Ato 1- Skip it. Now.

Cena-5

Marlene McKinnon

Senhoras e senhores, eu não gosto de pudim. Não me matem! Eu... Eu tenho uma explicação...

Aos nove anos, num jantar de Ação de Graças, minha família vangloriava-se:

–E então -continuou minha mãe -, eu ensinei à uma caipira, na rua, que chapéu de palha só na terrinha dela! Não no meio de New York!

Todos aplaudiram-na.

–E hoje, lá no meu escritório, recebi uma ligação de uma instituição de caridade! -começou meu pai -Eu abri os olhos daquele homem! Afinal, ninguém vai querer adotar meninos de quinze anos!

Mais aplausos.

–E você, Lenizinha? -perguntou minha tia -O que fez de bom, hoje?

–Eu dividi meu pudim com Alice, no lanche.

Todos da mesa silenciaram-se e arregalaram seus olhos. Chocados.

–Marlene... -dizia meu tio, assombrado.

–Não, isso não! -chorava minha mãe.

–Eu não vejo nada de errado... -eu sussurrava, com medo.

–Sabe o que poderia ter feito àquela menina? -minha mãe dizia -Dado um tapa! Doeria menos! Você é fria, Marlene... Quer vê-la ter diabetes? Quer que ela esfregue na cara da mãe desempregada que uma amiguinha da escola alimenta a sua própria filha, e ela não?

–Mas... A mãe da Alice é enfermeira...

–Está me respondendo?! Então, tudo bem. Como castigo, você vai comer uma travessa inteira de pudim! Melhor, um pudim de três metro de altura, até enjoar!

–Mas...

–Sem mas.

E desde então, eu odeio pudim.

Acho que até hoje meus pais me odeiam. Me mandaram para o México, sem contato, e depois me arrastaram para algum lugar do Japão, talvez Yokohama, para uma academia de Artes. O problema? Eu não falo japonês. Então, junto, me mandaram uma incrível tradutora, que me perseguia em todos os lugares.

Como, no meu caso, eu era a estrangeira americana que vestia roupas apertadas, acho que devo ser considerada a estranha, da escola. Como um Eleanor & Park invertido e sem um ruivo legal. De qualquer forma, se eu era vítima de bullying, nunca percebi. É difícil entender qualquer coisa.

Me lembro da primeira vez que fiquei sem grana, no México. Não sabia que eles tinha limitado o meu cartão de crédito, então comprei vários vestidos que me fariam parecer com a esposa do Ligeirinho, o rato, e nem percebi. Passei fome por um dia inteiro.

Mas acredite, meus pais são legais... Só um pouco... Ah... Deixa pra lá.

Eu não precisava trabalhar, na minha estadia no Japão, sempre ganhava mesada deles, pelo correio. Também tinha um apartamento colorido, com tudo que eu poderia ter para me entreter e sobreviver. Além disso, Kenan, minha tradutora, sempre aparecia, à noite. Ela era minha única amiga naquele país totalmente novo.

. . .

–Vamos, vai! Como presente de aniversário!

–Seu aniversário foi semana passada!

–Por favor, Kenan!

–Tá... Uns te chamavam de gostosa.

Bebi um gole de refrigerante.

–Continua! -implorei para ela.

Kenan nunca quis traduzir nada que os alunos, da academia, dissessem. Era frustrante. Felizmente, eu finalmente concluí aquele curso ridículo, então, acho que ela se sentia mais segura em me contar.

–Outros falavam que você se veste como uma vadia.

–Certo... -instiguei ela, querendo saber mais.

–E alguns queriam marcar um horário. -ela parecia envergonhada por me contar aquilo, então soltou o cabelo louro e liso, e prendeu-o com um lacinho.

–É isso aí, mundo! "Marlene McKinnon a vagabundo do Japão, em breve!". Porque as pessoas adoram julgar vestidos com decotes? Isso me torna uma vadia instantânea ou ninguém no mundo tem respeito pelos sentimentos dos outros? -disse, sorrindo -O mundo é uma grande fábrica de rótulos, despejando-os por aí, em qualquer um.

Kenan riu.

–Você podia ter me contado tudo isso. Eu superei isso agora, e superaria isso antes.

–Não é o tipo de coisa que eu falaria, não é meu estilo: "Ei, ah Marlene, suas aulas de História da Arte começam semana que vem, e a propósito, todo mundo te acha uma verdadeira piranha! Divirta-se!"

Eu deitei no sofá, contente. Não acreditava que finalmente minha vida estava tomando suas próprias rédeas, sem escola, sem academia, apenas a ânsia de se tornar uma adulta com um emprego decente... Era bom se sentir leve. Como se tivesse ganhado alguma estrelinha na testa, por ter passado por uma das grandes fases da vida de um ser-humano. A academia de Artes havia tomado um ano inteiro da minha vida e não parecia real ter se livrado dela.

–Ei, como está você e a Shell?

Kenan suspirou, sonhadora.

–Ela é incrível... -Kenan

–Eu quero dar um presente de namoro pra vocês duas. Talvez uma noite na França, dizem que lá é bem romântico.

Ela riu, baixinho.

–Marlene...

–Muito clichê? Então... Na Antártida! Imagine que lindo, vocês se abraçando para se esquentarem...

–Marlene.

–O quê?

–Eu tenho que ir.

–Nah, tudo bem. Vou comer pipoca cheia de manteiga e assistir à cinco temporadas de Glee.

–Lene, eu vou me mudar para Los Angeles com a Shell. Os pais dela estão doentes e ela pretende voltar.

Kenan. Minha única amiga.

–Mas.. Como eu vou me virar, sem...

–Joe vai vir me substituir. Ele é bom.

Eu queria dizer muitas coisas, coisas terríveis, para ela.

–Parabéns... -eu sussurrei.

–Desculpe. -murmurou, e por uns segundos, essa palavra pairou no ar. Eu não sabia como reagir, então fechei os olhos.

–Tudo bem.

E ela foi embora.

Eu não podia ficar só.

Não ia enfrentar os monstros do mundo, sozinha.

Eu ia fugir dali.

Não preciso de um tradutor novo, que provavelmente não saberá diferenciar miojo de cupnoodles.

Eu estava em fuga. Do meu próprio apartamento de princesa.

. . .

Quando saía da recepção, um segurança me parou. Ok, eu sei que eu sou linda, mas Rapunzel não dá.

–Hi. -ele exclamou, como se me alertasse.

–Eu não falo sua língua, -expliquei, com um sorriso. Talvez isso parecesse mais convincente. Mamãe devia ter colocado um guarda para me vigiar. Típico dela.

Ele me olhou confuso, coçando a nuca.

–Eu. Já. Disse. Eu. Não. Falo. Japonês!

–Uwa, anata wa hijo ni utruk ushidesu.

E foi assim que eu saltei da escadaria e saí correndo, de salto alto cor-de-rosa, pelas ruas de Yokohama. As lágrimas que escorreram pelas minha bochechas, foram completamente cinematográficas. Eu era um clichê de cinema. Kenan era o meu primeiro desafio para um filme completo que viria daqui pra frente. Eu tinha duas horas de filme, quem sabe quanto tempo de vida, para passar a ser a heroína da história.

Notas finais
Uau, eu fiquei muito insegura em relação a esse capítulo. Espero que não esteja ficando maçante. Bem, logo, logo a parte II desse ato vem aí. :)