Fated

9 VIII – …Comes Around


Notas iniciais
Está virando um costume chato eu me desculpar pela demora nas postagens, mas realmente eu estava enrolado com a escola. Agora, com as férias, com certeza postarei com mais frequência (se eu parar de procrastinar no tempo livre). Divirtam-se!

Washington D.C., Estados Unidos, hoje

Henry se levantou do sofá e andou até a porta. Colocou a mão na maçaneta e relutou em sair. Se debatia internamente com a dúvida. Estava indeciso entre procurar a possível solução para aquilo e proteger Elizabeth. Respirou fundo e abriu a porta. Seus pensamentos rugiam em sua mente assim que ele pisou no corredor. E nesse exato momento, um grito o tirou de seu devaneio. Ele correu para o quarto, aos tropeços, para encontrar Elizabeth deitada na cama, se debatendo.

Aos berros.

–Calma, Elizabeth! — ele tentou segurar os braços dela, mas ela o empurrou com violência na parede oposta. Ele se levantou, tropeçando na mesa e caindo. O barulho a tirou de seu transe.

Ela deu outro grito quando o percebeu.

–Henry? — ela gemeu, com os olhos cheios de lágrimas. A mulher tremia, estava pálida e seu olhar só mostrava um sentimento angustiante. Uma mistura de medo e pavor. Ela olhou para ele, com os olhos marejados, e desabou. Afundou a mão no rosto e chorou.

–Elizabeth? — ele se aproximou dela.

–Não me encosta… — ela pediu, delicada, afastando ele.

–Os sonhos? — perguntou, já prevendo a resposta.

–Sim. — ela secou as lágrimas no lençol – Eles não param, Henry…. O que eu passei lá….

Ele não disse nada. Apenas sentou-se na cama, ao lado dela, e a abraçou. Murmurou várias vezes a palavra “calma” no ouvido dela, até ela se acalmar.

–Ele não tinha o direito…

–Elizabeth, eu também errei.

–Ele fez aquilo pra chamar sua atenção! — ela rosnou – Você disse que ia e ele fez aquilo!

Ela levantou da cama e olhou para a janela ao fundo. Ele fez o mesmo.

–Elizabeth, eu já fiz isso.

–Se exibir pra ele? — ela deu socos no peito dele, mas ele segurou os pulsos dela.

–Espera! Não! Não faria isso, Elizabeth. Eu disse… Me relacionar com outras mulheres.

–A condição de vocês obrigou vocês a isso, você já me explicou. — fungou – Mas ele… Exibir essa… Vergonha! Desonra! Ele me humilhou! Ele insinuou coisas horríveis sobre mim! Ele insinuou que eu me deitei com você! Como ele pode me dizer isso?

–Elizabeth, ele disse isso tudo na raiva. Não se considera as palavras de um homem com raiva.

–Na raiva que se dizem as verdades que não são ditas na calma. — ela rosnou, desvencilhando-se da pegada dele em seus pulsos. Se afastou um pouco, ficando de costas para ele.

–Muitas coisas são criadas na mente de um homem com medo. — e tocou o ombro dela.

–Um homem com medo? Medo de que? Estive no Inferno! — enfatizou.

–Medo de perder você de novo! Foi rápido demais pra ele, Elizabeth. Eu mesmo demorei a reagir quando ele a trouxe de volta e, por Deus, eu não suportaria perder você outra vez.

–Ele não pensava isso quando ia pra cama da sua mulher.

Essa frase acertou Henry como uma facada no estômago.

Ele recuou um passo, cruzando os braços sobre a barriga e se curvando ligeiramente, como se tivesse sentido algo.

Como se tivesse machucado.

Ela permaneceu impassiva, sem olhar para ele. De costas, com os braços cruzados na frente do corpo, uma lágrima escorrendo contra a luta interior. Ela estava frustrada, com raiva, assustada e confusa. Ela sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ele recuou, em passos curtos, até uma cadeira e se jogou nela.

Henry tremeu.

Ambos permaneceram nessa situação, afastados, golpeados pelos próprios sentimentos.

–Elizabeth, não me doeu… Eu não a amava. A traição dela foi só uma…

–O que aconteceu com ela? — a mulher o cortou.

–Com ela? — tropeçou nas palavras – Eu… Fiz algo que… Me desculpe…

–O que aconteceu com ela?

–Eu a matei.

***

Londres, Inglaterra, 19 de Julho de 1843

Henry se preparou para abrir a porta, mas uma mão tocou o ombro dele.

–Saligia. — disse a voz feminina no momento que ele se virou.

–Theresa? — eles se abraçaram.

–Henry, só me escute… Quando chegar na sua casa, veja a sua mesa, no seu quarto, com cuidado.

–Por que?

–O diabo mora nos detalhes. — disse, com a voz e o sorriso ambíguos.

–O que quer dizer?

–Você entenderá. — e o beijou.

Ele a empurrou.

–O que pensa que está fazendo?

–Me diga que não quer. Os desejos da sua carne subjugam as vontades do seu coração, algumas vezes. Negue meu corpo. — ela segurou a mão dele e conduziu até sua cintura – Negue.

–Chega! — ele deslizou a mão por ela e a empurrou.

–Sua vontade é impressionante. — e saiu. Se afastou, assoprando um beijo e dando uma piscadela para ele. Ele se encostou na porta e suspirou, aliviado, pelo fato da rua estar vazia.

Entrou em casa e andou, friamente, para o quarto. Abriu a porta do mesmo com violência. Sua esposa não estava. Ele andou até a mesa que ele usava e começou a procurar por algo que ele não sabia o que era. Rapidamente viu o que era. Brilhando, em dourado, estava um par de abotoaduras. Novas, polidas, cintilando contra as velas. Ele pegou e viu as inicias, CK — Charles Kerran. Logo em seguida, Kathryne entrou no quarto.

–Henry! Querido, chegou cedo hoje. — ela o abraçou.

–O que é isso? — ele a repeliu, violentamente, mostrando as abotoaduras.

–O que é isso? — ela repetiu, confusa.

–Charles Kerran! — ele berrou, jogando as abotoaduras nela. Ela tentou se defender com a mão.

–Não estou entendendo.

–Não? Me explique o que as abotoaduras do Charles estão fazendo aqui! Um par. Ele veio aqui?

–Sim, procurar você.

–No meu quarto?

–Sim! — ela gemeu, trêmula.

–E tirou a roupa? Eu sou idiota?

–Henry, está fazendo um julgamento errado. Você está bêbado!

–Julgamento errado eu fiz quando casei com você, uma vadia!

–Não fale assim comigo.

–É o que você é! — falou, com rispidez – Uma rameira, uma meretriz, uma prostituta.

–Pare, Henry. Por favor.

–Parar com a verdade? Que você foi pra cama com meu melhor amigo?

–Pare de insinuar essas coisas!

–Insinuar, Kathryne. Insinuar que você é uma puta?

–Chega! — ela gritou, dando um tapa violento no rosto dele. Recolheu a mão logo em seguida.

–Você me bateu… — ele sussurrou, dando um passo para trás.

–Eu não quis fazer isso, me perdoe.

–Perdoar? Por você agir como uma puta com meu melhor amigo? — segurou ela pelos pulsos e a sacudia violentamente enquanto falava.

–Cansei das suas insinuações! — ela desviou das mãos dele – Você transa com a cadela da Elizabeth!

–Não ouse falar assim dela! — e deu um tapa nela, com as costas da mão. Ela vacilou para o lado, momentaneamente desnorteada.

–Como ousa fazer isso? — guinchou ela, ainda tonta.

–Eu sou seu marido! E você é a única cadela que vejo aqui! — gritou a plenos pulmões.

–Eu sou sua esposa! — ela investiu sobre ele, dando socos no peito dele. Henry segurou os pulsos dela e a jogou para o lado. Ela se desequilibrou e bateu com as costas na porta entreaberta. Gemeu, não de dor, mas de raiva. Ela se lançou sobre ele, que tentou se defender novamente.

Kathryne e ele entraram em uma breve luta corporal, e ela conseguiu arranhar o rosto dele, fazendo verter uma linha de sangue dos arranhões. Ele levou a mão até o rosto, sentindo o líquido ainda quente escorrer. Olhou para as gotas escarlates na ponta de seus dedos. Gritou meia dúzia de insultos quando a agarrou pelo cabelo, jogando-a para o lado. Ela tentou se segurar e bateu com a cabeça na mesa dele, abrindo um corte em sua testa. O líquido vermelho pingou, sujando seu rosto, a roupa e os fios de cabelo que estavam caídos sobre a testa.

Ela rolou da mesa para o chão, mas se segurou na borda de madeira antes de cair. Com um impulso repentino, se levantou e o atingiu com um tapa que o fez fraquejar para o lado. Quando se recuperou, ele a puxou pelo pescoço e começou a enforcar a esposa.

–Nunca mais fale da Elizabeth dessa forma! Você não é metade da mulher que ela é. Uma cadela como você deveria estar na rua. Fodendo com o primeiro que tivesse dinheiro pra pagar!

Jack entrou correndo.

–Senhor, pare. — o garoto segurou Henry por trás, puxando-o para longe dela. O homem, com raiva, a jogou violentamente no chão. Ela caiu, esfregando o pescoço, resfolegando – Controle-se, meu senhor. Acalme-se, não manche sua reputação por alguma briga conjugal.

–Tire a mão de mim! — e jogou o garoto para trás, atingindo-o com um soco. Agarrou novamente a esposa pela garganta, apertando. Ela tentou se desvencilhar, mas não conseguiu. O valete o puxou outra vez, entrando no caminho entre ele e a esposa.

–Tratem de se acalmar.

–Com licença, vou dormir no quarto de hóspedes. — grasnou Henry, saindo do quarto. Jack olhou para ela, com uma ponta de pena – Dispensado, Jack.

–A senhora está bem? Está com um corte feio na testa. Eu posso ajudar.

–Saia daqui! — ela investiu contra ele, golpeando o peito do garoto da mesma forma que fizera com o marido. O jovem a segurou e a envolveu em um abraço reconfortante. Constrangida, ela encostou a cabeça no peito do garoto e chorou.

–Está tudo bem, senhora. É uma mãe para mim.

–Obrigado, garoto. — ela estremeceu – O Henry…

–Está tudo bem. Não precisa me contar.

–Me… Perdoe… Por… Te tratar… Tão mal… — gemia, entre soluços.

–Tudo bem, tudo bem. — ele assentiu, mantendo o tom calmo.

***

Washington D.C., Estados Unidos, hoje

Henry levantou da cadeira após a confissão, momentaneamente desnorteado. Se aproximou dela por trás e a envolveu em seus braços, acariciando o cabelo de Elizabeth carinhosamente. Ela fez menção de se afastar, mas não o fez. Permaneceu ali, abraçada e sendo acariciada por ele, sentindo a respiração quente e ritmada em seu pescoço.

Ela se arrepiou.

Como se guiada por uma força inexplicável e irresistível, ela se virou lentamente, ainda presa pelo abraço dele, e tocou o peito dele com as mãos. Por um breve segundo ele imaginou que ela o afastaria, mas ela não o fez. Subiu a mão até os ombros dele e ajeitou-se ali, abraçando-o também. Delicadamente, ela se aconchegou abaixou do queixo dele, recostando a cabeça em seu peito. Ele apoiou o queixo sobre a cabeça dela.

Pararam por alguns segundo.

Elizabeth levantou o rosto, roçando na barba dele. Se fitaram por uns instantes, olhando profundamente nos olhos.

Poderiam jurar que aquilo demorou uma vida, mas não passou de alguns segundos.

Ele levou a mão até o queixo dela e o levantou, inclinando-se um pouco.

Ela umedeceu os lábios.

Ainda olhavam nos olhos, profunda e fixamente, no momento que os lábios se tocaram. De uma forma tão suave que sequer sentiram. Ele se afastou instantaneamente.

–Isso é errado, Elizabeth. Não quero te confundir mais.

–Errado? Não sei mais o que é errado.

–Elizabeth, você está confusa.

–Confusa? Você fala demais, Henry. — e se aproximou dele, beijando-o avidamente.

Ele a repeliu, carinhosamente. Ela recuou um passo, então ele investiu contra ela, ignorando o dilema interno que o atingia. Ainda considerava aquilo traição, mas baseado em que princípios poderia dizer que era errado? Talvez ela o estivesse usando como uma vingança emocional, ou simplesmente estivesse agindo no impulso. Ignorou a própria mente, a própria racionalidade.

–Existem momentos, Henry – ela murmurou, como se adivinhasse o pensamento dele –, que devemos ignorar a razão e ouvir a vontade. — lançou-se em outro beijo.

Ele a segurou nos braços, levando-a até a cama. Deitou-a ali e tirou a camisa.

***

Lucian agarrou a garota pelos cabelos e a arrastou para fora do quarto.

–Saia daqui, vadia! — ele gritou, empurrando-a sem dar a chance de ela pegar a camisa. Ela ainda tentou argumentar sobre o pagamento, mas ele a calou com um tapa. Ela tropeçou na saída, caindo no corredor – Saia! — e bateu a porta com toda a força que conseguiu.

Passou o braço pela pequena mesa que estava em um canto, com algumas coisas que não usava, derrubando o material. Puxou a mesinha, jogando-a no chão. Deu um grito quando chutou a porta do armário. Com raiva, arrancou os lençóis da cama, junto com a coberta e o travesseiro, e os arremessou para trás, furioso. Rosnava de raiva. Gritava, frustrado.

Sentiu uma mão tocar seu ombro.

Se virou, pronto para golpear a pessoa.

–Tudo bem, Lucian? — Jessica perguntou, preocupada.

–Minha esposa…

–A morta?

–Ela está viva. — ela se afastou dele, pegou o telefone dele na mesinha de cabeceira e o conectou na Dock Station que acabara de pegar do chão, que fora derrubada da mesa. Plugou o celular ali e escolheu uma música. Os dois permaneceram em silêncio.

It's looking like a limb torn off

Ele se encolheu ao reconhecer a música.

–Saia daqui! — ele gritou.

Or altogether just taken apart

–O que aconteceu, Lucian?

–Saia daqui! — ele a empurrou para fora do cômodo, violentamente.

We're reeling through an endless fall

Ela saiu, assustada, se desculpando.

Ele trancou a porta e se jogou de costas nela.

Esmurrou a parede.

We are the ever-living ghost of what once was

Ele pegou uma garrafa de whiskey e virou, sem respirar, para dentro da garganta. O líquido desceu, queimando. Ainda na metade da garrafa, ele a arremessou contra a parede e pegou uma garrafa de vodka.

Olhou para a mão e viu a marca dos cortes que conseguira naquela noite, após o sonho, atacando o espelho.

Soltou um gemido abafado, incomodado.

But no one is ever gonna love you more than I do

–Sete anos de azar. — murmurou para si mesmo.

Sorveu um gole da vodka.

–Mefisto… Temos assuntos a tratar…

Notas finais
Quem está lendo, e chegou até aqui, acho que seria legal comentar, compartilhar. Fazer esse jovem escritor feliz. Até o próximo capítulo