Fated
1 Prologue
Londres, Inglaterra, 13 de Julho de 1843
Charles abriu delicadamente a porta de seu quarto, temendo acordar a esposa. Quando foi se deitar, sua cama estava vazia. Seu sangue gelou por um segundo, mas tentou ser racional. Levantou com calma, andou até a porta. Chamou a esposa e não ouviu. Entrou no quarto de seu filho, James. O pequeno estava deitado em sua cama, dormindo tranquilamente com sua mãe ao seu lado. Ele respirou aliviado.
–Querida. — chamou, sacudindo-a com cuidado – Elizabeth.
–Charles? — ela disse, tonta e sonolenta. Os cabelos castanhos estavam bagunçados e caídos sobre o ombro esquerdo. Os olhos em um tom bem claro de verde estavam semicerrados – Chegou agora?
–Sim. Me preocupei quando não a encontrei em nosso quarto.
–Logicamente. — ela se levantou, tomando cuidado para não acordar o filho. O garoto era parecido com o pai: Cabelos escuros e lisos, levemente bagunçados, e olhos azuis. O rosto quadrado.
–Onde está a Anne?
–Creio que no quarto, dormindo. Por que?
–Nada. — ele sorriu – Verei se ela está bem.
–Vai ver a empregada agora?
–Sim, você sabe que só durmo quando tenho certeza que todos estão dormindo bem.
–Como quiser. — ela o beijou. O pequeno James se moveu na cama, mudando de posição – Não demore, por favor. Estarei te esperando no quarto.
–Serei rápido. — ele andou até o corredor, acendeu uma vela e andou até o quarto da empregada, nos fundos da casa. Abriu a porta cuidadosamente e colocou a vela pela brecha, entrando em seguida.
–Senhor? — ela estava sentada na cama – Achei que já estivesse dormindo, senhor. Como foi a apresentação? — ela se levantou. Era uma mulher negra, com os olhos escuros e o cabelo da mesma cor, sempre preso, que eles compraram em uma viagem como escrava, mas ela recebia o tratamento e pagamento de uma empregada.
–Foi bem. — ele colocou a mão por dentro do sobretudo e puxou um papel, entregando para ela.
–Do meu filho? — ela pegou, sorrindo.
–Sim. — ele sorriu.
–Como ele está?
–Muito bem, na verdade. Meu amigo, que está com ele, o trata muito bem. Cícero está feliz.
–Graças a Deus… Não sabe como orei por isso.
–Tenho uma vaga noção. Não me imagino sem o James.
–Deus te abençoe, senhor.
–Deus nos abençoe, Anne. — e colocou a vela sobre uma mesa de madeira — Deixarei a vela aqui, caso se decida por ler agora. Irei para meu quarto, Elizabeth deve estar me esperando ainda.
–Claro, senhor. Boa noite.
–Boa noite, Anne. — disse, enquanto saía. Conhecia sua casa o suficiente para ir ao seu quarto no escuro. Passou pelo quarto de James e olhou, pela luz pálida e prateada que entrava pela janela, que seu filho dormia tranquilamente. Sorriu e foi para seu quarto. Trocou rapidamente de roupa e se deitou – Ainda acordada, Elizabeth?
–Sim. — ela se mexeu, deitando de lado e olhando para ele – Como foi a apresentação?
–Muito bem, obrigado.
–Por que demorou?
–Como?
–Por que demorou, Charles? Para chegar em casa.
–Tive que fazer uma coisa.
–Você estava com uma prostituta?
–Sabe que eu não te trairia, Elizabeth.
–Me desculpe.
–Não se preocupe. Mas creio que nunca dei motivos para desconfiar.
–De fato, nunca deu. — ela falou, levemente envergonhada para desconfiar do marido.
–Que seja, isso acontece. — e a beijou amorosamente.
–Obrigado.
–Não agradeça. — e a beijou outra vez, aproximando seus corpos.
***
Washington D.C., Estados Unidos, hoje
Lucian pagou a conta do bar, levantou e saiu. Apesar do calor que fazia, ele se mantinha tranquilo com seu sobretudo. Sua pele ainda estava fria. Quando alcançou a rua, uma mulher o parou, pedindo um cigarro.
–Eu não fumo. — ele disse, com o forte sotaque britânico que sempre tivera.
–Pode me dar algum dinheiro para o cigarro? — ela insistiu.
–Não. — ele rosnou, esperando o semáforo mudar de cor para atravessar a rua.
–Pode me dar algum dinheiro?
–Não, não posso. — falou, impaciente.
–Por que não?
–Porque eu não quero.
–Eu preciso de dinheiro.
–Trabalhe! Acha que o dinheiro vai cair do céu? Sinceramente, quer viver o resto da sua vida miserável e nojenta dependendo do que quiserem te dar? De sobras, restos? Do que ninguém quer mais? Tenha um pingo de orgulho! Se não quer viver como o inseto, o lixo que você é, tenha ao menos a dignidade de se matar! Ninguém gosta de pessoas que precisam de outras para viver.
Os olhos da mulher estavam cheios de lágrimas.
–Vai ficar me encarando? Ou se mate e acabe com essa vergonha, dessa cena patética que você é, precisando de pena para continuar existindo; ou arrume algo que faça as pessoas se lembrarem de você por ser relevante. — ela continuou parada – Ande! Acabe com isso, logo. Ou saia daqui e não me incomode com sua existência outra vez.
A mulher recuou um passo, olhou ao redor e correu para o meio da rua, pulando na frente de um carro que vinha em alta velocidade. Lucian olhou, com indiferença. Enquanto as pessoas se juntavam ao redor do corpo, o motorista freou e correu para prestar socorro. Ele ajeitou o sobretudo, passou a mão por um dos bolsos, pegou um maço de cigarros e, quando passou perto da multidão, amassou o maço na mão e o jogou no chão.
–Odeio cigarros. — sussurou para si mesmo e continuou andando em frente, tranquilamente, sem sequer olhar para o corpo. Sentiu uma mão tocar seu ombro quando chegou ao outro lado.
–Muito bem, Charles. — ele olhou sobre o ombro, e reconheceu quem era. Era um homem com a barba por fazer, cabelo castanho claro e com vários fios grisalhos.
–Eu odeio que me chamem de Charles. Nunca mais me chame assim.
–Perdão, qual seu nome agora? Anthony, Lucas?
–Lucian. — ele disse, desinteressado.
–Belo nome.
–Tire a mão do meu ombro, Henry.
–Como quiser. — e tirou. Lucian se virou para ele, impassivo. Uma expressão neutra e indefinível em seu rosto – Bom trabalho ali. — e apontou para a multidão, que falava agitadamente.
–Eu sei. — e deu de ombros — Só isso?
–Quero falar com um amigo! Só isso.
–Eu não sou seu amigo.
–Como não? Perdi a conta de quanto tempo nos conhecemos.
–Só porque nos conhecemos a muito tempo não quer dizer que eu vá nutrir algum sentimento de afeto ou consideração por você. Eu não gosto de você, entende? Não somos amigos, parceiros, colegas, nada. Eu apenas não gosto de você.
–Nossa, que estresse. Acordou do lado errado da cama hoje?
–O que eu preciso fazer para você sair daqui? Te matar.
–Mate, então.
–Me poupe disso. — e deu de ombros, deu as costas para ele e continuou andando.
–Foi muito mal educado isso! — ouviu Henry falar ao alcançar ele – Me pague um café, vamos conversar, por favor.
–Que seja. — seguiram quietos até um Starbucks – Queria ir pra casa. — murmurou, entediado.
–Como tem sido suas noites? — disse, ignorando o que ele falou.
–Do jeito ao qual fui condenado… Me deitando com qualquer uma.
–Não me parece ruim. Um café, por favor.
–Não faço por prazer. Na verdade, tem muito tempo que não sei o que é isso.
–Como eu disse, me parece divertido.
–Porque não seguimos a mesma ideologia, Henry.
–Me chame de Harry.
–Não quero ser seu amigo.
–Isso foi um tanto grosseiro.
–Me diga logo qual sua intenção com essa conversa.
–Lembrar dos bons tempos.
–Por favor, estou ficando impaciente.
–Quero saber se você ainda está irritado comigo.
–Óbvio que estou, Henry.
–Veja bem, Charles…
–Lucian. Meu nome agora é Lucian. Me diga, por favor, o motivo de eu ainda não ter te enforcado.
–Porque somos amigos.
–Não somos, eu já disse.
–Que seja. Bom, vim apenas para me desculpar. — pegou o café – Deixa que eu pago. — pegou a carteira, tirou o dinheiro e jogou sobre o balcão.
–Você não veio só se desculpar. E se veio, tem algo além.
–Você me conhece bem demais, Lucian. — e suspirou.
–O que houve?
–Fui traído.
–Por quem? Uma das suas meretrizes?
–Chame as coisas pelo que realmente são. Minhas putas.
–Odeio esse seu vocabulário. — chamou um dos atendentes – Um espresso com chocolate branco e chantilly, por favor. Vou precisar ouvir sua história, não?
–Vai. — falou, sem cerimônias.
–Pelo menos espere meu café. — e esperaram em silêncio. Pouco depois o mesmo atendente voltou.
–Aqui, senhor. — disse, entregando.
–Aqui. — pegou o dinheiro e pagou.
–Mais alguma coisa? — perguntou o jovem.
–Não, pode ir. — e voltou para Henry – Fale.
–Fui traído.
–Você já disse. Por sua meretriz.
–Não. — falou, revirando os olhos – Não foi nenhuma das minhas garotas.
–Então quem?
–Mefisto. — esse nome fez Lucian se arrepiar.
–Ora, ora. — falou, em tom sarcástico – Então o traidor trai seu melhor amigo e é traído por seu mestre? Eu não me importo com vocês.
–Obrigado. — pigarreou.
–Só isso?
–Não. Eu preciso da sua ajuda.
–Para?
–Me vingar, Charles.
–Se eu tiver que dizer outra vez que meu nome é Lucian, eu juro que…
–Que seja! — cortou, ansioso – Ele me traiu. Ele não cumpriu a parte dele.
–E? — falou, bebendo um gole do café.
–E? Já fomos amigos. Lembra?
–Você não lembrou quando me traiu.
–Isso é passado.
–Ótimo, em breve sua história vai ser passado também.
–E eu estarei morto.
–Não ligo. Nem um pouco, Henry.
–Por favor, estou implorando.
–Se eu disser que te ajudo, vai me deixar em paz?
–Farei o possível para isso.
–O que houve? — murmurou, insatisfeito com a própria condição.
–Ele quer o colar de volta.
–Não posso entregar.
–Por que?
–Não sei onde está.
–Claro que sabe, Lucian!
–E mesmo que soubesse, eu não quero aquele colar nas mãos dele.
–Não vou entregar o colar para ele.
–Acha que sou idiota, Henry?
–Não. Não, não acho. Você não é.
–E acha que eu acredito quando você diz que não vai entregar o colar?
–Eu sei, parece impossível, mas veja bem, é sua melhor chance.
–Entre continuar assim e ser traído, prefiro continuar a minha condenação. — bebeu mais café.
–Quanto tempo eu tenho para te convencer?
–Até eu acabar o café.
–Eu juro, ele me traiu da pior forma possível. Ele… Me desprezou, me humilhou, e me jogou para um canto quando eu mais precisei dele.
–Prossiga. — outro gole.
–Eu preciso destruir aquele colar. Ele não pode chegar nas mãos do Mefisto.
–O que ele pretende fazer com o colar?
–Como? — Henry engoliu em seco.
–O que ele pretende fazer se tiver o colar?
–Não sei. Ele apenas diz que será algo grande.
–Grande? Em que escala?
–Não sei. Creio que algo próximo de dominação de algo.
–Em escala apocalíptica? — falou, tranquilamente.
–Provável. — Henry disse, quase desesperado. Lucian bebeu o resto do café em silêncio. Se levantou ao terminar – Você não pode me deixar falando sozinho!
–Claro que posso.
–Você precisa me ajudar!
–Não, Henry, não preciso. Muito pelo contrário. Como eu disse, não me importo com o que te acontece. — e virou – Mais uma coisa, não me perturbe até ter provas concretas do que diz.
–Mas eu… — e parou.
–Mas você? — esperou uma resposta. Henry abaixou a cabeça – Você tirou meu filho de mim, você tirou minha esposa de mim, minha família, minha casa e meu dinheiro. Você tirou meus amigos, você me traiu em troca de uma promessa vazia e idiota. Por uma futilidade! — cerrou os punhos, mas relaxou em seguida – Você me condenou. Você me privou de uma condição básica dos humanos, sequer posso morrer. E tudo porque você é um bastardo desgraçado e orgulhoso! Você é egoísta. Você me dá nojo, Henry.
–Você me deu a chance de termos essa conversa. Você esperava algo.
–Esperava que você me dissesse algo que preste, algo relevante!
–E eu disse! Se você me ajudar, eu posso reverter o que eu fiz. Você pode descansar em paz.
–Não tente me chantagear. Sua última promessa… Nunca mais confiarei em você.
–Por favor. Estou implorando.
–Pode se ajoelhar, chorar, implorar, rasgar suas roupas. Pode chorar sangue, se matar. Me traga algo útil pra mim, provas de que você está certo, e eu posso pensar em te ajudar.
–Certo. — disse, com o queixo tremendo.
–Com licença. — se virou, acenando com a cabeça.
Uma jovem que entrava, segurando uma pasta nos braços, enrolada com alguns papéis, tentando organizá-los, e com a cabeça inclinada, falando no celular e tentando mantê-lo preso entre sua orelha e seu ombro, não percebeu a saída de Lucian. Ela, distraída, esbarrou nele, derrubando tudo o que carregava. A garota tropeçou e caiu de costas.
–Seu imbecil! Não vê que tem alguém entrando? Está cego?
–Desculpe, como? — ele disse, levantando uma sobrancelha – Você esbarrou em mim!
–Pode, ao menos, me levantar, seu bruto?
–Mereço… — e revirou os olhos, oferecendo a mão. Ela segurou e ele a puxou, deixando-a de pé.
–Obrigado. — ela agradeceu, um pouco constrangida.
–Disponha. — ele murmurou. Ela estava de pé diante dele, e ele a olhou diretamente nos olhos azuis. Os cabelos ruivos caíam sobre os ombros dela. Ele sorriu pelo canto da boca – Qual seu nome?
–Não interessa.
–Alguém está irritada… — falou, sarcástico.
–Desculpe, eu estou totalmente enrolada com o meu serviço. — disse, se abaixando para pegar as coisas. Ele a ajudou – Jéssica Parker, do Metropolitan Daily.
–Você é repórter? — ele murmurou, curioso.
–Sou. — e pegou as coisas que ele entregou – Obrigado. Tenho que ir agora. — e desviou dele, continuando seu caminho sem olhar para trás. Ele se preparou para sair, mas se conteve.
–Lucian Howlett. — ele anunciou.
–Como? — ela se virou.
–Meu nome. Lucian Howlett. — e caminhou para a saída tranquilamente, sem olhar para trás. Chegou na porta e parou, lançou um último olhar acusador sobre Henry, e saiu.
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