Fate's Cross

1 Fate's Cross


O nome da estação de trem era Fate’s Cross. Instalada ao ar livre, ela se estendia, comprida, ladeada de trilhos por dois quilômetros. Uma cobertura de vidro seguia o mesmo caminho no centro, acima de fileiras incontáveis de bancos. O aroma que permeava o ar evocava uma sensação rústica e o burburinho das pessoas que iam e vinham se misturava ao som das locomotivas. A paisagem ao redor era agreste e bucólica.

Na plataforma sete, pessoas começavam a se reunir, tagarelando com conhecidos, fazendo uma última conferência de seus pertences ou simplesmente aguardado com ou sem paciência em um dos muitos bancos elegantes de madeira com armações de ferro. Recostado em um destes bancos estava um menino, sem ninguém ao lado. Aparentava estar entrando na adolescência e vestia uma camisa branca de uniforme escolar com a estampa de um C, calças de agasalho na cor azul-marinho e tênis. Seus cabelos negros eram relativamente curtos, divididos exatamente ao meio e penteados para os lados.

Sentada lá onde estava, a criança mantinha a cabeça baixa, mas era possível ver o suficiente de sua expressão para notar o profundo descontentamento. Não de raiva, mas de um misto de tristeza e amargura, frutos de um turbilhão de incertezas. De vez em quando olhava para o bilhete vermelho em sua mão com tamanha intensidade que sua mão começava a esmagá-lo inconscientemente. Talvez tentasse se livrar dele por instinto, uma vez que sua mente martelava incessantemente que não tinha outra escolha senão seguir viagem.

De tão absorto que estava, o menino não percebeu quando um rosto familiar aos poucos foi se destacando a multidão e se aproximando da plataforma sete. Assim, foi com um sobressalto que respondeu à voz que do jovem que já estava logo ao seu lado.

-Que cara amarrada é essa? Acha mesmo que vai salvar o mundo desse jeito?

O rapaz recém-chegado tinha uma expressão amistosa no rosto e olhos castanhos cheios de firmeza. Seus cabelos também eram negros, um pouco mais compridos em comparação aos do garoto e espalhados de forma pouco organizada. Vestia uma camisa social de um azul escuro, calças jeans, sapatos e também uma jaqueta preta.

-Do que está falando? Eu não vou salvar coisa nenhuma...

Apesar da resposta seca que recebeu, o jovem não se acanhou e sentou ao lado da criança, percebendo imediatamente o bilhete levemente amassado que ela carregava. Nem sequer precisou ler os dizeres para saber do que se tratava e, com isto, assumiu um tonto levemente mais sério.

-Que horas vai ser a viagem?

-Não deve demorar mais que alguns minutos para o trem chegar. – O menino continuava cabisbaixo.

-Está com medo?

-Como você acha que eu deveria me sentir?

-Tudo bem, não vou mentir. Seguindo por esse caminho as coisas vão começar a desandar e você vai passar por situações bem ruins.

Ouvir isso apenas aumentou a angústia da criança, que se encolheu no banco, puxando as pernas para cima e baixando a cabeça a tal ponto que sequer era possível ver seu rosto. O rapaz ao seu lado soltou um pequeno suspiro, colocou a mão sobre os cabelos do pequeno e os bagunçou, sorrindo.

-Mas você não deve ter medo, é algo necessário. O sofrimento pelo qual você passar vai torná-lo forte para encarar os desafios que terá que superar um dia.

Não houve resposta, mas o menino pareceu relaxar um pouco e, para o rapaz, aquilo já era o bastante. Ele prosseguiu.

-Eu vou ficar aqui com você até o trem chegar, tudo bem? Mas quando for a hora de embarcar, você tem que me prometer que não vai amarelar.

-Pode ser.

O garoto esfregou os olhos com a manga da camisa e então se arrumou no banco, agora com a postura reta e o rosto elevado. Por um tempo que não durou mais que cinco minutos os dois apenas observaram com curiosidade as pessoas que passavam pela plataforma. Era possível notar que entre elas também havia uma grande variedade de expectativas. Algumas caminhavam sem hesitação, sorridentes, outras mantinham rostos sérios e olhavam continuamente para seus relógios. Ainda outras pareciam amarguradas, como se seus destinos também as levassem por caminhos dolorosos.

Eventualmente, a criança se deu conta de algo que não percebera antes. Aquele adulto que provavelmente não tinha mais que vinte e cinco anos e que já conhecia até que bem estava um pouco diferente do que da última vez que o vira.

-Você não está usando nenhuma máscara hoje.

-É porque não preciso mais delas. Eu fui jogando elas fora pouco a pouco, e confesso que fico contente que estejam finalmente terminando. Mas confesso que ainda uso uma ou outra quando estou com vontade de me divertir um pouco.

O silêncio se começou a se arrastar de novo enquanto o pequeno balbuciava, sem fazer som, como se escolhesse as palavras. Como se não soubesse se deveria mesmo perguntar. Mas precisava perguntar. Precisava saber.

-Vale mesmo a pena tudo isso? Você também passou por muitas dificuldades, não é mesmo?

-Quer saber como foram as minhas viagens, meu amigo?

-Eu posso...? – A curiosidade reluziu nos olhos esperançosos.

-Não vou contar tudo, é claro, mas pelo menos deixe eu lhe dizer o mais importante. Eu me diverti para valer e fiz tantos amigos que nem consigo contar. E o mais engraçado de tudo é que várias amizades começaram de um jeito totalmente atravessado.

-Como assim?

-Bom, eu sempre acabava falando ou fazendo alguma besteira e pensava que a pessoa tinha ficado com uma péssima impressão de mim. Mas então as coisas se ajeitavam e aos poucos começávamos a nos entender. Já perdi a conta de quantas amizades começaram assim...

-E como são esses amigos?

-Maravilhosos, interessantes e insubstituíveis, cada um deles. Nem todos são fáceis de lidar e às vezes eu tenho que cuidar de alguns, mas em troca eles alimentam a minha motivação quando me sinto cansado.

Depois de uma breve pausa, a expressão do rapaz se tornou um pouco mais austera, mas sem que os traços de otimismo sumissem. Havia uma última coisa que precisava ser dita.

-É verdade que eu tive momentos realmente ruins. Não vou negar que cheguei a me ver afundando no desespero, mas eu consegui me colocar em pé de novo tantas vezes quanto foram necessárias. Por isso eu não me arrependo de nada e sei que, para onde quer que eu vá agora, estarei em paz comigo mesmo.

O som da locomotiva se aproximando ao longe anunciava que a conversa estava prestes a chegar ao fim. Mas bastou um olhar para que o jovem tivesse certeza de que suas palavras não tinham sido desperdiçadas. Certas batalhas não podem ser evitadas, e é justamente por travá-las que conseguimos superar nossas limitações, ele pensou. Ao ver o menino se colocando de pé com vontade renovada, ele se deu por satisfeito.

-Eu sei que você também consegue, pirralho. Basta lembrar de sempre ter orgulho de quem você é e de nunca se arrepender das escolhas que fizer, mesmo que elas sejam erradas.

-Tudo bem, eu prometo que vou me esforçar também.

Pela primeira vez desde que se encontraram naquela plataforma, a criança sorriu. Então, o trem finalmente parou e as pessoas começaram a embarcar. Lá se foi o menino enquanto seu amigo observava, certo de que tudo ficaria bem no final. Uma certeza que acreditava valer também para si.

Ele ficou lá, em pé, por dez minutos, até que a locomotiva seguiu seu caminho. Ficou observando enquanto ela se afastava rapidamente e desaparecia entre alguns montes após fazer uma curva. Deixou escapar um suspiro novamente e então puxou do bolso de sua jaqueta um bilhete azul.

-Bem, acho que está na hora de ir para a plataforma 28.

Por mais que avançasse, tudo na estação para ser igual. Dinâmico, mas também estático. Como se já houvesse visto aquelas cenas dezenas ou centenas de vezes. De tantas vezes que passou por lá, era normal que já estivesse acostumado. Mesmo assim ele reparou rapidamente quando outro rosto que conhecia se fez visível em meio às outras pessoas.

Os dois se reconheceram imediatamente e seguiram um na direção do outro. Tratava-se de um homem na casa dos quarenta anos. Seus cabelos negros eram curtos e ajeitados e seu paletó escuro se completava com uma gravata azulada. Ambos sorriram quando finalmente se viram face a face e o mais novo foi o primeiro a falar.

-Pensei que veria você usando a jaqueta.

-Você já deveria saber que nada dura para sempre.

-Tem razão, e é por isso que nós aproveitamos enquanto podemos, certo?

-Exato. Agora, estou pensando em comprar um sobretudo, o que você acha?

-É uma ideia interessante. – Comentou o rapaz. – Um bem comprido?

-Comprido até os pés.

-Gostei da ideia, sempre quis ter um desses.

Ao ver que seu conhecido estava com um bilhete em mãos, o homem de mais idade mudou de assunto, perguntando com um toque de preocupação.

-Já está quase na hora da sua viagem?

-Sim, infelizmente não vou poder ficar muito, mas é bom ver que você está firme e forte.

-Mas é claro, quem diabos você pensa que eu sou?

Era desnecessário responder aquela pergunta.

-Tchau velhote, vê se não fica caduco tão cedo.

O jovem seguiu adiante, mas a voz de seu conhecido o deteve e o fez virar o rosto. -Espere um pouco! – Ele tinha certeza de que o homem mais velho queria lhe dizer alguma coisa, mas ao invés de deixar que falasse, devolveu um olhar confiante e o interrompeu.

-Não precisa dizer nada. Mesmo que eu não saiba o que me espera daqui em diante, vou encarar sem medo e proteger o que é importante para mim. Vou deixá-lo orgulhoso, pode ter certeza!

-Tenho certeza que sim.

O jovem sentiu um leve aperto de ansiedade depois de caminhar mais um pouco. Deu alguns passos para o lado e olhou para cima, vendo o imenso céu azul onde brilhava o sol e as poucas nuvens alvas que pairavam delicadamente. Tinha de admitir, por mais que quisesse parecer durão ou confiante, também tinha dúvidas e preocupações. Mesmo assim, já não podia mais se dar ao luxo de deixar que isso o detivesse. Tinha feito sacrifícios demais para abrir um caminho e não deixaria que mais nada mudasse sua direção. Assim, sob aquele céu claro e tranquilizador, ele abriu um sorriso e então correu. Correu em direção à plataforma 28 para pegar o trem que o conduziria a um futuro onde seus preciosos amigos o esperavam. Um futuro que estava apenas começando.

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