Fator Gama

6 Capítulo 05


Notas iniciais
Mais um cap pra voceeees! Esse era pra ter sido semana passada, mas o nyah entrou em bug pela eternidade, então demorou. Afã Mas em geral to conseguindo lanancarvum novo por semana. Boa leitura gente!

O sol brilhava forte pela tarde. A estrada era plana e arenosa. Eu transpirava muito, ainda estava com dificuldades de me acostumar aquele clima seco. Sentada no espaço de trás da van, peguei um cantil e tomei um gole de água. Comecei a ouvir um som muito baixo, quase imperceptível. Quando prestei mais atenção, notei que parecia uma sirena de bombardeio. Não havia nada perto de nós por quilômetros, mas Pavel pareceu se preocupar. Ele olhou para o combustível.

— Estamos com pouca gasolina. — Comentou. —Não sei se dará para chegarmos lá.

— Vocês têm um galão aqui na van, não têm?

— Temos, mas é para emergências.

— Se nossa gasolina acabar, vamos ter uma emergência.

— Não é esse o problema. — Lana apontou para um ponto de luz vermelha no céu, não tão longe de nós. — Você também escutou a sirene, não escutou. É um aviso assim como aquilo.

— O que é aquela luz?

— Chuva.

— Isso é ruim?

— Sim. — Cal respondeu. O menino lia um livro enquanto conversávamos. — As chuvas possuem um grande teor de acidez, corrói até metal. Se formos pegos, poucos pingos podem nos matar. Dois de pH, o que é mais corrosivo que ácido sulfúrico.

— Vem cá, Cal, você não é um tanto novo pra estar aqui fora não?

— Eu venho aqui fora desde que eu tinha oito anos, Susana. —Ele ficou irritado. — Não vem me falar que é perigoso que eu já encarei a morte muito mais vezes que você provavelmente.

— Tudo bem, não quis ofender. — Tentei segurar um sorriso, mas Cal ficava realmente engraçado tentando contar vantagens. Tinha certeza de que ele tinha visto muita coisa ruim que muitos adultos não aguentariam ver normalmente, mas ele decerta forma mantinha seu lado criança no fim e isso me alegrava um pouco. — Tem algum lugar onde podemos nos abrigar?

— Tem, mas esse é o problema. É fora da rota. Podemos perder muita gasolina indo para lá. — Pavel retomou o problema.

— Então o que fazemos?

— Nick decide. Ele é o líder.

Como se soubéssemos o que falávamos, o homem na moto mais a frente baixou a velocidade até ficar ao nosso lado. Sinalizou e Pavel esclareceu:

— É, vamos para um abrigo.

— Tsc, Susanna, você precisa tomar mais cuidado na próxima. Não temos muitos remédios, muito menos antibióticos.

Ela cuidava dos meus novos ferimentos. Estava estressada, mas eu queria aproveitar aquele momento para conversar um assunto que começava a me incomodar.

— Lana, você disse que o excesso de radiação causou mutações nas pessoas. É por isso que temos os olhos brancos, certo?

— Exatamente. Eu, você, Pavel, Cal... Todos nós somos os que deram certo.

—O que isso quer dizer? Os que deram certo.

— Quer dizer que as alterações que sofremos não prejudicaram nenhuma de nossas capacidades cognitivas, nem deformaram nossos corpos. Às vezes, acaba ocorrendo o contrário.

— O contrário? Poderia, então, ocorrer outros tipos de mutação? Algo que melhore nossas habilidades?

— Por que essas perguntas, Susanna? Você tem sentido alguma coisa diferente?

— Sim. Para ser sincera, sim. Quando Nick me atualizou sobre o que tinha acontecido com o mundo, aconteceu uma coisa muito estranha. Eu meio que surtei em um ataque de pânico. Achei que fosse só isso, mas aconteceu de novo quando aquela minhoca gigante veio atrás de nós.

—O que está falando? O que aconteceu, Susanna?

— O mundo inteiro ficou lento, como se eu estivesse vendo um filme em velocidade baixa. Os sons ficavam distorcidos e até as balas de tiro eu consegui acompanhar, uma a uma. Toda minha vida, eu nunca experimentei nada igual. Quero dizer, eu acho que não. O que é isso? O que está acontecendo comigo?

Lana trocou um olhar com Cal, que agora também estava atento a nossa conversa. Pavel também ouvia em silêncio.

— Certo, alguns dos dispensáveis passam sim por mutações que melhoram nossas habilidades. Geralmente, nós temos capacidades humanas aumentadas. Acredito que estejamos passando por um processo de seleção natural, onde aqueles que tem as melhores condições de sobrevivência hoje são os que vão continuar a espécie...

— Espere. Habilidades? O que, viramos os X-Men agora? Vou sair disparando raios pelos olhos?

— Isso seria bem maneiro, mas infelizmente não chega a isso. — Cal riu. — Como a Lana falou, são apenas as nossas capacidades humanas que ficaram aumentadas. Eu, por exemplo, desenvolvi uma memória fotográfica muito boa. É por isso que fico lendo livros. Todas as informações que eu lei, consigo guardar. Por exemplo, li um livro de artes marciais e anatomia humana, sei mais de cem formas de matar uma pessoa.

— É, não vou mais implicar com você saindo da cidade. Quem mais é assim?

— Meu irmão.

— Nickolas? Ele também tem uma memória altamente desenvolvida?

— Não. A mutação do Nick é bem diferente. — Lana comentou. — O olho dele. Só um dos olhos é branco, certo? Ele desenvolveu uma capacidade visual assustadora. Ele consegue ver as coisas quase como se olhasse através de uma luneta. É por isso que ele é o melhor atirador que temos. Não importa se o alvo está a poucos ou a centena de metros de distância. Sempre vai parecer que ele está mirando a alguém tão distante quanto eu e você estamos. Se você estiver prestando bastante atenção nos olhos dele, pode até conseguir ver a pupila dele mudar de forma.

— Entendi.

— E você? Como foi essa experiência estranha que você teve?

— Eu expliquei. Parece que tudo a minha volta fica lento. Nenhum de vocês passa por algo parecido?

— Não. Por outro lado, eu realmente estranhei quando você pulou da van. Parecia realmente estar se movendo um pouco mais rápido. — Pavel fez sua primeira participação na conversa.

— Então estou mesmo mais rápida.

— Eu não diria assim. — Lana me analisava. — Veja bem, você disse que via o mundo mais lento. Se seu corpo estivesse mais rápido, seus músculos, seus órgãos e células estariam trabalhando a toda velocidade. Você estaria constantemente com fome e com sede, estaria correndo e se movimentando mais rápido. Não é esse o caso.

— Não vi diferença até agora. Não é isso que ela está passando? — Pavel indagou a mesma pergunta que eu queria fazer.

— Não exatamente. Pelo menos, não foram esses sintomas que você comentou, Susanna. — A medica afirmou. — Você falou estritamente da sua percepção da realidade e isso me leva a crer que sua mutação afetou principalmente seu sistema nervoso. Seus neurônios trabalham mais rápido, as interconexões nervosas e as sinapses elétricas estão mais velozes, o que altera tanto sua percepção do que está ao seu redor quanto sua reação imediata. O resto do seu corpo provavelmente manteve uma velocidade normal.

— Faz sentido. Mas isso não acontece o tempo todo. Agora mesmo eu estou vendo tudo acontecer normalmente, sem atrasos. Por que isso acontece, como e quando?

— Talvez, o gene precise ser ativado. Você disse que as duas vezes que percebeu algo estranho foi quando: uma você estava num ataque de pânico, outra quando estava prestes a pular de uma van a quase oitenta por hora. O que tem de comum nas duas situações?

— Eu estava desesperada?

— Algo assim. É possível que sua mutação seja ativada com um aumento na concentração de algum hormônio ou substancia liberada em seu corpo quando você está assustada, ou animada. Se tivesse que chutar, eu diria que o gene responde ao excesso de adrenalina, já que é um dos hormônios mais básicos dessas situações.

— Essa mutação poderia ter algum efeito colateral?

— Difícil dizer. Posso fazer alguns testes com uma amostra do seu sangue se você quiser quando voltarmos para Pânico, mas até lá não posso afirmar nada.

Não tive tempo para responder a Lana. No momento em que a medica terminou de falar, uma explosão se fez logo abaixo do automóvel. Em alguns segundos, fomos jogados para cima, para o lado e para cima de novo. Quando a van parou de quicar e rolar, estava de rodas para o alto. Por dentro, todos os equipamentos estavam espalhados por todo lugar. Tentei me levantar, mas senti uma pontada de dor na coxa que me impediu de continuar qualquer movimento. Encontrei uma chave de fenda entrando minha carne. Sangrava pouco pelo menos. Chorando com a dor, tirei a ferramenta. Precisava encontrar os outros, precisava sair daquele carro, ver se estávamos correndo algum outro risco e descobrir o que tinha causado aquele acidente.

Escutei alguém bater na porta. Elisa chamava por Pavel por fora da van.

— Elisa? Nickolas? Vocês estão aí?

— Susanna! — Era Nickolas. — Vocês estão bem?

— Estou. Os outros, eu não sei.

— As portas não querem abrir. Vou tentar forcar a da traseira. Veja como está Cal e os outros e nos avise.

— Está bem.

Tentei alcançar os outros. Cal estava jogado, Lana estava debaixo de uma caixa, Pavel estava inconsciente, suspenso e preso pelo cinto de segurança. Estavam todos vivos e respirando. Com alguns sangramentos, mas nada que realmente precisasse de socorros imediatos aparentemente. Arrastei-me para perto da porta que Nick tentava abrir, podia ver o ranger do metal enquanto ele tentava desprender com uma barra de ferro. No momento em que alcancei a porta, o som parou.

— Nickolas? — Perguntei.

Não houve resposta.

— Elisa? Onde vocês foram?

Silêncio. Tentei empurrar a porta. Ela continuava emperrada. Comecei a ficar assustada. Olhei em volta. Os outros continuavam inconscientes. Nick e Elisa desapareceram subitamente, alguma coisa poderia ter acontecido com eles. Eu precisava sair dali. Precisava sair daquela merda de carro!

Bati mais vezes e sem efeito na placa de metal do carro. Então, ainda me arrastando, virei o corpo e comecei a chutar a porta. Três, quatro, cinco vezes, até que finalmente ela cedeu, entortou e caiu para fora.

Joguei-me na areia, respirando o ar seco, mas livre e sentindo o sol escaldante na minha pele. Corri os olhos em volta a procura de Nick e Elisa e encontrei os dois no chão. Do lado deles, homens bizarros, com rosto deformados e vestes rasgadas e desajeitadas. Pareciam tão selvagens que dificilmente os chamaria de humanos. Um deles se aproximou de mim. Tentei recuar, mas minha perna ainda não me deixava levantar. Ele pegou um rifle e deu uma coronhada na minha cabeça.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.