Fated
11 X - The Ties That Bind
Notas iniciais
Londres, Inglaterra, 26 de Julho de 1843
Atônita, Elizabeth apenas conseguiu soltar o filho, que escorregou novamente para o fundo da banheira. Levantou-se, tonta, apoiando-se na pia. A mão caiu próxima a vela, pingando uma gota de cera quente sobre ela. Recolheu a mão e, nesse movimento, derrubou a vela dentro da banheira, o objeto se apagou com uma fina linha de fumaça, mergulhando o cômodo num breu denso.
A pálida luz da Lua entrava pela janela. Ela andou até a porta, de costas, e vislumbrou um brilho amarelado se aproximar dela pelo corredor.
—Elizabeth? — disse a voz.
—Kathryne? — respondeu, ao reconhecer.
—O que houve, minha querida? — A voz era carregada de malícia e sarcasmo, um sorriso discreto estava desenhado em seu rosto. Não um sorriso de conforto, um sorriso de triunfo.
—Meu filho… Me ajude! — gritou em desespero. As lágrimas verteram em uma torrente.
—O que tem ele?
—Morto! O mataram! Deus, era uma criança.
—Deixe-me aliviar sua dor. — Lentamente, Kathryne depositou a vela e o suporte sobre uma mesinha e deu um passo para a frente. Algo brilhou em prata com seu movimento. Um vento gélido, quase sobrenatural, algo etéreo, entrou por algum lugar misterioso, balançando o cabelo delas com um dedilhar suave.
Elizabeth recuou um passo.
—O que você vai fazer?
—Aliviar a sua dor, querida. — a lâmina foi levantada e reluziu mais ardentemente. Quando desceu, a invasora sentiu seu punho ser segurado.
Entraram em uma breve luta corporal.
Aos empurrões, uma tentava atacar, outra tentava desarmar. Até que a briga chegou na beirada da escada. Elizabeth forçou as costas da outra contra o parapeito.
—Foi você?
—Faz diferença, cadela? — E a empurrou contra a parede oposta. Só então percebeu que a outra havia tomado sua faca. Olhou, chocada.
—Por que?
—Você dormiu com meu marido! O que queria? Eu fui justa! — urrou, cheia de ódio.
—Eu nunca tive nada com seu marido! Nada!
—Não minta pra mim, Elizabeth. — Ambas descreviam um círculo, mantendo-se distantes.
—Assassina! — gritou, correndo, com a faca em punho. Kathryne se limitou a ensaiar uma desviada, puxando o pulso da rival para perto da balaustrada e, ato contínuo, a empurrou pela escada, que ficava ao seu lado. Elizabeth soltou um gemido enquanto descia, rolando, as escadas. Com um brilho satânico nos olhos, a intrusa desceu os degraus lentamente.
Ao chegar no fim, pegou a faca do chão.
—Suas últimas palavras. — Olhou para Elizabeth e relutou por meio segundo, ponderando se a daria esse direito. Respirou fundo – Não vou. — E cravou a faca no peito da esposa de Charles.
Uma.
Duas.
Três.
Inúmeros golpes com a lâmina.
Quando o brilho de vida se apagou totalmente nos olhos dela, Kathryne se levantou. A faca, o vestido, as mãos. Tudo estava coberto de sangue. Totalmente cega de ódio, abriu o peito dela e arrancou o coração. Riu, ensandecida, enquanto andava até a porta e seguia para casa, deixando a morte e o silêncio para trás.
Parou, no portal, pensando. Subiu a escada e pegou a vela que se apagava numa mesa no corredor do segundo nível.
—Deus os proteja. E me perdoe, Pai. — Desceu as escadas. Lançou a vela numa das cortinas. As chamas se alastraram rapidamente. Subiram pelo tecido, chegaram nas vigas do teto. O cômodo começou a arder. Sorriu ao ver o corpo de Elizabeth. O coração dela ainda estava em sua outra mão.
Saiu da casa andando tranquilamente.
Mefisto estava ali, apoiado numa casa mais a frente, apenas assistindo as chamas lamberem a residência. Um sorriso brotou em seu rosto.
O diabo sempre consegue o que quer.
***
Washington D.C., Estados Unidos, hoje
Henry estava de pé, no alto da torre do relógio. O som de passos subindo a escada o despertaram de seu transe momentâneo. A mão tocou o cabo do punhal.
Uma única punhalada.
Respirou fundo.
Direto no coração.
Apertou o cabo com força e o puxou.
Lucian despontou na entrada, andando lentamente. O punhal brilhou prateado quando atingido pelo luar. Henry já se infiltrara nas sombras lançadas pelos arcos, as colunas e pelo próprio sino. Um arrepio subiu pela espinha de ambos. A tensão era quase palpável.
—Henry! — gritou – Eu sei que está aqui! Eu posso cheirar seu perfume barato.
—O meu perfume é barato, Charles? — Surgiu, a lâmina reluzia em sua mão.
—Mefisto. — gemeram, em uníssono. Ambos perceberam o que ele havia planejado.
—Henry, não precisamos terminar isso assim.
—Terminaremos agora o que não terminamos em 1843.
—Justiça deve ser feita, não? Você matou minha esposa.
—Eu matei a minha, Charles. A minha matou a sua.
—Assassino.
—Eu a amava! Eu não queria aquele fim pra ela!
—Não seja mentiroso, Henry! — As mãos se tensionaram ao redor do cabo.
—Não estou mentido. Eu a amo. Eu sempre a amei.
—Você a roubou de mim mentindo!
—Você se deitou com prostitutas mais vezes do que posso contar. E não era apenas por nossa condição. Você sabe que não era por isso. Você esqueceu dela de vez com o tempo. Desde aquela vadia francesa na Segunda Guerra, você não perdeu o hábito de botar uma mulher diferente na sua cama! Negue!
—Como se você não fizesse, hipócrita! — rosnou, pausadamente.
—Eu fiz o que precisava para me manter vivo, Charles. Você sabe disso. Você fez por prazer.
—Não me diga isso, Henry. E seus vícios?
—Que homem não tem seus vícios?
—Essa conversa já se alongou por muito tempo.
—Ainda não disse tudo o que tinha pra falar.
—Não me interessa! — Lucian saltou sobre Henry, tentando atravessar o peito dele. Em uma manobra instintiva, ele desviou, girando para o lado, empurrando o antigo amigo contra a borda.
—Eu tenho que fazer isso pela Elizabeth!
—O que?
—Mefisto concordou em tornar ela uma imortal se eu fizesse isso. Viverei para sempre com ela. Eu cuidarei dela por você, Charles.
—Não me chame de Charles! — Acertou uma cotovelada no rosto de Henry, que recuou um passo e chutou as costas dele. Com o impacto, Lucian deixou o punhal escorregar de sua mão e descer para o chão – É Lucian pra você!
—Eu prometo que… — E foi cortado por um soco, que passou rente ao seu nariz enquanto se jogava para trás, batendo as costas no sino e rolando para o chão. Sua única vantagem naquela luta era ainda ter o punhal. Lucian poderia igualar a situação se pegasse a arma. Chutou a lâmina do adversário para baixo do sino. Seria mais difícil ele pegar qualquer coisa ali.
Em um ato impensado, o adversário se lançou sobre ele. Travaram uma batalha violenta ali no chão. Henry se colocou por cima dele, tentando atingi-lo. Um único som saiu de sua boca. Um gemido agudo.
Resfolegou.
O corpo pesou para o lado, tombando.
—Me desculpe, Charles. — gemeu, levando a mão até o ferimento na barriga.
Lucian jogou o punhal para o lado.
—Pelo que?
—Por tudo. Por termos que resolver isso dessa maneira.
—Você quis assim, Henry. — E pisou na barriga dele, que soltou um grito.
—Me mate, por favor.
—Não. Quero que você sofra um pouco. Um pouco do que eu sofri. — E pisou mais forte na ferida.
***
Londres, Inglaterra, 26 de Julho de 1843
Henry entrou em casa. Foi direto para o quarto e estacou, horrorizado, na porta. Um coração estava na sua mesa de cabeceira, em uma caixa de madeira aberta. Kathryne saiu do quarto de vestir com um sorriso. O rosto e o vestido estavam respingados de sangue. Ele meneou a cabeça.
—Não… — Se apoiou no portal – O que é isso?
—Isso? — Ela pegou o coração na mão e levantou, mostrando pra ele – Você a Elizabeth, não é? Eu trouxe o coração dela pra você! — E o lançou no peito do marido.
—Você não… Sua louca! — Saltou sobre ela, agarrando-a pelo pulso – Seu demônio! — urrou.
—Você vai fazer o que? Eu matei a prostituta com quem você transava. Você queria o coração dela?
—Calada! — berrou, desferindo um tapa violento no rosto dela e, ato contínuo, empurrando-a sobre a cama – Sua cadela! Você a matou?
—Eu fez o que já deveria ter sido feito.
—Assassina! — Ele a atingiu com um tapa no rosto e suas mãos se fecharam em torno de seu pescoço.
—Traidor. Fornicador!
—Como se você tivesse alguma moral pra falar de mim!
—Vai me matar? — gemeu. Ar faltando.
—Quero! — gritou, carregado de ódio.
—Me mate, fornicador! — e fez uma pausa — Me mate, adultero! Me mate.
A mão dele relaxou lentamente, soltando-a. Ela tossiu, esfregando a garganta.
—Covarde, sequer tem coragem de me matar.
—Não vou te matar… — sussurrou – Não. Eu vou te agradecer.
—Agradecer? — resfolegou.
—Sim. Obrigado. — Parecia desorientado. Afastou um passo – Você… Me permitiu ver um mundo novo agora. Uma epifania, de fato. Você me permitiu ver algo diferente agora. Eu estava cego todo esse tempo. Por Elizabeth. Como eu pude desejar aquela mulher quando eu tinha tudo o que precisava aqui? Quando tudo o que eu desejava estava tão… — Acariciou o rosto dela com o indicador – Tão próximo? Me perdoe. — se ajoelhou.
—Perdoar? Você tentou me matar, Henry! Como quer que eu o perd..? — Ele a cortou com um beijo.
—Me deixe te ajudar, amor. — Levantou-se e estendeu a mão para ela. Ela segurou, com uma ponta de receio, e se colocou de pé.
Ele segurou a cintura dela e iniciou os passos de uma valsa. Sua esposa acompanhou.
—Como eu pude ser tão cego e ingênuo?
—Acontece.
—Não deveria. — Ela recostou a cabeça no ombro – Me perdoe.
—Tudo bem, está tudo bem.
—Não, não está. — Rodopiavam pelo quarto. Ele cheirou o pescoço dela.
—Está sim. — Ele se aproximou da sacada, levando-a junto – É uma linda noite e tenho algo para lhe contar, meu amado.
—Conte-me.
—Eu estou grávida. Finalmente. Estou grávida. — Olharam-se profundamente nos olhos. Ele sorriu pelo canto do lábio.
—Serei pai. Eu serei pai?
—Sim, será pai.
—Eu não sei o que lhe dizer. Você não sabe o que sinto agora. — Pararam a dança.
—Não imagino.
—Na verdade, eu sei o que sinto.
—Me diga. — Pediu, segurando a mão dele com ternura, um brilho de esperança no olhar.
—Nada! — E num movimento rápido, a empurrou contra a balaustrada. Pega de surpresa, seu corpo cedeu e ela tombou, soltando um único grito. Caiu no chão, dois níveis abaixo, com um baque surdo e Henry recuou um passo – Maldita seja você. E maldita essa criança. — secou uma lágrima.
Andou até o meio do quarto, se apoiou na mesa e começou a lançar os objetos contra a parede. Sentiu uma mão em seu ombro.
—Saligia. — murmurou a voz feminina – Pronto para aceitar um acordo?
—Saligia. — respondeu Henry, olhando para trás – Quais os seus termos?
***
Washington D.C., Estados Unidos, hoje
Elizabeth subiu as escadas da torre do relógio, passos trôpegos e desesperados. Olhou para Charles pisando o ferimento do antigo amigo.
—Não! — Correu na direção dele e o empurrou para longe, ajoelhando-se ao lado de Henry.
—Elizabeth… — sussurrou, soltando um gemido.
—Henry. O que ele fez? — Olhou para Lucian – O que você fez? — gritou.
—O que era certo. Elizabeth, você é minha esposa.
—Eu era a sua esposa.
—Elizabeth, não. — gemeu Henry, enquanto ela se levantava. Sua voz carregava um tom suplicante.
—Eu amei você. Até você me deixar morrer. Você podia ter me salvo como ele fez!
—Eu te amo, Elizabeth. Por favor, me escute. Mefisto nunca me disse que isso era possível.
—Você procurou saber, Charles?
—Eu salvei sua vida uma vez.
—Quando? — ela urrou, andando lentamente até ele – Quando?
—Aquelas suas tosses. Você estava doente. Você ia morrer. Eu troquei a minha alma pela sua cara. Assim que conheci Mefisto, assim que eu me condenei.
—Mentiroso!
—Elizabeth, não! — berrou Henry.
—Hipócrita! — Ela saltou sobre Charles e cravou o punhal no peito dele.
—Elizabeth! — gritou. A dor atravessou todo seu corpo. Ele caiu.
—Mentiroso!
—Eu dei minha alma por você. E o faria de novo. — Virou a cabeça para o lado e o brilho se apagou lentamente de seus olhos.
—Elizabeth! — O grito de Henry ecoou pela torre. Ela se virou – Isso dói. Me mate.
—Não. Não! — E se ajoelhou ao lado dele – Tem um jeito de resolver isso. Tem que ter.
—Não tem. — A voz de Mefisto veio da escada.
—Tem que ter. O que você quer? — Ela implorava com os olhos e com a voz, todo o corpo unido numa súplica.
—Não tem. Ele pode agonizar assim até… Alguém terminar o serviço.
—Faça isso, Elizabeth. — Henry segurou a mão dela – Estou te implorando.
—Não. Eu não posso.
—Se não o fizer, não serei eu quem farei. — replicou Mefisto.
—Elizabeth, não sinta-se culpada. Por favor. E Mefisto, cumpra sua parte.
O demônio sorriu.
—Perdoe-me, Pai, porque pequei e não me arrependo. — sussurrou Henry.
—Perdoe-o, Pai, porque ele não sabe o que faz. — retrucou ela, em tom baixo, descendo a faca no coração dele, que soltou um gemido de dor baixo, mas aliviado.
—Eu te amo. — falou. A voz se esvaindo até se tornar mais suave que um sopro. Um sorriso se esboçou em seu rosto antes da vida se esvair dele.
—Anima eius et animae omnium fidelium defunctorum per Dei misericordiam requiescant in pace.
Elizabeth olhou para Mefisto.
—Que sua alma e a de todos os fiéis defuntos, pela misericórdia de Deus – fez uma pausa -, descansem em paz. — sussurrou ela.
—Ainda lembra das orações, não é?
—Me deixe. — Levantou-se – Do que ele estava falando?
—Quer a imortalidade? — Foi objetivo.
—O que?
—Ele se sacrificou para que você vivesse para sempre. — Estendeu a mão. Nela, estava o colar.
—O colar que Charles me deu. Como? — Pegou.
—Viva para sempre.
—Não tenho motivos pra isso.
—Ele morreu para que você tivesse essa chance.
—Ele era a única coisa que me daria motivos para continuar. — Olhou para Charles – Era verdade?
—O que ele disse? Sobre você, ele e a doença? Sim.
—Por que eu não soube disso?
—Ele tem os motivos dele.
—Quais são?
—Não me interessa. Você aceita a imortalidade?
—Não… — Andou até a beira da torre e olhou lá para baixo.
—Você não teria coragem.
—Tem certeza?
—Você é covarde demais para isso, Elizabeth.
—Não duvide.
—Covarde. — Um sorriso sarcástico, com uma ponta de triunfo, surgiu em seu rosto.
Ela se apoiou no parapeito.
Apertou o colar na mão.
Fechou os olhos.
Se entregou ao vento gélido da noite.
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