando o carro fazia a curva na autoestrada, quando nossos corpos iam de um lado para o outro, acompanhando o trajeto. Sentia minhas entranhas virarem do avesso, e ficarem leves, elevando-se centímetros acima do meu abdômen, como se não somente elas, mas sim a minha alma, também se deslocasse. E eu ria, e meus pais riam de mim. Era tão gostoso, tão... igual ao que eu sentia agora. Sentia-me indo de um lado para o outro, mas, desta vez, haviam luzes que iam e vinham, cada vez mais rápido sobre meus olhos fechados.

Ouvi passos, rápidos e próximos a mim, apurando mais os ouvidos.

Abruptamente fui pega pelos cotovelos, fazendo-me voltar a realidade. Eu não estava no carro de meus pais com suas companhias, e sim, em uma sala branca imensa, onde tinha duas grandes portas brancas escancaradas, vazia. Duas mulheres vestidas de branco, aparentavam ser enfermeira ou algo gênero, me seguravam, fortemente.

Um rosnado veio do fundo da minha garganta, quando explodi ferozmente sobre elas. Abri minha boca e tentei morde-las, bati minhas mãos em seus rostos e braços, jogando-me contra cada uma para fugir dali.

-QUEM... SÃO... VOCÊS? – rosnei. – ME... SOLTEM!

E nada diziam. Simplesmente ignoravam os meus esforços, arranhões em suas peles, com a cara amargurada, e seguiam levando-me para o chuveiro. Entre empurrões (meus), e marcas avermelhadas (em mim, por cauda da força que me seguravam), se afastaram alguns centímetros de mim, e me jogando para o chão. Soltei um gemido ao bater contra o chão, desajeitada. Meu braço direito e minha cabeça, gritavam em dor. Por efeito das cores da sala e pela queda, mantive meus olhos semicerrados, tentando ver onde estavam as mulheres e o que fariam comigo. Sobressaltada ao sentir mãos fortes e agis sobre minhas roupas, puxando e rasgando-as, tentei lutar contra elas, mas eu era fraca. A minha única arma que tinha era esquivar e gritar para elas, e não havia efeito nenhum. O frio cercou-me em segundos, deixando claramente que estava nua.

Como podiam fazer isto? Nua, diante delas... o que fariam comigo? Estremeci só de pensar no que poderiam fazer comigo, além do frio. Através de minhas pálpebras fechadas, a luz diminuíra sua intensidade e aproveitei a oportunidade e olhar onde eu estava. Olhei rapidamente em todas as direções. Do lado de fora, se via a mesma imagem. Uma imensa sala branca, vazia. Exceto, por uma longa mangueira – também branca -, tendo o seu regulador de pressão de cor bronze, destacando-se no imenso branco. E, ao meu redor, havia quatro mulheres, para no caso de eu ter tentar, novamente, resistir. Mas, um rajada de frio veio em minha direção, estremecendo meu corpo.

-Estou com f-frio... – sussurrei, rangendo os dentes e tampando meu corpo. Senti meus olhos encherem de lágrimas. Me sentia invadida por essas mulheres. Quem elas pensavam que eram? Como podiam...

Soltei um grito, de desespero e sobressaltado, ao ser jogada contra a parede branca. Algo gélido atingia meu rosto, fazendo meu corpo estremecer de frio, era água. Tentei desviar do jato d´água, mas era seguida. Com minhas mãos, loucamente, tentei impedir daquela água sufocar-me. Cuspia e engolia, seguidas vezes. Ao gritar, uma quantidade de água invadia minha boca e ouvia risadas ao meu redor. Eu queria fugir dali, pegar minhas roupas e chorar, em algum canto, sozinha. E o jato continuava a me seguir. Agora, descera para meu tronco e peito. Minha pele sensível, pelo frio e pela pressão, se irritava. O frio me cercavam ainda mais e minha pele, sentindo pequenos choques, pulsava em dor. O jato descia pelo resto do meu corpo, me deixando sem alternativas, eu só podia aguentar. E esperar tudo, enfim acabar. Depois de algum tempo, realmente longo, eu estava gelada dos pés à cabeça, tremendo e rangendo os dentes. O barulho de água cessara, e restara o silêncio. Meus olhos d´água responderam em dor ao força-los em percorrer a sala. Fui cercada com mãos, olhares.

-Fique quieta ou será punida. – grunhiu uma voz grave e rouca de uma mulher, a minha direita. Ela segurou firmemente meu braço, machucando-me. Pelo tom de sua voz, eu tive receio em reagir. Mas, havia três ao meu redor, então o melhor era eu esperar o momento certo para escapar. Elas se surpreenderam ao meu consentimento de ficar quieta, em relação ao eu fizera antes, e fizeram o seu trabalho. Tinham buchas ao meu redor, sabonetes, shampoos e condicionadores. Iriam me limpar e olhei para mim mesma entre mãos ossudas e pálidas passeando por meu corpo. Mordi meu lábio inferior, segurando o choro. Que ponto eu havia chego! Estava imunda, não pareciam uma criança comum. Parecia um animal no qual todos teria medo de se aproximar.

Depois, de ter perdido a noção do tempo que as mulheres estavam ao meu redor, espumando meu cabelo, esfregando minha pele, deixando-a avermelhada e límpida, elas se afastaram. E, depois de alguns segundos, fui pega novamente pelo jato d´água. E, desta vez, não resisti.

-Sente-se. – ordenou uma mulher atrás de mim, após a mangueira ser desligada. Virei-me para ela e vi uma cadeira de madeira, branca, e, dei um passo à frente e sentei. As outras três, logo se adiantaram, e duas delas, puxaram com força meu pés e a terceira, minha mão. Gemi em resposta, e uma mulher encarou-me, irritada.

-Último aviso: qualquer som e será punida, ouviu? – e com raiva, apertou meu dedão do pé. E, segurei o grito na garganta.

-Ótimo. – ela sorriu, amarga. E voltou a sua tarefa.

A mesma mulher atrás de mim, começou a escovar meus cabelos. E como havia tantos ninhos, depois de tanto tempo sem escova-los, ela resmungava e puxava com força o pente contra o meu cabelo. Soltei um gemido, logo todas me encararam. Antes que eu pudesse dizer algo, meu rosto foi jogado para o lado.

-AI! – gemi, cobrindo meu rosto. Meu rosto formigava pelo tapa dado pela mulher diante de mim, a mesma que me dera o aviso. Meus olhos, se encheram de lágrimas, de raiva e dor. Senti meu corpo tremer, de raiva. Fechei minhas mãos em punho, eu tinha que reagir. Não podia aceitar isto!

Meu rosto foi erguido com força, e fiquei diante de olhos cor chocolate, fuzilando-me.

-Entendeu, agora? – ela apertou meu maxilar. – Ou precisa de outra punição?

Mexi a cabeça, em negação, com força contra a sua. Ela afastou seu toque de mim, e disse a mulher que parara de escovar meus cabelos:

-Corte o cabelo dela, na altura da orelha. – ela sorriu, com desdém para mim. – Essa daí merecia mais.

Então todas voltaram a sua tarefa. Depois, de terminada, meus pés e mãos, as outras se levantaram. Ficaram atrás de mim, esperando que a última terminasse de cortar meu cabelo. E, sem me mexer, olhei para o chão, vendo grandes quantidade de cabelo, cair no chão. Meu cabelo que estava antes na altura da cintura, havia sumido. Eu queria tocar o que restara do meu cabelo, mas tinha receio do que a mulher iria fazer se eu me mexesse. E, naquele frio, que eu esquecera, voltei a estremecer.

-Vistam-na. – disse a mulher, entediada.

Fui erguida por mãos, e em seguida envolvida por várias toalhas que secavam todo o meu corpo. E eu, respondi bem ao calor que das toalhas. Depois, fui vestida com um roupão branco, aconchegando-me.

-Vamos.

Ao sair, depois de trancar as portas, as quatros se posicionaram ao meu redor. Duas segurando meus braços e as outras, uma na frente e a outra atrás, e que eu sentia ardentemente o seu olhar. Apesar de tudo que eu passara, sentia-me completamente renovada. Limpa de dentro por fora, mas humilhada por essas mulheres. Então, eu constantemente andava com cautela, sem fazer barulho, com os ombros encolhidos e cabeça baixa, apenas seguindo seus passos. O eco de seus passos, subitamente pararam, o que me pegou desprevenida. Quase trombara na mulher diante de mim, o que fez meu coração parar na boca, de tensão. Olhei ao redor, entre os braços das mulheres, e tentei entender a cena diante de mim.

Novamente, fui segurada e vi uma imensa porta branca ser aberta. E dentro dela, havia bancadas com objetos no quais eu não consegui identificar ao perceber o que se tinha no centro. Uma mesa, iluminada e ao lado, uma bandeja com uma injeção.

-Não... – deixei escapar, desesperando-me.

Lutei contra o aperto delas e tentei fugir, desta vez, perdendo o receio delas fazerem algo comigo. Não, não, não. Algo ruim iria acontecer, e eu não queria aquilo o que quer que fosse. Não tinha mais medo de levar tapas, ou ser despedia, ser humilhada. Aquilo eu podia suportar e não isto.

-NÃO!

Consegui me desvencilhar dos braços delas e agachei passando entre as pernas de uma das mulheres, engatinhei até a porta. O caminho estava livre, eu conseguiria! Algo apertara meu tornozelo, me afastando da porta. Não, eu tinha que fugir! AGORA!

-ME LARGA! – gritei, virando-me de barriga para cima, dando um murro em quem me segurava. A mulher afastou sua mão, olhando-me furiosamente. Se eu não estivesse com medo, ficaria congelada pelo seu olhar, mas, não. Agora havia algo maior do que ela.

Ao lado delas, havia um homem, vestido de branco, olhando para mim, impassível. Mantinha os braços cruzados apesar da cena que acontecia diante de si. Alguém puxara meu braço si, não encarei quem fosse, apenas afastei-a de perto de mim, voltando ao chão. E ao olhar para frente, o homem havia sumido. Fiquei estática no lugar. Para onde ele havia ido?

-Vamos! – triunfou umas das mulheres, com sua cara diante da minha. Antes que eu pudesse empurra-la, quatro mãos me cercavam. Tentei escapar de seus apertos, mas desta vez, elas fincavam suas unhas em minha pele. Deram uma volta, comigo no meio, novamente, e vi o homem ajustando a injeção diante de mim. Balancei a cabeça, em desespero. Ele se afastou, dando espaço para as mulheres passarem e me colocarem na mesa, e amarrando meus braços. Me deixando impotente. Elas sorriram, satisfeitas. E o homem, triunfante, me olhava com interesse. Tentei lutar contra as amarras em meus pulsos, mas era forte demais. Voltei a gritar, em desespero. Em seguida, chutei suas pernas para se afastassem de mim. Não queria saber o que fariam comigo, e não fariam algo comigo. Não mesmo. Elas se afastavam, com desgosto e muita raiva, mas, logo uma delas, avançou para mim, mas, foi segurada pelas outras. O homem a virou e disse:

-Não tome ações precipitadas, entendeu?

-Por que, não? – ela se soltou do seu aperto, e deu uma breve olhada em mim.

-Você sabe o porquê. Precisamos dela normal, não podemos estragar a oportunidade. Quer perder outra chance?

Um silêncio tomou o lugar. E a mulher encarou a todas, ajeitou sua roupa e respirou fundo.

-Tudo bem. Então, o que fazemos para prosseguirmos com o procedimento?

Todos olharam para o homem, esperando sua resposta. Ele, deu um passo à frente, agachando-se diante de mim. Sua cara ficou rente à minha.

-Fique quieta. – disse, apertando meu queixo.

Eu o encarei, e voltei a chorar.

-Por favor, por favor... – implorei, tentando alcança-lo com as minhas mãos. – Não nada comigo, por favor...

-Fique quieta ou terei que tomar alguma atitude, garota – interrompeu-me, pondo um ponto final na situação. E, o modo como me olhara, além do arrepio que percorreu o meu corpo, eu iria ficar quieta. Não faria nada além de choramingar, e se eu chorasse faria o mínimo de som possível.

As mulheres logo me carregaram facilmente, até ficaram surpresas.

Eu não tomaria nenhuma atitude, pois percebia que não tinha saída. Sentia que aquilo tudo não significava boa coisa e, se eu tomasse alguma atitude errada, eles fariam algo realmente irreversível comigo. A minha morte era a mais provável.

Então o homem ergueu a injeção, deixando a mostra o liquido a ser injetado. Por um momento, pensei ter visto errado. O liquido não era transparente, era brilhante. E azul. Refletia ao nosso redor, e com ela fiquei aterrorizada.

-O que é... – esganicei, tentando mover-me.

Gritei. E elas me seguraram. Era o meu fim, era palpável. Aquela substância me mataria, tinha certeza. Minha alma sentia, cada milímetro de meu corpo sentia.

Minha visão ficara turva, via rostos, borrões. E senti uma pulsação em meu rosto, havia apanhado. E ai quando menos esperava, o mundo parou de rodar. Depois de uma picada, focalizei o meu braço.

A substância entrava por minha veia, irradiação luz dentro de mim. Refletia por alguns segundos, e depois sumia. O médico sorria, alegre.

Senti-me ser revirada do avesso. O dentro era o fora, e o fora era o dentro. E a luz era escuridão, e a luz a escuridão. Fui envolvida por sensações que nunca havia sentido. E fui levada cada vez mais fundo...

Fui puxada violentamente para a superfície, logo o meu corpo reagiu. Depois de algum tempo sem compreender, enfim entendi. Estava olhando para o meu próprio vômito e me afastei soltando um palavrão, voltando a sentar. Então encarei o lugar diante de mim.

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Estava sentada numa cama, diante de uma imensa sala acinzentada. Tudo era cinza. As paredes, cama, roupas. Senti-me confusa, perdida.

E, novamente estava debruçada na ponta da cama, vomitando sobre o chão acinzentado. Ao se sentar, senti-me ainda mal. Meu estomago estava embrulhado, um nó em minha garganta, incomodando. A minha vontade era ficar ereta, estática, para que o mal estar passasse, e logo, mas, não era possível. Inesperadamente, estava abraçada com os meus joelhos, chorando e soluçando.

Minha mente estava em um turbilhão de pensamentos. Eu havia perdido a minha mãe, perdera a vida da pior maneira, e eu achando que eu poderia voltar para ela... e, fui raptada. Raptada, para quê? Bem, e tinha aquela maldita injeção... soltei um soluço entrecortado, assustada. Olhei para o meu braço e estava normal. Não havia marcas e nem luzes brilhantes azuladas. Eu pensara que havia morrido, e agora sabia que aquilo não era uma simples injeção. Havia algo nela de tão poderoso que fizera aquele médico sorrir. Havia dado certo, só podia ser isso. E, bem, eu estava aqui, nesta sala anormal.

Voltei a chorar, imensamente. Ao me levantar, vi que estava usando um vestido cinza brilhante que ia até meus joelhos. Cabelos limpos e caindo sobre meus ombros, livres. Um arrepio percorreu o meu corpo, de frio. Estava descalça, e o chão era gélido e feio...

Neste espaço tudo havia uma cor só, era agonizante. Não havia janelas, nenhuma barreira de ar, e mesmo assim respirava mil vezes melhor do que antes. Antes de tudo isso... Havia uma leveza, uma pureza no ar. Era diferente, e meus pulmões agradeciam.

E por um motivo, houve um clique em minha cabeça. Dizia para que eu fosse dormir, e logo andei até a cama. Me acomodei e fiquei defronte com a parede. E me apavorei, e num movimento rápido girei para o outro lado. E arregalei os olhos, tendo consciência que qual fosse o lado tudo que me virasse sempre seria cinza,e não haveria escapatória.

-E não haveria mesmo. – concordou Valerie, sorrindo diante de mim.

Encarei-a, em silêncio. Valerie em um momento inesperado, afaga sua mão a minha. Um arrepio percorreu o meu corpo, e ela retribuiu ardentemente o meu olhar. Senti nas pontas dos dedos de início um formigamento, e depois, senti a sua pulsação. Ambos os nossos corações batiam frenéticos no mesmo ritmo.

-Eu só sinto medo, quando você o sente.

Desviei o seu olhar penetrante e olhei para a sala ao nosso lado. E me assustei, ao ver que de novo, mudara. Era a mesma sala cinza em que eu vivia, mas, ela tinha aquela aparência de isolamento em que tanto me incomodava, me amedrontava no inicio. Mas, mesmo lembrando da nítida sensação que tinha, a da conformação, depois de conviver aqui, não houve mudança, e continuou, cinzenta e medonha.

Valerie ao meu lado, respirou fundo. Voltei a encarar, e percebi no modo como olhava a sala. Havia medo transbordando de seus olhos, mas nos lábios havia o alivio, a felicidade.

-É estranho, não é? Transmitir medo e alivio ao mesmo tempo? – ela deu uma pausa, para me olhar e como fui pega desprevenida, continuou – Por mais que você queira mudar a sensação para influenciar no aspecto da sala, na atmosfera da mesma, você não pode deixar de passar por cima dessa parte da sua vida. Se você a pulasse, pense Valerie, não acha que ela voltaria para te atormentar? A melhor coisa é você encarar seus medos, mas nunca ser combatido por eles.

-Mas se você sente o mesmo que eu, sabe muito bem em como isso – levantei-me apontando a sala ao nosso redor – nos incomoda, então compreende como é difícil! Havia perdido a sua mãe, havia perdido uma vida que ainda mantinha viva, dia a dia, e quando retorna... ela simplesmente morreu antes mesmo de você pensar que era possível. E ai, vem essa sala, essa dor... não ameniza a intensifica, mais e mais a nossa...

-Humanidade, Valerie – sussurrou indiferente, Valerie.

E quando virei-me, Valerie estava com as mãos estendidas para mim. E diante de mim, novamente, ela mudara. Agora, era a menina com o vestido brilhante, cabelo curto e límpidos, da mesma maneira que eu acordara no primeiro dia aqui. Só havia uma diferença, ela sorria. Não havia dor alguma em seu rosto, havia apenas a criança que um dia ela foi.

-Você é – ela deu uma pausa, e entrelaçou a mão esquerda na minha – humana, Valerie – e assim fez o mesmo com a direita, sorrindo.

-Mas não quero ser. – repliquei.

Logo, estávamos girando.

-Mas é.

-Não...

-Como pode querer ultrapassar a fase da compreensão e da maturidade para logo pular para a parte em que é indiferente as questões humanas? Como pode logo querer o resultado antes do processo?

-Quero estar pronta!

Estávamos mais rápidas, o resto da sala era apenas um borrão cinza, mas o seu rosto lívido e seu cabelo ao vento era destacado e chamativo a minha atenção. E ela não fazia questão com a velocidade.

-Pronta para quê, Valerie? Me diga!

-Para ele!

-Você não sabe o que tem fora dessas paredes!

E ela ficara um pouco mais velha. Seu cabelo crescera até as coxas, e seu vestido estava na altura do joelho, diferenciado. Soltei suas mãos, recuando assustada. Ao nos soltarmos, desequilibramos, mas apenas eu caíra. E ao cair, ouvi um rangido, de uma porta, ao meu lado.

Desta vez, meu organismo me acordara. E logo arrastei as minhas pernas para a porta, onde engoli sem hesitar a pílula azulada.

Não tinha fome como antes, apenas uma vez ou outra nesses dias... Quantos dias se passaram? Eu não fazia ideia. Meu cabelo crescera uns 10 centímetros, o vestido estava maior, mas estava proporcional a meu tamanho. Meu corpo crescera junto com o cabelo, me sentia diferente.

Enquanto a minha mente estava num turbilhão, a parede rangera. Havia um homem, vestido de negro da cabeça aos pés, era careca e negro. Com porte musculoso e feições dura. Meu corpo estremecera.

Havia tanto tempo em que eu não via uma pessoa que aquilo era medonho e impressionante, ao mesmo tempo. Percebi que havia esquecido como era ver outra pessoa semelhante a mim, pois todo esse tempo apenas via um borrão de mim mesma na parede. E tinha que olhar para o meu corpo para não enlouquecer, esquecer de como é uma pessoa. Esquecer minhas próprias feições... é frustrante. Mas, ver outra pessoa, aparentava ser uma miragem. Bem, louca eu não estava, pude confirmar agora mesmo.

Lágrimas escorreram por meu rosto, e me colhi ainda mais na cama. Tinha medo dele, e tinha emoção ao vê-lo. Eu não estava sozinha, não estava louca...

-Porque chora?

Não respondi, e continuei imóvel. Chorando e encolhida, o encarando. Depois de um tempo, que me parece a eternidade, ele deu um passo.

Não havia porta atrás dele, como entrara?

-Porque chora?

Silêncio. Um longo silêncio voltou a se apossar da sala. Como sempre tem sido, não era impressionante, mas era dolorosamente continuo. As lágrimas secaram, e apenas pude soluçar, e quando voltei para encara-lo, havia sumido.

-As lágrimas lhe fizeram melhor? – sussurrou alguém, próximo a mim.

Estava escuro, então não sabia quem era. Não pensei em tatear o escuro ou questionar quem era, o sono era maior. Estava sonolenta e fui acordada no meio de um sonho... do qual, agora eu não me lembrava. Mas, me lembrava de que havia a cor roxa nele. Havia tanto tempo que não sabia como era a cor roxa, era tão delicado e calmante...

Senti uma sensação de calmaria na cabeça, e dedos me tocando delicadamente... Era carinho, alguém me fazia carinho. E sorri, me sentindo por um momento mais que viva.

-Com o que sonhava?

Sorri novamente. A voz me era familiar...

-Roxa...

-Roxa?

-Sim, a cor roxa...

Silêncio.

Novamente, só ouvia a minha respiração.

E de novo, pude mergulhar naquela imensidão roxa...

Estava deitada, encarando a própria mão no ar. Virando-a e movimentando os dedos sem cessar. Deixando com que ela navegasse e uma corrente de ar a forçasse a se proteger. Mas como ultrapassar essa corrente de ar que subia contra a sua direção? Primeiro, deixando-a ser influenciada por essa corrente, como se estivesse cedendo a sua força, mas na verdade se impulsionando para cima e logo em seguida, fechando-se e expandindo-se, sendo levada de novo para cima e em seguida caindo, fechando-se e expandindo-se, e de deslize sendo jogada para fora dessa força, agora percebendo que sem aquela ficaria perdida, virando-se em câmera lenta pelo ar, jogada, perdida...

-Quanto tempo está assim?

Era bron. Baixei os olhos e o vi próximo aos meus pés. Sorri, por saber que ele estava ali, e agora não estaria sozinha. Eu me acostumara com as visitas inesperada dele, a qualquer momento ele estaria ali e depois também não estaria mais. Ele me dera uma motivação a mais: a pensar. Percebi que como pensar, realmente no seu cru significado e poder era necessário. Ainda mais neste local que eu apenas tinha a mente como companhia.

Mas, havia uma coisa ainda que não me acostumava: o tempo. Sabia que havia se passado muito tempo, muitas visitas e muitas trocas de roupa. E mesmo assim, eu não me conformava.

-Quanto tempo está ai, me observando? – perguntei, brincalhona sem o encarar. Ainda olhava atenta a mão se mexer em câmera lenta no ar.

-Você sabe exatamente a resposta.

-Eu sei! Apenas queria te pegar – murmurei, sentando-me, cedendo um espaço para que se sentasse. – Ei, senta.

-Não posso.

Houve um tempo, em que eu o olharia e ficaria esperando a sua resposta ou qualquer reação sua pelo não, mas agora eu entendia. Dei de ombros e voltei a deitar e fazer a mesma coisa há segundos atrás. Bron, em suas visitas, era rápido. Não havia quando, como e por que apareceria, apenas apareceria e sumiria da mesma maneira. Então, qualquer sentimento ou sensação que eu tivesse em o vê-lo, causaria uma reação em sua aparição. Houve uma vez em que o puxei para girarmos, mas no segundo giro, ele sumira, e as luzes se apagaram. E percebi que eu ficara muito extasiada em vê-lo, e isso não poderia ocorrer mais.

-Imagine que você trabalha numa empresa e presta serviços a ela, mas se num desses serviços em que presta você encontra o amor de sua vida, e isso irá desestabilizar o seu rendimento na empresa. Havendo a probabilidade de você repensar sobre as regras e serviços daquela que lhe deu o cargo, você faria o quê? Escolheria a empresa ou o amor?

Essa era a parte mais difícil que tive que acostumar. Bron ao chegar de suas visitas fazia a mesma pergunta, o que não era difícil, só era difícil saber se ele iria continuar ou sumir depois da resposta. Da primeira vez, eu tentei questiona-lo de qual empresa ele se referia, mas o que era obvio, ele desaparecera. Depois de algum tempo, eu lhe questionava de quais serviços, ele me ignorava. E eu corava na parte em que tentava descobrir que amor da minha vida exatamente ele se referia, e bem, foi ai que percebi o que deveria fazer. Apenas deveria responde-lo, sem hesitar. Sem fazer questionamentos. Pois, assim eu não estaria o confundindo, eu estaria me confundindo, mostrando os meus defeitos. E meu defeito não podia refletir e nem bloquear o meu raciocínio.

-A empresa. – respondi, convicta.

Mas eu já havia tantas vezes respondido amor. Em tantas outras vezes, também havia respondido empresa. E bron, não me questionava, pois ele sentia que respondia sinceramente independente da resposta, pois era sincera comigo antes de ser sincera com ele.

Abaixei as mãos e fixei o olhar sob ele. E, obvio de se imaginar, ele havia sumido.

-Os anos se passaram, Valerie. – rosnou Valerie, do outro lado, no chão.

Desta vez, ela estava diferente. Havia algo nela...

-Sua idiota, você quis tanto se ver, aqui está! Veja!

Não tive forças para me levantar, não podia acreditar. Agora, eu tinha a confirmação de que os anos haviam se passado. Agora, eu era uma mulher. Quanto tempo exatamente havia se passado?

-Imagine que você trabalha numa empresa e presta serviços a ela, mas se num desses serviços em que presta você encontra o amor de sua vida, e isso irá desestabilizar o seu rendimento na empresa. Havendo a probabilidade de você repensar sobre as regras e serviços daquela que lhe deu o cargo, você faria o quê? – ela respirou fundo, e atrás de si, tirou uma faca, que reluziu na luz — Escolheria a empresa ou o amor?

-O que está fazendo?

-O que acha? – ela avançou um passo, e eu recuei outro. Ela sorriu, maliciosa. – Que foi, tem medo?

-Sim. De você.

-De você mesma, sua idiota. Você não percebeu, depois de tudo isso que eu fiz?

Ela estava chorando, e não se importava que elas escorressem por seu rosto, pois ela pensava em algo melhor para fazer. E deveria usar aquela faca que tinha nas mãos.

-Não.

-Valerie, a devota – ironizou.

-O quê?

-Você vai se lembrar disso, Valerie.

E neste instante, correu em minha direção. Não teve momento para pensar, apensar a segui, e corri em sua direção. Eu via a raiva, a dor, uma mescla de sentimentos em seu olhar, e mesmo assim, sabendo que aquela era eu, eu tinha que fazer o que devia ser feito. Ao nos chocarmos, ambas gritamos. Demos um passo para trás, e a sensação de alivio me tomou, mas foi diferente em Valerie. Ela estava no chão, com as mãos ensanguentadas e a faca em seu abdômen.

-Meu deus...

-Valerie... eu... – ela tossiu, e uma poça de sangue a manchou no pescoço. – Você, tem certeza? Quer colocar um ponto final a tudo isso, e ir para algum lugar depois... Se você for morta, modificada para testes, para infinitas coisas... mesmo assim, escolheria Bron? Escolheria o que vem depois daqui?

Apenas se ouvia o seu guinchar, e o sangue a manchando... silêncio. Era o meu silêncio. Ouvi um estampido no ouvido e fiquei estática. Porque ela pergunta isso? Ainda mais agora depois do confrontamento de sentimentos, eu contra mim mesma...

-Responda, Valerie.

Não podia acreditar, ela havia sido atingida. Mas como? Ela era eu, o que aconteceria? O que iria acontecer a mim? Minhas mãos tremiam, não podia acreditar. Mesmo sentindo essa mescla de sentimentos, eu me agachei ao seu lado e cobri seu abdômen com minhas mãos, para fazê-la parar de sangrar. A única coisa que se passava pela minha mente era o seu sangue, a sua dor, o seu sofrimento não a pergunta feita. No momento, era inútil. Pois, ela sou eu, mas como eu não sinto nada do que ela sentia neste exato momento? Ela mesma dissera, sentia o que eu sentia, mas como o contrário não poderia acontecer?

Assenti, calada. As palavras ficaram presas por um nó feito em minha garganta.

-Sempre esperta, Valerie – afirmou, antes de tossir mais sangue sob seu colo – Pode acontecer sim, mas não é nisso que precisa pensar agora. Valerie, me diga... Você entendeu o significado desta sala?

Hesitei, pois havia muito sangue sobre ela, em minhas mãos. Não podia me concentrar, era horrível a visão que se tinha de si mesma quase à beira da morte. E se eu morresse, seria assim? Sendo sufocada pelo próprio sangue, agonizando...

-Escolheria a empresa... – tossiu, e mais sangue manchou minhas mãos – o ou amor?

Ela guinchou de dor e com uma força incrível, segurou a minha nuca me aproximando de seu rosto, e fez com que eu a respondesse, sussurrando apenas em seu ouvido. Logo em seguida, ela relaxou sobre o chão após a minha resposta, e sorriu.

-Você foi excelente, Valerie.

E sorri de volta, grata. Apertei minhas mãos sobre seu abdômen, mas era tarde demais. Ela encarava o nada, e eu encarava a mim mesma.

Senti uma mão sob o meu ombro, e já pude reconhecer quem era.

-Qual você finalmente escolheu, Valerie? – perguntou Bron, decisivo.

Respirei fundo e me levantei. Encarei seus olhos e disse:

-A empresa, como sempre eu devia ter feito.

Notas finais
Olá, favor! Fico imensamente feliz, caso você tenha chego ao fim deste capítulo, de verdade! Estou disponível para ouvir suas criticas, suas lamentações, o que quer seja sobre a história! Sem vocês, ela não sobrevive! Espero que esteja ansioso para o próximo capítulo...
Obrigada!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.