Fated
6 V - Saligia
Washington D.C., Estados Unidos, horas antes
Henry revirou todas as gavetas do quarto do casal. Olhou no porta-joias e encontrou o colar, escondido no fundo da caixa.
–Tentaram me enganar, não é? Eu não sou idiota, certo? Obrigado, e com licença. — e saiu.
–Meu Deus, temos que ajudar ele! — Jéssica falou, nervosa. Bruce se ajoelhou ao lado do corpo de Lucian, levando o indicador e o dedo médio ao pulso dele, verificando a pulsação.
–Sem pulso.
–Liga pra polícia!
Lucian abriu os olhos e levou, arfando. Tentando pegar ar, com dificuldade. Parecia sufocar.
–Henry! — ele dizia, tentando sorver o ar. Quando estabilizou a respiração, se levantou assustado. Arrancou a faca do peito com um gemido de dor e a jogou no chão. O corte foi fechando lentamente. Ele recuperou a cor, a palidez foi sumindo de seu rosto.
–O que? Você estava morto!
–Eu não posso, sou amaldiçoado. Me desculpem. — ele olhou ao redor – Cadê o Henry?
–Ele fugiu. — falou Jéssica, e completou — Com o colar.
–Não. Não! Não! — e deu um soco no ar.
–O que tem aquele colar?
–Algo importante pra mim. — e se dirigiu para a porta.
–Bruce, pegue algo para ele beber na cozinha. — e o marido dela foi – O que está acontecendo? Rápido, resuma tudo o mais rápido possível.
–Sou amaldiçoado. Minha esposa está presa e perdi a única coisa que podia salvá-la.
–Qual sua maldição?
–Você não acreditaria em mim.
–Acredito. Me diga.
–Não!
–Por que? — ela segurou a vontade de gritar.
–Porque achará que sou louco.
–Eu vi você se levantar depois de morto. Isso muda minha definição de loucura.
–Eu sou imortal. Não posso morrer.
–Como um zumbi?
–Foi o melhor termo que achou? Quase, mais como um vampiro.
–Você bebe sangue?
–Não, não. Me alimento de outra coisa que não deixa marcas. — e pensou um pouco – Dependendo do que eu faço, deixa sim… — falou, refletindo mais um momento.
–O que eu perdi? — Bruce perguntou, voltando com um copo com água.
–Nada. — eles se entreolharam.
–Ele é cético sobre isso? — Lucian sussurrou discretamente para ela.
–Sim, é. Ele te chamaria de louco. — ela sussurrou em resposta.
–O que aconteceu aqui, Bruce?
–Como? — e ergueu uma sobrancelha.
–Me diga o que aconteceu aqui.
–Ahn… — parou um pouco, contemplativo – Bom, creio que você foi superficialmente atingido. Ficou inconsciente e eu provavelmente verifiquei sua pulsação errado. Eu estava nervoso.
–Tinha uma adaga no meu coração. — rosnou, entredentes.
–O que disse?
–Deve ter sido pela emoção. — mentiu – Você ter ficado nervoso.
–Sim, pode ter sido. — ele assentiu.
–Eu tenho realmente que ir. Eu precisava daquele colar.
–Algum tipo de caça ao tesouro?
–Motivos pessoais. Onde o encontrou?
–Comprei num antiquário.
–Qual?
–Espere. — e se virou para subir – Vou pegar o endereço.
***
Londres, Inglaterra, 14 de Julho de 1843
Henry olhava surpreso para Theresa.
–Não dirá nada?
–O que devo dizer?
–Por que iria se matar, talvez? — ela falou, em um tom de repreensão.
–Eu não ia me matar.
–Eu quase tive que te arrastar para fora do Tâmisa. Se eu não estivesse aqui, retirariam seu corpo de alguma parte do rio amanhã.
–O que uma dama está fazendo essa hora da noite, sozinha?
–Você não me respondeu, Henry.
–Senhorita Theresa, eu… — ela o beijou. Ele a empurrou – Está louca? — ele gritou.
–Continue gritando como um louco descontrolado. Venha, levante-se. — e o ajudou a se levantar.
–O que quer? Por que me beijou? Você seria algum tipo de prostituta?
–Prostituta? Primeira vez que me chamam assim. Por que iria se matar?
–Não ia.
–Evidentemente. Só porque você estava de pé na beira do Tâmisa, pronto para mergulhar, chorando, e sussurrando repetidamente que era uma boa noite para morrer, não significa que ia mergulhar.
–Eu não estava chorando! Muito menos sussurrando algo repetidamente.
–Eu ouvi antes de te puxar. E passe a mão em seus olhos. — ele fez isso, sentiu os dedos saírem umedecidos – Molhados?
–Sim. Mas não me lembro de chorar.
–Você estava rindo descontroladamente por um tempo. Quando parou, e se levantou, fui ajudar.
–Eu cansei. — confessou, após momentos de silêncio – Eu cansei.
–Cansou? — ela ergueu uma sobrancelha, curiosa.
–Eu cansei. De tudo. Estou casado, sem amor. A mulher que amo ama outro. Desejo a mulher do meu melhor amigo e… Deus, onde estou com a cabeça?
–Fale. — ela o segurou pela mão e caminhou com ele até um beco.
–Amo a Elizabeth, esposa do meu amigo Charles. Eu a amo com minha vida. Mas sinto que declarar algo seria uma traição. E algo que não suporto seria trair meu amigo. Isso é errado.
–O que é errado? Amar? Ou trair?
–Ambos. — explicou – Amá-la é uma traição, de certa forma. Jurei desejar apenas minha esposa.
–Juramentos podem ser quebrados.
–Não quero quebrar um juramento.
–Palavras feitas diante de um livro sagrado não as torna sagradas. — falou Theresa, sabiamente – As promessas sagradas são criadas dentro do coração. São a essas que deve apegar-se.
–Deus diz ser errado isso.
–Você é seu próprio deus. Você decide quem guia sua vida, Henry.
–Não diga isso.
–Você ama a Elizabeth. Você quer que esse amor guie sua vida?
–Sim. Mas é um pecado. Desejar a mulher do próximo.
–Saligia. Sabe o que isso significa?
–Não, o que?
–São uma palavra para definir os Sete Pecados Capitais em Latim. Sabe quais são?
–Orgulho, ganância, cólera, inveja, luxúria, preguiça e gula.
–Exatamente. — e ela parou por um momento – O S significa Superbia, Soberba. O A, Avaritia, Avareza. Luxuria, Invidia, Gula, Ira e Acedia. Luxúria, Inveja, Gula, Ira e Preguiça. Nessa ordem. Saligia se refere a todos como um. Já percebeu a ironia de ter um termo para referenciar todos os pecados e não ter um para todas as virtudes? Entende que pode-se ter todos os pecados, porém não se pode ter todas as virtudes? — e olhou para ele, esperando ele acompanhar seu raciocínio. Quando ela percebeu que ele já seguia sua linha de raciocínio, prosseguiu – Todos os pecados, unidos em um. Um termo que unifica os mais comuns e condenatórios erros humanos. Porém, as virtudes não podem ser reunidas de uma forma só. Pode-se unir várias, mas não todas. Compreende?
–Por que está me dizendo isso?
–Porque será nosso código secreto. Saligia.
–Código secreto?
–Você precisará de mim. E usará isso para me chamar.
***
Washington D.C., Estados Unidos, horas depois
Henry segurou a mão de Elizabeth. Os olhos marejados de lágrimas. Trêmulo. Ele a guiou até a cama, tranquilamente. Mefisto lançou um olhar de indiferença para eles. Indiferença não, era possível dizer que era um olhar de complacência, ou algo mais próximo da condescendência.
–Posso falar contigo? — perguntou o demônio – Sozinho.
–Pode, claro. — aquiesceu Henry, tremente e receoso de deixar a jovem sozinha. Os dois se afastaram e ela se deitou na cama, confortável e desconfiada – O que aconteceu?
–Eu a entreguei para você. — disse, sussurrando – Como uma recompensa. Mas ainda preciso de sua ajuda, Henry. Espero que possa me ajudar.
–Não era só o colar, não?
–Não, não era. Eu preciso que faça algumas coisas para mim ainda. E continue mantendo o seu disfarce com o Charles.
–Não existe mais disfarce. Eu o matei.
–Você o que? — o demônio levantou uma sobrancelha, incrédulo – Ele não pode morrer.
–Claro que pode. Quando ele está fraco, achei que ele poderia.
–Você achou? — passou os dedos entre os cabelos, olhando para os dois lados e se voltando para Henry, com uma expressão inquieta – Eu não te protegerei. Você escolheu isso. Você fez a bagunça, você arrume. Saiba que ele vai atrás de você. — e se virou, andando até a porta – Mantenho contato. Lembre-se do nosso código. Eu o usarei para o contatar.
–Saligia. — murmurou.
–Saligia.– repetiu Mefisto, abrindo a porta e saindo.
Henry voltou para o quarto. Olhou para Elizabeth. Ela estava pálida, magra e suja. Cheirava a enxofre. Ele ofereceu a mão para ela e perguntou se ela queria um banho. Ela concordou, educadamente. Ele a levou ao banheiro, abriu a torneira da banheira e esperou a mesma encher. E quando estava cheia, a fechou. A temperatura parecia perfeita para ele. Avisou a ela que demorasse o tempo que precisasse, virou as costas e fechou a porta, anunciando que não tinha empregados para ajudá-la. Por vários minutos ficou ali, com as costas coladas na madeira da porta, lutando contra a vontade de voltar e vê-la nua, de possuí-la. Bateu com a mão, afastando, por fim, a ideia da cabeça.
Rapidamente, trocou os lençóis da cama e correu para uma loja de roupas próximas. Comprou uma roupa para ela, sem escolher muito. Sequer sabia quanto ela vestia ou calçava, e preferiu confiar em seu conhecimento de mulheres. Enquanto voltava para o apartamento, tranquilo, lembrou que não deveria tê-la deixado sozinha. Acelerou o passo, quase correndo, subiu as escadas, sem querer esperar o elevador, e abriu a porta com violência. Colocou as roupas que comprara para ela sobre a cama e bateu à porta do banheiro.
Silêncio.
Bateu novamente.
Ouviu um sussurro de dentro, alguém sussurrando seu nome.
–Elizabeth, tudo bem?
–Estou. — ela gemeu, sofridamente, em resposta.
–Estou aqui. Se precisar, eu… — ele parou por um momento – Eu chamo alguém. — se sentia uma criança assustada ouvindo um pedido de ajuda da mãe.
Ora, não tem problema nenhum nisso, pensou, apenas uma dama pedindo ajuda.
Deu um tapa no ar, espantando ideias.
–Elizabeth, estarei aqui. Use essa toalha que está aí e… Se enrole no meu sobretudo quando terminar. Me avise que terminou o banho e levarei uma roupa para você.
–Certo. — ela assentiu. Com a constatação de que ela estava bem, ele se sentou tranquilamente na cama e fitou a parede por alguns instantes. Para ele, que se desligara, pareceram segundos, mas se passaram minutos até Elizabeth o chamar outra vez. Ele levantou, pegou a roupa e entregou a ela por uma pequena fresta da porta, lutando internamente contra a tentação de olhá-la.
Ele respirou fundo e afastou a ideia do pecado da mente. Já estava suficientemente condenado para se dar ao luxo de mais condenação, que ele julgava ser impossível para alguém tantas condenações sucessivas. Mais uma vez, virou-se, dividido entre se permitir uma olhada discreta e se afastar sem segundas intenções, ainda. Começou a andar em círculos pelo quarto enquanto a esperava.
–Acabei, Henry. — ela falou, saindo do banheiro – Isso é mais confortável do que os espartilhos.
–Elizabeth, você está divina. — ela vestia um tênis comum, desamarrado, uma calça jeans escura e uma camisa branca, com uma jaqueta de couro marrom escura – Diferente da visão que eu tinha, obviamente, mas, ainda assim, está linda. Me permite? — se ajoelhou, oferecendo-se para amarrar os cadarços dela. Ela fez um sinal de positivo com a cabeça.
–Obrigado. — ela murmurou, quando ele terminou. Estava tão pálida que parecia que desmaiaria a qualquer segundo. Deu um leve sorriso – O que aconteceu?
–Tudo. — ele resumiu – Primeiro, conte-me o que aconteceu com você.
–Eu gostaria de comer algo.
–Aceita um sanduíche?
–Aceito, por favor. — ele se precipitou para a cozinha e começou a preparar um sanduíche reforçado para ela quando ouviu seu telefone tocando, seguido de um som abafado.
–Elizabeth? — e correu para ver o que estava acontecendo. Ela estava de pé, olhando espantada para o telefone que tocava sobre a cama.
–O que é isso?
–É um celular. Um telefone celular. — e pegou para atender.
–Um o quê?
–Surgiu alguns anos depois que você… Partiu. Um momento. — e atendeu – Henry Delagney. Sim, Mefisto. Está tudo bem. Ligo. Obrigado. — e desligou – Como eu dizia, surgiu em 1856, com um italiano. Ele definiu isso como um “telégrafo falante”. Ele, posteriormente, vendeu o projeto, ainda com a patente provisória, para um escocês, com pátria britânica e alemã. O italiano, inventor do telefone, também criou um molde de velas e um aparelho para modelação de velas. Ele teve uma pequena ajuda minha, mas isso não vem ao caso.
–Interessante. Isso fala?
–A pessoa do outro lado fala, e eu escuto a voz dela. É enviado por sinais invisíveis, como a voz.
–Você sabe bastante.
–Quase dois séculos ajudam. — e voltou para a cozinha, terminando o sanduíche. Trouxe para ela junto de um copo de suco – Tivemos sorte de eu ter algo além de whiskey, vodka e conhaque em casa para te oferecer. — e riu, entregando a ela a bandeja.
–Estou agradecida. — e pegou – Onde é a mesa?
–Pode comer sentada na cama ou… — olhou ao redor. Tirou as coisas da escrivaninha rapidamente, colocando seus papéis sobre um baú. Afastou a cadeira para ela sentar-se e, com um gesto, ofereceu o lugar. Ela sorriu, cortês, e sentou-se. Começou a comer – Conte-me o que aconteceu esse tempo?
–Claro. — falou, entre uma mordida e outra. Ela parecia faminta. Ele sentou-se na cama.
–Comece quando se sentir a vontade.
–Depois que aquilo tudo aconteceu, eu não lembro de muita coisa. Eu lembro de um homem, dizendo ser um anjo, e me guiado para longe. Ele tinha os cabelos brancos, não grisalhos ou cinzas, eram brancos, como a neve. E os olhos eram roxos, ou violeta, eu estava tonta. Ele era muito, muito belo e me levou até uma porta que eu nunca havia visto. Quando atravessei, fiquei cega por um tempo e tive que confiar nele para me guiar. Quando consegui enxergar, ele não estava mais lá, e eu estava em uma cela, algo semelhante a uma masmorra. — deu outra mordida, mastigou com calma e bebeu um gole do suco – Isso está doce. — e bebeu outro gole – Isso é bom. Muito bom. — falou, com um sorriso alegre. Repentinamente, sua expressão mudou para algo indefinível, e ela ficou mais pálida, olhando fixamente para o suco. Então deu um grito, pegou o copo e jogou com toda a força na parede, fazendo o vidro estourar com o impacto.
–O que houve? — ele deu um salto e a abraçou, num impulso protetivo. Ela também o abraçou.
–O meu marido. — ela disse, a voz falhando – Onde está ele?
–Elizabeth, desculpa.
–Ele está morto? Onde eu estou e… Que maldito lugar é esse? Ele não me tirou de lá, não é? Eu ainda estou presa no Inferno? Deus, eu não merecia isso. — e chorou, apoiando a cabeça no peito dele, que estava abaixado ao lado dela – Ele morreu? Ele morreu.
–Não, ele está vivo.
–Está? — ela se afastou, os olhos brilhando como o de uma criança – Me leve até ele.
–Desculpe. — e Henry tirou o celular do bolso, acessou as fotos e mostrou várias fotos dele, com algumas mulheres. Ela olhou aquilo, com uma expressão indefinida.
–O que é isso?
–Fotografias. — ele explicou – Do seu marido.
–Ele está…? — Henry continuou passando as imagens, ela virou o rosto – Não quero mais ver.
–Elizabeth. Seu marido continuou a vida dele.
–Não consigo acreditar.
–Acredite. — ele murmurou, cabisbaixo.
–Ele prometeu ser fiel. — e abaixou a cabeça.
–Eu não queria, Elizabeth. Me desculpa.
–Eu preciso ficar um pouco sozinha.
–Como quiser. — e se levantou. — Estarei lá fora se precisar. Apenas me chame.
Henry se afastou, abriu a porta e olhou para ela uma última vez. Ela se ajeitou na cadeira e voltou a comer. Pediu mais suco, se desculpando pelo surto. Ele a serviu e entregou a ela. Saiu do apartamento e fechou a porta, se encostando e escorregando lentamente por ela. Se sentou, de costas para a madeira da porta, com os joelhos dobrados. Apoiou o rosto nas mãos, passando os dedos entre os cabelos. Suspirou e deu um soco na própria perna. Será que ele havia feito a coisa certa? Um turbilhão de sentimentos o invadiu. Raiva por ela expulsá-lo. Culpa por tê-la feito triste. Triste por ela. Irritado com Mefisto ter a devolvido machucada. E o pior deles, o qual ele lutou por toda a sua vida, quase dois séculos, como ele mesmo disse.
Amor.
Ele a amava, e sabia que estava cego.
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