Fated

3 II - Dance With Devil


Londres, Inglaterra, 14 de Julho de 1843

Charles estava ao lado de Elizabeth quando chegaram na casa de Henry. A empregada abriu a porta e eles entraram, tranquilamente. A entrada era um corredor médio, que se abria para um enorme salão principal, onde estava sendo realizado o baile. Entraram. Charles tirou o casaco e entregou para um dos funcionários que o atendeu. Seu dinheiro, suas propriedades, sua honra e seu ar de nobreza, se erguendo imponente e respeitosamente diante de pessoas nobres.

–Olá, Charles. — Henry o cumprimentou gentilmente, com um toque na aba do chapéu, e foi igualmente respondido. Sua esposa estava logo atrás dele, e também o cumprimentou. Por sua vez, Charles retirou o chapéu, em um cumprimento. O anfitrião se virou para Elizabeth, que o ofereceu a mão. Ele tocou a parte de trás da mão dela com a ponta dos lábios e retirou o chapéu, levantando-o, tal como o amigo fizera. Ela respondeu inclinando levemente os joelhos, levantando a borda do vestido e abaixando um pouco a cabeça – Sejam bem-vindos. Irei levá-los para o salão.

Os dois homens seguiram na frente, em um silêncio solene. As duas mulheres iam logo atrás. Kathryne era bem diferente, fisicamente e espiritualmente. Tinha os cabelos negros, em um coque sobre a cabeça, preso por uma tiara simples; olhos da mesma cor, com aparência cansada. Os lábios eram finos. Usava um crucifixo de prata gasta. A despeito do crucifixo, usava um vestido elegante, listrado em branco e lilás, bem claro, quase rosa, com a borda marcada em lilás. Os punhos tinham bordados na mesma cor. O casamento não a fizera tão bem quanto fizera a sua convidada. Desde que se encontraram da última vez, seu rosto estava mais cheio e ela, mais pálida. Perdera aquele ar juvenil que tinha quando casara, parecia mais séria e fria, e incomodada com algo.

Ao seu lado, se contrapondo a ela, estava Elizabeth. Tinha um sorriso lindo, apesar de estar séria naquele momento. Tinha os cabelos castanhos ondulados, caindo nas suas costas. Os olhos verdes-claro faiscavam. Tinha um leve rubor natural. Usava um vestido vermelho-escuro com as mangas e o pescoço bordados em dourado. O vestido ainda tinha uma faixa dourada, uma de cada lado, partindo dos ombros, com motivos florais em um tom mais fosco. E o colar, o colar de ouro e rubi que ganhara de presente naquela manhã, cintilava no seu pescoço, descansando sobre o peito. No pulso, usava uma peça simples, mas elegante. Destoando do vestido e do colar, sob a manga do vestido, usava uma pulseira de ferro fundido, com o motivo de losangos atrelados. Ela não ficava visível, mas ela gostava de usá-la. Fora um dos últimos presentes que ganhara de seu pai.

–Belo colar. — murmurou Kathryne.

–Obrigado. Bela tiara.

–Agradeço. — falou, glacialmente.

–Aconteceu algo?

–Me desculpe. Não entendi.

–Você não me parece bem. — perguntou Elizabeth, com educado interesse.

–Estou ótima.

–Pode me dizer, somos amigas e…

–Não somos amigas. — gemeu, amargurada, entre os dentes – Isso é uma conversa meramente educada, de cortesia. Como cabe a sua anfitriã recebê-la.

–O que eu fiz? — retrucou, quase num sussurro, com uma pontada de ressentimento.

–Nada, ainda. — e se calou.

–Quem é aquela? — Charles questionou, cutucando Henry discretamente, lançando um aceno de cabeça ainda mais discreto para uma jovem loira, sentada, usando um vestido de seda azul-claro. O outro deu de ombros – Conheço todos aqui, exceto ela.

–Não lembra de tê-la convidado. Descobrirei durante a dança.

–Estava ficando velho. — falou, num tom brincalhão e respeitoso.

–Você também não está tão novo quanto antes. — e deu um leve sorriso.

–Considerarei um elogio.

O baile já começara, e Charles levou a esposa para a dança. Todos os olhares se voltaram para aqueles dois, que dançavam graciosamente. E o vestido elegante dela chamou a atenção de todos, até mais do que os anfitriões. Não houve um homem ou mulher que não desse um olhar por cima do ombro para ver quem era. Henry dançara com sua esposa, em seguida, trocara de par com um outro homem qualquer, e passou a dançar com sua prima. Charles não fez muito diferente. Levou outra dama para dançar, e Elizabeth passou a dançar com um amigo.

Henry estava inquieto com a garota sentada. Ninguém a tirou para dançar. Discretamente se aproximou dela. Tirou o chapéu educadamente.

–Sei que é extremamente descortês tirar uma dama que não conheço para dançar, mas estou um pouco incomodado que a senhorita esteja aí, sozinha. Me concederia a honra?

–Eu esperava pelo senhor. — e ofereceu a mão para ele. Ele segurou e a amparou enquanto ela levantava. Ele a conduziu até o centro do salão.

–De onde eu a conheço? — ele murmurou, enquanto dançavam.

–Não conhece, na verdade. — e fez uma pausa – Mas eu o conheço. Muito bem.

–Como assim?

–Digamos que você tem sido observado.

–O que está insinuando?

–Que eu tenho observado você.

–Perdão, como disse que se chamava?

–Não disse. — disse, em tom desafiador.

–Qual seu nome? — Henry foi tomado por um desespero quase agonizante – Qual seu nome?

–Theresa. — ela falou.

–Tem um segundo nome?

–Tenho, mas você não precisa saber. Não preciso de um sobrenome, você lembrará de mim.

–O que quer dizer?

–Posso mudar sua vida, Henry. — ela abaixou a voz uma oitava.

O coração dele falhou uma batida.

–O que quer dizer com isso?

–Tenho poder para mudar sua vida, Henry.

–Estou muito bem.

–Ama sua esposa?

–Como cabe ao homem amar sua mulher.

–Como Charles ama Elizabeth? — a frase veio como um soco no seu estômago.

Perdeu o ar por alguns segundos.

–Como um esposo ama sua esposa.

–Não minta para mim, não sou idiota. Nem você.

–Não estou mentindo.

–Não seja cínico.

–Não estou sendo cínico e…

–Chega. — ela pediu. Esperou um momento – Você ama sua esposa como Charles ama Elizabeth?

–Sim, mas em que isso interessa?

–Mentira é um pecado, e você já tem muitos no seu passado. E ainda peca.

–Não falemos de pecados.

–Então não peque perto de mim.

–Para uma dama, você fala demais.

–Apenas responda. — ela emendou – Com sinceridade. Ama sua esposa como ama Elizabeth?

–Não, Charles ama sua esposa de uma maneira. Amo a minha de outra.

–Você não compreendeu minha pergunta. Perguntei se ama Kathryne como você ama Elizabeth.

–O que quer dizer?

–Que você cobiça a mulher do próximo.

–Não insinue coisas que não existem. — ele começou a se desesperar novamente.

–Existe tanto quanto eu e fazemos. Tanto quanto a dança que lhe dei a honra.

–Eu posso mudar sua vida, Henry. Acho que é hora de trocarmos os pares. Me procure na igreja.

–O que? — ele disse, segurando-a por mais um momento antes da troca.

–Não é cortês segurar uma dama.

–Repita o que disse.

–Me encontre na igreja quando precisar.

–Não precisarei.

–Precisará. Não costumo errar, nesses casos. Posso te dar a Elizabeth.

–O que quer dizer com isso? — e a soltou.

–Não é todo dia que se tem a honra de dançar com o diabo. — falou ela, com um sorriso que ele não sabia definir se era diabólico ou sarcástico,mas com um ar de triunfo, enquanto se afastava.

Ele ficou parado, boquiaberto, olhando para ela se afastando e sumindo repentinamente entre os convidados. Então, mais por reflexo que por interesse, puxou outra mulher para dançar.

***

Washington D.C., Estados Unidos, hoje

Charles chegou na igreja tarde da noite. Usava uma calça jeans e uma jaqueta de couro sobre a camisa branca. Henry vestia seu costumeiro sobretudo preto, fechado. Era algo desnecessário devido ao calor que fizera naquela noite, se opondo ao frio da anterior.

–Olá, Lucian. — murmurou, mecanicamente, sem tirar os olhos da enorme imagem de Jesus crucificado, que estava na parede norte, a parte de trás, do coro – Acho desnecessário uma imagem tão extravagante da morte de seu líder. Certo, foi um mártir, mas é desnecessário.

–O que quer falar? — cuspiu Lucian, ignorando o comentário.

–Bela igreja. Simples, não são tão chamativas e elegantes como as antigas, ou as de Londres. Ou de Roma. É um belo lugar, diga-se de passagem. Mas essa, com a simplicidade, cumpre bem o papel de um templo: adorar uma divindade.

–Viemos discutir isso?

–Não. — falou, fingindo ressentido.

–O que é, então?

–Foi numa igreja que tive um dos meus primeiros encontros com Mefisto.

–Numa igreja?

–Antes de eu assinar o acordo, ele me salvou. Por mais de uma vez. Apenas para me condenar.

–E eu fui atingido por sua condenação. — rosnou Lucian. Um padre baixinho e um pouco gordo se aproximou. Tinha os cabelos raspados. Usava uma batina um pouco justa, com o colarinho preto. Mancava da perna esquerda, tinha os olhos escuros e uma expressão serena no rosto redondo.

–Bem-vindos na casa de Deus, senhores. Sou o padre James. — a simples menção desse nome arrepiou Charles — O que procuram?

–Redenção.

–Um pouco tarde para isso, Charles.

–Lucian, meu nome é Lucian.

–Senhores, por favor.

–Bom, padre – começou Henry -, não posso ter o que quero. A igreja me ajudaria muito pouco.

–Desejam confessar-se? — perguntou.

–Tarde demais para uma confissão.

–Nunca é tarde, senhor… — e esperou que dissesse o nome.

–Lucian Howlett.

–Henry Delagney. — se apresentaram – Padre, posso lhe fazer uma pergunta?

–Claro, o que quiser. Espero saber responder.

–A igreja é a casa de Deus, correto? — o padre apenas assentiu com a cabeça, sentindo que não era apenas isso que ele queria saber – E todos são aceitos na casa de Deus, sem exceção?

–Todos, sem exceção. — repetiu o clérigo.

–Até o demônio? — disparou Henry, sem relutar.

–Creio que sim. — disse o padre, desconcertado — Deus nunca o proibiu de entrar em sua casa.

–O que o senhor acredita, padre? Por favor, sua visão particular, não a da igreja.

–O que eu acredito? Bom… — e pigarreou, incomodado – Eu acredito que ele é uma forma de Deus punir os pecadores. Creio que ele o criou com esse fim e, com o tempo, a visão dele foi manchada pela igreja. Pela visão que queriam ter dele.

–Alguém dizendo algo inteligente.

–Eu sou formado em teologia, e tenho um interesse particular por estudar outras religiões. Iblis é um anjo caído dos muçulmanos. A função dele é diferente da que recebe em minha religião.

–Ele toca os bebês assim que nascem. — explicou Lucian – Para que eles possam escolher por conta própria entre o bem e o mal em seu futuro.

–Exatamente. — confirmou – Essa visão de mundo dividido entre bem e mal não representa a verdade. — falou James, com um suspiro longo.

–Seu Deus não se importa. — rosnou Henry.

–Claro que se importa. — retrucou o homem de Deus.

–Então não é capaz de acabar com o mal? — Lucian observou o debate dos dois em silêncio.

–Claro que é.

–Por que não acaba, então, padre?

–Porque ele quer permitir que escolhamos.

–Parafraseando Epicuro, “se Deus deseja prevenir o mal e não pode, não é onipotente. Se pode, mas não deseja, é malevolente e condescendente com o erro. Se é capaz e deseja, por que ele existe? Se não é capaz, nem deseja, não deveria ser chamado de Deus”. — soltou Henry.

–Exatamente! — disse, numa animação contida – Ele pode e Ele deseja. Ele não o faz porque isso quebraria o nosso acordo de livre arbítrio. Como escolheríamos se não tivéssemos outra escolha?

–Ele não liga se sofremos ou não.

–Ele entrega as consequências de nossas escolhas.

–Por que ele tortura um pecador?

–Existe tanta glória num pecador arrependido verdadeiramente quanto num justo.

–Prove.

–“Eu digo que, da mesma forma, haverá mais alegria no céu por um pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos que não precisam arrepender-se”. Lucas, capítulo 15, versículo 7.

–Basta dessa conversa. Com sua licença, padre. Vamos falar lá fora, Lucian. — e saíram, com um cumprimento discreto. Então o padre tocou o ombro de Henry.

–Qual a sua penitência?

–Como?

–Qual a sua penitência? — ele repetiu.

–Perdão, padre. Creio que isso não lhe interessa. — e se virou. O clérigo o segurou com mais força.

–O cilicio, não é?

–Sim. — falou, após uns instantes de hesitação.

–Você se arrependeu de verdade?

–Não importa.

–A culpa não te deixará enquanto não a deixar ir.

–Com licença. — falou, arrogante, se desvencilhando das mãos gordas do padre e saindo, alguns passos atrás de Lucian. Quando alcançaram o vento fresco da noite, respirou fundo – Saligia.

–O que?

–Era um código. Meu e do Mefisto.

–O que significa?

–Não importa. — e deu de ombros, dando meia volta – Mefisto entrou em contato.

–Notícias do colar? — Lucian parecia eufórico.

–Nada, infelizmente. Mas ele disse que queria me encontrar. Amanhã, no amanhecer.

–E onde entro nisso?

–Não entra. Queria que ficasse alerta. — e fez menção de sair.

–Espere, Henry. Quero me desculpar por ontem.

–O que houve ontem?

–O meu pedido. No cemitério.

–O suicídio?

–Odeio a palavra, mas é.

–Charles… Ainda posso o chamar de Charles?

–Nossa trégua acabou ontem.

–Como quiser. — deu de ombros – Lucian, sabe quantas vezes eu tentei?

–O que? — parou para pensar um momento – Suicídio?

–Sim. Algo sempre me salvava. Talvez estejamos aqui para ver algo grande. Fazer algo grande.

–O que quer dizer?

–Se pudermos impedir Mefisto de fazer o que ele pretende?

–Henry, veja bem…

–Acredito que vivemos tudo isso para podermos ser testemunhas de algo grandioso.

–Dê um exemplo?

–Impedir alguém de perder o que perdemos.

–Perdemos demais.

–Eu também perdi um filho.

–Você nunca teve um filho, sem querer ser ofensivo.

–Não ofende. Eu não tive, de fato. Naquela noite, a Kathryne…

–Não me diga…

–Sim, ela estava grávida.

–Deus… — Lucian passou o dedo entre os cabelos – O que você estava pensando?

–Eu estava cego. — uma lágrima ameaçou sair de seu olho, mas ele se conteve.

–Ele não tinha culpa!

–Não, não tinha. A Elizabeth também não tinha culpa.

–Não se justifica um erro com o outro, Henry!

–Não quero justificar! — deu um soco na palma da própria mão – Droga! Eu não quero justificar! Não existe justificativa. Apenas queria que soubesse.

–Amanhã de manhã estarei ocupado, Henry. — disse, friamente – Te ligarei quando puder falar. — e saiu, ajeitando a jaqueta de couro. Henry lançou um olhar rápido para dentro da igreja e viu o padre ajoelhado, rezando. Entrou.

–Padre. — chamou. A voz ecoou pelas paredes de pedra. O homem de Deus continuou orando. Respirou fundo – Padre! — gritou – Irá para o céu, padre James.

O padre se limitou a manter-se de joelhos, orando. Um arrepio subiu pela espinha de Henry, que fechou os olhos, inspirando profundamente. Tirou uma faca de dentro do sobretudo.

–Você disse que o diabo era bem-vindo na casa de Deus. Espero que seu adestrador me considere um convidado importante. — o padre terminou sua oração e se levantou.

–Diga, senhor. — falou, gentilmente – Não se intitule como tal se não o for.

–Não. Sou um mensageiro dele. — e enfiou a faca na barriga do padre, que apenas fechou os olhos e tombou para o lado.

Outros quatro homens entraram, assustados com o grito que Henry dera anteriormente. Os homens olharam para o corpo do padre no chão. Eram diáconos, reconheceu pela roupa.

As portas bateram.

As velas apagaram.

O cheiro do sangue fez Henry tremer.

Ele deu um sorriso que assustou os diáconos.

E girou a faca nos dedos.