Fatores de Quando se Está Infeliz
4 Ato 1 Cena 3
Notas iniciais
Ato 1-Skip it. Now.
Cena-3
Dorcas Meadowes
–Eu já te contei da minha nova teoria sobre como o mundo vai acabar?
Ah, essa sou eu, Dorcas. Sou inglesa, mas vim ao Japão para ajudar meus pais, depois de uns meses morando com minha tia Ail, na América — uma confusão de culturas ainda entorpecem o meu cérebro indeciso -. Em todo caso, agora trabalho numa fábrica de batatas industriais para ajudar a família à juntar um dinheirinho. É incrível, pois fiz muitos amigos aqui e em boa parte do mundo, na verdade. Sempre gostei de falar e falar e falar, até a pessoa com quem estou conversando inventar uma desculpa e fugir de mim e minha vontade de me expressar.
Gosto de trabalhar nessa fábrica, gosto de ter uma vida legal, com pessoas legais e uma família incrível, mas... Esse não é o meu sonho. Provavelmente é o de alguém muito amoroso, e se for o seu, sinto muito por estar me desfazendo dele... Mas eu quero mais. Pode me chamar de gananciosa. Meu sonho verdadeiro é fazer algo grande! Algo que faça com que o mundo prenda a respiração e pare tudo que estão fazendo para me ver. Eu quero ser uma estrela, fazendo as pessoas chorarem, se estressarem ou até mesmo rirem. Cantando, dançando ou no mínimo montando um quebra-cabeças de 500 peças, da Mona Lisa.
–Diga. -diz Remus Lupin, meu colega deprimido de trabalho.
Ele é a prova viva da frase: "A vida sempre vai te esfregar na cara o que você não pode ter".
Sério... Seu cabelo é castanho claro, assim como seus olhos de amêndoa. Um típico inglês. Ele é tão fofinho e ao mesmo tempo histérico e irritado, além disso, é muito inteligente. Antes da oitava série eu não ligava pra "inteligência" ou qualquer outra coisa, mas depois de Oliver McLaggen, meu único namorado da época ou de qualquer outra época, comecei a prestar mais atenção. O cara não sabia nem a diferença entre "nádegas" e "narinas"! E não me pergunte como cheguei a descobrir isso.
Mas Remus era apaixonado por Morgana, e muito provavelmente, ela por ele.
Mas tudo bem. Dorcas Meadowes superou aquela fase. Aquela na qual atiravam papeis higiênicos nela, ou criticavam o seu estilo variado e exótico — até um pouco aleatório -, das maneiras mais neandertais possíveis. Ela, agora, daria a volta por cima e esfregaria na cara daqueles otários — que hoje devem ser desempregados — que ela brilharia um dia! E me desculpe a narração em terceira pessoa, "ela" se empolga.
–Minha teoria é a seguinte: — continuei — Acho que um dia, a fenda daquela máquina para embalagens de batatas vai engolir todas as coisas que o mundo abrange, e a face da Terra vai ficar lisa e brilhante, limpa. Mas você já pensou qual é o ingrediente para se criar um unicórnio? — Remus negou enfaticamente, quase como se provasse para as pessoas que ouviam nossa conversa de que ele era o normal -Talvez, a receita para se criar um, seja usar todas as coisas que existem em nosso planeta! Então eles são criados, as criaturas novas e predominantes no mundo, pensam que viverão felizes e em paz, mas... Os ornitorrincos chegam! Afinal, eles são mamíferos que botam ovos, respiram debaixo d'água e fora dela, tem veneno, patas e bico de pato, calda de castor, pele coberta de pelos, carnívoros e fofinhos! Eles podem sobreviver à tudo. Então, como uma grande guerra entre espécies místicas e fictícias, com-
–Dorcas, ornitorrincos existem.
Parei de falar por um minuto, o encarando.
–É?
–Uhum.
–Uau, foi por isso que eu quase repeti em biologia... — Fora o mesmo erro com os hipopótamos... limpei a garganta -... Não importa. Uma guerra entre duas espécies diferentes, com mortes sangrentas, terror, e muitos, muitos riscos. As duas espécies se atacaram, não se importando mais com as extinções iminentes, e quando sobraram dois animais de cada lado, de famílias diferentes, eles decidiram o curso da vida no mundo. — todos da sala prestavam atenção, agora -Não iriam se reproduzir. Iam ser felizes, aproveitando o resto das suas vidas observando o pôr-do-sol, as estrelas, a lua... Porque não faz sentido darem continuidade à vida, se mais guerras ocorreram. Se dor e ódio forem os sentimentos eternamente vangloriados, como um ciclo sem fim.
Por um segundo, achei que meus colegas de trabalho — inclusive Remus — aplaudiriam minha teoria como algo científico e emocionantemente comovente ao mesmo tempo, mas eles riram por tanto tempo que eu comecei a achar que eram robôs do passado, programados para fazerem da minha vida um inferno continuamente.
–Dorc's, eu preciso do quê você está usando, quem sabe assim, a vida não fica mais feliz.
É Remus, quem sabe a vida não fica mais feliz. Lá no fundo.
*
Passamos o resto do tempo assim, risos aqui, risos ali. Pessoas dando tapinhas nas minhas costas. Mas eles sempre esquecem.
Estava quase na hora do almoço quando Hiroyuki, um cara muito feliz, inclusive, passou na frente da minha esteira — onde eu fechava à vácuo as embalagens das batatas -, dizendo — sim, eu entendo muitas línguas, uma delas o japonês. Não sou de toda uma ignorante, se é isso que está pensando — :
–Estão te chamando para ir na supervisão, na hora de ir embora.
–Ah, não! Eu acabei de limpar aquele banheiro... -resmunguei comigo mesma.
É. Brilhar vai ser difícil.
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